XIII

Uma das horas mais commovidas da minha vida foi aquella em que entrei

nos _Invalidos_ para vêr o tumulo de Napoleão.

Sei bem que é esta uma excursão obrigada aos viajantes da agencia Cook,

aos _touristes_ prud'hommescos da provincia, aos _badauds_ de todas as

origens, procedencias e classes.

Mas terão esses porventura sufficiente poder para banalisar uma figura

como a do Imperador?

Depois, eu fui criada por uma mãe enthusiastica de gloria, no culto

quasi fanatico de Napoleão.

Para mim elle nunca foi, como para os meus compatriotas do principio do

seculo, o _ogre da Corsega_, o monstro peior que Nero e Caligula. Pelo

contrario. As manchas do seu caracter só muito mais tarde a historia

m'as fez conhecer. Na minha mocidade não me falavam senão nos

esplendores da sua fama e nos prodigios da sua heroicidade.

Tantas mudanças teem passado pela França desde que, em uma ilha

solitaria e longinqua do Oceano, o grande homem expirou, renegado e

abandonado por todos os seus, que eu receiava encontrar lá muito

esmorecida a sua memoria, muito apagados os vestigios de sua passagem.

Enganei-me. A lenda napoleonica resuscita com insolito vigor n'essa

França de que ella foi a gloria ultima e inultrapassavel!

Havia n'essa occasião justamente em Paris a exposição dos quadros de

Meissonier, e essa exposição admiravel dominavam-n'a dois quadros, que

nunca mais podem ser esquecidos depois de uma vez terem sido vistos.

O primeiro quadro intitula-se _1807_. É Napoleão depois de _Friedland_,

triumphante, glorioso, acclamado.

O Imperador ainda magro, esbelto e sobrio, monta o seu lendario cavallo

branco, rodeia-o um estado maior de marechaes deslumbrante e numeroso, a

cada titulo dos quaes esta ligado um nome retumbante de batalha e de

gloria; os seus granadeiros admiraveis, a sua velha guarda fanatisada e

invencivel acclama-o em gritos que positivamente se _ouvem_ na tela

palpitante de Meissonier.

É o momento culminante da epopeia grandiosa. Sobejam os assombros, os

crimes apparecem n'um esplendor de purpura que lembra menos a côr do

sangue do que a côr da aurora!

A tyrannia já se revela em mil symptomas da vida do conquistador e da

vida do imperante. Os povos já perguntam n'um brado ululante de angustia

em nome de que direito derrubam os seus thronos tradicionaes e lhe

invadem os seus lares pacificos!

Mas ah! mais forte do que esse gemido desolado das nações invadidas,

mais forte do que o choro convulso das mães a quem arrancam

continuamente os filhos, os mais bellos e os mais fortes,--é o clangor

bellico do clarim que avisa a França da suas victorias incontaveis!

Lodi, Arcole, Rivoli, Marengo, Iena, Austerlitz, estão em todas as

boccas, produzem em todos os cerebros o assombro, o respeito, o

enthusiasmo!

O segundo quadro--_1814_--é a retirada, é a derrota, é a melancolica

derrocada do sonho gigantesco e sobrehumano.

O heroe vem cançado, abatido e triste. Cavallo, cavalleiro, cortejo

militar, paizagem circumdante, tudo respira a mesma desolação e o mesmo

abandono!

A velha guarda ficou sepulta nos gêlos da inhospita Moscovia; os

marechaes cançados, são os mesmos que vão acceitar, suggerir a

_déchéance_ proxima....

Entre um anno, o da gloria soberba e unica, e outro, o da derrota

universal, quantos crimes de lesa-nação, de leso-direito, até de

leso-entendimento. Napoleão acabára por sentir aquella embriaguez dos

Cesares que os atirava ao crime e á loucura em virtude de uma attracção

irresistivel e fatal.

Vencera todos e perdera o segredo indispensavel de se vencer a si

proprio. D'aqui a ruina, d'aqui, depois da tragedia de Waterloo, o

suplicio _prometheano_ de Santa Helena!

Bastavam estes dois quadros para dar a Meissonier o logar eminente que

elle tem entre os pintores francezes. Accusam-n'o de ser minucioso em

demasia, de ter uma concepção acanhada da arte, de dar muito mais

attenção aos pormenores que á esthetica geral da sua obra; mas estes

dois quadros desmentem todas as accusações que lhe fazem os seus

detractores. Meissonier comprehendeu a verdadeira grandeza, a grandeza

epica, a que inspirou Homero e Camões; a que faz ainda hoje palpitar os

frios corações d'esta era de industrialismo e de interesse egoista.

