Deante da obra tão vasta e variada de Oliveira Martins não póde ainda a
critica lavrar qualquer juizo definitivo. É cedo de mais para que esse
tribunal pronuncie a sentença decisiva que tem de ficar gravada no
Pantheon das glorias portuguezas. Mas se a critica impassivel e austera
tem de addiar ainda o resultado da sua investigação, é licito a cada um
de nós dar a impressão intima que recebeu do trabalho devéras
extraordinario do escriptor que se finou.
Em primeiro logar a dualidade de aspectos que essa obra apresenta,
transforma-a em uma especie de problema altamente interessante para a
psychologia.
Em Oliveira Martins, a par do mystico contemplativo, do sonhador
philosopho, do moralista desdenhoso, havia--estranha coisa, tão rara na
nossa raça simplista--um ser inteiramente contrario a esse, um espirito
positivo na analyse dos factos, rigoroso nas deducções do pensamento,
pratico na administração dos negocios, e em que uma rara sagacidade das
coisas se alliava a um methodo maravilhoso na classificação dos
conhecimentos positivos.
Estes dois homens tão diversos formaram um só, ás vezes coutradictorio
até ao enigma irritante, incomprehensivel ao entendimento médio,
illogico perante a opinião do vulgo. Separados, cada um d'elles formava
um conjuncto completo de qualidades harmonicas, uma força intellectual
de primeira grandeza. Juntos, havia momentos em que eram capazes de
desnortear, de entontecer até o espirito mais perspicaz e mais aberto ao
feliz dom da sympathia intelligente. Assim como o seu talento tinha
estas duas faces distinctas quasi inconciliaveis, pois que presuppõem
qualidades em absoluto antagonismo e temperamentos em radical opposição,
assim tambem a sua obra parece dividir-se em dois ramos diversissimos. A
um d'esses ramos, o mais arido para mim, o que nada admira--pertencem os
seus tão notaveis artigos jornalisticos, quasi todos compilados nos
volumes _Politica e economia nacional_ e _Carteira de um jornalista_, os
seus opusculos e livros sobre o _Regimen das riquezas_, o _Socialismo_,
as _Eleições_ e até o seu magnífico projecto de _Lei de fomento rural_,
que póde bem chamar-se um programma completo de restauração patriotica,
uma especie de systema de hygiene applicado ao organismo exangue de um
paiz que, primitivamente destinado a uma existencia modesta e rudemente
tonica de trabalho rural, de obscura felicidade sem historia, se gastou
nos excessos e nas aventuras d'esse sonho ultramarino que o fez viver, é
certo, e que lhe deu renome, mas que o condemnou á longa e incuravel
anemia de que todos morremos hoje aos poucos...
É como um homem verdadeiramente pratico que apparece aos nossos olhos, o
publicista, o deputado, o politico nem sempre feliz, embora sempre
perfeitamente intencionado do periodo que talvez mais do que nenhum
outro, elle quereria ter riscado da historia, aliás tão nobre da sua
vida. É sob essa face que elle assombrou muitas vezes não sómente os
espiritos da nossa terra mais chãos e mais positivos, mas ainda os
_homens de negocio_ estrangeiros com quem teve de tratar tantos
assumptos de importancia e que ficavam falando d'elle como de uma
intelligencia rapida, aguda e fria, absolutamente rara nas nações
peninsulares.
Se essas faculdades sem o auxilio de outras já são sufficientes para
assignalar o alto valor de um homem, o que fará quando a essas se
ajuntam em rarissimo connubio outras, mais altas, mais nobres, mais
reveladoras de uma grandeza ingenita e de um valor moral amplissimo?!...
Quando o mesmo homem, que ha pouco parecia versar, com tanta segurança e
tão fino criterio, questões de que dependem o bem estar material e a
ordem administrativa e economica das nações, se revela de repente um
delicado artista vibrante e creador, um entendimento alado, capaz de
erguer-se ás cumiadas mais altas do Pensamento, um vidente para quem a
historia é uma continua revelação de reconditos segredos da alma, uma
evocação magica de figuras vivas, uma palpitante suggestão de moral e de
justiça?!...
Os que tiverem de pôr de pé deante da posteridade a figura inteira de
Oliveira Martins, têem de evocal-o sob estes dois aspectos e fundir
ambos na culminação intellectual a que elle attingiu.
Outros fizeram a historia com mais exactidão e mais verdade--se a
verdade historica é apenas a verificação rigorosa das datas e a
decifração lenta dos documentos coevos; outros fundiram em mais bronzeo
estylo as cogitacões do seu vasto pensamento; outros interrogaram com
mais paciente e minucioso escrupulo os monumentos do passado, legados
sob multiplas fórmas materiaes ou moraes, artisticas ou religiosas, á
geração sua contemporanea: poucos têem possuido, mais ardente e mais
vivo esse poder estranho de penetrar na alma de uma raça e de lhe
traduzir as aspirações occultas ou os sonhos realisados; de lêr a
summula completa dos destinos de uma nação na obra truncada que ella
tentou em vão consummar; de evocar em plena vibração de vida, em plena
intensidade de emoção communicativa os typos representativos de uma
época remota e finda; de emprestar a sua propria alma á alma dos mortos
e de os fazer resurgir do sepulchro, onde pareciam para sempre
esquecidos, á luz fremente do mais bello e claro dia.
Accusam-n'o com razão de contradicções, de inexactidões e erros de
facto, que um espirito inferior meticuloso podia facilmente corrigir ou
evitar. Sim. Tudo isso é verdade.
Mas escrevam, se são capazes, a Historia que elle escreveu,
interessem-nos apaixonadamente como elle nos interessou, dêem o vigor, o
relevo, a vida que elle deu aos personagens que evocava, façam de cada
um dos seus livros o drama agitado que elle fez, transformem a Historia
como elle a transformou, em uma prophecia, em um lamento, em uma licção,
em uma suggestão ardente, em uma saudade inconsolada do que foi e não
póde tornar a ser.
Outros narram precisamente os factos, elle commentou-os, esclareceu-os,
deu-lhes o sentido occulto, a amarga e profunda philosophia.
O nosso destino historico; o papel particular que aos portuguezes foi
distribuido n'essa tragedia épica da peninsula iberica, que deu mundos
ao mundo inconsciente; o preço atroz por que nós pagamos a posse d'esse
ideal que foi nosso um momento e que perdemos justamente por tel-o
realisado completo;--quem melhor o soube explicar, tornar claro aos
olhos ainda os menos penetrantes, tornar palpavel aos entendimentos
ainda os mais obtusos?