I
Hesito em falar ainda de Anthero de Quental! Succedeu um tão silencioso
esquecimento ao pasmo, ao sobresalto da primeira noticia do seu
suicidio!... E no emtanto, se havia physionomia complexa, suggestiva,
capaz de interessar e de captivar o nosso espirito era a d'este poeta de
tão requintada e extrema delicadeza de inspiração e de pensamentos.
A primeira impressão que recebi da sua morte, foi tão violenta e
dolorosa que em vão tentei traduzil-a em palavras, ou mettel-a no molde
imperfeito e rude de uma apreciação critica qualquer.
É hoje sómente, depois de volvido um mez ou mais sobre esse suicidio,
que devia enluctar as lettras portuguezas, que eu me atrevo a conversar
com os leitores a respeito d'elle.
O livro dos _Sonetos_, saudado na sua primeira apparição com sincero e
quasi religioso enthusiasmo, póde considerar-se como a completa
confissão d'aquella alma combalida, que procurou na Morte o extremo
refugio contra as luctas asperas do Pensamento, contra as chimeras
perseguidoras da Imaginação.
Se o considerarmos do ponto de vista pratico e material, d'onde a maior
parte da gente se colloca para julgar os homens e as cousas, Anthero não
era realmente um infeliz.
Tinha, pelo contrario, mil predicados, mil qualidades invejaveis.
Tinha, primeiro de tudo, um superior e bello talento incontestado; tinha
a sufficiente abastança para _não precisar viver d'elle_--o que eu pelo
menos considero o maior dos bens--tinha a adoração dos amigos (que lhe
chamavam _Santo Anthero_), o respeito dos estranhos, a par de uma
consciencia immaculada que no exercicio do bem encontrava permanente e
ineffavel consolo; tivera até na mocidade o raro dom de uma belleza de
Christo, espiritual, meiga e serena.
E, comtudo, apezar de tantas circumstancias que se reuniam para dever
tornar-lhe doce a vida, depois da leitura d'aquelles _sonetos_
magistraes, em que tão requintadas amarguras e tão estranhos supplicios
se crystallisavam, por assim dizer, em perolas maravilhosas, não havia
leitor que não sentisse esta interrogação desabrochar-lhe nos labios:
onde é que este homem tão tranquillamente e tão lucidamente desesperado
encontra a força de continuar a viver?
O suicidio do grande poeta responde agora, lugubre, mas coherente,
terrivel mas logico, á irresistivel pergunta.
O pessimismo de Anthero não era, como a maior parte dos que nós por ahi
conhecemos, um pessimismo pessoal, egoista, limitado ás contradicções e
ás tristezas do seu proprio destino.
Era um pessimismo philosophico, como o de Leopardi, como o de
Schopenhauer, como o de Leconte de Lisle.
A sua concepção da vida, tão triste que faz horror e espanto, traduz-se
no soneto: _A Divina Comedia_, em que elle figura os homens erguendo
para os remotos céus os braços desesperados e apostrophando esses deuses
que só produziram a Dôr, a Paixão, o Peccado, as Illusões, as luctas
fratricidas.
«Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe
Ter ficado a dormir eternamente?
Porque é que para a dôr nos evocastes?»
Mas os deuses com voz ainda mais triste,
Dizem:--«Homens! porque é que nos criastes?»
A Morte, não sob uma fórma repellente e odiosa, mas attrahente como
esphynge, perturbante e voluptuosa como sereia que vem cantar a sua
cantilena de seducção á flôr das aguas de um verde glauco, a Morte,
revestida de um mysterioso encanto subjugador e estranho, paira por
sobre todas os paginas d'este livro, impregnando-as de subtil e
contagiosa tristeza.
Dir-se-hia que os _sonetos_ lhe são quasi inteiramente consagrados. É a
_ella_ que elle vê sempre, chamando-o, chamando-o baixinho,
entontecendo-o com as promessas do seu silencio eterno, da sua paz
profunda e vasta, do seu mysterio que ninguem soube ainda violar.