O heroe que elle alli nos representa, tanto na hora estonteadora do

triumpho, como na hora tragica da derrocada, é o mais importante dos

_grandes homens_, no dizer de Carlyle, o que vale mais que todos os

outros, porque é aquelle a quem a vontade de todos se subordina em um

impeto de lealdade e adoração.

Eu tinha visto, havia pouco, os dois quadros famosos de que não posso

nem sei descrever o interesse, a expressão, a intensa vida suggestiva,

quando fui visitar nos _Invalidos_ o tumulo de preciosa pedra, em que as

cinzas de Napoleão estão guardadas.

Lá está elle cercado por doze silenciosas estatuas de marmore que

symbolisam victorias, e de bandeiras crivadas de balas que seu exercito

conquistou.

Não houve nada de banalmente curioso na minha visita; era uma romaria

piedosa feita a um idolo da minha mocidade, á unica figura grandiosa que

a edade moderna póde apresentar em face das grandes figuras antigas que

se chamam Alexandre ou Cesar.

Em toda a parte o tenho visto; a sua figura que participa da Lenda e que

é da Historia, protege ainda a França como uma divindade tutelar contra

a onda da _mediocracia_ que avança. N'esse paiz onde hoje apenas soam

réles nomes de réles _politiqueiros_, echoa a pequena distancia um nome

que vale mais que todas as outras glorias modernas. Que valem Frederico

II ou Pedro o Grande, que vale Luiz XIV, que valem Condé ou Turenne ou

Luxemburgo, que valem Colbert ou Vauban, que valem Guilherme d'Orange,

ou Malbourough, que valem Walenstein ou Carlos XII ao pé d'este homem

estranho, homem do destino, que reuniu em si, a todas as qualidades

brilhantes do guerreiro, as qualidades solidas do administrador; que foi

legislador e soldado, que dominou e venceu a anarchia, que levou atravez

do mundo inteiro, do Sena até ao Neva e do Tejo até ao Vistula a idéa da

Revolução, de que elle foi a formula tangivel, o propheta feito homem, a

representação concreta e o visivel symbolo?!

É por isso que só na Antiguidade se encontram dois homens cuja missão

excedeu em importancia universal aquella que Napoleão representou na

Historia, e que esses dois homens são Alexandre e Cesar.

As campanhas de Alexandre tiveram no desenvolvimento intellectual da

Grecia e do mundo uma influencia enorme e decisiva:

Não é para mim falar das maravilhas estrategicas d'essas campanhas, das

quaes uma manobra celebre foi genialmente reproduzida por Napoleão em

Austerlitz; mas o que interessa á humanidade inteira e por mim póde ser

lembrado, é a impulsão gigantesca que a intelligencia do homem recebeu

quando o genio grego foi pela primeira vez profundamente penetrado pelo

genio do Oriente, quando os capitães e os soldados da guerreira

Macedonia venceram o amollecido imperio persa, e caminharam desde o

Danubio até ao Nilo, desde o Nilo até ao Ganges, vendo cada dia cousas

novas, sentindo cada dia impressões e suggestões até alli desconhecidas;

quando elles estremeceram ao sopro gelido que vem dos paizes que se

alastram ao longo do mar Negro, e foram quasi que asphyxiados, pelo

simoun ardente, pelos vendavaes de areia dos desertos do Egypto; quando

se assombraram deante das Pyramides que tinham resistido a vinte seculos

de velhice, e interrogaram em vão os obeliscos de Luqsor cobertos de

indecifraveis hieroglyphos, e as longas fileiras de esphinges mudas,

mysteriosas exhalando de si o pavor de um symbolo inexplicado! quando

admiraram as estatuas colossaes de reis que na aurora do mundo haviam

vivido e reinado, e se assentaram nos salões de Esar Haddon sobre os

thronos dos velhos reis da Assyria que enormes leões alados estavam

sombriamente guardando havia seculos e seculos...

Á Grecia revelaram-se então noções do Universo que ella ignorava;

maravilhas estranhas de uma civilisação que não fôra feita como a sua de

proporção e de harmonia, mas que esmagava pela grandeza, e que se

impunha pela força colossal.

Pela Iliada e pela Odyssea se percebe que observadores eram os filhos

subtis da alada Grecia.

