Anatole France

I

Conhece porventura o leitor este mestre do estylo, que é francez e

moderno, e podia ser grego e antigo?...

Conhece este discipulo de Renan, discipulo que dispõe de mais liberdade

moral e de mais fogo juvenil que o seu querido e respeitado mestre?

Anatole France é, como Renan, um _charmeur_, mas é mais do que elle--um

voluptuoso.

A sua philosophia, mais _Renanesca_ do que _Hegeliana_, move-se

phantasiosamente em um universo de illusões.

E as fulgidas imagens, sempre renovadas, da sua esplendida imaginação,

reveste-as uma melancolia deliciosa e morbida, como se elle as evocasse

com a consciencia de que lhe mentiam, e as adorasse perdidamente, mesmo

depois de as saber fugitivas, falsas, ephemeras...

Um dos melhores livros que elle tem escripto, e cujas edições se

multiplicam com espantosa rapidez--apezar d'elle o ter no pensamento

dedicado aos delicados, aos _happy few_ de que fala desdenhosamente

Stendhal--chama-se _Thaïs_.

Thaïs é uma _lenda dourada_ dos primeiros seculos christãos, que entre

parenthesis estão sendo apetecivel mina de estudos litterarios, de

poesias, de erudição e de arte.

Tem o livro como personagens principaes Paphnucio, um anachoreta da

Thebaida, de carne mortificada pelos longos jejuns, flagellada pelos

duros cilicios, curtida pelos sóes causticantes do deserto, amachucada

nas caminhadas extenuantes por sobre as penhas bravas e os quentes

areaes--e Thaïs, uma gloriosa e applaudida actriz de Alexandria, bella

como Venus, e intelligente como Aspasia, e prodiga de affagos como as

duas, em que esplendidamente se encarnára para enlouquecer e perder os

homens.

Paphnucio construira nas margens do verde Nilo uma pobre cabana feita de

ramos de arvores e de lodo amassado.

Vivia alli na penitencia e na castidade; na contemplação e no ascetismo.

Obedeciam-lhe e amavam-no as feras do deserto; legiões de anjos, bellos

como adolescentes gregos, visitavam-no de vez em quando na sua Thebaida

escondida; os demonios, com figuras de animaes immundos, vagavam uivando

em torno d'elle e dos solitarios que aqui e ali tinham escolhido para

morada o deserto--e tentavam em vão os santos ascetas.

Quando elles iam de manhã encher as suas bilhas do barro ao poço que os

dessedentava, viam as patas dos satyros e dos faunos travessos impressas

na movediça areia.

Considerada sob o seu verdadeiro aspecto, a Thebaida era um campo de

batalha, onde se travavam a toda a hora, e especialmente de noite, os

maravilhosos combates do inferno e do céu.

Mas tão profunda era a virtude d'esses santos cenobitas que submettia ao

seu poder as proprias féras.

Quando um solitario estava para morrer, vinha um leão abrir-lhe a cova

com as garras. O santo homem, logo que conhecia por este signal que Deus

o chamava a si, ia beijar uma por uma as faces de todos os seus irmãos

espirituaes.

Depois deitava-se sereno e calmo e adormecia no seio do Senhor.

Esta descripção do Deserto e das suas maravilhas, do ascetismo e das

suas visões, da Thebaida e dos allucinados combates que ahi as paixões

humanas travavam com a perfeição ideal, todo este symbolismo _humano_ e

comprehensivel está traçado com mão de mestre.

Parece nos seus lineamentos visiveis a pintura de um _primitivo_, tanto

é certo que só o extremo requinte na Arte sabe traduzir bem a ineffavel

simplicidade.

Paphnucio nascera em Alexandria, de paes nobres, e fôra por elles

instruido na delicia das profanas lettras. Era de muito longe que elle

tivera de partir, para chegar á perfeição santissima da sua vida de

anachoreta christão.

Um dia, porém, lembrou-se por sua desgraça espiritual, ou por seu

aperfeiçoamento superior, que tinha conhecido em Alexandria uma formosa

actriz chamada Thaïs.

Tão bella como a mais bella das suas visões esplendidas do Paraizo e

condemnada á eternidade das penas, á perdição infernal, á ignorancia

absoluta do bem!...

Conhecel-a, lembrar-se nitidamente d'ella e não a salvar, não tentar

salval-a ao menos!...

Paphnucio não pôde submetter-se a esta dura lei.

Deixa, pois, o deserto, procura a cidade faustosa e tentadora onde Thaïs

fazia as delicias e a admiração do povo, e vae arrancar ao inferno a sua

presa deslumbrante.

