O desinteresse levado quasi a um extremo irritante para os praticos
homens de hoje, a fidelidade tocante a todas as causas vencidas; um amor
das tradições da raça, que se exalta até á poesia, uma fórma de
imaginação absolutamente singular e inconfundivel caracterisam os
Celtas, a cuja raça Renan tanto se orgulhava de pertencer.
«Em parte alguma, diz elle, a eterna illusão se adornou de mais
seductoras côres, e no grande concerto da especie humana nenhuma familia
egualou esta, nos sons penetrantes, que vão até o coração. Os seus
cantos de alegria acabam em tom elegiaco; nada eguala a deliciosa
tristeza das suas melodias nacionaes; dir-se-hiam emanações do céu, que,
deslisando gotta a gotta dentro d'alma, a penetram, como reminiscencias
de outro mundo.
«Ninguem, como ella, saboreou jámais tão longamente essas volupias
solitarias da consciencia, essas reminiscencias poeticas, em que se
cruzam simultaneamente todas as sensações da vida, tão vagas, e
profundas e penetrantes, que, a prolongarem-se muito, fariam morrer, sem
que pudesse dizer-se se era de delicia ou de amargura.
A infinita delicadeza de sentimento que caracterisa a raça celtica está
estreitamente ligada á sua necessidade de concentração... D'ahi esse
pudor delicioso, esse _não sei quê_ de velado, de requintado, de sobrio,
a egual distancia da rhetorica do sentimento tão familiar aos povos
latinos e da ingenuidade reflectida que tanto se faz sentir nos
allemães.
«Essa raça quer o infinito; tem sêde d'elle; procura-o a todo o preço,
para além da tumba, para além do inferno...»
Estas phrases de Renan, colhidas no seu esplendido estudo sobre a
_poesia das raças celticas_ são o segredo de mil particularidades
d'aquella fina sensibilidade de artista.
O que elle diz dos cantos nacionaes da sua raça, podia egualmente
applicar-se ao genero indefinivel de encanto quasi physico que a sua
prosa exerce em temperamentos accessiveis a certa ordem de emoções.
A estranha combinação que n'elle se fez de duas inspirações tão oppostas
e ambas tão pronunciadas no seu espirito, a da poesia biblica e a da
poesia dos Celtas; a alta cultura complexa que o seu entendimento
assimilou de um modo tão feliz; o dom irresistivel da ironia que a fada
que presidiu ao seu nascimento lhe trouxe occulto entre as mais finas
flores de uma sensibilidade morbida; o optimismo de um temperamento são
e de uma calma existencia, luctando com a noção pessimista que a
sciencia lhe deu do Universo e da vida; as suas tendencias de
_dilettante_ e de aristocrata, desenvolvido em um meio de brutal
democracia e de _lucta pela vida_ phrenetica; a hereditariedade de uma
mãe da Gasconha e de um pae bretão; até a estranha circumstancia de elle
ter ouvido--nos braços maternos e dos labios queridos de onde lhe
escorria o mel dos unicos beijos que não mentem,--contados com a mais
graciosa florescencia de incidentes e detalhes, todas as nebulosas
tradicções do Cyclo de Arthur, todas as lendas poeticas de Bretanha,
isto por uma deliciosa voz ironica, que não acreditava n'ellas, e que
era como o acompanhamento musical da serenata de D. Juan, o risonho
desmentido áquella poesia tecida em sonhos;--todos estes contrastes,
todas estas influencias contradictorias, composeram em não sei que
mysterioso laboratorio, a essencia rara que era o genio de Renan.
Esse philtro capitoso, inebriante, seria salutar? Parece-me, receio bem
que não! Renan era muito do seu tempo para não ter d'elle a pontinha de
corrupção intellectual, que, em temperamento physico menos equilibrado,
levaria ao scepticismo dissolvente, á egoistica indisciplina que se
traduz pela satisfação de todas as paixões, ainda as mais funestas.
