IV

Na obra que elle deixa tão grande, que revela uma capacidade e um

methodo de trabalho assombrosos, pois só assim se poderia escrever

tanto, longe de tudo ser perfeito ha muita coisa desegual, muita coisa

que elle não teria escripto se a necessidade quotidiana o não houvesse

por largos annos espicaçado,--porque é preciso que se saiba lá fóra que

este trabalhador incansavel foi um chefe de familia exemplar, e que,

ficando na quasi infancia orphão de pae, foi elle quem auxiliou

nobremente sua mãe a educar e formar uma familia numerosa de que até ao

ultimo instante foi desvelado amigo.

Deve tambem confessar-se que ha muito de injusto e de cruel nos juizos

que na, temeraria mocidade, isolado, e inexperiente elle formulou a

respeito dos homens e das cousas. O seu _Portugal Contemporaneo_ foi

mais escripto sobre pamphletos e artigos de jornal, sempre suspeitos, do

que sobre documentos authenticos completados pelo austero e profundo

estudo do movimento liberal que iniciou para nós a éra moderna. Ha

capitulos na _Historia de Portugal_ que os seus livros posteriores,

ungidos tão docemente pelo amor dos heroes patrios, parecem negar,

contrariar, annullar inteiramente. Elle proprio teve de contradizer, na

maturidade do seu grande espirito, no qual um incessante progresso se

faz sentir, grande parte das theorias que primeiro enunciara e que tão

profundo ecco tiveram na sociedade portugueza e tão irremediavel

influencia exerceram no espirito pessimista e desenganado da

contemporanea geração. O culto dos heroes que elle acabou pregando e

exemplificando da maneira mais irresistivel, mais poderosa e mais bella,

foi elle--força é dizel-o, porque deante das cinzas de um grande morto,

a verdade impõe-se como um dever sagrado--foi elle quem quasi

completamente o destruiu na nossa alma, aliás disposta a derrubar todos

os idolos, a escarnecer todas as religiões!

Mas como estas maculas parciaes, mas como estes mesmos enganos do seu

entendimento que lentamente se foi formando, aperfeiçoando, cultivando e

depurando, desapparecem no conjuncto da sua obra! Mas como resgatam

amplamente e soberbamente esses senões secundarios, livros como a sua

_Civilisação Iberica_ tão admiravelmente traçada por um pincel de

artista e de pensador, como o seu volume _Os Filhos de D. João I_, feito

todo elle sob uma inspiração soberba da epopéa, como o seu _Condestavel_

tão bello, tão puro, em que a sua alma parece entender tão bem os mais

intimos segredos d'uma alma de extase e de fé, prenunciando d'este modo

a resignação ineffavel, a pacificação serena e alta, a submissa doçura

ao mysterio supremo, no qual todas as contradicções se conciliam, a

humilde piedade unctuosa da sua morte edificante, d'essa morte que

tantos balsamos verteu no dilacerado coração da esposa, que n'ella teve

a sua crucificação e a sua corôa, a sua maior dôr e o seu consolo mais

sublime!

Como em Nuno Alvares o interessa mais ainda que o guerreiro audaz o

asceta e o santo! Que trechos aquelles em que elle, subindo a uma altura

onde não tinha subido ainda e que representa a culminação suprema a que

o seu engenho chegou, nos conta os arrebatamentos, as visões, as

asceticas delicias em que a alma do santo Condestavel se dilata até aos

céus!

N'este livro, mais que em nenhum outro, o estylo de Oliveira Martins

póde ser apreciado na sua complexidade e nas suas modalidades tão

varias!

