As bellas theorias optimistas dos doutrinarios que haviam proclamado os
_Direitos do homem_, a Egualdade, a Liberdade e a Fraternidade, a
bondade innata da especie humana, o retrocesso á boa Natureza, o Culto
da razão humana como a religião melhor e a mais infallivel, tinham
produzido, ninguem sabia em virtude de que sortilegio hediondo, uma
horda de freneticos cannibaes, devorando-se uns aos outros com delicia
selvagem e requintes de odio e covardia, ao pé dos quaes empallideciam
as descripções que o passado nos legou das suas peiores tragedias.
Ninguem atinava como de tão puras premissas tinham sahido tão horrendos
resultados; ninguem podia explicar como do bem se gerara tanto mal, como
do progresso das luzes se tinha feito tão negra escuridão, porque motivo
intenções tão sublimemente generosas tinham produzido tão monstruosos e
contradictorios effeitos.
A primeira embriaguez da liberdade sem restricções e sem limites, produz
sempre no homem esta demencia má. A Historia assim o diz, mas n'esse
tempo era apenas uma restrictissima minoria, a que sabia lêr a Historia
e colher as suas lições.
Imagine-se que Napoleão não tinha então surgido; que depois da orgia de
sangue que se chamou Terror, e da orgia de lodo e vinho e que se chamou
Directorio, não se erguia, mais alto que qualquer individualidade e
qualquer instituição, essa força disciplinadora, organisadora dos
partidos internos, subjugadora dos inimigos estranhos, tão poderosa, tão
efficaz, tão capaz de querer, tão profundamente inimiga da anarchia
mansa, que dissolve as nações e da anarchia brava que as esphacella.
A reacção mais desbragada e mais insolita tomaria então conta da França,
que n'esse momento decapitada, mutilada, exangue e sceptica, não achava
dentro de si nem uma energia redemptora, nem uma crença activa, nem uma
só fibra que não estivesse morbidamente combalida.
O sublime esforço de tantos genios humanitarios seria por um longo
periodo, que hoje não podemos calcular com acerto, inteiramente perdido;
da Revolução restaria apenas a memoria dos seus inexpiaveis crimes. E
porque havia rolado nos degraus da guilhotina a bella cabeça
precocemente embranquecida de Maria Antonietta, e porque o pobre e
burguez e inoffensivo Luiz XVI tinha expiado, como quasi sempre succede
em politica, os erros e as faltas dos seus antecessores, acontecia que
Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Turgot, Condorcet teriam pensado,
escripto, meditado, trabalhado em vão.
Quem é que seria capaz de pacificar os partidos exasperados a não ser
esse homem superior a todo o seu tempo, superior á sua raça, e que pôde
congregar no mesmo fim:--fazer grande e gloriosa a patria commum;--os
vencidos e os vencedores, os regicidas e os ex-emigrados os que tinham
escapado por milagre ás proscripções jacobinas e os que as tinham
decretado, Fouché e Talleyrand, os filhos da antiga aristocracia
espoliada, e os triumphantes espoliadores que estavam na posse do que
fôra d'ella?...
E d'essa agglomeração de interesses contrarios, de ambições que se
excluiam, de classes que eram antagonicas por instincto e por
circumstancias, de adversarios que se odiavam mutuamente, quem tirou a
França poderosa, affirmativa, unificada pelo mesmo codigo de justiça,
enriquecida pelo mesmo regimen de propriedade, tendo conquistado a
egualdade civil para todos os seus filhos, vendo abertas todas as
carreiras para as individualidades que se distinguissem no seu seio,
consolidadas todas as conquistas, emfim, d'essa liberdade que ameaçara
suicidar-se, envenenando no seu sangue aquelles que d'elle haviam
sonhado nutrir-se?
* * * * *
É este o papel cumprido por Napoleão na Historia, é esta a sua missão na
França; como foi sua missão no mundo espalhar, propagar os principios da
Revolução que elle, sem talvez o querer, representava como ninguem!
Os que o julgarem mais tarde hão de julgal-o assim, e hão de perdoar ou
escurecer, como succede com Cesar, como succede com Alexandre, os seus
erros e defeitos pessoaes, os quaes, feito o balanço final, que só o
futuro fará, foram talvez mais uteis do que nocivos, porque contribuiram
para o inutilisar no momento em que o seu papel deixava de estar em
estreita harmonia com as circumstancias que necessitaram a sua
cooperação.
Ultimamente, porém, desenvolveu-se no mundo a febre de atacar ou
defender o caracter pessoal de Napoleão em _memorias_ numerosissimas, em
folhetos, em livros de historia, em pamphletos, em ensaios criticos,
etc., etc.
Quem deu o _branle_ a este movimento bibliographico extravagante, que
tem como heróe Napoleão, foi Taine em um dos seus volumes sobre as
_Origens da França Contemporanea_, em que traçou do grande homem um
retrato, por todos conhecido hoje, retrato á Rembrandt, cuja belleza
magistral não fere á primeira vista senão os verdadeiros entendidos,
quer dizer os psychologos e os observadores e moralistas.
Taine para desenhar Napoleão serviu-se do seu velho processo de
documentos miudinhos juxtapostos, que não é de certo o mais interessante
para o grosso publico. Interrogou as testemunhas oculares, os criados,
as damas de honor da Imperatriz Josephina, as pessoas que mais ou menos
estiveram na intimidade e no contacto directo de Napoleão. Ora, é bem
sabido _que não ha grande homem para o seu criado de quarto_, mas ainda
assim Napoleão excede tanto a craveira commum e Taine sabe de tal modo
vivificar os mortos documentos com que fórma o seu _dossier_ de
investigador, a sua imaginação auxiliou-o de tal modo, indo procurar nos
_condottieri_ do seculo XIV e XV, como Stendhal já fizera antes d'elle,
os antepassados cuja influencia hereditaria e atavica, se fez sentir com
tão pittoresco relevo no grande aventureiro do seculo XIX--que mais
contribuem para a grandeza de Napoleão as accusações de Taine, que os
elogios de mediocridades incapazes de entenderem a verdadeira grandeza.