Elle, que era um santo na pratica da vida, e que, sahindo do seminario,
quiz trazer para o trato social as virtudes, a castidade, a serena
despreoccupação de sentimentos que o agitassem, que lhe haviam sido
recommendadas pelos padres que o creáram; elle, que era um santo na
moral, podia na vida intellectual ser esse delicioso _diletante_ que se
comprazia em perder-se nos complicados meandros do pensamento, amando
como Socrates a virtude e chamando-lhe como Bruto um _nome vão!_
glorificando o martyrio e notando ao mesmo tempo a impossibilidade que
ha para o homem superior em morrer por _uma idéa_, necessariamente
falsa, pois que nunca a verdade póde estar em uma só face de qualquer
doutrina; recommendando a _moral_ como «a cousa por excellencia
verdadeira e séria» e dizendo aos homens, aos fracos mortaes a quem o
desinteresse custa tanto, que nenhuma recompensa lhes advirá dos
sacrificios feitos a essa abstracção sublime; negando a intervenção de
Deus na obra universal e affirmando que o Universo tem um fim divino;
sentindo e communicando aos que o lêem, as sensações mais dubias e as
mais contradictorias; vibrando ao influxo das idéas mais diversas, desde
o mysticismo até a transcendente ironia, tendo feito a viagem á roda do
mundo do pensamento, e vindo de lá, da sua longa e laboriosa romaria,
egualmente indifferente ou egualmente benevolo para todas as doutrinas,
para todos os estados da alma, menos para o fanatismo dos sectarios, que
lhe inspirava um desdem piedoso, e que ainda assim comprehende, porque
ninguem entendeu melhor Jeremias e Ezéchias, os prophetas da feroz
Jerusalem!
Elle podia ser essa encarnação suprema do genio da critica moderna. Mas
os que não têem o mesmo dom feliz de separar a vida da intelligencia da
vida dos sentidos? Mas os que vivem a sua philosophia e traduzem em
actos as suas theorias?...
Oh! para esses, a doutrina d'esse santo será o mais corrosivo dos
venenos; o encanto miraculoso d'aquelle genio ondeante, cujo pessimismo
desabrochava na flor de um sorriso e cuja esperança se afundava,
mysteriosa e lugubre nymphéa, no pantano glauco de uma negação
sombria,--seria a mais desorganisadora e a mais corruptôra das lições!
* * * * *
Mas esquecemos o que houve de triste e de negativo n'essa philosophia,
cujas raizes mergulham no complicado e sceptico pensamento germanico!
Nós, as mulheres, amemo-lo pela graça--esse dom feminino, que elle
possuiu como ninguem mais, pela linguagem divina, de que elle revestiu
as suas idéas, por milhares de trechos verdadeiramente impeccaveis, de
uma unctuosidade evangelica, de uma pureza transcendente, de uma poesia
ineffavel, com que elle enriqueceu a litteratura universal.
Como havia em Rénan de tudo,--e é este o seu caracteristico mais
singular, e é este, em face da estricta logica, o defeito mais
reprehensivel da sua intelligencia--podia um admirador consciencioso e
delicado extrahir, dos seus livros innumeros, um livro piedoso, especie
de _Imitação_, menos ascetico, porém, mais perfumado das flôres do
Evangelho primitivo; livro para ser lido em hora de crise d'alma, livro
para ser decorado pelos delicados, pelos contemplativos, pelos
tristes...
No prefacio dos seus _Estudos de Historia religiosa_, diz Renan pouco
mais ou menos isto mesmo.
Formúla o voto de que alguem, das perolas soltas do seu escrinio, que
sabemos ser de millionario, compozesse uma especie de _livro d'horas_,
para ser folheado depois da sua morte, por finas, esguias e brancas mãos
patricias, na paz obscura e calmante das cathedraes.
Oh! Como a subtil ironia que atravessa, flecha de luz aeria, este voto
estranho, é bem d'elle! D'esse aristocrata, que deveu á democracia a
liberdade que amplamente gozou; d'esse _dilettante_, d'esse mystico que
desejaria ser enterrado na nave lateral de uma sombria egreja catholica;
d'esse ironista que manejou tanta vez o arco de Voltaire com settas mais
finas, settas feitas de ouro; d'esse philosopho que prégou a inanidade
da sabedoria; d'esse sabio que se ria da sciencia; d'esse iconoclasta
dos templos que ungiu de balsamos tão inneffavelmente doces os pés de
Jesus Christo, e que achou na piedade da sua alma uma fórmula de
scepticismo mais respeitosa que muitas orações, de um realismo por assim
dizer concreto e material...
* * * * *
Se eu pude traduzir a impressão que elle me dava, impressão confusa e
deliciosa, indefinivel e querida, impressão que era ao mesmo tempo
receio de me deixar seduzir, encanto ao sentir-me arrastada na corrente
d'aquelle feiticeiro perigoso; se eu pude dizer todo o amor com que lhe
quiz, e todas as restricções com que este sentir me subjugára, dou-me
por feliz, porque a fazer a critica da obra de Renan, a isso nunca eu
ousaria aspirar.