Este conhecimento da obra total do grande escriptor, que eu considero
imprescindivel em quem, com acerto e justiça, quizer falar d'elle, não o
tinham, estranho é dizel-o, senão com rarissimas excepções, os que em
França, no jornalismo, commemoraram luctuosamente o passamento de Renan.
A accusação que eu aqui deixo, fêl-a, com a sua graça incomparavel Julio
Lemaître no artigo que ao seu querido philosopho consagrou no _Jornal
dos Debates_. Porque Renan escreveu muito, escreveu immenso. Durante
cincoenta annos trabalhou dez horas por dia, o que é extraordinario.
E além das monographias scientificas e dos estudos especiaes que
publicára nas _Revistas_ e nos Jornaes de Sciencias, além da _Historia
das Origens do Christianismo_, que vae de _Jesus_ a _Marco Aurelio_, e
que se compõe de sete grossos volumes, além da _Historia do Povo de
Israel_ de que ha publicados tres volumes e para publicar dois, elle
passou as horas que não consagrava á sua principal tarefa, a escrever
toda a especie de artigos litterarios: _ensaios criticos_; _dialogos
philosophicos_ á maneira de Platão, como os que publicou em volume com o
titulo que acima démos; comedias e dramas á moda e na tradição de
Shakespeare como o _Prêtre de Nemi_, _L'eau de Jouvence_, _Caliban_,
etc. etc.; cartas que são celebres como aquella escripta _à un ami
d'Allemagne_, e outra a _Mr. Berthelot_; fragmentos de historia
religiosa; estudos de moral; trechos adoraveis como o consagrado a
Francisco d'Assis, o santo que teve a adoração de Michelet e de Renan,
etc. etc.
As mil faces do talento de Renan só as conhece o que leu essa obra
vastissima atravessada por uma flecha ideal de encanto e de magia; para
a saber apreciar devidamente, é comtudo, necessario mais do que havel-a
lido, porque então, n'esse caso estava a minha humilde pessoa, a qual se
recusa a tão elevada empreza.
Uma das accusações feitas a Renan, até pelos seus criticos mais
benevolos, é a de contradictorio e a de incoherente.
Baptisáram de _renanismo_ uma certa qualidade requintada e subtil de
duvida amavel, que acolhe todas as idéas, que acha em todas alguma cousa
de verdadeiro e muito de falso, que se balouça voluptuosamente entre
doutrinas adversas, que se inclina ora para uma ora para outra das mil
fórmas da vida sem se dar completamente a nenhuma d'ellas, que em cada
chimera acha um fundo de verdade, e em cada verdade acceita e
indiscutida um fundo de inanidade e de illusão, que ante a
Natureza,--Isis de mil faces,--se limita a comprehender e acceitar as
contradicções do Universo, explicando-as se póde, e admittindo a
legitimidade absoluta dos mais variados pontos de vista, sem ter nenhuma
das qualidades estreitas e limitadas do sectario ou do fanatico.
Ora esse modo de ser intellectual é tanto da nossa época, que Renan,
professando-o, não fez mais do que representar em uma condensação
superior de pensamento e de critica, a philosophia do seu tempo.
Que culpa teve elle de nascer justamente em um periodo da civilisação em
que estes caracteres da intelligencia são justamente os que assignalam o
_homem superior_, o artista consciente, o _representative man_ de uma
phase do pensamento humano.
De resto, querendo dizer a verdade toda, esse estado de espirito de
Renan, é-lhe commum com as intelligencias mais altas de todos os tempos.
Shakespeare, que foi tambem um _dilectando_ genial não dizia já que o
_homem è talvez feito do mesmo estofo que os seus sonhos_?
A interpretação dos phenomenos visiveis do mundo é feita por esses
espiritos, não de um modo racionalista e logico, mas consoante a
fugitiva inspiração do momento que passa.
A raiz de toda a realidade mergulha em um abysmo insondavel e obscuro,
em que elles gostam de debruçar-se, ora trementes de pavor, ora gelados
pela duvida...
Mas a justiça, que nem sempre fazem a Renan e que é necessaria
fazer-lhe, exige que se accrescente a esses traços por assim dizer
exteriores de seu talento esta qualidade fundamental que resalva o que
elles podiam ter de perigoso para os discipulos de sua philosophia.
Ha uma cousa em que elle acreditou sempre, da qual não negou nunca a
existencia _necessaria_, embora lhe contestasse ás vezes nos caprichos
da sua ondeante palavra, cariciosa e triste, os resultados uteis, ou as
compensações interesseiras; essa cousa é a _moral_!
«A moral é a cousa séria e verdadeira por excellencia; basta ella para
dar um sentido e um fim á vida humana, diz elle no prologo dos seus
_Ensaios de Moral e de Critica_.