Já se vê que um homem como Napoleão não póde ser julgado pelo nosso
codigo moral. O seu potente cerebro, o maior de certo que a determinados
respeitos tem havido no mundo, não se deixa subordinar pelas leis
fatalmente restrictas, pelas quaes a simples humanidade tem de reger-se
para mutuamente se supportar.
A sua imaginação portentosa põe-n'o continuamente a dous passos do crime
ou da loucura; as suas paixões indomitas não conhecem regra, como não
conhece obstaculos a sua vontade inflexivel.
É em virtude d'estas faculdades extraordinarias que elle é capaz de
executar cousas que os outros nem em sonhos ousariam conceber.
Não admira que as _memorias_ do tempo lhe sejam muitas vezes contrarias.
Elle teve de subjugar muitas vontades, de se contrapôr a muitas
ambições, de humilhar naturalmente muitas vaidades, de excitar muita
inveja e muito despeito, para que os seus contemporaneos mais intimos
sejam capazes de perdoar-lhe a grandeza excepcional de um destino que a
todos offuscava.
Mas o que ninguem póde negar-lhe é o poder singular de seducção que o
seu sorriso irresistivel, que o seu olhar de aguia exerciam. Venceu e
dominou todos os que se lhe approximavam, e os proprios imperantes, seus
inimigos, receberam, ao contacto d'aquella grandeza simples que o
distinguia, o choque electrico que se communicava fatalmente da alma
d'elle ás almas com que a sua estava em contacto.
O retrato de Taine indignou, porém, apezar da sua incontestavel belleza
artistica, apezar da sua expressão intensa de vida, dos toques _humanos_
que o fazem palpitar, os adoradores de um Napoleão imaginario, todo
virtudes burguezas de familia, e clemencia de _Moral em acção_ e um
escriptor francez para mim desconhecido, o Sr. Arthur Levy, acaba de
publicar um grande volume com o fim de contrapôr o verdadeiro Napoleão,
o que elle chama _Napoleon intime_, ao terrivel grande homem descripto
por Taine, e de contradizer o critico francez em todas as suas asserções
ácerca do caracter pessoal do Imperador.
Ora, o _Napoleon intime_ do Sr. Arthur Lévy é a mais falsa personagem
historica que póde imaginar-se, embora seja todo elle composto, como um
mosaico laboriosissimo, de pedacinhos de cartas escriptas por Napoleão,
e de pedacinhos de documentos de uma authenticidade incontestavel.
O que mais irrita o auctor do _Napoleon intime_ é a hereditariedade
italiana, que Taine tão logicamente lhe attribue. _Um burguez francez
dos quatro costados e com todas as virtudes médias e as qualidades
mediocres da burguezia francesa_ eis o que o Sr. Levy pretende fazer do
heroe das Pyramides e de Austerlitz e de Arcole e de Wagram!...
Sobre o tumulo de soberba pedra moscovita, que a piedade de nacionaes e
estrangeiros visita quotidianamente em veneravel recolhimento,
poder-se-hia escrever segundo o criterio do Sr. Arthur Levy, o que sobre
a sepultura de um burguez de 1830 mandou gravar a familia consternada:
_Bom esposo, bom pae, bom filho e bom guarda nacional._
_Napoleon intime_ está escripto, é verdade, com grande copia de
referencias, de citações e documentos. Em primeiro logar, documentos e
citações truncadas nada significam. Depois, quando muito, elles poderiam
provar que uma das faces do multiplo caracter de Napoleão era essa que o
Sr. Arthur Levy quer apresentar como predominante: isto é, uma certa
fraqueza, que é frequente nos seres superiores para o seu _entourage_
mais intimo, para a familia, para a mulher, para os amigos, sempre que
os amigos lhe não resistiam.
O heróe de mil batalhas desde as campanhas da Italia e do Egypto até
essa admiravel campanha de França, a de mais superior estrategia,
segundo asseveram entendidos; o organisador, o administrador, o general
extraordinario em cuja visão se gravava toda a topographia de um paiz,
com os seus accidentes de terreno, os seus valles, e montanhas, os seus
recessos, as suas planicies, os seus pontos mais fracos e os mais
fortes, e que fazia d'essa sciencia rara a applicação mais genial e a
mais pratica; o homem de mil occupações simultaneas, que deslumbrava,
pasmava, esfalfava os seus collaboradores subalternos; o violento, o
apaixonado, o teimoso, o tyranno; o organismo de uma delicadeza de
impressões, de uma violencia de impulsos, de um apuro de sensibilidade
excepcionaes; o que suggeria milagres e os fazia; o que subjugou e
seduziu uma nação inteira; a figura, emfim, _unica!_ em toda a Historia
moderna, que foi Napoleão, nem por um momento transparece nas paginas de
uniforme e banal elogio que o Sr. Arthur Levy lhe consagra
laboriosamente.
Napoleão antes queria, de certo, esse retrato ás vezes de um crú
realismo de toques, que Taine lhe consagrou, do que o monotono
panegyrico d'este seu incommodo admirador.
Aquelle que eu fui ver aos _Invalidos_ é talvez o Napoleão de Taine, o
do Sr. Levy, oh! esse é que affirmo com a infallibilidade da minha
intuição de mulher, que não é de modo algum.