II

Outras vezes, nas horas mais calmas, mais doces da conversação, quando o

crepusculo ia envolvendo a paizagem maritima, tão doce, suggestiva e

melancolica, em uma especie de ideal neblina azul--era pelo seu trabalho

passado que os olhos do grande morto se espraiavam.

Dizia-me então a commoção intensa, dolorosa, extenuadora, com que elle

_vivera_, por assim dizer, algumas scenas da sua Historia, revelando

essa profunda e hyper-aguda sensibilidade intellectual que é talvez a

feição predominante, a _faculté maitresse_ do seu genio...

Em momentos sagrados, d'estes que serão um eterno segredo entre o

artista que _sente_ e o Deus que o inspira, ou antes em momentos em que

o artista se sente um deus, isto é, um Creador, e em que o elemento

divino, de que o seu genio é a revelação suprema, o levanta acima de si

proprio e da sua pobre existencia ephemera, fugitiva, mortal, o grande

artista, que havia em Oliveira Martins, vivia seculos de gozo

extenuante, de volupia ideal incomparavel...

--«Sahía d'esses momentos alagado em lagrimas e como que exhausto,

envelhecido»--contava elle, deixando transparecer na palavra e no gesto

um vago assombro.

É por isto que o trabalho lhe exhauriu a mais pura seiva do seu sangue,

não porque fosse nem excessivo, nem brutalmente aturado, como por

exemplo o de Balzac.

Outras vezes ainda a saudade levava-o docemente, talvez sem dar por

isso, a evocar a memoria do querido amigo morto, de Anthero de Quental.

Oliveira Martins fôra o companheiro, o confidente, o amigo dilecto do

poeta dos _Sonetos_, em quem Souza Martins, n'um magistral estudo

psychico-pathologico, acaba de descobrir uma ascendencia scandinava, que

explica e justifica a essencia de sonho nebuloso e mystico de que o seu

talento parece haver sido elaborado.

Falando de Anthero, era inexgotavel a memoria de Oliveira Martins. O

intimo drama d'aquelle coração e d'aquelle espirito ninguem melhor o

conheceu e interpretou.

A excessiva idealisação na esphera sentimental, o abuso do pensamento, a

acceitação simultanea das mais contrarias, das mais oppostas, das mais

irreductiveis theorias, a multipla concepção da vida que n'esse

desequilibrado de genio se transformou na loucura e na morte: tudo elle

analysava, estudava, esclarecia com aquella attenção paciente, com

aquella agudeza de intelligencia, com aquelle estranho dom de penetrar e

comprehender as almas mais diversas,--e até uma alma diversa segundo os

momentos, a influencia exterior, as crises morbidas, a propria

temperatura physica,--com aquella extraordinaria lucidez critica,

serena, impessoal que assignala os homens verdadeiramente superiores.

Para elle proprio--deixem me este orgulho de que aliás tenho recordação

escripta pela sua propria mão e confirmado pela sua sublime e dedicada e

heroica enfermeira, amiga e esposa--para elle proprio estas conversações

que o capricho de cada momento ia inspirando e movendo, se tinham

tornado um prazer subtil e delicado. Eu ouvia, sem muitas vezes fazer

mais que suggerir, excitar, conduzir um pouco ao sabor da minha

curiosidade intellectual o rumo errante da sua palavra fascinadora...

Elle pensava alto, e gosava talvez de dar fórma concreta ás visões

fugitivas da imaginação, de prender o peso de uma definição verbal, á

aza subtil de uma idéa que ia esmaecer, volatilisar-se, fugir espaço em

fóra...

O ardente desejo de Oliveira Martins, sedento de vida, como todos os

feridos por aquella doença atroz que escolhe os melhores e os mais

delicados organismos, para os fulminar em plena flôr de intelligencia e

vida--o ardente desejo de Oliveira Martins era partir para Castella e

estudar de perto o theatro de scenas que a sua mão magistral ainda

deixou esboçadas em rapidas notas. Escrever o seu livro sobre D. João II

e depois terminar por D. Sebastião,--o querido heroe lendario, o nosso

rei Arthur fielmente esperado durante seculos por tantas almas de fé,--o

cyclo da nossa vida nacional; que depois não tem feito mais que

arrastar-se, desprestigiada, desformisada, pervertida na fórma e na

essencia, até esta tristeza de hoje amorpha e gelatinosa: eis o sonho

concebido pelo escriptor glorioso e admiravel.

