Insensibilidade? Não de certo. Amor bem entendido de mãe, e medo talvez
de soffrer mais do que soffrera já na sua curta experiencia da vida
conjugal, a que um duello infeliz--e por causa de uma mulher--tinha dado
fim.
Quem soube no amor maternal pôr tantos requintes de sensibilidade, tão
intensa paixão, tanta vida, tanta abnegação, tão louco enthusiasmo, o
que seria em outra ordem de sentimento em que taes excessos são quasi
naturaes? O que a salvou foi talvez o exagero da propria sensibilidade.
Teve medo de si. Sondou-se e percebeu de que loucuras seria capaz,
amando, aquella que da maternidade serena e calma soube fazer uma paixão
tempestuosa. Tendo bebido na infancia o amor dos grandes sentimentos á
Corneille, de que a propria Mlle. de Scudery, a feiissima Sapho fez na
sua obra vasta uma grandiloqua caricatura; iniciada pelos seus mestres
Ménage e Chapelain nas extravagancias grandiosas da litteratura
hespanhola; tudo que provavelmente via em torno de si estava longe de
corresponder ao seu ideal de sacrificio eterno, de inalteravel
constancia. D'ahi, provavelmente, o seu proposito firme de se refugiar
no amor materno, extrahindo d'elle tudo que podia formar o alimento da
sua alma exigente, ambiciosa.
Depois ella viveu em uma quadra e em um meio em que o papel de
espectadora tinha o maximo interesse e podia satisfazer até mesmo um
espirito como o seu. Tudo que a cercava era digno de attenção e de
estudo. Tudo interessava, ensinava e dava ensejo para longas reflexões.
Em cima Luiz XIV--o Jupiter que ella viu sempre com olhos de adoração,
de quasi deslumbramento, olhos com que o seu tempo o viu tambem, com que
a posteridade continuaria a vêl-o, se o desastre final de sua obra lhe
não désse a sorte que tem sempre os vencidos, e se Saint-Simon não
tivesse revelado ao mundo, com a sua espionagem genial, o monstruoso
egoismo, o acanhado espirito, a mediocre envergadura intellectual d'esse
idolo com pés de barro;--Luiz XIV que o amor divino e divinamente
desinteressado da La Vallière envolvera em uma nuvem de olympico
prestigio. Abaixo d'elle,--tudo n'esse tempo ficava muito abaixo
d'elle--essa adoravel Henriqueta de Inglaterra, fina, branca, lyrial,
que a prematura morte embalsamada na eloquencia sublime de Bossuet, e a
vida cheia de graça, de encanto aristocratico e talvez de amor,
transformaram na figura impregnada da poesia mais subtil d'aquelle
periodo accidentado e romanesco. Em torno d'esses astros de primeira
grandeza gravitam milhares de satellites de um brilho fulgurante e
deslumbrador.
O amor e a guerra, como nos romances da cavallaria antiga, fazem d'essa
côrte alguma cousa de excepcional na Historia do mundo.
A guerra já se vê, não como a faziam Frederico da Prussia ou Napoleão,
mas a guerra pomposa que celebrou pomposamente Boileau; a guerra em que
os banquetes, as festas, os bailes se entremeiavam aos combates; em que
um cerco durava longos mezes, e cada marcha parecia uma cavalgada
festiva...
_Mademoiselle_, a _grande Mademoiselle_, apaixonada por Lauzun chorava
todas as lagrimas de seu corpo porque lhe não deixavam desposar o eleito
do seu coração; a epopéa gentil das Longueville, das Chevreuses, das
lindas e intrepidas heroinas da _Fronda_, andava ainda em todas as
memorias e em todas as imaginações. Hoje era Luiza de la Vallière a mais
doce martyr de um regio amor de que reza a Historia, que depois de pedir
humildemente perdão á sua rival coroada do escandalo que dera, fazia da
ceremonia da sua consagração a Deus um d'estes acontecimentos
palpitantes com que vibra uma geração inteira; amanhã é Montespan, a
altiva Wasthi, a sultana magestosa que toma posse do seu logar de
favorita com um impudor, uma soberba, uma pompa theatral, que
escandalisam, que emocionam, que fazem trabalhar as pennas todas da
côrte em _comptes rendu_ mais ou menos pittorescos, mais ou menos
eloquentes...
