Uma das horas mais commovidas da minha vida foi aquella em que entrei
nos _Invalidos_ para vêr o tumulo de Napoleão.
Sei bem que é esta uma excursão obrigada aos viajantes da agencia Cook,
aos _touristes_ prud'hommescos da provincia, aos _badauds_ de todas as
origens, procedencias e classes.
Mas terão esses porventura sufficiente poder para banalisar uma figura
como a do Imperador?
Depois, eu fui criada por uma mãe enthusiastica de gloria, no culto
quasi fanatico de Napoleão.
Para mim elle nunca foi, como para os meus compatriotas do principio do
seculo, o _ogre da Corsega_, o monstro peior que Nero e Caligula. Pelo
contrario. As manchas do seu caracter só muito mais tarde a historia
m'as fez conhecer. Na minha mocidade não me falavam senão nos
esplendores da sua fama e nos prodigios da sua heroicidade.
Tantas mudanças teem passado pela França desde que, em uma ilha
solitaria e longinqua do Oceano, o grande homem expirou, renegado e
abandonado por todos os seus, que eu receiava encontrar lá muito
esmorecida a sua memoria, muito apagados os vestigios de sua passagem.
Enganei-me. A lenda napoleonica resuscita com insolito vigor n'essa
França de que ella foi a gloria ultima e inultrapassavel!
Havia n'essa occasião justamente em Paris a exposição dos quadros de
Meissonier, e essa exposição admiravel dominavam-n'a dois quadros, que
nunca mais podem ser esquecidos depois de uma vez terem sido vistos.
O primeiro quadro intitula-se _1807_. É Napoleão depois de _Friedland_,
triumphante, glorioso, acclamado.
O Imperador ainda magro, esbelto e sobrio, monta o seu lendario cavallo
branco, rodeia-o um estado maior de marechaes deslumbrante e numeroso, a
cada titulo dos quaes esta ligado um nome retumbante de batalha e de
gloria; os seus granadeiros admiraveis, a sua velha guarda fanatisada e
invencivel acclama-o em gritos que positivamente se _ouvem_ na tela
palpitante de Meissonier.
É o momento culminante da epopeia grandiosa. Sobejam os assombros, os
crimes apparecem n'um esplendor de purpura que lembra menos a côr do
sangue do que a côr da aurora!
A tyrannia já se revela em mil symptomas da vida do conquistador e da
vida do imperante. Os povos já perguntam n'um brado ululante de angustia
em nome de que direito derrubam os seus thronos tradicionaes e lhe
invadem os seus lares pacificos!
Mas ah! mais forte do que esse gemido desolado das nações invadidas,
mais forte do que o choro convulso das mães a quem arrancam
continuamente os filhos, os mais bellos e os mais fortes,--é o clangor
bellico do clarim que avisa a França da suas victorias incontaveis!
Lodi, Arcole, Rivoli, Marengo, Iena, Austerlitz, estão em todas as
boccas, produzem em todos os cerebros o assombro, o respeito, o
enthusiasmo!
O segundo quadro--_1814_--é a retirada, é a derrota, é a melancolica
derrocada do sonho gigantesco e sobrehumano.
O heroe vem cançado, abatido e triste. Cavallo, cavalleiro, cortejo
militar, paizagem circumdante, tudo respira a mesma desolação e o mesmo
abandono!
A velha guarda ficou sepulta nos gêlos da inhospita Moscovia; os
marechaes cançados, são os mesmos que vão acceitar, suggerir a
_déchéance_ proxima....
Entre um anno, o da gloria soberba e unica, e outro, o da derrota
universal, quantos crimes de lesa-nação, de leso-direito, até de
leso-entendimento. Napoleão acabára por sentir aquella embriaguez dos
Cesares que os atirava ao crime e á loucura em virtude de uma attracção
irresistivel e fatal.
Vencera todos e perdera o segredo indispensavel de se vencer a si
proprio. D'aqui a ruina, d'aqui, depois da tragedia de Waterloo, o
suplicio _prometheano_ de Santa Helena!
Bastavam estes dois quadros para dar a Meissonier o logar eminente que
elle tem entre os pintores francezes. Accusam-n'o de ser minucioso em
demasia, de ter uma concepção acanhada da arte, de dar muito mais
attenção aos pormenores que á esthetica geral da sua obra; mas estes
dois quadros desmentem todas as accusações que lhe fazem os seus
detractores. Meissonier comprehendeu a verdadeira grandeza, a grandeza
epica, a que inspirou Homero e Camões; a que faz ainda hoje palpitar os
frios corações d'esta era de industrialismo e de interesse egoista.