É um estylo unico, inconfundivel, atormentado, desegual, feito de

imagens propriamente suas, de torneios de phrase inimitaveis e que o

põem a cem leguas do classicismo acceito e consagrado. Ora se levanta em

uma especie de somnambulismo vago a alturas ennevoadas e insondaveis,

ora cahe de chofre na vulgaridade de um realismo voluntariamente plebeu;

á ironia trascendente de umas paginas oppõe o amargo pessimismo de

outras; á colera convulsa que o espectaculo das cousas lhe acorda no

coração, segue-se o desdem benevolo e superior de quem julga este mundo

todo illusorias apparencias, que umas nas outras se esvaem e se

transfiguram; o seu grande poder de suggestão vem menos dos vocabulos

empregados, menos dos epithetos escolhidos, do que da repercussão

indefinida e infinita que certas phrases que elle emprega nos accordam

na alma. Ás vezes, ha uma limpidez serena e correntia n'este estylo

magico; outras vezes, é obscuro erriçado de symbolos, enredado em

labyrinthos em que a mente se perde e desnorteia!

Se o estylo deve traduzir todas as _nuances_ de uma dada individualidade

e ser o transumpto claro e fiel de um temperamento artistico nunca houve

ninguem que tivesse um mais accentuado estylo do que Oliveira Martins!

De cada uma das _maneiras_ do escriptor eu queria dar idéa,

transcrevendo um trecho que lhe correspondesse, mas não será melhor que

cada leitor procure na obra tão complexa e tão variada, aquillo que

melhor quadre ao seu gosto especial, á sua concepção artistica, á indole

do seu espirito...

Recommendo-lhe, porém, as ultimas paginas da mais transcendente e ideal

belleza da _Historia de Nun'Alvares_, as descripções que esmaltam ora

com o colorido brilhante de uma téla de Veroneze, ora com a melancolia

pungitiva de uma paizagem de Ruysdael, ora com a luz aeria, docemente

_unreal_ de um trecho de floresta pintado por Corot, esse livro de todos

o mais admiravelmente escripto que o historiador nos legou.

Recommendo-lhe a analyse do caracter de Nuno Alvares, de João I, dos

_Inclytos Infantes_, principalmente de D. Pedro, paginas de uma

psychologia tão delicada, penetrante e subtil, em que o fundo mystico da

imaginação de Oliveira Martins se allia á sua profunda intuição dos

segredos da alma humana! E o quadro magistral feito a duas pinceladas

rapidas da Côrte de D. Fernando, ai de nós! tão parecida com a sociedade

de hoje que não sei mesmo dizer se não foi ella que serviu de modelo ao

artista para chegar a conseguir taes effeitos de realismo brutal e de

frisante e juvenalesca ironia!

Não farei comparações sempre inexactas entre Oliveira Martins e outros

escriptores que o precederam. Acho que essas comparações não são em

alguns casos mais do que erros palmares de critica que desconcertam e

irritam! Um escriptor que se parece com outro, é raras vezes um artista

de raça. Não póde um talento grande deixar de suppor uma personalidade

accentuada, forte, isto é, _differente_. De resto não conheço em

Portugal escriptor algum, cuja indole, cujas tendencias, cuja

comprehensão das cousas se possa comparar com as de Oliveira Martins.

Elle nunca poderá ser considerado como um _representative man_, nem do

tempo nem da raça a que pertenceu. D'aqui a sua originalidade viva e

talvez o principal caracteristico do seu talento.

Á viveza, á meiguice, á sensibilidade vibrante do meridional, elle

juntava a profunda melancolia, o symbolismo vago, a fluctuação de sonho

do germano, e como elle tantas vezes se comprazia em lêr os vestigios de

antigas influencias ethnicas, no caracter dos seus personagens

historicos mais dilectos, póde tambem dizer-se que no seu genio tão

complexo, tão estranho, tão cheio de meandros, complicações e

antagonismos inconciliaveis se casam o poetico elemento celta, o

positivismo calculista do phenicio, a profundidade e o pessimismo

semita, a viva paixão do arabe, e o sentimento da Natureza que o barbaro

do Norte primeiro suggeriu ao coração seco do civilisado latino!

Pelo mundo fóra · 第 34 / 52 题