Depois as guerras entre os Jesuitas e Port-Royal; a lucta theologica
entre Fénélon e Bossuet; o apparecimento de uma tragedia de Racine; a
publicação dos _Caracteres_ de La Bruyère; as _Maximas_ do Duque de
Larochefoucauld; o livro de Madame de La Fayette; um sermão do Pére
Bourdaloue; um conto de La Fontaine; os acontecimentos os mais sagrados
e os mais profanos, as leituras mais edificantes e as mais gaiatas, os
incidentes mais comicos e os mais tragicos--tudo se succede, tudo se
entrelaça, fazendo da existencia um espectaculo tão alegre, tão variado,
tão divertido, tão interessante, tão _atordoador_, que facil foi a
Madame de Sévigné resignar-se a não pôr na sua propria vida interesses
dramaticos, que outros se encarregavam de fornecer-lhe em profusão.
_Basta a curiosidade para encher a existencia_, disse algures
Fontenelle. Esta _maxima_ de egoista acha-se justificada pensando na
vida de madame de Sévigné.
Onde ha espirito mais eminentemente _curioso_ no sentido elevado e
espiritual da palavra do que o d'esta eminente e deliciosa personalidade
femenina?
Ella tem a curiosidade intelligente de todos os phenomenos de ordem
moral e intellectual. Interessa-a o espectaculo das paixões humanas e
achou um theatro perfeitamente adequado ao genero de observações que
mais a divertem.
A côrte de Luiz XIV, antes que madame de Maintenon tivesse desdobrado
sobre ella o véo de hypocrita devoção em que tão cautelosamente se
embrulhára, é tudo que ha de mais proprio a interessar, a apaixonar um
observador, um moralista como Madame de Sévigné.
_Moi qui aime tant à faire des reflexions_, esta phrase vem mil vezes
nas suas adoraveis cartas. E que assumpto sempre vivo, sempre palpitante
para reflexões não é essa côrte, onde tudo que as paixões humanas têem
de mais ardente, de mais insaciavel, de mais caracteristico, de mais
desordenado, se manifesta sob os mais variados aspectos e nas fórmas
mais pomposas...
O amor sem outra lei que não seja a inconstancia e o capricho; a ambição
sem outra restricção e outro limite que não sejam os que fatalmente lhe
impõe a fraqueza humana; a inveja, a soberba, a cubiça mais desenfreada,
o orgulho ao mesmo tempo mais feroz e o mais cheio de aberrações
inexplicaveis, orgulho que principalmente se compraz nos excessos mais
abjectos do servilismo--e todos estes diversos sentimentos, uns simples,
outros complexos, uns harmonicos, outros contradictorios, manifestados
atravez de caracteres em que ha ainda relevo, contorno accentuado,
individualidade inconfundivel, energia pessoal.
Póde haver espectaculo mais digno de interesse, contemplação que sem
talvez elevar o espirito o divirta e o instrua mais?
Não é, porém, o jogo complicado, brutal ou subtil do interesse e das
paixões pessoaes, o unico objecto de estudo para o espirito de madame de
Sévigné. Ella tem uma vasta leitura, uma aptidão para se interessar
pelos estudos mais aridos, quasi maravilhosa.
Quando a vida em Paris a cança, quando a sociedade habitual do seu salão
começa a enfastial-a um pouco, quando as graças de monsieur de
Coulanges, a extrema amabilidade de d'Haqueville (o qual é tão
extraordinariamente serviçal e de tal modo se multiplica para satisfazer
os seus amigos que lhe mereceu a ella a alcunha de _Les d'Haquevilles_)
lhe parece um tanto massadora, quando a gotta de M. de La Rochefoucauld
o faz dar gritos que lhe excitam demasiadamente a sensibilidade, quando
Le Père Bourdaloue a tem fatigado de predicas, quando emfim o _meio_
habitual em que ella se move tem perdido, pela continuação, um pouco do
seu interesse e da sua novidade, quando as salas que ella frequenta e
das quaes é o querido adorno mais precioso e raro, não offerecem
assumpto nenhum que a satisfaça, quando a côrte está em uma phase de
semsaboria estacionaria, sem incidentes e sem dramas, eil-a que parte
para Livry, ou para os _Rochers_, e ahi na paz deliciosa do campo, que
ella e La Fontaine são no seculo XVII os unicos a _sentir_, passeia
sósinha debaixo das arvores, ouve o rouxinol, o cuco, e _la fauvette_,
saboreia a graça primaveril do arvoredo em flor, e consagra a noite a
longas leituras em que ha de tudo, Tasso, Cervantes, Descartes, Racine,
La Fontaine, até Horacio, porque a encantadora marqueza sabia latim e
até o ensinou á filha.
