I
Tres mezes decorreram já desde que a negra terra do cemiterio o encobriu
aos olhos dos que o amavam, e não está de molde o mundo moderno, que
tumultua desvairadamente anarchico para chorar os seus mortos ou para
commemorar os seus heróes!
Desde que elle morreu, esta pobre nacionalidade portugueza que a sua
alma soube tão bem estudar, comprehender, amar nos momentos typicos da
sua grandeza, chorar nos espasmos convulsivos ou no torpôr comatoso da
sua longa agonia, desde que elle morreu, já esta pobre patria, tão sua
amada, se tem deixado afundar mais alguns gráos no abysmo de uma
decadencia para que não ha cura.[1] Quasi todos o esqueceram, a elle, ao
grande melancolico que, durante mais de vinte annos, se não cansou de
avisar os despreoccupados, de accusar os cynicos, de analysar cruamente
ou desalentadamente o lento processo por que uma nação se desagrega e
esphacella e para quem a historia foi mais uma obra de moralista do que
um trabalho de laboriosa e minuciosa erudição.
Quasi todos o esqueceram, ou se recordam apenas do que mais ephemero e
contingente houve no seu espirito, e uma das coisas que mais dóe é este
silencio, mortalha peior que todas as mortalhas, que na hora seguinte ao
desapparecimento de um grande espirito lhe envolve nas funerarias dobras
o nome que parecia tão brilhante em vida!
Depois, mais tarde, é certo que a posteridade vinga esse nome da
indifferença da geração a que elle devia ser mais querido, mas isso não
impede que a impressão geladora de tão duro esquecimento faça soffrer
algumas almas raras que não esquecem o que amaram...
Para mim, a morte de Oliveira Martins foi um golpe dolorosissimo...
Feridos os dous por uma doença traiçoeira que se apresentava no
empobrecido organismo de ambos, egualmente ameaçadora de morte proxima e
que para elle tão cedo realizou a negra ameaça, ambos tinhamos partido
com differença de dias apenas para Cascaes.
Eram contiguas as casas que habitavamos, davam ambas para o lindo parque
que o fallecido Visconde de Gandarinha alli plantou luxuosamente.
A primavera tinha desdobrado pelo parque todo em viço e pela extensão
dos campos um enorme estendal das flôres mais frescas, mais vivas, mais
cheias de mimo e côr. Inundavam-nos as salas os lyrios amarellos, as
rubras papoulas, os malmequeres brancos e dourados, as verdes espigas,
toda essa divina e inoffensiva flóra dos campos que consola os doentes
sem os envenenar.
Através das rendas transparentes do arvoredo em que todos os tons, todas
as _nuances_ do verde se casavam em uma gamma opulenta e maravilhosa,
avistava-se, das janellas dos dous convalescentes, o mar, o grande mar
azul, em que Oliveira Martins lêra tão commovedoramente a lenda do nosso
destino nacional, a historia gloriosa e tragica da vida e da morte da
Patria Portugueza.
Barcos de véla passavam a cada instante, e elle sabia conhecer cada typo
de embarcação.
Cada véla que atravessava o mar longinquo, palpitando ao vento fresco de
abril, tinha para elle uma suggestão viva, uma lembrança saudosa ou
pittoresca.
A luz, a luz embriagante da primavera de Portugal, derramada em caudaes
da concava saphyra dos Céus, reanimava-o dia a dia, dava-lhe aspirações
frementes de vida, de alegria, de trabalho, de actividade mental.
Ouvi-lo era um encanto.
Menos abatido de espirito, e mesmo de corpo, que eu, era elle quem,
descendo a escada da sua casa e subindo a da minha, vinha sentar-se na
pequenina sala onde eu quotidianamente esperava aquella visita
deliciosa.
E de sua voz lenta, cheia de pausas, de uma doçura como que abafada,
modulando-se em tons de intima melancholia, de acre desprezo, de
tolerante e passivo desdem, e ás vezes, raras vezes, de alegre e
despreoccupada ironia, ia preguiçosamente escorrendo toda uma
philosophia da Vida, triste sim, mas não desesperada nem crúa...
Mystico de temperamento, mystico de sentir, o seu scepticisrno das
coisas era temperado sempre por aquelle instincto tão raro na alma
penisular, positiva até na sua fé, o instincto do mysterio ambiante, o
presentimento de alguma coisa ignorada que nos cerca, acompanha, domina,
nunca revelada, nunca explicada, nunca tangivel, mas tão impossivel de
definir como de eliminar...
«_There are more things in heaven and earth, Horatio.
Than are dreamt of in your philosophy._»
Estas palavras do Hamlet lembravam-me quando o ouvia discorrer de vagar,
sempre muito de vagar, olhos de sonho fitos vagamente no espaço, como
que vendo n'elle coisas que nós lá não viamos...
Falávamos de tudo. Mais, no emtanto, do presente que do passado. Era
nobre, glorioso, épico o passado? De certo!
Mas que importava, se estava inteiramente extincto para nós. O presente
causava á grande alma especulativa e triste de Oliveira Martins um tedio
inenarravel. Esta agonia sem grandeza; esta lucta de mesquinhos, de
baixos interesses, lembrando a germinação e o fervilhar de vermes na
putrefacção de um cadaver querido; esta inconsciencia de perigos
imminentes; esta ignorancia universal de todas as forças e elementos
que, ou conjugados ou antagonicos, hão de fatalmente ter uma influencia
capital no modo de ser organico da sociedade portugueza; este risonho
cynismo que anima as classes dirigentes e lhes inspira todas as
manifestações da sua actividade ou da sua inercia; este quadro desolador
de um paiz que lucta pela vida, é verdade, mas que perdeu todas as
energias materiaes ou ideaes, por meio das quaes uma vida se
conserva--arrancava-lhe expressões de uma tão inconsolada tristeza, como
eu me não recordo de as ter ouvido a mais ninguem.