SUA OBRA, O SEU ESPIRITO, A SUA PHILOSOPHIA

I

Venho tarde para accrescentar qualquer cousa ao que n'este jornal de

certo se tem dito a esta hora da vida de Renan, e da sua morte. Venho

tarde para ajuntar, qualquer dado biographico, qualquer inedito

incidente aos já citados aqui por informadores habeis e intelligentes.

Mas venho cedo, talvez, para conversar com os leitores ácerca d'esse

espirito encantador, que desapparecendo d'entre os vivos, deixa na

Europa culta uma lacuna imprehenchivel.

Não é, porém, meu intento fazer _obra de critico_, o que além de mais,

seria prematuro ainda. Tentarei apenas dar a impressão, que a minha

sensibilidade recebeu da leitura d'esse fino artista, d'esse poeta, que

tão bem se conhecia a si mesmo, que um dia, figurando-se a si sob o nome

_Léolin_, nos _Dramas Philosophicos_, dava do seu genio esta

adoravelmente exacta definição:

«O que é que eu faço no mundo? Contemplo e goso. Vou a toda a parte;

entro em todos os lugares e em todos comprehendo alguma cousa. Eis a

minha profissão. Procuro o Bello, devorado de sêde, que jámais saciei. A

verdade demanda maior dose de perseverança nos que a buscam; é por isso

que ella me foge, talvez.»

Não ha convivencia mais estreita, que a que tem largos annos existido,

entre mim, obscura e pobre mulher, e essa deliciosa intelligencia de

artista, um dos mais requintadamente perfeitos que a litteratura tem

possuido em todo o mundo.

É fóra de duvida que, para mim, o _hebraisante_, o erudito, o

epigraphista sagaz, o archeologo meticuloso, o decifrador de textos

assyrios, o _sabio_, emfim, que era Renan, me interessava mediocremente.

Admirava que um tão grande poeta tivesse a humilde ambição de ser apenas

um grande erudito; ambição que lhe era de resto cruelmente contestada

por terriveis homens calvos, de oculos azues com aros de ouro e nomes

impronunciaveis de terminações barbaras, que eu nunca tinha lido, e

julgo aqui entre nós, que sómente se tinham lido a si mesmos...

Esses, escreviam volumes _in folio_ para provarem que o _Sr. Renan não

conhecia os textos_, e o divino celta que tanta vez me fizera vibrar até

ás lagrimas com as notas da sua harpa mysteriosa--desesperava-se com a

incredulidade d'aquelles medonhos eruditos allemães, de que toda a gente

que se presa ignora a existencia, não atinando sequer com a arrevesada

pronuncia dos seus respectivos nomes...

O _hebraisante_ era-me pois indifferente, mas o historiador ficava de

pé, com a sua intuição extraordinaria da alma religiosa das multidões

extinctas; com a vida intensa que elle sabia dar aos personagens do

passado; com a sua visão clara e profunda das cousas que já foram; com o

magico poder de evocação que elle possuia, como Carlyle o possuiu, como

o possuiram Michelet e Victor Hugo, mas de um modo inteiramente diverso

d'aquelles todos.

Um Michelet resuscitando periodos historicos de enthusiasmo fremente e

de doentia exaltação, saberá dar vida ás perturbações nervosas, aos

desfallecimentos e aos extases dos seus congeneres do passado.

Um Victor Hugo dará o nitido contorno das cousas, e até para o mundo da

allucinação levará o seu poder de descrever o incommensuravel, de

figurar o impossivel...

Um Carlyle tera a visão ardente de um mundo como foi o puritano, capaz

de produzir Cromwell; e saberá--desmontando peça a peça o machinismo

complicado d'esse caracter de allucinado e de batalhador, de perfido

conductor de homens, e de crente quasi fanatico--revelar-nos o segredo

da quadra estranha de que elle é o producto natural, a resultante

logica...

