A primeira vez que, em Alexandria, Paphnucio avista Thaïs é no theatro
em que ella representava a immolação de Polyxena.
Tal contra a linda moça Polyxena
Consolação extrema da mãi velha
Porque a sombra de Achilles a condemna
Co'o ferro o duro Phyrro se apparelha...
Não se lembram do nosso Camões? Era justamente esse lance da epopéa
homerica que Thaïs traduzia pela mimica expressiva e perfeita, a qual,
na decadencia da Arte antiga, suppria agora na scena, viuva dos seus
grandes mestres de outr'ora, a alada, a divina poesia de Euripedes e de
Menandro. Thaïs altiva e doce appareceu ao austero monge dando-lhe, como
dava a todos que a contemplavam «o tragico estremecimento da sua fatal
belleza.»
Segue-se então a lucta travada entre o asceta e todas as seducções pagãs
que circumdavam a cortezã esplendida, para converter esta á religião dos
pobres, dos miseraveis e dos simples.
Thaïs fôra iniciada em pequenina por um escravo negro da Nubia, chamado
Ahmés, n'essa religião que reveste de tão voluptuosas delicias o
sacrificio e a dôr.
Tinha-a mesmo baptisado, em uma época de perseguições e de angustias, o
bispo proscripto de Cyreno, que pela Egreja soffrêra os mais horrendos
martyrios.
E toda a dulcissima e piedosa lenda evangelica lhe fôra contada
baixinho, pela voz queixosa e cantante do misero escravo negro, quando
Thaïs, maltratada pelos paes, sem tecto carinhoso que lhe abrigasse o
corpinho infantil, torturado de açoites, ia deitar-se á noite a um canto
do estabulo, entre animaes domesticos, com Ahmés perto d'ella--sentado
sobre os calcanhares, as pernas dobradas, o busto direito na altitude
hereditaria da sua raça, e o rosto negro banhado n'aquella divina luz de
esperança e de misericordia com que a estrella de Bethlem tem, durante
dezenove seculos, inundado, casta e divina, os desherdados de todo o bem
terrestre.
Portanto, não a espantou em excesso a apparição do monge, depois de uma
vida consagrada ao prazer, que lhe dera o tédio sem lhe dar a
felicidade.
Só um momento, durante esses vinte annos de embriaguez hyper-aguda, ella
conhecêra a ephemera felicidade de amar. As lagrimas que chorou tinham
tido para a pobre um sabor acre e doce ao mesmo tempo. Nesse amor
encontrára tudo--até a perdida innocencia e a divina puerilidade da sua
fé. A bella cortezã de Alexandria realizára o delicioso pensamento do
poeta, e tambem ella, como a Marion dos perdidos amores, podia repetir
exultante:
_Et l'amour m'a refait une virginité_
Mas subito esse homem, que de todos lhe parecêra diverso, appareceu-lhe
tal como os outros todos, e ella fugiu espavorida, para não vêr mais a
imagem da sua illusão que se partira.
Conheceu depois a gloria, os applausos, os enthusiasmos, as adorações
febris, que duravam uma hora e que se tinham julgado eternas.
Por ella os philosophos se fizeram crianças credulas; os voluptuosos
tiveram a coragem do suicidio; deram-lhe thesouros os avarentos;
lagrimas, os egoistas; os poetas chamaram-lhe a sua Musa; os politicos
esqueceram, para se demorarem aos seus pés, o bem dos Estados e os
requintes que ha no prazer do mando.
E Thaïs, indifferente a todos e com todos brincando cruelmente,
conservava no fundo da sua alma a recordação indistincta e vaga d'esse
mundo mysterioso de que lhe tinham revelado o encanto.
Supersticiosa e cheia de ancia indefinida, tinha a sêde atormentadora do
desconhecido, a que faz as santas, as arrependidas sublimes, e as
loucas...
Quando Paphnucio lhe appareceu, cedeu quasi que sem resistencia á rude
voz que a chamava para o aspero caminho dos penitentes. Para seguir o
seu implacavel mestre deixou os banquetes em que a acclamavam, sob os
bellos e poeticos nomes da poesia antiga, os homens mais opulentos e
considerados da Alexandria, os poetas, os rhetoricos, os sacerdotes de
Serapis, os dandys do tempo, preoccupados como os de hoje, com a arte de
amestrar bellos cavallos e de enamorar bellas mulheres.
Para o seguir, deu ordem aos numerosos escravos que a serviam, que
queimassem os seus thesouros de arte: os cofres de marfim, de ebano e
cedro, que, entreabrindo-se, deixavam cahir corôas, grinaldas, collares
esplendidos; e os seus ricos tapetes, os seus bordados de prata, as
tapeçarias floridas, os leitos faustosos, os coxins macios: e as
estatuas de nymphas que pareciam animadas como mortaes: e o Eros eburneo
a quem se attribuiam maravilhosas e não sabidas virtudes, e que valia o
seu peso centuplicado em ouro.
Para o seguir, desprezou os seus vestidos brilhantes; os mantos de
purpura; as sandalias de ouro; os pentes, os espelhos, as lampadas
cinzeladas por industriosas mãos de escravos artistas; as theorbas, as
lyras:--todos os instrumentos da sua seducção complicada e subtil, todas
as bellas cousas que representavam as recordações de uma vida de luxo,
de opulencia e de amor... Não a prendeu a gloria de actriz estremecida;
chamavam-lhe a clara estrella, a doce lua do céu alexandrino, e o rude
solitario arrebatou-a falando-lhe em penitencias duras e em
flagelladores cilicios, em lagrimas de vergonha e de amargura choradas
ao pé da Cruz.