O heroe que elle alli nos representa, tanto na hora estonteadora do
triumpho, como na hora tragica da derrocada, é o mais importante dos
_grandes homens_, no dizer de Carlyle, o que vale mais que todos os
outros, porque é aquelle a quem a vontade de todos se subordina em um
impeto de lealdade e adoração.
Eu tinha visto, havia pouco, os dois quadros famosos de que não posso
nem sei descrever o interesse, a expressão, a intensa vida suggestiva,
quando fui visitar nos _Invalidos_ o tumulo de preciosa pedra, em que as
cinzas de Napoleão estão guardadas.
Lá está elle cercado por doze silenciosas estatuas de marmore que
symbolisam victorias, e de bandeiras crivadas de balas que seu exercito
conquistou.
Não houve nada de banalmente curioso na minha visita; era uma romaria
piedosa feita a um idolo da minha mocidade, á unica figura grandiosa que
a edade moderna póde apresentar em face das grandes figuras antigas que
se chamam Alexandre ou Cesar.
Em toda a parte o tenho visto; a sua figura que participa da Lenda e que
é da Historia, protege ainda a França como uma divindade tutelar contra
a onda da _mediocracia_ que avança. N'esse paiz onde hoje apenas soam
réles nomes de réles _politiqueiros_, echoa a pequena distancia um nome
que vale mais que todas as outras glorias modernas. Que valem Frederico
II ou Pedro o Grande, que vale Luiz XIV, que valem Condé ou Turenne ou
Luxemburgo, que valem Colbert ou Vauban, que valem Guilherme d'Orange,
ou Malbourough, que valem Walenstein ou Carlos XII ao pé d'este homem
estranho, homem do destino, que reuniu em si, a todas as qualidades
brilhantes do guerreiro, as qualidades solidas do administrador; que foi
legislador e soldado, que dominou e venceu a anarchia, que levou atravez
do mundo inteiro, do Sena até ao Neva e do Tejo até ao Vistula a idéa da
Revolução, de que elle foi a formula tangivel, o propheta feito homem, a
representação concreta e o visivel symbolo?!
É por isso que só na Antiguidade se encontram dois homens cuja missão
excedeu em importancia universal aquella que Napoleão representou na
Historia, e que esses dois homens são Alexandre e Cesar.
As campanhas de Alexandre tiveram no desenvolvimento intellectual da
Grecia e do mundo uma influencia enorme e decisiva:
Não é para mim falar das maravilhas estrategicas d'essas campanhas, das
quaes uma manobra celebre foi genialmente reproduzida por Napoleão em
Austerlitz; mas o que interessa á humanidade inteira e por mim póde ser
lembrado, é a impulsão gigantesca que a intelligencia do homem recebeu
quando o genio grego foi pela primeira vez profundamente penetrado pelo
genio do Oriente, quando os capitães e os soldados da guerreira
Macedonia venceram o amollecido imperio persa, e caminharam desde o
Danubio até ao Nilo, desde o Nilo até ao Ganges, vendo cada dia cousas
novas, sentindo cada dia impressões e suggestões até alli desconhecidas;
quando elles estremeceram ao sopro gelido que vem dos paizes que se
alastram ao longo do mar Negro, e foram quasi que asphyxiados, pelo
simoun ardente, pelos vendavaes de areia dos desertos do Egypto; quando
se assombraram deante das Pyramides que tinham resistido a vinte seculos
de velhice, e interrogaram em vão os obeliscos de Luqsor cobertos de
indecifraveis hieroglyphos, e as longas fileiras de esphinges mudas,
mysteriosas exhalando de si o pavor de um symbolo inexplicado! quando
admiraram as estatuas colossaes de reis que na aurora do mundo haviam
vivido e reinado, e se assentaram nos salões de Esar Haddon sobre os
thronos dos velhos reis da Assyria que enormes leões alados estavam
sombriamente guardando havia seculos e seculos...
Á Grecia revelaram-se então noções do Universo que ella ignorava;
maravilhas estranhas de uma civilisação que não fôra feita como a sua de
proporção e de harmonia, mas que esmagava pela grandeza, e que se
impunha pela força colossal.
Pela Iliada e pela Odyssea se percebe que observadores eram os filhos
subtis da alada Grecia.
