Uma das excursões feitas por mim com mais prazer é a dos Museus, tanto
artisticos como historicos.
Deixo para mais tarde falar no que senti em frente de alguns quadros do
Louvre ou do _Museu de Madrid_ e vou falar agora da minha visita ao
museu Carnavalet. O palacio em que este museu está estabelecido
pertenceu a Madame de Sévigné e foi habitado por ella; d'aqui a
quantidade de recordações d'esta mulher encantadora, que o povoam e para
mim o tornam particularmente interessante.
Ha logo á entrada um busto d'ella que me fez parar enlevada em
contemplação de uma das physionomias mais espirituosas e mais
sympathicas que o Passado legou aos nossos dias.
O _nez carré_ de que ella fala nas suas cartas, e que tornaram celebre
os seus contemporaneos referindo-se tantas vezes a elle, lá está, mas
sem diminuir, antes accentuando o encanto da sua expressão. Os lindos
cabellos penteados ao _nome d'ella_, (porque aquelle penteado de
caracoes que enquadra tão graciosamente o rosto feminil ficou sendo
chamado _á Sevigné_) dão um caracteristico especial á sua bella cabeça
de juvenil matrona adoravel. O bom humor, a graça gauleza sorriem na
bocca espirituosa e finamente recortada.
A gente não se espanta, ao ver este lindo busto de mulher, de que o
original inspirasse verdadeiras e ardentes paixões, e que até aos
sessenta annos houvesse, não quem a requestasse á moda de Ninon ou de
Catharina da Russia, mas quem quizesse casar com ella, como quiz o duque
de Luynes, que por signal foi repellido.
Para mim, digo francamente, o _Museu Carnavalet_ é Madame de Sevigné e
não é mais nada. Este museu, extravagante contraste! está cheio de
recordações revolucionarias. Lá está uma reducção feita, creio que em
pedra, da Bastilha, lá está uma galeria, por signal detestavel, de
retratos dos vultos principaes da revolução.
Por debaixo da fileira de retratos em que figuram Mirabeau, Robespierre
e Marat, está a cadeira em que expirou Voltaire. A collocação pareceria
propositadamente feita, senão fosse antes uma necessidade de symetria,
pois que, encostada á mesma parede na outra extremidade da sala, está
tambem a cadeira em que expirou Béranger.
Entre Voltaire e os homens da Revolução a affinidade é vizivel para o
espirito, mas o pobre Béranger é que não vem aqui ao caso para cousa
alguma, de modo que a intenção philosophica que eu á primeira vista
attribui aos conservadores do museu ficou prejudicada pela segunda idéa
que elles tiveram de collocar a cadeira de Béranger em symetria com a de
Voltaire.
Uma conclusão apenas me atrevo a tirar: é que em França quem sahe do
vulgar morre _de cadeira_. Incommodissima maneira de dar a alma ao
Creador! Ainda bem que nem a Béranger posso aspirar, quanto mais a
Voltaire; isto augmenta as minhas probabilidades de morrer deitada na
propria cama, unica maneira pela qual me appetece sujeitar-me á sorte
commum de todos os mortaes.
Não venho, já se vê, fazer uma descripção miuda do _Museu Carnavalet_.
Além de não ter fixado tanta cousa que vi--e que vai desde os troços de
ruinas e dos barros romanos achados em diversas excavações recentes ou
antigas, desde truncados monumentos, ou fragmentarios tumulos,
pertencentes a epocas ainda anteriores ao dominio romano, até a centenas
de reliquias da Revolução--não acho que isso seja sufficientemente
interessante para o leitor, a quem não posso communicar impressões que
não recebi.
Ha, por exemplo, no _Museu_ uma collecção enorme de caricaturas da época
de Luiz Filippe, feitas, creio, que em barro. São hediondas. Tudo que
teve um nome no reinado d'esse rei dos burguezes, burguez elle proprio
dos pés até á cabeça, alli está representado sob uma fórma que produz
_cauchemar_, á força de irritantemente feia.
Lembro-me por exemplo de uma cousa que me impressionou: uma ordem
autographa de Luiz XVI ordenando aos suissos da sua guarda que cessassem
o fogo que estavam fazendo contra o povo. Ora, esta ordem--a ultima que
elle assignou como rei--encerra nada menos que a sua abdicação e a
sentença da sua morte e dos seus.
Acabada a resistencia, o monstro jacobino pôde refocilar-se á vontade no
sangue regio. Ninguem mais se levantou deante d'elle para obstar ao
direito da sua vingança secular.
* * * * *
Tudo isso que em outro logar e em outra ordem de idéas me produziria a
maior impressão, alli apparecia-me inopportuno e deslocado.