* * * * *
O que mais celebre torna deante da posteridade Mme. de Sevigné, o seu
amor pela filha, é a maior prova de quanto póde a illusão sobre um
cerebro, sobre um coração de mulher! Mme. de Grignan, _la plus belle
fille de France_, como lhe chamavam os que queriam por uma tocante
attenção lisongear o coração da mãe, não é realmente digna por motivo
nenhum da adoração que inspira. Pedante, interesseira, ambiciosa,
gastadora, ingrata sobretudo, ingrata para essa mãe adoravel cujo crime
unico foi preferil-a em tudo ao irmão, Carlos de Sevigné, tão sympathico
quanto ella é antipathica, tão dedicado quanto ella é egoista, tão
apaixonado pelas graças, virtudes e encantos da mãe, quanto ella parece
ser-lhes indifferente, Mme. de Grignan tem por unica virtude a de ter
inspirado essas deliciosas cartas, em que um periodo longo e
interessantissimo da Historia se reflecte com incomparavel vivacidade,
com uma frescura, um pittoresco, uma animação que jámais serão
excedidos.
No final da minha visita ao museu, quando eu tinha achado prazer
infinito em evocar estas visões do passado, e muitas outras que não
podem caber no limitado espaço d'estas notas, o guia que não sei porque
tinha sympathisado commigo e com meu amavel companheiro, decidiu de si
para si que nós eramos dignos de ser apresentados ao conservador do
museu, Monsieur Cousin, que não sei se é parente do celebrado philosopho
do eclectismo.
Levou-nos, pois, a um gabinete reservado onde nos esperava uma
encantadora surpreza. Monsieur Cousin vive fechado em uma pequena sala,
furtada a todas as vistas profanas, imaginem com quem?
Com madame de Grignan! Não madame de Grignan em carne e osso, que isso
não seria no fim de contas uma companhia por demais preciosa. Imagino
que a convivencia de _la plus belle fille de France_ não era tão
agradavel que a propria mãe, idolatra como era, não preferisse viverem
em casas separadas, quando madame de Grignan vinha a Paris tractar das
suas innumeras demandas, e discutir com juizes, advogados e procuradores
como uma verdadeira _madame Pimbêche_ que era.
Não, a maneira por que madame de Grignan se achava representada
n'aquelle gabinete escondido, era por meio de um esplendido retrato de
Mignard. A filha da encantadora marqueza apparece alli formosissima.
Cabellos de um louro fulgurante, veneziano, o louro de Ticiano, ou de
Palma Vechio; pelle branca, transparente, atravez da qual se sente gyrar
um sangue vivo e puro, olhos azues de uma belleza profunda e rara,
penteado levantado na frente e voluptuosamente entrelaçado de rubras
flôres de romeira e de flôres brancas de laranjeira.
No peito, completamente decotado, um ramo viçoso das mesmas flôres.
--Flôres de Provença, fez-me notar Mr. Cousin, com aquella nota
carinhosa na voz, que revela o namoro de um velho sabio, o namoro que o
seu homonymo Cousin teve pela duqueza de Longueville e pela de
Chevreuse!
--Flôres do meu Portugal, atalhei eu, que ao vêl-as tivera tanta saudade
do meu pequeno paiz longinquo.
Se a minha antipathia a Mme. de Grignan não fosse fundada e
irreductivel, tinha-a destruido de certo este adoravel retrato que a
representa verdadeiramente formosa, e o que é mais, seductora! retrato
que, apezar de ser de Mignard, parece feito na maneira ampla e superior
dos grandes mestres.
Assim a viu o pintor, assim a viu sua mãe, assim a vê em pensamento e
feliz enlevo o velho conservador, que se fechou com ella em um quarto e
que a não deixa avistar se não a raros profanos!
O meu passeio pelo Museu Carnavalet mais me confirmou na eterna ironia
das cousas grandes ou pequenas!
Não posso deixar de confessar que, tirando as minhas evocações intimas,
a melhor impressão que de lá trouxe, deu-m'a o retrato da minha _inimiga
pessoal_.