--Mulher, dizia-lhe o monge com voz colerica, arrastando-a comsigo ao
longo da costa--vê esse enorme mar azul. Nem toda a agua que elle tem
póde lavar as tuas manchas asquerosas!
E emquanto elle a apostrophava com a eloquencia do mais impetuoso e
ardente horror, relembrando-lhe uma por uma, com minuciosidades de
confessor, as ignominias em que se perdera o seu corpo, que Deus fizera
tão bello, Thaïs seguia-o docilmente sob o sol abrazador, e por cima dos
penhascosos caminhos, onde os seus pés nús, tão lindos, tantas vezes
cobertos de beijos, se desfaziam em sangue.
* * * * *
Todas estas paginas que contam o piedoso furor do apostolo, e a
humildade ineffavel da peccadora arrependida, estão escriptas com uma
paixão acre e flammejante.
Vê-se bem que o inferno e todas as suas furias estão dentro d'esse
orgulhoso coração de monge, que se julga acima do Peccado e que é
vencido pela força irreductivel de um Poder que elle negou.
Thaïs, não; essa arrependida e submissa é em Christo que pensa e a sua
alma anceia por desprender-se do impuro corpo, para subir, lavada em
lagrimas, ao seio eternamente misericordioso do Homem Divino que perdoou
á Magdalena, e que não consentiu que fosse lapidada a mulher adultera
pelos que não tinham direito de a julgar.
A ultima parte do livro está impregnada de uma ironia, delicada como
tudo que sae da penna de Anatole France, mas destoante da opulencia da
côr e de estylo que inspiram as duas primeiras partes.
Consiste toda ella na narração das penitencias a que Paphnucio se
entrega logo que percebe nitidamente que o zelo que o levou a salvar
Thaïs conduzida por elle a um convento de mulheres--não é tão puro nem
tão desinteressado como na sua illusão a respeito de si proprio elle
suppuzera até alli.
As penitencias ás vezes chegam a ser de um comico _voltaireano_.
Exemplo: a columna no alto da qual, mystico acrobata, elle se
encarapitou um tão longo espaço de tempo, que em volta d'este novo Simão
o _Stylita_ construiu-se uma grande cidade com todas as abominações mais
ou menos legalisadas, que ha sempre nos centros populosos.
Paphnucio dizia, porém, aos bispos e á brilhante clerezia, que
attrahidos pela fama da sua virtude rara, e dos milagres que ella
operava sobre enfermos epilepticos, coxos, cégos, manetas etc., etc.,
vinham cumprimental-o e visital-o de muito longe:
--«Meus irmãos, a penitencia que me imponho é nada em comparação das
tentações que tenho, e cujo numero e força me espantam. Um homem visto
de fóra é pequeno, e do alto da columna a que Deus me elevou, vejo os
seres humanos agitarem-se como formigas. Mas considerado interiormente,
o homem é immenso; é grande como o mundo porque o contém em si... Tudo
que se extende ante os meus olhos, esses mosteiros, essas casas, essas
barcas sobre o rio, essas aldêas, e o que descubro ao longo de campos,
de canaes, de areias, de montanhas, tudo isso é _nada_ ao pé do que eu
tenho aqui dentro! Ha no meu coração cidades innumeras e desertos sem
fim. E o mal, o mal e a morte extendidos por sobre essa immensidade,
cobrem-na, como a noite cobre a terra. Eu sósinho contenho um Universo
de pensamentos máus.»
Falava assim, accrescenta Anatole France, porque o _amor da mulher_,
como uma serpente, se lhe enroscára no seio.
* * * * *
O final do livro, ou antes, a moral do livro é esta: Presente-se a
salvação da cortezã arrependida que trouxera sempre, dentro do seu corpo
manchado, a saudade nostalgica do ignoto bem, a chaga aberta e sangrenta
de uma aspiração insaciada--e a perdição do apostolo orgulhoso, que déra
ao seu desejo, á sua paixão terrena, a fórma de um fanatico
proselytismo, e que tão rudemente falava ás gentes do Peccado e da
Virtude.
Que quer Anatole France provar? pergunta a critica conspicua, um pouco
escandalisada d'esta orgia de estylo, de descripções, de paizagens, de
_dilettantismo_ artistico.
Cá por mim imagino que elle não quiz provar nada.
Quiz fazer divagar a sua imaginação de poeta pelos desertos onde os
monges vivem penitentes e castos, e pelas cidades douradas e luxuosas
onde as actrizes bebem em taças de crystal as perolas diluidas de uma
adoração voluptuosa.
Quiz levar-nos ao banquete do opulento pagador das esquadras de
Alexandria, onde philosophos e poetas discreteiam com a elegancia e o
requinte da civilisação de Bysancio. Quiz fazer-nos penetrar na alma de
uma louca mulher d'aquelle tempo, tão bella que, em ella entrando na
sala do festim, coberta de flôres naturaes, parecia emprestar a estas a
sua vida e receber d'ellas o mimo, a frescura o encanto virginal.
Quiz--é este o sentido profundo e philosophico do seu livro--dizer-nos
que ás vezes os que apresentam mais austera virtude são os que trazem
mais serpentes venenosas no coração pharisaico, incapaz de indulgencia e
de perdão, e que o arrependimento, quando é sincero, humilde, e parte de
uma alma sedenta do infinito e capaz de o conter em si, póde resgatar
grandes erros e lavar na fonte crystallina das suas lagrimas, muita
nodoa de que o mundo, o impeccavel mundo, costuma fugir enojado e
austero...