Foi com o fito de visitar a Hespanha e depois de ir trabalhar em algum

eremiterio bem recolhido, bem arejado e fresco, bem afastado de todo o

movimento social, que Oliveira Martins mais robustecido, e na apparencia

melhorado, deixou Cascaes.

Ha uma carta sua de Salamanca em que transparece do novo aquella

tristeza que na doença o acompanhou como um presentimento funereo. Não

resisto ao desejo de copiar alguns trechos d'ella:--«Ahi vão duas linhas

do viajante que pisa agora as terras de Santa Thereza.

«Em Alba de Tormes esteve ella; aqui na cathedral tem um dedo que eu

hontem tive a honra de tocar.

«Dizia a Santa, ardendo em divino amor: _muero porque no muero_. Eu não

digo outro tanto, mas, em verdade, a vida não é realmente senão o desdem

de viver e de morrer. Morrer para quê? Para quê viver? Os hespanhoes

têem uma locução muito frequente e muito expressiva. É uma phrase, na

qual, como succede com a musica, cada um mette o que tem na idéa. _Quien

sabe?_ Quem sabe o que é viver? Quem sabe o que é morrer?»

N'esta fluctuação vaga do pensamento que se comprazia em ver sempre de

cada problema as duas faces contrarias, está em _raccourci_ muito do que

foi a philosophia particular de Oliveira Martins!

Da viagem a Hespanha voltou elle já ferido sem apello e sem possivel

cura pelo punhal traiçoeiro da Morte!

Ainda esperou contra todas as esperanças, ainda a paizagem agreste e

idyllica a um tempo do convento de Brancanes e cercanias o embriagou

como a ultima estrophe deliciosa d'esse poema da Natureza, que para a

alma d'elle, como para poucas almas, tinha harmonias, côres, visões

divinas, philtros alucinantes e poderosissimos. E ainda como ultima

exhalação do seu querido espirito para o meu, algumas palavras me vieram

provar a força pertinaz da sua illusão e os extremos da sua delicada e

preciosa amizade.

«--Hontem, para provar a mão, comecei a trabalhar no meu _Principe

Perfeito_. Não imagina a alegria que me deu vêr que não tinha morrido

ainda. Ainda escrevo. Ainda vivo. Cumpra depressa a promessa da sua

visita...

«--Não ha calmante como a paizagem e os rumores do campo. Sente-se a

gente arvore. Aqui ha tudo. Solidão no meio de um campo habitado,

pomares nos valles, montes em volta, em frente o mar. Que mais se quer?

O convento onde estou é enorme; cabe aqui tudo. Ha terraços delirantes.

Ha arvores verdadeiras; uma matta a valer; pinheiros, sobreiros,

medronheiros. Venha depressa...»

É a ultima vez que a sua mão traçou linhas que me fossem dirigidas e eu

propria infelizmente, preza pela doença em Cascaes que nunca deixei, não

o tornei mais a ver.

Mas publiquei trechos d'estas duas cartinhas preciosas, porque duas

faces bem caracteristicas do espirito complexo de Oliveira Martins estão

aqui adoravelmente retratados. N'uma a ondulação melancholica e vaga do

seu sonho ante o mysterio da vida e o mysterio da morte. N'outra, na

ultima, o seu ardente amor pantheista da natureza viva, aquella paixão

fremente que o fazia dar uma alma á paizagem, communicar a sua fecunda

emoção ás arvores e ás cousas, sentir no seio d'ellas a communhão

mysteriosa que prende em uma cadeia de infinitos élos sem quebra, a

pedra á planta, a planta ao animal, o animal sem alma á alma infinita, á

alma Universal!

Pelo mundo fóra · 第 32 / 52 题