É necessario fazer notar que ainda bem Paphnucio não começára a

premeditar esta santa empreza, já os demonios que em figuras de chacaes

costumavam uivar lamentosamente em torno de sua cabana, sem comtudo lhe

penetrarem pela porta sempre aberta, se permittiram entrar por ella

dentro, deitando-se perto d'elle, familiarmente, como amigos velhos. Que

encontrariam os demonios na alma do velho cenobita para assim

procederem?...

A graça ironica, a commoção subtil com que estes quadros são traçados,

podem ser indicados pelo commentador, mas não podem ser fielmente

traduzidos por elle.

Ao pé do altivo asceta, que julga ter dentro de si força que baste a

dominar as indominaveis, as omnipotentes paixões humanas, e se considera

com direito de desafiar o Peccado e de o vencer, ha uma encantadora

figura de frade laborioso e simples, que nem chega a odiar o Mal, porque

lhe ignora os requintes tentadores, e que cultiva no deserto um

pequenino jardim e uma horta em miniatura, aceitando o amavel convivio

dos bichos e dos passarinhos, envolvendo no mesmo amor humilde e doce a

vasta natureza cheia de graças e de assombros.

As gazellas vêm apoiar a fina cabeça inquieta nos joelhos do santo: as

figueiras que elle trata dão grandes figos cheios de nectar cuja

contemplação é para elle um regalo innocente.

Este bom homem dá de conselho ao orgulhoso apostolo que se deixe de

tanto zêlo, pois que, vista a impossibilidade em que a gente está de

emendar o mundo, mais vale emendar-se a si proprio de todos os peccados

até d'aquelle que consiste em se julgar impeccavel.

Mas Paphnucio não o quer de fórma alguma attender; isto, seja dito de

passagem, com alegria dos chacaes seus inimigos antigos e agora seus

inopportunos familiares.

* * * * *

Põe-se, portanto, a caminho. Vestido tão sómente de um longo cilicio,

ei-lo que se dirige para o Nilo--no designio de seguir a pé a margem

lybica até á cidade fundada por Alexandre.

Que deliciosa a narração d'esta romaria, feita pela lingua de ouro de

Anatole France! Ha phrases que cantam no ouvido como uma flauta da

Jonia!... ha imagens que se desdobram deante de nós como uma evocação de

magia!

Nem a traducção litteral poderia fazer presentir o encanto rythmico,

emballador, quasi morbido, de requintado que é, d'este estylo em que as

palavras se harmonisam em um concerto ideal, para formarem a mais suave,

e subtil, e suggestiva das musicas.

E emquanto assim se encaminha para Alexandria, Paphnucio foge das

cidades e das aldeias; tem medo de encontrar creanças a brincar na

soleira das portas, mulheres paradas á beira das cisternas, sorrindo

cariciosamente ao peregrino que passava, como a Nosso Senhor a

Samaritana já sorrira.

Quando, ao entardecer, a aragem passava nos tamarindos em flôr, o

sombrio apostolo puxava para o rosto o seu capuz escuro, tal era o

receio que sentia de enternecer-se deante da belleza ineffavel, do

divino mysterio das cousas...

Viu uma enorme sphinge egypcia talhada no rochedo de granito e obrigou-a

a confessar o Santo Nome de Jesus Christo. Encontrou um eremita

bhuddico, todo nú, de barba branca a fluctuar-lhe em ondas no peito

curtido ao sol, e, depois de lhe ouvir a confissão do seu _nihilismo_

absoluto, depois de lhe escutar as blasphemias de um scepticismo sem

fim, ainda tentou convertel-o à fé profunda que lhe abrazava o coração.

A paizagem luminosa e estranha desentranhava-se em maravilhas; o _ibis_

mysterioso e hieratico retratava no liquido espelho do rio o seu longo

pescoço côr de rosa pallido; os salgueiros agitavam a múrmura folhagem

argentea; as cegonhas voavam no céu claro; e nos cannaviaes da margem

escutava-se o grito de outras aves aquaticas.

O valle perdia-se ao longe em ondulações verdes; as aguas palpitavam

como um seio de virgem; a seiva, a vida, a fecundidade, o amor fremente

e creador parecia pullular em tudo, em tudo...

Paphnucio, porém, só pensava na cortezã esbelta e branca, de braços côr

de lyrio e olhos côr de violeta, que em Alexandria representava as

traições de Helena, os delirios de Phédra, o sacrificio da candida

Ephigenia, ante uma turba delirante, que a sua belleza embriagava e

perdia...

Pelo mundo fóra · 第 25 / 52 题