III

O desinteresse levado quasi a um extremo irritante para os praticos

homens de hoje, a fidelidade tocante a todas as causas vencidas; um amor

das tradições da raça, que se exalta até á poesia, uma fórma de

imaginação absolutamente singular e inconfundivel caracterisam os

Celtas, a cuja raça Renan tanto se orgulhava de pertencer.

«Em parte alguma, diz elle, a eterna illusão se adornou de mais

seductoras côres, e no grande concerto da especie humana nenhuma familia

egualou esta, nos sons penetrantes, que vão até o coração. Os seus

cantos de alegria acabam em tom elegiaco; nada eguala a deliciosa

tristeza das suas melodias nacionaes; dir-se-hiam emanações do céu, que,

deslisando gotta a gotta dentro d'alma, a penetram, como reminiscencias

de outro mundo.

«Ninguem, como ella, saboreou jámais tão longamente essas volupias

solitarias da consciencia, essas reminiscencias poeticas, em que se

cruzam simultaneamente todas as sensações da vida, tão vagas, e

profundas e penetrantes, que, a prolongarem-se muito, fariam morrer, sem

que pudesse dizer-se se era de delicia ou de amargura.

A infinita delicadeza de sentimento que caracterisa a raça celtica está

estreitamente ligada á sua necessidade de concentração... D'ahi esse

pudor delicioso, esse _não sei quê_ de velado, de requintado, de sobrio,

a egual distancia da rhetorica do sentimento tão familiar aos povos

latinos e da ingenuidade reflectida que tanto se faz sentir nos

allemães.

«Essa raça quer o infinito; tem sêde d'elle; procura-o a todo o preço,

para além da tumba, para além do inferno...»

Estas phrases de Renan, colhidas no seu esplendido estudo sobre a

_poesia das raças celticas_ são o segredo de mil particularidades

d'aquella fina sensibilidade de artista.

O que elle diz dos cantos nacionaes da sua raça, podia egualmente

applicar-se ao genero indefinivel de encanto quasi physico que a sua

prosa exerce em temperamentos accessiveis a certa ordem de emoções.

A estranha combinação que n'elle se fez de duas inspirações tão oppostas

e ambas tão pronunciadas no seu espirito, a da poesia biblica e a da

poesia dos Celtas; a alta cultura complexa que o seu entendimento

assimilou de um modo tão feliz; o dom irresistivel da ironia que a fada

que presidiu ao seu nascimento lhe trouxe occulto entre as mais finas

flores de uma sensibilidade morbida; o optimismo de um temperamento são

e de uma calma existencia, luctando com a noção pessimista que a

sciencia lhe deu do Universo e da vida; as suas tendencias de

_dilettante_ e de aristocrata, desenvolvido em um meio de brutal

democracia e de _lucta pela vida_ phrenetica; a hereditariedade de uma

mãe da Gasconha e de um pae bretão; até a estranha circumstancia de elle

ter ouvido--nos braços maternos e dos labios queridos de onde lhe

escorria o mel dos unicos beijos que não mentem,--contados com a mais

graciosa florescencia de incidentes e detalhes, todas as nebulosas

tradicções do Cyclo de Arthur, todas as lendas poeticas de Bretanha,

isto por uma deliciosa voz ironica, que não acreditava n'ellas, e que

era como o acompanhamento musical da serenata de D. Juan, o risonho

desmentido áquella poesia tecida em sonhos;--todos estes contrastes,

todas estas influencias contradictorias, composeram em não sei que

mysterioso laboratorio, a essencia rara que era o genio de Renan.

Esse philtro capitoso, inebriante, seria salutar? Parece-me, receio bem

que não! Renan era muito do seu tempo para não ter d'elle a pontinha de

corrupção intellectual, que, em temperamento physico menos equilibrado,

levaria ao scepticismo dissolvente, á egoistica indisciplina que se

traduz pela satisfação de todas as paixões, ainda as mais funestas.