Anthero pensára tanto que o cérebro esgotado pedia emfim misericordia. A
sua ambição não fôra de vãs glorias, nem vãos triumphos; quizera
levantar uma ponta d'esse véo que esconde a eterna Verdade, além da qual
tantas gerações humanas têem sonhado com alguma cousa de inextinguivel e
de eterno.
E essa agonia intellectual que o dilacerou exprime-se em todos os seus
versos, com uma potencia maravilhosa, e uma energia devoradora que
acabou por consumil-o!
_A illusão, o vasio universal_, que encarava ao sahir das suas
vertiginosas contemplações metaphysicas, faziam-n'o recuar pavido e
tremente. A vida não lhe dava o que elle queria; para áquem d'esse vasto
mundo invisivel que a sua alma de sonhador presentia e pelo qual ella
anciava, nada havia que lhe satisfizesse a sêde ideal. Por isso Anthero,
fugindo voluntariamente d'elle, foi buscar a sua amiga de todas as
horas, aquella que podia entregar-lhe a chave do eterno enygma que o
desesperava; a
_«Morte! irmã do Amor e da Verdade»_
* * * * *
A proposito do suicidio de Anthero, falou-se muito de tres suicidios
tambem famosos que o precederam; mas realmente, a não ser pela
notoriedade que os assignala, eu não sei que elles tenham comparação com
o d'este poeta. Nem Camillo, nem Julio Cesar Machado nem Soares dos Reis
se mataram pelos motivos transcendentes que actuáram no animo de Anthero
de Quental.
Os tres mataram-se porque soffriam mais do que é dado aos seres humanos
soffrer sem procurarem no anniquilamento a paz invocada entre
supplicios.
Um d'elles, Camillo, artista de nervos exasperados pela cegueira,
temperamento de hysterico para o qual a resignação era uma virtude
impossivel, matou-se para fugir ás trevas densas de uma lobrega morte em
que se sentia perdido!
Julio Cesar Machado matou-se porque, no meio do mundo hostil que não
satisfizera nenhuma das ambições da sua pobre alma delicada e sonhadora,
elle concentrava as affeições todas do seu coração, os ultimos sonhos da
sua phantasia, a esperança, a suprema gloria, no amor de um filho que se
suicidára com 19 annos!--deixando-o só. O infeliz enlouqueceu e matou-se
tambem...
Sobre a morte de Soares dos Reis paira uma sombra de mysterio. Quem sabe
que luctas intimas, que drama de paixão intensa e dolorosa esse suicidio
não veio rematar!
A morte de Anthero obedeceu a outro genero de impulsos. Não digo que
para ella não concorresse tambem o estado de miseria moral e de anarchia
mental em que via a sua patria (da qual havia pouco elle tinha
porventura esperado qualquer acto de energica reacção contra o destino),
mas a sua dôr era uma d'estas dôres de ordem aristocratica e rara, que
não se originam como as da maioria dos homens no coração, mas que emanam
do espirito cançado de cogitar em vão no mysterio impenetravel das
cousas...
Querem vêr os espectros que enchiam de pavor sagrado as suas noites?
Ouvi este _soneto_ que é, como todos os outros, pagina solta de uma
confissão intellectual complicada e dolorosa, tal como um Pascal ou um
Amiel a escreveram tambem cada um, já se vê, na sua respectiva esphera,
um nos seus immortaes _Pensamentos_, outro no seu _jornal_ tão
caracteristico e tão pouco comprehendido:
Espectros que velais emquanto a custo
Adormeço um momento, e que inclinados
Sobre os meus somnos curtos e cançados
Me encheis as noites de agonia e susto!...
De que me vale a mim ser puro e justo,
E entre combates sempre renovados,
Disputar dia a dia á mão dos fados
Uma parcella do saber augusto.
Se a minh'alma ha de vêr sobre si fitos
Sempre esses olhos tragicos, malditos!
