XII

Insensibilidade? Não de certo. Amor bem entendido de mãe, e medo talvez

de soffrer mais do que soffrera já na sua curta experiencia da vida

conjugal, a que um duello infeliz--e por causa de uma mulher--tinha dado

fim.

Quem soube no amor maternal pôr tantos requintes de sensibilidade, tão

intensa paixão, tanta vida, tanta abnegação, tão louco enthusiasmo, o

que seria em outra ordem de sentimento em que taes excessos são quasi

naturaes? O que a salvou foi talvez o exagero da propria sensibilidade.

Teve medo de si. Sondou-se e percebeu de que loucuras seria capaz,

amando, aquella que da maternidade serena e calma soube fazer uma paixão

tempestuosa. Tendo bebido na infancia o amor dos grandes sentimentos á

Corneille, de que a propria Mlle. de Scudery, a feiissima Sapho fez na

sua obra vasta uma grandiloqua caricatura; iniciada pelos seus mestres

Ménage e Chapelain nas extravagancias grandiosas da litteratura

hespanhola; tudo que provavelmente via em torno de si estava longe de

corresponder ao seu ideal de sacrificio eterno, de inalteravel

constancia. D'ahi, provavelmente, o seu proposito firme de se refugiar

no amor materno, extrahindo d'elle tudo que podia formar o alimento da

sua alma exigente, ambiciosa.

Depois ella viveu em uma quadra e em um meio em que o papel de

espectadora tinha o maximo interesse e podia satisfazer até mesmo um

espirito como o seu. Tudo que a cercava era digno de attenção e de

estudo. Tudo interessava, ensinava e dava ensejo para longas reflexões.

Em cima Luiz XIV--o Jupiter que ella viu sempre com olhos de adoração,

de quasi deslumbramento, olhos com que o seu tempo o viu tambem, com que

a posteridade continuaria a vêl-o, se o desastre final de sua obra lhe

não désse a sorte que tem sempre os vencidos, e se Saint-Simon não

tivesse revelado ao mundo, com a sua espionagem genial, o monstruoso

egoismo, o acanhado espirito, a mediocre envergadura intellectual d'esse

idolo com pés de barro;--Luiz XIV que o amor divino e divinamente

desinteressado da La Vallière envolvera em uma nuvem de olympico

prestigio. Abaixo d'elle,--tudo n'esse tempo ficava muito abaixo

d'elle--essa adoravel Henriqueta de Inglaterra, fina, branca, lyrial,

que a prematura morte embalsamada na eloquencia sublime de Bossuet, e a

vida cheia de graça, de encanto aristocratico e talvez de amor,

transformaram na figura impregnada da poesia mais subtil d'aquelle

periodo accidentado e romanesco. Em torno d'esses astros de primeira

grandeza gravitam milhares de satellites de um brilho fulgurante e

deslumbrador.

O amor e a guerra, como nos romances da cavallaria antiga, fazem d'essa

côrte alguma cousa de excepcional na Historia do mundo.

A guerra já se vê, não como a faziam Frederico da Prussia ou Napoleão,

mas a guerra pomposa que celebrou pomposamente Boileau; a guerra em que

os banquetes, as festas, os bailes se entremeiavam aos combates; em que

um cerco durava longos mezes, e cada marcha parecia uma cavalgada

festiva...

_Mademoiselle_, a _grande Mademoiselle_, apaixonada por Lauzun chorava

todas as lagrimas de seu corpo porque lhe não deixavam desposar o eleito

do seu coração; a epopéa gentil das Longueville, das Chevreuses, das

lindas e intrepidas heroinas da _Fronda_, andava ainda em todas as

memorias e em todas as imaginações. Hoje era Luiza de la Vallière a mais

doce martyr de um regio amor de que reza a Historia, que depois de pedir

humildemente perdão á sua rival coroada do escandalo que dera, fazia da

ceremonia da sua consagração a Deus um d'estes acontecimentos

palpitantes com que vibra uma geração inteira; amanhã é Montespan, a

altiva Wasthi, a sultana magestosa que toma posse do seu logar de

favorita com um impudor, uma soberba, uma pompa theatral, que

escandalisam, que emocionam, que fazem trabalhar as pennas todas da

côrte em _comptes rendu_ mais ou menos pittorescos, mais ou menos

eloquentes...