Elle, que era um santo na pratica da vida, e que, sahindo do seminario,

quiz trazer para o trato social as virtudes, a castidade, a serena

despreoccupação de sentimentos que o agitassem, que lhe haviam sido

recommendadas pelos padres que o creáram; elle, que era um santo na

moral, podia na vida intellectual ser esse delicioso _diletante_ que se

comprazia em perder-se nos complicados meandros do pensamento, amando

como Socrates a virtude e chamando-lhe como Bruto um _nome vão!_

glorificando o martyrio e notando ao mesmo tempo a impossibilidade que

ha para o homem superior em morrer por _uma idéa_, necessariamente

falsa, pois que nunca a verdade póde estar em uma só face de qualquer

doutrina; recommendando a _moral_ como «a cousa por excellencia

verdadeira e séria» e dizendo aos homens, aos fracos mortaes a quem o

desinteresse custa tanto, que nenhuma recompensa lhes advirá dos

sacrificios feitos a essa abstracção sublime; negando a intervenção de

Deus na obra universal e affirmando que o Universo tem um fim divino;

sentindo e communicando aos que o lêem, as sensações mais dubias e as

mais contradictorias; vibrando ao influxo das idéas mais diversas, desde

o mysticismo até a transcendente ironia, tendo feito a viagem á roda do

mundo do pensamento, e vindo de lá, da sua longa e laboriosa romaria,

egualmente indifferente ou egualmente benevolo para todas as doutrinas,

para todos os estados da alma, menos para o fanatismo dos sectarios, que

lhe inspirava um desdem piedoso, e que ainda assim comprehende, porque

ninguem entendeu melhor Jeremias e Ezéchias, os prophetas da feroz

Jerusalem!

Elle podia ser essa encarnação suprema do genio da critica moderna. Mas

os que não têem o mesmo dom feliz de separar a vida da intelligencia da

vida dos sentidos? Mas os que vivem a sua philosophia e traduzem em

actos as suas theorias?...

Oh! para esses, a doutrina d'esse santo será o mais corrosivo dos

venenos; o encanto miraculoso d'aquelle genio ondeante, cujo pessimismo

desabrochava na flor de um sorriso e cuja esperança se afundava,

mysteriosa e lugubre nymphéa, no pantano glauco de uma negação

sombria,--seria a mais desorganisadora e a mais corruptôra das lições!

* * * * *

Mas esquecemos o que houve de triste e de negativo n'essa philosophia,

cujas raizes mergulham no complicado e sceptico pensamento germanico!

Nós, as mulheres, amemo-lo pela graça--esse dom feminino, que elle

possuiu como ninguem mais, pela linguagem divina, de que elle revestiu

as suas idéas, por milhares de trechos verdadeiramente impeccaveis, de

uma unctuosidade evangelica, de uma pureza transcendente, de uma poesia

ineffavel, com que elle enriqueceu a litteratura universal.

Como havia em Rénan de tudo,--e é este o seu caracteristico mais

singular, e é este, em face da estricta logica, o defeito mais

reprehensivel da sua intelligencia--podia um admirador consciencioso e

delicado extrahir, dos seus livros innumeros, um livro piedoso, especie

de _Imitação_, menos ascetico, porém, mais perfumado das flôres do

Evangelho primitivo; livro para ser lido em hora de crise d'alma, livro

para ser decorado pelos delicados, pelos contemplativos, pelos

tristes...

No prefacio dos seus _Estudos de Historia religiosa_, diz Renan pouco

mais ou menos isto mesmo.

Formúla o voto de que alguem, das perolas soltas do seu escrinio, que

sabemos ser de millionario, compozesse uma especie de _livro d'horas_,

para ser folheado depois da sua morte, por finas, esguias e brancas mãos

patricias, na paz obscura e calmante das cathedraes.

Oh! Como a subtil ironia que atravessa, flecha de luz aeria, este voto

estranho, é bem d'elle! D'esse aristocrata, que deveu á democracia a

liberdade que amplamente gozou; d'esse _dilettante_, d'esse mystico que

desejaria ser enterrado na nave lateral de uma sombria egreja catholica;

d'esse ironista que manejou tanta vez o arco de Voltaire com settas mais

finas, settas feitas de ouro; d'esse philosopho que prégou a inanidade

da sabedoria; d'esse sabio que se ria da sciencia; d'esse iconoclasta

dos templos que ungiu de balsamos tão inneffavelmente doces os pés de

Jesus Christo, e que achou na piedade da sua alma uma fórmula de

scepticismo mais respeitosa que muitas orações, de um realismo por assim

dizer concreto e material...

* * * * *

Se eu pude traduzir a impressão que elle me dava, impressão confusa e

deliciosa, indefinivel e querida, impressão que era ao mesmo tempo

receio de me deixar seduzir, encanto ao sentir-me arrastada na corrente

d'aquelle feiticeiro perigoso; se eu pude dizer todo o amor com que lhe

quiz, e todas as restricções com que este sentir me subjugára, dou-me

por feliz, porque a fazer a critica da obra de Renan, a isso nunca eu

ousaria aspirar.

Pelo mundo fóra · 第 30 / 52 题