Se até dormindo, com angustia immensa
Bem os sinto verter sobre o meu leito,
Uma a uma, verter sobre o meu peito
As lagrimas geladas da descrença!
Foram estas as dôres que o mataram. A sua consciencia não achava repouso
em nenhuma das concepções do Universo em que alternativamente tentava
acolher-se.
Ora, dirigindo-se á meiga Virgem do Catholicismo elle a invocava com
infantil simplicidade; ora punha na _mão direita_ de Deus o seu coração
cançado, e lhe ordenava que alli _dormisse eternamente_; ora achava que
a Duvida tinha soprado sobre o mundo _um vento de ruina e de morte_, que
tudo emmurchecêra, que tudo apagára, deixando apenas uma humilde e
mysteriosa flôr desabrochar a medo no fundo da consciencia humana.
Aspirava ao _nirvâna_, á paz inconsciente; queria cahir n'aquelle _vacuo
tenebroso_ onde na _immobilidade indefinida termina o ser inerte,
ocioso_; e ao mesmo tempo a comprehensão atavica da eternidade catholica
torturava-lhe em horas de lucta o inquieto espirito.
Que aspiração intensa ao ideal, a d'este formoso espirito alado! Que
sublimes tormentos os seus, procurando sem descanço a verdade e a
luz!...
Mas sempre, em todas as phases d'esta interna lucta que talvez fizesse
sorrir alguns dos leitores dos _sonetos_ emquanto o suicidio do poeta
lhe não deu o seu fundo de lugubre realidade,--Anthero chamou pela
Morte, a invocou, lhe sorriu, lhe deu os nomes mais bellos, os mais
doces, os mais apaixonados!
D'elle se pôde dizer que foi _um amante da Morte_, amante austero e
triste, mas nem por isso menos fervoroso e ardente
Por motivos inteiramente diversos dos seus, tambem Santa Thereza, a
apaixonada castelhana, chamou a Morte com aquelles mesmos arroubos de
extase que nos surprehendem e nos fazem estremecer a nós, pobres
creaturas feitas de carne melindrosa e fragil, a quem o soffrimento
repugna, e a sepultura com a sua podridão infecta repelle
formidavelmente.
Digam-me se ha em lingua alguma expressão de dôr mais completa do que a
d'este _soneto_ a que Anthero pôz o titulo de _Despondency_ por não
achar em portuguez um termo que rigorosamente correspondesse ao estado
de resignada e tranquilla desesperança que elle traduz:
Deixal-a ir, a ave, a quem roubáram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as azas partidas a levaram...
Deixal-a ir, á vella que arrojaram
Os tufões pelo mar na escuridade,
Quando a noite surgiu na immensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram...
Deixal-a ir a alma lastimosa,
Que perdeu a paz e fé e confiança
Á morte quêda, á morte silenciosa...
Deixal-a ir a nota desprendida
De um canto extremo e a ultima esperança...
E a vida... e o amor... deixal-a ir a vida!
* * * * *
Não ha por tudo isto motivos para espanto no suicidio de Anthero. Elle
não era, como já dissémos, um escriptor de officio, que de proposito
exacerbasse e cultivasse em si proprio o desespero e as lagrimas, para
as transformar em rhetorica _livresca_; não tinha tambem um vão amor de
gloria indesculpavel em quem sondava com tão penetrante e lucido olhar o
vasio de todas essas chimeras, a ephemera duração de tudo que é da
terra...
Era uma alma sincera e torturada, que naturalmente desafogava o seu
sentir tanta vez contradictorio e doentio, em versos de uma magia
dolorosa, de uma graça delicada e triste, de uma profundidade de
expressão inegualavel, e n'esses versos só uma nota era constante: _o
elogio da Morte_.
Invocou-a sempre, chamou por ella, coroou-a de funebres flôres,
supplicou-lhe que o accolhesse no seu regaço frio, achando emfim que
depois do _mal de haver nascido_ não havia senão um bem: tornar ao Nada.