Depois as guerras entre os Jesuitas e Port-Royal; a lucta theologica

entre Fénélon e Bossuet; o apparecimento de uma tragedia de Racine; a

publicação dos _Caracteres_ de La Bruyère; as _Maximas_ do Duque de

Larochefoucauld; o livro de Madame de La Fayette; um sermão do Pére

Bourdaloue; um conto de La Fontaine; os acontecimentos os mais sagrados

e os mais profanos, as leituras mais edificantes e as mais gaiatas, os

incidentes mais comicos e os mais tragicos--tudo se succede, tudo se

entrelaça, fazendo da existencia um espectaculo tão alegre, tão variado,

tão divertido, tão interessante, tão _atordoador_, que facil foi a

Madame de Sévigné resignar-se a não pôr na sua propria vida interesses

dramaticos, que outros se encarregavam de fornecer-lhe em profusão.

_Basta a curiosidade para encher a existencia_, disse algures

Fontenelle. Esta _maxima_ de egoista acha-se justificada pensando na

vida de madame de Sévigné.

Onde ha espirito mais eminentemente _curioso_ no sentido elevado e

espiritual da palavra do que o d'esta eminente e deliciosa personalidade

femenina?

Ella tem a curiosidade intelligente de todos os phenomenos de ordem

moral e intellectual. Interessa-a o espectaculo das paixões humanas e

achou um theatro perfeitamente adequado ao genero de observações que

mais a divertem.

A côrte de Luiz XIV, antes que madame de Maintenon tivesse desdobrado

sobre ella o véo de hypocrita devoção em que tão cautelosamente se

embrulhára, é tudo que ha de mais proprio a interessar, a apaixonar um

observador, um moralista como Madame de Sévigné.

_Moi qui aime tant à faire des reflexions_, esta phrase vem mil vezes

nas suas adoraveis cartas. E que assumpto sempre vivo, sempre palpitante

para reflexões não é essa côrte, onde tudo que as paixões humanas têem

de mais ardente, de mais insaciavel, de mais caracteristico, de mais

desordenado, se manifesta sob os mais variados aspectos e nas fórmas

mais pomposas...

O amor sem outra lei que não seja a inconstancia e o capricho; a ambição

sem outra restricção e outro limite que não sejam os que fatalmente lhe

impõe a fraqueza humana; a inveja, a soberba, a cubiça mais desenfreada,

o orgulho ao mesmo tempo mais feroz e o mais cheio de aberrações

inexplicaveis, orgulho que principalmente se compraz nos excessos mais

abjectos do servilismo--e todos estes diversos sentimentos, uns simples,

outros complexos, uns harmonicos, outros contradictorios, manifestados

atravez de caracteres em que ha ainda relevo, contorno accentuado,

individualidade inconfundivel, energia pessoal.

Póde haver espectaculo mais digno de interesse, contemplação que sem

talvez elevar o espirito o divirta e o instrua mais?

Não é, porém, o jogo complicado, brutal ou subtil do interesse e das

paixões pessoaes, o unico objecto de estudo para o espirito de madame de

Sévigné. Ella tem uma vasta leitura, uma aptidão para se interessar

pelos estudos mais aridos, quasi maravilhosa.

Quando a vida em Paris a cança, quando a sociedade habitual do seu salão

começa a enfastial-a um pouco, quando as graças de monsieur de

Coulanges, a extrema amabilidade de d'Haqueville (o qual é tão

extraordinariamente serviçal e de tal modo se multiplica para satisfazer

os seus amigos que lhe mereceu a ella a alcunha de _Les d'Haquevilles_)

lhe parece um tanto massadora, quando a gotta de M. de La Rochefoucauld

o faz dar gritos que lhe excitam demasiadamente a sensibilidade, quando

Le Père Bourdaloue a tem fatigado de predicas, quando emfim o _meio_

habitual em que ella se move tem perdido, pela continuação, um pouco do

seu interesse e da sua novidade, quando as salas que ella frequenta e

das quaes é o querido adorno mais precioso e raro, não offerecem

assumpto nenhum que a satisfaça, quando a côrte está em uma phase de

semsaboria estacionaria, sem incidentes e sem dramas, eil-a que parte

para Livry, ou para os _Rochers_, e ahi na paz deliciosa do campo, que

ella e La Fontaine são no seculo XVII os unicos a _sentir_, passeia

sósinha debaixo das arvores, ouve o rouxinol, o cuco, e _la fauvette_,

saboreia a graça primaveril do arvoredo em flor, e consagra a noite a

longas leituras em que ha de tudo, Tasso, Cervantes, Descartes, Racine,

La Fontaine, até Horacio, porque a encantadora marqueza sabia latim e

até o ensinou á filha.

