Na obra que elle deixa tão grande, que revela uma capacidade e um
methodo de trabalho assombrosos, pois só assim se poderia escrever
tanto, longe de tudo ser perfeito ha muita coisa desegual, muita coisa
que elle não teria escripto se a necessidade quotidiana o não houvesse
por largos annos espicaçado,--porque é preciso que se saiba lá fóra que
este trabalhador incansavel foi um chefe de familia exemplar, e que,
ficando na quasi infancia orphão de pae, foi elle quem auxiliou
nobremente sua mãe a educar e formar uma familia numerosa de que até ao
ultimo instante foi desvelado amigo.
Deve tambem confessar-se que ha muito de injusto e de cruel nos juizos
que na, temeraria mocidade, isolado, e inexperiente elle formulou a
respeito dos homens e das cousas. O seu _Portugal Contemporaneo_ foi
mais escripto sobre pamphletos e artigos de jornal, sempre suspeitos, do
que sobre documentos authenticos completados pelo austero e profundo
estudo do movimento liberal que iniciou para nós a éra moderna. Ha
capitulos na _Historia de Portugal_ que os seus livros posteriores,
ungidos tão docemente pelo amor dos heroes patrios, parecem negar,
contrariar, annullar inteiramente. Elle proprio teve de contradizer, na
maturidade do seu grande espirito, no qual um incessante progresso se
faz sentir, grande parte das theorias que primeiro enunciara e que tão
profundo ecco tiveram na sociedade portugueza e tão irremediavel
influencia exerceram no espirito pessimista e desenganado da
contemporanea geração. O culto dos heroes que elle acabou pregando e
exemplificando da maneira mais irresistivel, mais poderosa e mais bella,
foi elle--força é dizel-o, porque deante das cinzas de um grande morto,
a verdade impõe-se como um dever sagrado--foi elle quem quasi
completamente o destruiu na nossa alma, aliás disposta a derrubar todos
os idolos, a escarnecer todas as religiões!
Mas como estas maculas parciaes, mas como estes mesmos enganos do seu
entendimento que lentamente se foi formando, aperfeiçoando, cultivando e
depurando, desapparecem no conjuncto da sua obra! Mas como resgatam
amplamente e soberbamente esses senões secundarios, livros como a sua
_Civilisação Iberica_ tão admiravelmente traçada por um pincel de
artista e de pensador, como o seu volume _Os Filhos de D. João I_, feito
todo elle sob uma inspiração soberba da epopéa, como o seu _Condestavel_
tão bello, tão puro, em que a sua alma parece entender tão bem os mais
intimos segredos d'uma alma de extase e de fé, prenunciando d'este modo
a resignação ineffavel, a pacificação serena e alta, a submissa doçura
ao mysterio supremo, no qual todas as contradicções se conciliam, a
humilde piedade unctuosa da sua morte edificante, d'essa morte que
tantos balsamos verteu no dilacerado coração da esposa, que n'ella teve
a sua crucificação e a sua corôa, a sua maior dôr e o seu consolo mais
sublime!
Como em Nuno Alvares o interessa mais ainda que o guerreiro audaz o
asceta e o santo! Que trechos aquelles em que elle, subindo a uma altura
onde não tinha subido ainda e que representa a culminação suprema a que
o seu engenho chegou, nos conta os arrebatamentos, as visões, as
asceticas delicias em que a alma do santo Condestavel se dilata até aos
céus!
N'este livro, mais que em nenhum outro, o estylo de Oliveira Martins
póde ser apreciado na sua complexidade e nas suas modalidades tão
varias!
