II

Quando o livro dos _Sonetos_ appareceu escrevi eu um estudo sobre elles,

que não tinha, já se vê, outro merecimento além de uma sinceridade

absoluta e de uma immensa sympathia.

Lembra-me de que lamentava do fundo da alma que o auctor d'essas bellas

poesias tão raras na nossa litteratura,--a qual como todas as

litteraturas meridionaes não pecca pelo _excesso de pensamento_--tivesse

consummido a vida, que tão bellas cousas podia dar-lhe, mettido em si

mesmo, n'aquella especie de meditação allucinada que se traduzia, é

verdade, em versos magnificos, mas versos que eram, como as perolas,

productos de uma dôr mortal.

E revoltava-me contra a solidão mental em que Anthero se concentrára,

contra as hesitações do seu querer, contra as fluctuações do seu

pensamento, contra o pessimismo bhuddico da sua doutrina, contra tudo

que fizera d'elle um philosopho germanico, ou um sonhador nebuloso e

doente, e o separava da vida, da vida que tem tantos risos no meio das

suas charnecas desoladas, ou dos seus sarçaes cheios de espinhos e de

reptis....

Mesmo com o risco de parecer vaidosa, não quero deixar de offerecer aos

meus leitores, a carta, até hoje _absolutamente inedita_, que Anthero de

Quental me escreveu então, depois de ter lido os meus artigos que se

publicaram primitivamente no _Jornal do Commercio_ de Lisboa, e que hoje

estão incluidos no volume intitulado _Alguns homens do meu tempo_.

Ahi vae a formosa e eloquente carta:

«Porto, 24 de dezembro.

Pelo mundo fóra · 第 23 / 52 题