II

A primeira vez que, em Alexandria, Paphnucio avista Thaïs é no theatro

em que ella representava a immolação de Polyxena.

Tal contra a linda moça Polyxena

Consolação extrema da mãi velha

Porque a sombra de Achilles a condemna

Co'o ferro o duro Phyrro se apparelha...

Não se lembram do nosso Camões? Era justamente esse lance da epopéa

homerica que Thaïs traduzia pela mimica expressiva e perfeita, a qual,

na decadencia da Arte antiga, suppria agora na scena, viuva dos seus

grandes mestres de outr'ora, a alada, a divina poesia de Euripedes e de

Menandro. Thaïs altiva e doce appareceu ao austero monge dando-lhe, como

dava a todos que a contemplavam «o tragico estremecimento da sua fatal

belleza.»

Segue-se então a lucta travada entre o asceta e todas as seducções pagãs

que circumdavam a cortezã esplendida, para converter esta á religião dos

pobres, dos miseraveis e dos simples.

Thaïs fôra iniciada em pequenina por um escravo negro da Nubia, chamado

Ahmés, n'essa religião que reveste de tão voluptuosas delicias o

sacrificio e a dôr.

Tinha-a mesmo baptisado, em uma época de perseguições e de angustias, o

bispo proscripto de Cyreno, que pela Egreja soffrêra os mais horrendos

martyrios.

E toda a dulcissima e piedosa lenda evangelica lhe fôra contada

baixinho, pela voz queixosa e cantante do misero escravo negro, quando

Thaïs, maltratada pelos paes, sem tecto carinhoso que lhe abrigasse o

corpinho infantil, torturado de açoites, ia deitar-se á noite a um canto

do estabulo, entre animaes domesticos, com Ahmés perto d'ella--sentado

sobre os calcanhares, as pernas dobradas, o busto direito na altitude

hereditaria da sua raça, e o rosto negro banhado n'aquella divina luz de

esperança e de misericordia com que a estrella de Bethlem tem, durante

dezenove seculos, inundado, casta e divina, os desherdados de todo o bem

terrestre.

Portanto, não a espantou em excesso a apparição do monge, depois de uma

vida consagrada ao prazer, que lhe dera o tédio sem lhe dar a

felicidade.

Só um momento, durante esses vinte annos de embriaguez hyper-aguda, ella

conhecêra a ephemera felicidade de amar. As lagrimas que chorou tinham

tido para a pobre um sabor acre e doce ao mesmo tempo. Nesse amor

encontrára tudo--até a perdida innocencia e a divina puerilidade da sua

fé. A bella cortezã de Alexandria realizára o delicioso pensamento do

poeta, e tambem ella, como a Marion dos perdidos amores, podia repetir

exultante:

_Et l'amour m'a refait une virginité_

Mas subito esse homem, que de todos lhe parecêra diverso, appareceu-lhe

tal como os outros todos, e ella fugiu espavorida, para não vêr mais a

imagem da sua illusão que se partira.

Conheceu depois a gloria, os applausos, os enthusiasmos, as adorações

febris, que duravam uma hora e que se tinham julgado eternas.

Por ella os philosophos se fizeram crianças credulas; os voluptuosos

tiveram a coragem do suicidio; deram-lhe thesouros os avarentos;

lagrimas, os egoistas; os poetas chamaram-lhe a sua Musa; os politicos

esqueceram, para se demorarem aos seus pés, o bem dos Estados e os

requintes que ha no prazer do mando.

E Thaïs, indifferente a todos e com todos brincando cruelmente,

conservava no fundo da sua alma a recordação indistincta e vaga d'esse

mundo mysterioso de que lhe tinham revelado o encanto.

Supersticiosa e cheia de ancia indefinida, tinha a sêde atormentadora do

desconhecido, a que faz as santas, as arrependidas sublimes, e as

loucas...

Quando Paphnucio lhe appareceu, cedeu quasi que sem resistencia á rude

voz que a chamava para o aspero caminho dos penitentes. Para seguir o

seu implacavel mestre deixou os banquetes em que a acclamavam, sob os

bellos e poeticos nomes da poesia antiga, os homens mais opulentos e

considerados da Alexandria, os poetas, os rhetoricos, os sacerdotes de

Serapis, os dandys do tempo, preoccupados como os de hoje, com a arte de

amestrar bellos cavallos e de enamorar bellas mulheres.

Para o seguir, deu ordem aos numerosos escravos que a serviam, que

queimassem os seus thesouros de arte: os cofres de marfim, de ebano e

cedro, que, entreabrindo-se, deixavam cahir corôas, grinaldas, collares

esplendidos; e os seus ricos tapetes, os seus bordados de prata, as

tapeçarias floridas, os leitos faustosos, os coxins macios: e as

estatuas de nymphas que pareciam animadas como mortaes: e o Eros eburneo

a quem se attribuiam maravilhosas e não sabidas virtudes, e que valia o

seu peso centuplicado em ouro.

Para o seguir, desprezou os seus vestidos brilhantes; os mantos de

purpura; as sandalias de ouro; os pentes, os espelhos, as lampadas

cinzeladas por industriosas mãos de escravos artistas; as theorbas, as

lyras:--todos os instrumentos da sua seducção complicada e subtil, todas

as bellas cousas que representavam as recordações de uma vida de luxo,

de opulencia e de amor... Não a prendeu a gloria de actriz estremecida;

chamavam-lhe a clara estrella, a doce lua do céu alexandrino, e o rude

solitario arrebatou-a falando-lhe em penitencias duras e em

flagelladores cilicios, em lagrimas de vergonha e de amargura choradas

ao pé da Cruz.