Tudo que elles então viram e estudaram foi aproveitado mais tarde nas
fórmas de uma civilisação nova, mixto do que a hellenica teve de mais
bello e a oriental de mais grandioso.
E que sensações deliciosamente novas lhe não daria essa paisagem que
elles então conheceram e na qual havia de tudo, desde os areaes sem fim
até aos Jardins do Industão; desde as miragens do deserto até ás densas
sombras das florestas profundas; desde as montanhas cuja crista se ia
perder no seio das nuvens, até ás redondas colinas esbrumadas em nevoa
de um tenue côr de rosa; desde o tigre real de salto felino e ondeante e
o elephante que em Arbelle fazia tremer a terra sob o peso gigantesco do
corpo desforme, até ao rhinoceronte e o hippopotamo, o camello, e o
crocodilo, do Nilo e do Ganges; d'essa paisagem em que as arvores eram
palmeiras e tamarindos, oleandros e verdes myrtaes; em que os homens
tinham todas as côres e todos os trages; em que ao Persa acobreado
succedia o Syrio queimado do sol, e o Africano côr da noite...
Tudo isto era um encantamento e uma surpreza, tudo isto continha e
incluia em si resultados que assombraram o mundo.
Os conhecimentos exactos, as noções verdadeiras e positivas acêrca do
universo, podem bem datar-se das campanhas famosas de Alexandre. Foi
então que se fez essa união fecunda e miraculosa do espirito hellenico e
do espirito oriental, a India, a Persia, a Babylonia, continham em
germen Alexandria e as suas escolas, os Arabes e a sua civilisação
ephemera mas deslumbrante...
Quanto a Cesar, esse latinisou, romanisou o mundo até então descoberto;
tornando possivel a sua posterior christianisação.
Sob o sceptro dos Imperadores o mundo tinha-se feito romano, e d'alli
veiu que sob o baculo dos primeiros Bispos elle poude fazer-se christão.
Não havia já nem raças que mutuamente se dilacerassem, nem religiões que
umas ás outras se contradissessem, nem tribus que entre si se
combatessem... O Imperio novo estava maduro para receber o baptismo de
uma só religião, á qual as hordas barbaras viriam successivamente
submetter-se...
É ainda, por isso mesmo, que os que hoje vêem na Historia a logica
successão de causas e de leis produzindo a logica successão de
phenomenos que são resultados, vêem em Napoleão a força ao serviço da
idéa, o instrumento de uma grande transformação social obedecendo a uma
missão superior, e cumprindo-a de uma fórma perfeita. A Revolução
franceza sem Napoleão, não chegaria a ser um facto historico, egual nos
seus effeitos á proclamação do christianismo, superior nas suas
intenções á Reforma do seculo XVI.
Essa Revolução hoje tão calumniada pelos mesmos que lhe gosam os
resultados definitivos e os effeitos niveladores e libertadores,
acabaria, a não dar-se o apparecimento fatidico de Napoleão, em uma
anarchia ensanguentada da qual nem um principio se salvaria talvez.
Napoleão sahido do meio da turba, como que encarnando em si a alma do
povo, liberta da sua escravidão secular, fez da Revolução um facto, um
facto irreductivel, contra o qual nem a mais reaccionaria vontade pôde
nada. Em primeiro logar elle formulou em leis, as doutrinas
revolucionarias; o seu codigo civil tem resistido a todas as mudanças de
regimen politico que ha setenta e oito annos tem convulsionado a França
á superficie, sem terem comtudo alterado a sua constituição civil e o
seu regimen de propriedade; depois elle fez de uma Revolução local, que
tinha por origem primeira os abusos financeiros, uma Revolução universal
que levou o mundo a um dos periodos decisivos da sua marcha progressiva,
e que transformou completamente a organisação social de toda a Europa
moderna.
Os seus exercitos assoladores como eram, e não os defenderei mesmo
contra os que lhe chamam as hostes de Attila, os seus exercitos
semearam, sem o saber, sem o querer talvez, a semente da liberdade por
toda a parte onde levaram o lemma da usurpação e da tyrannia. Elles
passaram, e sob os pés d'essas legiões terriveis que espalhavam o
assombro e o pavor, ergueram-se por encanto instituições novas, e os
povos readquiriram a dignidade e a liberdade, ambas perdidas na abjecta
subserviencia ao despotismo sem grandeza das modernas dynastias.