Tudo que elles então viram e estudaram foi aproveitado mais tarde nas

fórmas de uma civilisação nova, mixto do que a hellenica teve de mais

bello e a oriental de mais grandioso.

E que sensações deliciosamente novas lhe não daria essa paisagem que

elles então conheceram e na qual havia de tudo, desde os areaes sem fim

até aos Jardins do Industão; desde as miragens do deserto até ás densas

sombras das florestas profundas; desde as montanhas cuja crista se ia

perder no seio das nuvens, até ás redondas colinas esbrumadas em nevoa

de um tenue côr de rosa; desde o tigre real de salto felino e ondeante e

o elephante que em Arbelle fazia tremer a terra sob o peso gigantesco do

corpo desforme, até ao rhinoceronte e o hippopotamo, o camello, e o

crocodilo, do Nilo e do Ganges; d'essa paisagem em que as arvores eram

palmeiras e tamarindos, oleandros e verdes myrtaes; em que os homens

tinham todas as côres e todos os trages; em que ao Persa acobreado

succedia o Syrio queimado do sol, e o Africano côr da noite...

Tudo isto era um encantamento e uma surpreza, tudo isto continha e

incluia em si resultados que assombraram o mundo.

Os conhecimentos exactos, as noções verdadeiras e positivas acêrca do

universo, podem bem datar-se das campanhas famosas de Alexandre. Foi

então que se fez essa união fecunda e miraculosa do espirito hellenico e

do espirito oriental, a India, a Persia, a Babylonia, continham em

germen Alexandria e as suas escolas, os Arabes e a sua civilisação

ephemera mas deslumbrante...

Quanto a Cesar, esse latinisou, romanisou o mundo até então descoberto;

tornando possivel a sua posterior christianisação.

Sob o sceptro dos Imperadores o mundo tinha-se feito romano, e d'alli

veiu que sob o baculo dos primeiros Bispos elle poude fazer-se christão.

Não havia já nem raças que mutuamente se dilacerassem, nem religiões que

umas ás outras se contradissessem, nem tribus que entre si se

combatessem... O Imperio novo estava maduro para receber o baptismo de

uma só religião, á qual as hordas barbaras viriam successivamente

submetter-se...

É ainda, por isso mesmo, que os que hoje vêem na Historia a logica

successão de causas e de leis produzindo a logica successão de

phenomenos que são resultados, vêem em Napoleão a força ao serviço da

idéa, o instrumento de uma grande transformação social obedecendo a uma

missão superior, e cumprindo-a de uma fórma perfeita. A Revolução

franceza sem Napoleão, não chegaria a ser um facto historico, egual nos

seus effeitos á proclamação do christianismo, superior nas suas

intenções á Reforma do seculo XVI.

Essa Revolução hoje tão calumniada pelos mesmos que lhe gosam os

resultados definitivos e os effeitos niveladores e libertadores,

acabaria, a não dar-se o apparecimento fatidico de Napoleão, em uma

anarchia ensanguentada da qual nem um principio se salvaria talvez.

Napoleão sahido do meio da turba, como que encarnando em si a alma do

povo, liberta da sua escravidão secular, fez da Revolução um facto, um

facto irreductivel, contra o qual nem a mais reaccionaria vontade pôde

nada. Em primeiro logar elle formulou em leis, as doutrinas

revolucionarias; o seu codigo civil tem resistido a todas as mudanças de

regimen politico que ha setenta e oito annos tem convulsionado a França

á superficie, sem terem comtudo alterado a sua constituição civil e o

seu regimen de propriedade; depois elle fez de uma Revolução local, que

tinha por origem primeira os abusos financeiros, uma Revolução universal

que levou o mundo a um dos periodos decisivos da sua marcha progressiva,

e que transformou completamente a organisação social de toda a Europa

moderna.

Os seus exercitos assoladores como eram, e não os defenderei mesmo

contra os que lhe chamam as hostes de Attila, os seus exercitos

semearam, sem o saber, sem o querer talvez, a semente da liberdade por

toda a parte onde levaram o lemma da usurpação e da tyrannia. Elles

passaram, e sob os pés d'essas legiões terriveis que espalhavam o

assombro e o pavor, ergueram-se por encanto instituições novas, e os

povos readquiriram a dignidade e a liberdade, ambas perdidas na abjecta

subserviencia ao despotismo sem grandeza das modernas dynastias.

Pelo mundo fóra · 第 15 / 52 题