--Mulher, dizia-lhe o monge com voz colerica, arrastando-a comsigo ao

longo da costa--vê esse enorme mar azul. Nem toda a agua que elle tem

póde lavar as tuas manchas asquerosas!

E emquanto elle a apostrophava com a eloquencia do mais impetuoso e

ardente horror, relembrando-lhe uma por uma, com minuciosidades de

confessor, as ignominias em que se perdera o seu corpo, que Deus fizera

tão bello, Thaïs seguia-o docilmente sob o sol abrazador, e por cima dos

penhascosos caminhos, onde os seus pés nús, tão lindos, tantas vezes

cobertos de beijos, se desfaziam em sangue.

* * * * *

Todas estas paginas que contam o piedoso furor do apostolo, e a

humildade ineffavel da peccadora arrependida, estão escriptas com uma

paixão acre e flammejante.

Vê-se bem que o inferno e todas as suas furias estão dentro d'esse

orgulhoso coração de monge, que se julga acima do Peccado e que é

vencido pela força irreductivel de um Poder que elle negou.

Thaïs, não; essa arrependida e submissa é em Christo que pensa e a sua

alma anceia por desprender-se do impuro corpo, para subir, lavada em

lagrimas, ao seio eternamente misericordioso do Homem Divino que perdoou

á Magdalena, e que não consentiu que fosse lapidada a mulher adultera

pelos que não tinham direito de a julgar.

A ultima parte do livro está impregnada de uma ironia, delicada como

tudo que sae da penna de Anatole France, mas destoante da opulencia da

côr e de estylo que inspiram as duas primeiras partes.

Consiste toda ella na narração das penitencias a que Paphnucio se

entrega logo que percebe nitidamente que o zelo que o levou a salvar

Thaïs conduzida por elle a um convento de mulheres--não é tão puro nem

tão desinteressado como na sua illusão a respeito de si proprio elle

suppuzera até alli.

As penitencias ás vezes chegam a ser de um comico _voltaireano_.

Exemplo: a columna no alto da qual, mystico acrobata, elle se

encarapitou um tão longo espaço de tempo, que em volta d'este novo Simão

o _Stylita_ construiu-se uma grande cidade com todas as abominações mais

ou menos legalisadas, que ha sempre nos centros populosos.

Paphnucio dizia, porém, aos bispos e á brilhante clerezia, que

attrahidos pela fama da sua virtude rara, e dos milagres que ella

operava sobre enfermos epilepticos, coxos, cégos, manetas etc., etc.,

vinham cumprimental-o e visital-o de muito longe:

--«Meus irmãos, a penitencia que me imponho é nada em comparação das

tentações que tenho, e cujo numero e força me espantam. Um homem visto

de fóra é pequeno, e do alto da columna a que Deus me elevou, vejo os

seres humanos agitarem-se como formigas. Mas considerado interiormente,

o homem é immenso; é grande como o mundo porque o contém em si... Tudo

que se extende ante os meus olhos, esses mosteiros, essas casas, essas

barcas sobre o rio, essas aldêas, e o que descubro ao longo de campos,

de canaes, de areias, de montanhas, tudo isso é _nada_ ao pé do que eu

tenho aqui dentro! Ha no meu coração cidades innumeras e desertos sem

fim. E o mal, o mal e a morte extendidos por sobre essa immensidade,

cobrem-na, como a noite cobre a terra. Eu sósinho contenho um Universo

de pensamentos máus.»

Falava assim, accrescenta Anatole France, porque o _amor da mulher_,

como uma serpente, se lhe enroscára no seio.

* * * * *

O final do livro, ou antes, a moral do livro é esta: Presente-se a

salvação da cortezã arrependida que trouxera sempre, dentro do seu corpo

manchado, a saudade nostalgica do ignoto bem, a chaga aberta e sangrenta

de uma aspiração insaciada--e a perdição do apostolo orgulhoso, que déra

ao seu desejo, á sua paixão terrena, a fórma de um fanatico

proselytismo, e que tão rudemente falava ás gentes do Peccado e da

Virtude.

Que quer Anatole France provar? pergunta a critica conspicua, um pouco

escandalisada d'esta orgia de estylo, de descripções, de paizagens, de

_dilettantismo_ artistico.

Cá por mim imagino que elle não quiz provar nada.

Quiz fazer divagar a sua imaginação de poeta pelos desertos onde os

monges vivem penitentes e castos, e pelas cidades douradas e luxuosas

onde as actrizes bebem em taças de crystal as perolas diluidas de uma

adoração voluptuosa.

Quiz levar-nos ao banquete do opulento pagador das esquadras de

Alexandria, onde philosophos e poetas discreteiam com a elegancia e o

requinte da civilisação de Bysancio. Quiz fazer-nos penetrar na alma de

uma louca mulher d'aquelle tempo, tão bella que, em ella entrando na

sala do festim, coberta de flôres naturaes, parecia emprestar a estas a

sua vida e receber d'ellas o mimo, a frescura o encanto virginal.

Quiz--é este o sentido profundo e philosophico do seu livro--dizer-nos

que ás vezes os que apresentam mais austera virtude são os que trazem

mais serpentes venenosas no coração pharisaico, incapaz de indulgencia e

de perdão, e que o arrependimento, quando é sincero, humilde, e parte de

uma alma sedenta do infinito e capaz de o conter em si, póde resgatar

grandes erros e lavar na fonte crystallina das suas lagrimas, muita

nodoa de que o mundo, o impeccavel mundo, costuma fugir enojado e

austero...

Pelo mundo fóra · 第 26 / 52 题