Como aquelles objectos friamente classificados me pareciam estranhos ao
tempo de febre de que elles são as reliquias, por assim dizer,
mumificadas!... É preciso, para que certas recordações do passado nos
«empolguem», se apossem ardentemente de nós, que as evoque a imaginação
omnipotente e creadora de um Michelet ou de um Carlyle! De outro modo,
em vez de nos tornarem mais «vivo» o tempo a que se referem, parece que
o recuam indefinidamente nos limbos do passado.
Um «museu» tira a vida aos objectos que encerra; não os conserva.
Assim como o processo de enterramento dos egypcios, creado em odio á
morte, concorre para tornar mais saliente a idéa da morte, assim tambem
o desejo de conservar certas reliquias parece que lhes diminue a
realidade no passado. É possivel que eu exprima muito vagamente uma
cousa que sinto sem a saber muito bem traduzir, mas o leitor
intelligente, que tem visto muitos museus e tem talvez sentido esta
mesma desconsolação, comprehende perfeitamente o que ella significa!
Repito, pois: o encanto do museu Carnavalet tirei-o eu de mim mesma,
evocando n'aquellas frias salas que percorri, acompanhada pelo
indispensavel guia, as figuras que outr'ora as encheram de animação e
vida.
Vi madame de Sevigné e o seu querido tio, o bom abbade de Livry, que tão
bem se sahiu da educação da sua querida e intelligente pupilla.
Pareceu-me escutar as finezas hyperbolicas, que á moda do tempo, Ménage
e Chapelain, dirigiam cada um por seu lado á amavel e gentil Maria.
Ménage resolveu ensinar-lhe italiano e hespanhol, e resolveu, o que é
peior, apaixonar-se loucamente por ella. O bom pedante perdeu, já se vê,
o tempo e o feitio que não era de amoroso, como egualmente o perdeu um
homem que é o perfeito contraste d'elle, o cynico, o duellista, o
_donjuanesco_ Bussy Rabutin, que, depois de amar Madame de Sevigné, a
odiou de morte, e depois de a odiar tornou a querer-lhe muito,
encontrando-a sempre de pedra pura os seus transportes, mas capaz de
apreciar o que havia de scintillante e caustico no seu espirito, de
intrepido no seu valor, de melhor no seu pouco bom caracter. Viuva com
vinte e dois annos, e em uma côrte licenciosa, em que ella propria se
mostra cheia de estranhas indulgencias para os peccados alheios--tudo
passou por ella sem lhe macular de leve a fimbria do seu vestido branco.
Foi admiravelmente virtuosa, sem ser por isso implacavel para as paixões
que a cercam, e que fazem d'esse tempo um capitulo do mais accidentado
romance.
Amiga extremosa de Fouquet, vê-se em riscos de sahir levemente
compromettida do processo do Intendente de finanças, em cujo cofre de
galantes segredos se encontram cartas d'ella. No emtanto essas cartas
são simples pedidos em favor de um ou de outro protegido da marqueza, e
se provam alguma cousa é a bondade, a generosidade do seu coração
prompto a acudir e a valer. Se Fouquet guardava preciosamente esses
bilhetes formalistas é porque talvez no coração do galante financeiro a
formosa physionomia de madame de Sevigné tivesse produzido uma impressão
excepcional; mas isso não basta para comprometter uma mulher que as
primeiras pessoas da côrte, em influencia e em virtude, protegem ardente
e abertamente. Um dia Tonquedec, fidalgo da Bretanha, e o duque de
Rohan-Chabot em casa d'ella, e por causa d'ella, armam uma especie de
briga que conclue por um encontro no campo, como todas as brigas
d'aquelle tempo. Nem por isso a fama de madame Sevigné soffre a mais
leve arranhadura. Que culpa tem ella das loucuras e dos extremos que
inspira a sua «razoavel» e formosa pessoa!
O conde de Ludre esteve vae não vae a vencer as resistencias mysteriosas
d'aquelle coração de mulher que a precoce experiencia da vida endurecêra
para o amor.
Mas, aquelle asseio de arminho, aquelle amor das cousas justas, rectas e
claras, que é em certas mulheres um preservativo efficaz contra os
desfallecimentos da vontade, e o exclusivismo ardente do seu amor
materno, salvam-n'a d'essa tentação suprema, como a salvam do
prestigioso amor de Turenne, da côrte persistente do principe de Conti,
do amor claro ou disfarçado de tantos entre os melhores, entre os mais
queridos e os mais felizes em aventuras femininas.
No meio d'esse fogo que accende, a marqueza conserva-se alegre, calma,
gostando das anecdotas picarescas bem contadas, prompta a receber uma
confidencia escabrosa, comtanto que lh'a façam com espirito e bom humor;
indulgente para o amor da sua maior amiga pelo duque de la
Rochefoucauld, indulgente para as historias mais ou menos salgadas que
de todos os lados lhe vêem aos ouvidos, dotada d'aquella philosophia
tolerante que a mulher virtuosa tem como ninguem, porque sabe, como
ninguem, o preço da virtude.