* * * * *

O que mais celebre torna deante da posteridade Mme. de Sevigné, o seu

amor pela filha, é a maior prova de quanto póde a illusão sobre um

cerebro, sobre um coração de mulher! Mme. de Grignan, _la plus belle

fille de France_, como lhe chamavam os que queriam por uma tocante

attenção lisongear o coração da mãe, não é realmente digna por motivo

nenhum da adoração que inspira. Pedante, interesseira, ambiciosa,

gastadora, ingrata sobretudo, ingrata para essa mãe adoravel cujo crime

unico foi preferil-a em tudo ao irmão, Carlos de Sevigné, tão sympathico

quanto ella é antipathica, tão dedicado quanto ella é egoista, tão

apaixonado pelas graças, virtudes e encantos da mãe, quanto ella parece

ser-lhes indifferente, Mme. de Grignan tem por unica virtude a de ter

inspirado essas deliciosas cartas, em que um periodo longo e

interessantissimo da Historia se reflecte com incomparavel vivacidade,

com uma frescura, um pittoresco, uma animação que jámais serão

excedidos.

No final da minha visita ao museu, quando eu tinha achado prazer

infinito em evocar estas visões do passado, e muitas outras que não

podem caber no limitado espaço d'estas notas, o guia que não sei porque

tinha sympathisado commigo e com meu amavel companheiro, decidiu de si

para si que nós eramos dignos de ser apresentados ao conservador do

museu, Monsieur Cousin, que não sei se é parente do celebrado philosopho

do eclectismo.

Levou-nos, pois, a um gabinete reservado onde nos esperava uma

encantadora surpreza. Monsieur Cousin vive fechado em uma pequena sala,

furtada a todas as vistas profanas, imaginem com quem?

Com madame de Grignan! Não madame de Grignan em carne e osso, que isso

não seria no fim de contas uma companhia por demais preciosa. Imagino

que a convivencia de _la plus belle fille de France_ não era tão

agradavel que a propria mãe, idolatra como era, não preferisse viverem

em casas separadas, quando madame de Grignan vinha a Paris tractar das

suas innumeras demandas, e discutir com juizes, advogados e procuradores

como uma verdadeira _madame Pimbêche_ que era.

Não, a maneira por que madame de Grignan se achava representada

n'aquelle gabinete escondido, era por meio de um esplendido retrato de

Mignard. A filha da encantadora marqueza apparece alli formosissima.

Cabellos de um louro fulgurante, veneziano, o louro de Ticiano, ou de

Palma Vechio; pelle branca, transparente, atravez da qual se sente gyrar

um sangue vivo e puro, olhos azues de uma belleza profunda e rara,

penteado levantado na frente e voluptuosamente entrelaçado de rubras

flôres de romeira e de flôres brancas de laranjeira.

No peito, completamente decotado, um ramo viçoso das mesmas flôres.

--Flôres de Provença, fez-me notar Mr. Cousin, com aquella nota

carinhosa na voz, que revela o namoro de um velho sabio, o namoro que o

seu homonymo Cousin teve pela duqueza de Longueville e pela de

Chevreuse!

--Flôres do meu Portugal, atalhei eu, que ao vêl-as tivera tanta saudade

do meu pequeno paiz longinquo.

Se a minha antipathia a Mme. de Grignan não fosse fundada e

irreductivel, tinha-a destruido de certo este adoravel retrato que a

representa verdadeiramente formosa, e o que é mais, seductora! retrato

que, apezar de ser de Mignard, parece feito na maneira ampla e superior

dos grandes mestres.

Assim a viu o pintor, assim a viu sua mãe, assim a vê em pensamento e

feliz enlevo o velho conservador, que se fechou com ella em um quarto e

que a não deixa avistar se não a raros profanos!

O meu passeio pelo Museu Carnavalet mais me confirmou na eterna ironia

das cousas grandes ou pequenas!

Não posso deixar de confessar que, tirando as minhas evocações intimas,

a melhor impressão que de lá trouxe, deu-m'a o retrato da minha _inimiga

pessoal_.

Pelo mundo fóra · 第 14 / 52 题