Outras vezes, nas horas mais calmas, mais doces da conversação, quando o
crepusculo ia envolvendo a paizagem maritima, tão doce, suggestiva e
melancolica, em uma especie de ideal neblina azul--era pelo seu trabalho
passado que os olhos do grande morto se espraiavam.
Dizia-me então a commoção intensa, dolorosa, extenuadora, com que elle
_vivera_, por assim dizer, algumas scenas da sua Historia, revelando
essa profunda e hyper-aguda sensibilidade intellectual que é talvez a
feição predominante, a _faculté maitresse_ do seu genio...
Em momentos sagrados, d'estes que serão um eterno segredo entre o
artista que _sente_ e o Deus que o inspira, ou antes em momentos em que
o artista se sente um deus, isto é, um Creador, e em que o elemento
divino, de que o seu genio é a revelação suprema, o levanta acima de si
proprio e da sua pobre existencia ephemera, fugitiva, mortal, o grande
artista, que havia em Oliveira Martins, vivia seculos de gozo
extenuante, de volupia ideal incomparavel...
--«Sahía d'esses momentos alagado em lagrimas e como que exhausto,
envelhecido»--contava elle, deixando transparecer na palavra e no gesto
um vago assombro.
É por isto que o trabalho lhe exhauriu a mais pura seiva do seu sangue,
não porque fosse nem excessivo, nem brutalmente aturado, como por
exemplo o de Balzac.
Outras vezes ainda a saudade levava-o docemente, talvez sem dar por
isso, a evocar a memoria do querido amigo morto, de Anthero de Quental.
Oliveira Martins fôra o companheiro, o confidente, o amigo dilecto do
poeta dos _Sonetos_, em quem Souza Martins, n'um magistral estudo
psychico-pathologico, acaba de descobrir uma ascendencia scandinava, que
explica e justifica a essencia de sonho nebuloso e mystico de que o seu
talento parece haver sido elaborado.
Falando de Anthero, era inexgotavel a memoria de Oliveira Martins. O
intimo drama d'aquelle coração e d'aquelle espirito ninguem melhor o
conheceu e interpretou.
A excessiva idealisação na esphera sentimental, o abuso do pensamento, a
acceitação simultanea das mais contrarias, das mais oppostas, das mais
irreductiveis theorias, a multipla concepção da vida que n'esse
desequilibrado de genio se transformou na loucura e na morte: tudo elle
analysava, estudava, esclarecia com aquella attenção paciente, com
aquella agudeza de intelligencia, com aquelle estranho dom de penetrar e
comprehender as almas mais diversas,--e até uma alma diversa segundo os
momentos, a influencia exterior, as crises morbidas, a propria
temperatura physica,--com aquella extraordinaria lucidez critica,
serena, impessoal que assignala os homens verdadeiramente superiores.
Para elle proprio--deixem me este orgulho de que aliás tenho recordação
escripta pela sua propria mão e confirmado pela sua sublime e dedicada e
heroica enfermeira, amiga e esposa--para elle proprio estas conversações
que o capricho de cada momento ia inspirando e movendo, se tinham
tornado um prazer subtil e delicado. Eu ouvia, sem muitas vezes fazer
mais que suggerir, excitar, conduzir um pouco ao sabor da minha
curiosidade intellectual o rumo errante da sua palavra fascinadora...
Elle pensava alto, e gosava talvez de dar fórma concreta ás visões
fugitivas da imaginação, de prender o peso de uma definição verbal, á
aza subtil de uma idéa que ia esmaecer, volatilisar-se, fugir espaço em
fóra...
O ardente desejo de Oliveira Martins, sedento de vida, como todos os
feridos por aquella doença atroz que escolhe os melhores e os mais
delicados organismos, para os fulminar em plena flôr de intelligencia e
vida--o ardente desejo de Oliveira Martins era partir para Castella e
estudar de perto o theatro de scenas que a sua mão magistral ainda
deixou esboçadas em rapidas notas. Escrever o seu livro sobre D. João II
e depois terminar por D. Sebastião,--o querido heroe lendario, o nosso
rei Arthur fielmente esperado durante seculos por tantas almas de fé,--o
cyclo da nossa vida nacional; que depois não tem feito mais que
arrastar-se, desprestigiada, desformisada, pervertida na fórma e na
essencia, até esta tristeza de hoje amorpha e gelatinosa: eis o sonho
concebido pelo escriptor glorioso e admiravel.