Renan saberá principalmente interpretar e traduzir problemas e

sentimentos moraes, estados de consciencia. Para elle, como para o

grande inglez que escreveu o _Culto dos heroes_, a historia, _é uma

cousa viva, uma **cousa** ineffavel e divina_, destinada a resuscitar

diante dos olhos do nosso espirito, os soffrimentos, as emoções

violentas ou delicadas, as luctas, as tristezas, as fraquezas e

heroicidades, dos nossos irmãos que morreram, das gerações que modelaram

fatalmente a nossa, e ás quaes devemos o que somos em bom e em mau.

* * * * *

Quando a noticia da morte de Renan nos veio sorprehender dolorosamente a

todos, acabava eu de passar dois mezes no campo, em uma solidão quasi

absoluta, em uma isolação moral quasi selvagem, lendo apenas com intima

delicia, o mais arido talvez, por ser o mais erudito, de todos os livros

do grande exegeta: a sua longa _Historia do Povo de Israel_, cujo 4.^o e

5.^o volumes elle deixou para serem posthumamente publicados.

E depois de ter vencido aquelle primeiro impulso de preguiça, que um

espirito de mulher indolente não podia deixar de experimentar ante um

trabalho d'esta ordem--eu acabára por sentir-me irresistivelmente e

deliciosamente transportada áquelles tempos obscuros em que o semita

nomada, o soberbo vagabundo da Historia, enriqueceu o thesouro humano,

com a mais alta noção religiosa a que á nossa especie foi dado ainda

attingir, a noção de um _deus unico_, cujo espirito está em tudo, e ao

qual o vasto Universo obedece submisso!...

Assim como a Grecia creou a alta cultura intellectual, a philosophia, a

poesia, as artes plasticas; assim como Roma creou as fortes instituições

politicas, tendo o Direito por base; o semita creou a religião de que a

nossa alma se tem alimentado longos seculos, e que tão profundo cunho

lhe imprimiu, que ainda hoje o mais sceptico de entre os scepticos

demolidores do passado se não póde libertar da sua poderosa e absorvente

influencia!

Essa genese de monotheismo, que Renan intitulou a _Historia do Povo de

Israel_, é talvez de todas as suas obras aquella em que as soberbas e

multiplas faculdades do seu grande espirito tiveram melhor espaço para

se desenvolverem.

Nada mais bello, nada mais profundamente interessante para um espirito

que pensa, do que a evolução da idéa religiosa, seguida passo a passo,

com os seus periodos de impetuosa florescencia, com os seus

desfallecimentos e os seus eclypses, com os desdobramentos subitos de

sua apaixonada energia, com as acquisições moraes, tão laboriosamente e

dolorosamente feitas atravez de violencias spasmodicas e de paroxysmos

convulsionarios.

Sendo a civilisação moderna uma resultante da collaboração alternativa

da Grecia, da Judéa e de Roma, as origens da historia d'essa raça

mysteriosa, em cujo seio havia virtualmente _Jahvê_ e _Jesus_ não podem

deixar de produzir uma ardente curiosidade em todo o espirito avido de

conhecimento e de luz moral.

Eu tinha-me pois, n'essa reclusão completa em que vivera, embriagado

longamente, voluptuosamente, da prosa, de Renan, capitosa e

perturbadora.

E quem como elle sabia, da lingua que fallava, extrahir effeitos de

harmonia, ao pé dos quaes, os das outras artes me pareciam absolutamente

secundarios?

Falando do idioma hebraico, Renan diz em uma das bellas paginas da sua

_Historia do Povo de Israel_:

«Uma aljava de flechas de ouro, um grosso cabo de potentes contorsões,

um trombone de bronze, dilacerando o espaço com duas ou tres agudas

notas: eis o hebraico.

«Uma lingua d'estas não pode exprimir nem um pensamento philosophico,

nem um resultado scientifico, nem uma duvida, nem uma percepção do

infinito.

«As lettras dos seus livros serão contadas como numeros, mas serão

feitas de fogo como a chamma. Dirá poucas cousas essa lingua, mas as que

disser, serão martelladas sobre uma bigorna.