«Escondem-nos véos impenetraveis o segredo d'este mundo estranho, cuja
realidade se impõe a nós e nos esmaga; a philosophia e a sciencia
procuram eternamente, sem jámais a encontrarem, a fórmula d'esse Proteu
que a razão não limita e que a linguagem não exprime. Mas ha uma base
indubitavel que o scepticismo por mais completo não póde abalar, onde o
homem achará até ao termo dos seus dias o ponto fixo de todas as
incertezas; o bem é o bem; o mal é o mal. Para odiar um e amar outro,
não é necessario qualquer systema, e é n'este sentido que a fé e o amor,
que na apparencia não têem ligação alguma com a intelligencia, são o
verdadeiro fundamento da certeza moral e o unico meio que o homem possue
para comprehender alguma cousa do problema da sua origem e do seu
destino.»
Por estas palavras sinceras e que Renan honrou tão nobremente, em uma
longa existencia laboriosa, honesta e casta, consagrada ao trabalho
incessante, á desinteressada investigação da verdade, ás sondagens tão
difficeis da Historia,--por estas palavras se percebe bem claro, que o
renanismo não significa indifferença moral, mas sim benevola sympathia
por ideaes diversos, contemplação amorosa dos phenomenos que se succedem
em perpetua fluidez, em perpetua transformação, embevecimento perante as
mil fórmas alliciadoras com que a eterna illusão nos tenta, nos seduz,
nos anesthesia, para nos fazer aceitar o pesado encargo da vida...
A riqueza extraordinaria d'esta intelligencia consiste na quantidade de
contrastes, de aspectos e de _nuances_ que n'ella se conciliam e n'ella
se contém. Os contrastes de um caracter são o sêllo da sua
individualidade, da sua vida exuberante e intensa. Os contrastes de
idéas cabendo em uma intelligencia dão a medida do seu grande valor.
As contradições que desnorteiam uma logica vulgar, não assustam por
exemplo o pensamento allemão de uma tão extraordinaria complexidade. A
concepção, a synthese magnifica de um Hegel envolve e concilia os mais
contrarios termos no seu vastissimo seio. Ora, em Renan, além da
influencia da Biblia, tão accentuada no seu modo dizer e de sentir, além
da influencia grega tão esplendidamente demonstrada na _oração sobre a
acropole_, que vem inserta nos adoraveis _Souvenirs de jeunesse_, actuou
de um modo profundo, decisivo a influencia da Allemanha.
Na sua moral Renan obedece á inspiração de Kant, na sua concepção do
Universo, Renan é Hegeliano. E senão vejamos esta phrase caracteristica:
«Deus é immanente no conjunto do Universo, e em cada um dos seres que o
compõem. Não se reconhece, porém, egualmente em todos. Reconhece-se mais
na planta que no rochedo, mais no animal que na planta, mais no homem
que no animal, mais no homem intelligente que no cerebro limitado, mais
em Socrates que no homem de genio, mais em Buddha que em Socrates, mais
em Christo que em Buddha.»
Eis o resumo de toda a theologia hegelina e _renanesca_.
Se accrescentarmos a isto a affirmação de que nenhuma vontade particular
se tem manifestado até hoje, nem poderá jámais manifestar-se na evolução
do Universo, ou na marcha da humanidade, mas que esse Deus, de que elle
nega a existencia pessoal, está por assim dizer em formação no tempo e
no espaço, á proporção que o mundo vai attingindo a consciencia sempre
mais perfeita de si proprio, e que o homem vai descobrindo as eternas
leis da verdade, da belleza, da virtude e do bem; de que o Universo tem
um fim idéal, aspira a um divino objectivo e não é nem póde ser a
resultante de uma agitação inane, inutil e vã; que a razão, reinando
mais e mais sobre a humanidade, acabará por _crear Deus_, creando o bem
absoluto, e a divina harmonia das cousas;--nós teremos completado a
philosophia de Renan, nem sempre original, e em todo caso pouco
consoladora para os humildes e para os pobres de espirito que em nada
collaboram para a formação definitiva d'esse Deus, que está em via de
apparecer vizivel aos homens que hajam attingido o mais alto ponto da
consciencia...
Esta philosophia reveste-se porém, das mais deliciosas fórmas, ella tem
para se desenvolver e para se reduzir a preceitos geraes, um instrumento
incomparavel, de uma graça que nenhum artista ainda egualou.
Esse instrumento, que é a prosa de Renan, é que o torna principalmente
querido entre os que lêem...
A sua melancolia de celta, a sua sensibilidade doentia, a doçura
estranha, inspirada de algumas das suas phrases, tem tido sobre a minha
alma de mulher o poder inexplicavel de um sortilegio.