Minha Senhora

Agradeço-lhe muito os seus artigos no _Jornal do Commercio_, e creia V.

que o não faço só por civilidade, ainda que não é cousa que se deva

desdenhar _par le temps qui court_. Não lhe direi que me agradaram os

seus artigos, porque isso é o menos; dir-lhe-hei que me commoveram. Ha

n'elles uma sinceridade, que me encantou, e um tom fraternal que me foi

direito ao coração, onde quero que não morra nunca a vibração d'essas

palavras amigas. Creio que V. se engana na apreciação que fez das

doutrinas chamadas (quanto a mim impropriamente) _pessimistas_ e nos

receios que lhe inspiram as tendencias bhuddicas que começam a

manifestar-se por todos os lados, em sociedades que attingiram o _nec

plus ultra_ da civilisação, ou em individuos que attingiram o _nec plus

ultra_ do pensamento.

Tudo isso, é verdade, está ainda bastante obscuro e confundido com

elementos estranhos e até contradictorios, e por isso me não admira que

não possa ainda ser apreciado sem grandes apprehensões. O meu livrinho,

apenas aqui ou alli em meia duzia dos ultimos sonetos, fere a nota

exacta e sã, porque infelizmente morreu-me o dom dos versos,

precisamente quando começava a pensar e a sentir alguma cousa que

realmente merecesse ser posta em verso.

Não podia elle, tão incompleto e obscuro, justamente onde mais cumpria

que fosse claro e amplo, dissipar aquellas apprehensões, antes era

natural que contribuisse para as radicar. Mas a minha convicção é que

taes apprehensões não são fundadas e que entre os sentimentos naturaes e

espontaneos do coração humano, entre o seu ideal de justiça, de harmonia

e de belleza, e o ponto de vista ascetico do Bhuddismo, não só não ha

contradicção verdadeira, mas que, pelo contrario, é só n'essa esphera

que elles encontram a sua mais perfeita expressão, libertos de muitas

illusões e de muitas imperfeições que lhe andam forçosamente misturadas,

e attingem a plena consciencia do que são e para que são. E seria

singular com effeito que a doutrina, que entre todas, faz consistir no

Bem a verdade suprema da existencia humana, pudesse collidir com

aquelles espontaneos impulsos da nossa natureza, que não são, no fundo,

senão fórmas e momentos, mais ou menos obscuros, mais ou menos

incompletos da nossa fundamental aspiração a esse mesmo Bem!

A, verdade é que a civilisação moderna chegou, no seculo actual, como a

civilisação antiga, no periodo do Imperio Romano, a um ponto em que, sob

pena de completa ruina, o problema metaphysico-psychologico tem de ser

sondado a uma profundidade desusada e proporcional ao gráu superior da

mesma civilisação.

Hoje, como então, as questões metaphysico-psychologicas são a chave de

todas as outras questões porque, tendo o proprio progresso das

instituições e das idéas arruinado os antigos alicerces moraes da

sociedade, a grande questão, a questão vital e inadiavel não é já a do

aperfeiçoamento das instituições nem do augmento dos conhecimentos, mas

a da organisação theorica e pratica da vida moral, a creação da ordem

nas consciencias, em uma palavra a remodelação do _homem interior_, sem

o qual o outro homem, da sociedada e da vida pratica, por forte e sabio

que pareça é mais miseravel que o escravo mais embrutecido.

O progresso gigantesco do naturalismo, filho de uma civilisação poderosa

e complexa como nenhuma, só poderá ser equilibrado por um progresso

equivalente do ascetismo. Sem esse equilibrio a sociedade moderna, que

já hoje nos causa mais terror do que admiração, poderá continuar ainda

por algum tempo de poderosa, tornada formidavel, e, de formidavel,

bestial: mas o homem, o verdadeiro homem, isto é, o homem moral, terá

morrido: e morto elle, tudo cahirá, por que só elle sustenta a grande

mólle social. A sociedade é, antes de tudo, um facto de ordem moral.

Mas não continuo com estas reflexões, porque desejo fazer d'ellas o

assumpto de um escripto, até a certo ponto em resposta aos artigos de V.

e que publicarei em fórma de carta, se V. levar isso a bem.

E termino, minha senhora, pedindo a V, que me consinta assignar-me

d'aqui em diante, como realmente sou, seu muito amigo.--_Anthero de

Quental_»

* * * * *

Esta carta tão bella na fórma, e tão profunda no pensamento, apresenta

porém a contradicção fundamental a que Anthero succumbiu.

O ascetismo é a contemplação mais inerte: o Bem demanda a actividade

mais incansavel, o esforço mais tenaz.

Como conciliar estes dois termos oppostos? Se para o extatico e

contemplativo pensador a quem o _nirvana_ sorri como o supremo fim da

sua ascensão ideal, cada homem não é mais do que um momento que toma

consciencia de si e logo passa, aquelle que na terra procura o Bem e

tenta pelo seu esforço creal-o, sabe que se dissolvem as fórmas em que a

consciencia se encarna, mas que ella, a sublime chamma não se apaga

jámais... Nós os passageiros de um dia que conseguimos por instantes

guardal-a no nosso seio mortal, passamos rapidos sim, mas não antes de a

transmittirmos áquelles que nos succedem sempre mais pura, e sempre mais

intensa...