«Derramará ondas de colera, terá gritos de raiva contra os abusos do

mundo; clamará pelos quatro ventos do céo para que acudam ao assalto das

cidadellas do Mal. Como os instrumentos rituaes do santuario não servirá

para uso algum profano; nunca lhe será dado exprimir a alegria innata da

consciencia, a luminosa serenidade da Natureza; mas clamará a guerra

santa contra a injustiça, e o appello dos grandes panegyricos; será o

clarão das neomenias e a trombeta do Juizo final. Felizmente que o genio

hellenico comporá, para a expressão das alegrias e das tristezas da

nossa alma um alaúde de sete cordas, o qual saberá vibrar unisono com

tudo que é humano, um grande orgão de mil teclas igual ás multiplas

alegrias da vida.

«A Grecia conhecerá toda as delicias, desde as dansas em côro nos

pincaros do Taygeto até ao banquete de Aspasia; desde o sorriso de

Alcibiades até á austeridade do Portico; desde a canção de Anacreonte

até ao drama philosophico de Eschylo e aos sonhos dialogados de Platão.»

Este admiravel, este soberbo trecho, que acabamos de traduzir

integralmente, em que o genio das duas linguas toma forma, em uma outra

lingua, nunca fallada com tal melodia e tal poder, quizera eu que fosse

posto como epigraphe á _Historia do Povo de Israel_, em que Renan

traduziu genialmente sob a divina inspiração do genio Grego, a alma

tumultuosa e sombria, agitada e sequiosa de justiça, dos prophetas da

raça semitica.

Oh! como elles renascem alli nas paginas do grande escriptor, os

fundadores de quanto ha de tremendo e de sombrio na religião que veio

depois a dominar o mundo!

Como alli se reflecte igualmente, na prosa divina do Mestre, a Grecia

que _sobre a Acropole_ lhe revelou o segredo dos seus primores! O

assumpto é o semita, mas a lingua em que essa sublime evocação se fez, o

magico instrumento, atravez do qual nós communicamos com o arido e

difficil assumpto, a inspiração adoravel, que presidiu a este trabalho

de reconstituição historico-religiosa, a arte plastica, com que elle é

genialmente modelado, tudo isso foi colhido pela alma de Renan, abelha

ébria de luz e de perfume e de succos balsamicos, no coração da Grecia!

É só ahi que a Belleza e a Razão têem a mesma fórma e a mesma essencia;

é só ahi que a Venus Amphytrite sorri á musa de Socrates e que a Poesia

e a Religião enredam voluptuosamente a fantasia e a sensibilidade do

homem na mesma rede azul e ouro tecida de sonhos, que são symbolos e de

chimeras entontecedoras, que sao divinas verdades.

Mas quem leu sómente de Renan a _Historia do Povo de Israel_ ficará

conhecendo todo o genio complexo do escriptor?

Decerto que não. Elle é um grego pelo amor da belleza plastica, mas é um

celta pela sensibilidade doentia, pela delicadeza concentrada do seu

genio.

Os que desejarem conhecel-o, precisam de ler tudo que elle escreveu.

Precisam de seguil-o atravez dos meandros, alguns quasi inaccessiveis,

da sua _Historia das origens do Christianismo_.

Precisam de penetrar bem no estranho mysticismo que ha no fundo d'este

temperamento de sceptico; precisam de interrogar os escaninhos

inesperados d'esta imaginação de poeta, que em certas paginas,--como por

exemplo, no sonho de Leolino, na _Eau de Jouvence_, invocando a alma da

adorada irmã morta; nas paginas dulcissimas dos _Souvenirs de Jeunesse_;

na symphonia esplendida que se chama _La Prière sur l'acropole_; na

dedicatoria de um dos seus livros celebres; em trechos dos seus estudos

de _Historia Religiosa_;--attinge uma _virtuosidade_, um poder de

harmonia, excita uma emoção, faz vibrar tão intensamente os nervos do

leitor, que póde bem dizer-se que a lingua falada e escripta se

transforma sob os seus dedos de magico em musica transcendente que

parece vir d'além da terra, em musica que penetra no coração e o

desfallece de delicioso extase.

Pelo mundo fóra · 第 28 / 52 题