Foi com o fito de visitar a Hespanha e depois de ir trabalhar em algum
eremiterio bem recolhido, bem arejado e fresco, bem afastado de todo o
movimento social, que Oliveira Martins mais robustecido, e na apparencia
melhorado, deixou Cascaes.
Ha uma carta sua de Salamanca em que transparece do novo aquella
tristeza que na doença o acompanhou como um presentimento funereo. Não
resisto ao desejo de copiar alguns trechos d'ella:--«Ahi vão duas linhas
do viajante que pisa agora as terras de Santa Thereza.
«Em Alba de Tormes esteve ella; aqui na cathedral tem um dedo que eu
hontem tive a honra de tocar.
«Dizia a Santa, ardendo em divino amor: _muero porque no muero_. Eu não
digo outro tanto, mas, em verdade, a vida não é realmente senão o desdem
de viver e de morrer. Morrer para quê? Para quê viver? Os hespanhoes
têem uma locução muito frequente e muito expressiva. É uma phrase, na
qual, como succede com a musica, cada um mette o que tem na idéa. _Quien
sabe?_ Quem sabe o que é viver? Quem sabe o que é morrer?»
N'esta fluctuação vaga do pensamento que se comprazia em ver sempre de
cada problema as duas faces contrarias, está em _raccourci_ muito do que
foi a philosophia particular de Oliveira Martins!
Da viagem a Hespanha voltou elle já ferido sem apello e sem possivel
cura pelo punhal traiçoeiro da Morte!
Ainda esperou contra todas as esperanças, ainda a paizagem agreste e
idyllica a um tempo do convento de Brancanes e cercanias o embriagou
como a ultima estrophe deliciosa d'esse poema da Natureza, que para a
alma d'elle, como para poucas almas, tinha harmonias, côres, visões
divinas, philtros alucinantes e poderosissimos. E ainda como ultima
exhalação do seu querido espirito para o meu, algumas palavras me vieram
provar a força pertinaz da sua illusão e os extremos da sua delicada e
preciosa amizade.
«--Hontem, para provar a mão, comecei a trabalhar no meu _Principe
Perfeito_. Não imagina a alegria que me deu vêr que não tinha morrido
ainda. Ainda escrevo. Ainda vivo. Cumpra depressa a promessa da sua
visita...
«--Não ha calmante como a paizagem e os rumores do campo. Sente-se a
gente arvore. Aqui ha tudo. Solidão no meio de um campo habitado,
pomares nos valles, montes em volta, em frente o mar. Que mais se quer?
O convento onde estou é enorme; cabe aqui tudo. Ha terraços delirantes.
Ha arvores verdadeiras; uma matta a valer; pinheiros, sobreiros,
medronheiros. Venha depressa...»
É a ultima vez que a sua mão traçou linhas que me fossem dirigidas e eu
propria infelizmente, preza pela doença em Cascaes que nunca deixei, não
o tornei mais a ver.
Mas publiquei trechos d'estas duas cartinhas preciosas, porque duas
faces bem caracteristicas do espirito complexo de Oliveira Martins estão
aqui adoravelmente retratados. N'uma a ondulação melancholica e vaga do
seu sonho ante o mysterio da vida e o mysterio da morte. N'outra, na
ultima, o seu ardente amor pantheista da natureza viva, aquella paixão
fremente que o fazia dar uma alma á paizagem, communicar a sua fecunda
emoção ás arvores e ás cousas, sentir no seio d'ellas a communhão
mysteriosa que prende em uma cadeia de infinitos élos sem quebra, a
pedra á planta, a planta ao animal, o animal sem alma á alma infinita, á
alma Universal!