O patrimonio real da humanidade é este: por este lhe vale a pena padecer

e luctar. Este não morre com as pobres gerações que se succedem como as

folhas das arvores, como as ondas do mar...

Não é pelo Buddhismo antigo, ou pela ascetica renuncia aos bens reaes da

vida que a sociedade tem de salvar-se. É pelo exercicio activo das suas

energias espontaneas, é pela fé na sua missão do bem, na sua ascensão a

qualquer eminencia moral, que ella ainda não antevê de longe, mas que

existe decerto, mas que deve existir, ou este instincto de progresso a

que obedecemos, seria mais uma ironia atroz entre outras tantas!...

A prova de que esse ascetismo a que Anthero recorre na sua bella carta é

esteril, é que elle, querendo salvar por este modo a sua clara

consciencia e o seu espirito genial, veiu acabar na morte voluntaria, no

suicidio banal dos vencidos e dos fracos!

Infelizmente era eu, tão mesquinha, e não elle, tão grande, que tinha

razão, e essa razão, foi o seu acto extremo que m'a veiu dar.

Ninguem pensára mais alto e mais justo que esse homem de uma consciencia

tão delicada, de uma penetração philosophica tão subtil, e cujo

entendimento parecia talhado para as mais elevadas especulações da

metaphysica e da psychologia.

E no emtanto elle não achou outra resolução ao problema que está

presentemente posto deante dos olhos das sociedades extra-civilisadas e

dos individuos que pensam intensamente, senão a do suicidio silencioso.

É profundamente desoladora a phase do espirito humano que, de vez em

quando, se manifesta em factos como este.

Como escapar a este estado de descrença absoluta em qualquer destino

ulterior da nossa especie? Retroceder á boa Natureza, á primitiva

ignorancia dos simples, como manda Tolstoi? Mas em primeiro logar a

natureza não é boa, depois, quem _sabe_ póde porventura, e só por

effeito da sua vontade começar de um dia para o outro a _ignorar_?...

Cada sociedade que chega ao extremo da sua civilisação particular, o

que, exaltando de um lado o orgulho natural do homem, produz por outro,

no espirito d'elle, uma irritação doentia, uma penosa desesperação

resultante dos limites que este acha sempre á sua curiosidade

transcendente--cada sociedade que attinge esta perigosa eminencia, está

por esse mesmo facto, muito proxima da sua fatal degeneração.

Nenhuma civilisação se elevou mais alto nas abstracções do pensamento,

nos arrojos da metaphysica do que esse Bhuddismo em que Anthero de

Quental tentava encontrar a suprema paz da consciencia humana. E o que

tem elle produzido senão resultados negativos, e allucinações doentias?

A civilisação antiga, grega e romana, procurou resolver o problema do

destino do homem divinisando-lhe as paixões, e fazendo a permanente

apotheose da força. E todos sabem em que agonia vasquejante o mundo

antigo se diluiu. A Edade Media teve uma comprehensão harmonica e

grandiosa da vida e do destino humano, mas tanto exigiu do espirito e

tão pouco pensou na fatal realidade, que fez de cada organismo de homem

um anjo e um animal perpetuamente identificados, e ao cabo do sublime

esforço, respondeu-lhe o retrocesso pagão da Renascença.

O mundo moderno quer achar na sciencia a chave do todo o eterno enygma

que até hoje se conserva inviolado, a explicação do universal mysterio

que o envolve e penetra, a resolução de todos os problemas complexos que

se têem accumulado deante do seu espirito em dois ou tres mil annos de

pensamento--e a sciencia impotente, incompleta, desconsoladora não tem

agua que sacie a nossa sêde, não tem piedade que unja a nossa lenta

agonia!

Os melhores abdicam ou pelo indifferentismo inerte, ou pelo suicidio;

que é ainda uma victoria do espirito ultrajado sobre si mesmo!

E um véo de tristeza densa e plumbea envolve este mundo enorme, agitado,

convulso, atravessado de fios electricos que em minutos transmittem de

um ao outro dos seus extremos o pensamento e a palavra; cortado de

locomotivas vertiginosas; abarrotado de riquezas brutas; ebrio de

orgulho material, de luxo e de vaidade; persuadido de que é a realisação

mais completa da felicidade e do triumpho moral do homem; mas tremendo a

cada abalo subterraneo que revele quão minados estão os seus alicerces e

em que movediça areia assentam os seus edificios de Babel!

Comtudo ha uma affirmação, no meio de tantas duvidas e de tanta desordem

mental, que póde ser feita sem medo!

O Bem existe! A consciencia humana conhece-o mesmo quando o atraiçôa ou

o desdenha. É ella que o tem creado em seculos de lucta sublime! Os

humildes de coração são talvez os que estão mais perto das fontes vivas

d'onde elle promana, e é pela humildade e pela acceitação resignada do

seu destino incompleto e triste e eternamente obscuro, que a pobre

humanidade definitivamente se salvará!

Por mais que amenos e veneremos a memoria de Anthero, não podemos pois

achar justo o seu suicidio.

Contentamo-nos em achal-o explicavel.

Pelo mundo fóra · 第 24 / 52 题