É um estylo unico, inconfundivel, atormentado, desegual, feito de
imagens propriamente suas, de torneios de phrase inimitaveis e que o
põem a cem leguas do classicismo acceito e consagrado. Ora se levanta em
uma especie de somnambulismo vago a alturas ennevoadas e insondaveis,
ora cahe de chofre na vulgaridade de um realismo voluntariamente plebeu;
á ironia trascendente de umas paginas oppõe o amargo pessimismo de
outras; á colera convulsa que o espectaculo das cousas lhe acorda no
coração, segue-se o desdem benevolo e superior de quem julga este mundo
todo illusorias apparencias, que umas nas outras se esvaem e se
transfiguram; o seu grande poder de suggestão vem menos dos vocabulos
empregados, menos dos epithetos escolhidos, do que da repercussão
indefinida e infinita que certas phrases que elle emprega nos accordam
na alma. Ás vezes, ha uma limpidez serena e correntia n'este estylo
magico; outras vezes, é obscuro erriçado de symbolos, enredado em
labyrinthos em que a mente se perde e desnorteia!
Se o estylo deve traduzir todas as _nuances_ de uma dada individualidade
e ser o transumpto claro e fiel de um temperamento artistico nunca houve
ninguem que tivesse um mais accentuado estylo do que Oliveira Martins!
De cada uma das _maneiras_ do escriptor eu queria dar idéa,
transcrevendo um trecho que lhe correspondesse, mas não será melhor que
cada leitor procure na obra tão complexa e tão variada, aquillo que
melhor quadre ao seu gosto especial, á sua concepção artistica, á indole
do seu espirito...
Recommendo-lhe, porém, as ultimas paginas da mais transcendente e ideal
belleza da _Historia de Nun'Alvares_, as descripções que esmaltam ora
com o colorido brilhante de uma téla de Veroneze, ora com a melancolia
pungitiva de uma paizagem de Ruysdael, ora com a luz aeria, docemente
_unreal_ de um trecho de floresta pintado por Corot, esse livro de todos
o mais admiravelmente escripto que o historiador nos legou.
Recommendo-lhe a analyse do caracter de Nuno Alvares, de João I, dos
_Inclytos Infantes_, principalmente de D. Pedro, paginas de uma
psychologia tão delicada, penetrante e subtil, em que o fundo mystico da
imaginação de Oliveira Martins se allia á sua profunda intuição dos
segredos da alma humana! E o quadro magistral feito a duas pinceladas
rapidas da Côrte de D. Fernando, ai de nós! tão parecida com a sociedade
de hoje que não sei mesmo dizer se não foi ella que serviu de modelo ao
artista para chegar a conseguir taes effeitos de realismo brutal e de
frisante e juvenalesca ironia!
Não farei comparações sempre inexactas entre Oliveira Martins e outros
escriptores que o precederam. Acho que essas comparações não são em
alguns casos mais do que erros palmares de critica que desconcertam e
irritam! Um escriptor que se parece com outro, é raras vezes um artista
de raça. Não póde um talento grande deixar de suppor uma personalidade
accentuada, forte, isto é, _differente_. De resto não conheço em
Portugal escriptor algum, cuja indole, cujas tendencias, cuja
comprehensão das cousas se possa comparar com as de Oliveira Martins.
Elle nunca poderá ser considerado como um _representative man_, nem do
tempo nem da raça a que pertenceu. D'aqui a sua originalidade viva e
talvez o principal caracteristico do seu talento.
Á viveza, á meiguice, á sensibilidade vibrante do meridional, elle
juntava a profunda melancolia, o symbolismo vago, a fluctuação de sonho
do germano, e como elle tantas vezes se comprazia em lêr os vestigios de
antigas influencias ethnicas, no caracter dos seus personagens
historicos mais dilectos, póde tambem dizer-se que no seu genio tão
complexo, tão estranho, tão cheio de meandros, complicações e
antagonismos inconciliaveis se casam o poetico elemento celta, o
positivismo calculista do phenicio, a profundidade e o pessimismo
semita, a viva paixão do arabe, e o sentimento da Natureza que o barbaro
do Norte primeiro suggeriu ao coração seco do civilisado latino!