Quando a gente de longe evoca a grande cidade do luxo, da vida
intelligente, da industria genial, pensa em tudo menos na belleza ideal
das suas arvores. A mim, vejam que estranha cousa!--foi isso que
positivamente me deslumbrou.
O arvoredo em Paris, nos arredores de Paris, nos jardins, nos parques,
nos bosques de Paris, é verdadeiramente delicioso e de um encanto
incomparavel e unico.
N'aquella fornalha tudo parece possivel menos o permanente idyllio que
as arvores representam, pois nem Cintra, essa orgia de verdura, me
consolou tanto a alma a este respeito como Paris. Vê-se que o culto da
arvore, a paixão da Natureza, vive em um canto do coração d'esse pagão
extra-civilisado, que se chama o parisiense. E depois será realmente
extra-civilisado como nós julgamos o parisiense genuino? Não haverá
n'essa immensa cidade cosmopolita, a par de uma minoria pequena de
artistas de talento, uma incontestavel multidão de almas ingenuas que
representam de boa fé toda a especie de comedia, desde o scepticismo _à
outrance_, até ao chauvinismo á Boulanger? Será verdade o que dizem
d'elle os que o pintaram com uma amargura tão acre, F. Flaubert e
Balzac, por exemplo?
Como quer que seja, sceptico ou sentimental, o parisiense adora as
arvores, as flores, a natureza em todo o seu idyllico e sereno encanto.
Um passeio ao domingo, em Auteuil, em Saint Cloud, em Neuilly, nas
avenidas do Bois, bastaria para nos esclarecer a tal respeito. É que
tambem alli as arvores são incomparaveis. Ha alamedas longas e
deliciosas, em que o arvoredo de um verde um pouco ruço se recorta no
azul levemente grisalho do céo! Ha longe verduras em Auteuil, por
exemplo, que dão vontade de chorar, que penetram a alma de uma saudade
doce e amarga a um tempo, a saudade que Adão teve de certo do Paraiso,
de onde foi expulso! Os horisontes desdobram-se tão longos, tão calmos!
Quem dirá que alli, a dois passos, se desenrola a multipla fita dos
_boulevards_, onde a febre da vida é tão tentadora e tão intensa!
Auteuil parece ser o fim do mundo, tão sereno e vagamente adormecido é o
seu aspecto, tão ineffavel bucolismo se exhala da sua tranquilla
paizagem. Para cada lado que lancemos os olhos, se abrem larguissimas
avenidas ao lado de arvoredos, com uns fundos longiquos, em que ha toda
a especie de cambiantes.
O ceu de um azul muito lavado, em que parece ter-se extendido um véu
diaphano de vapor, é bem differente do meu céu portuguez de uma côr tão
quente, ás vezes deslumbradora e excessiva! A agua parece crystallina,
ou sombreada de verde, de uma transparencia deliciosa ou de uma côr
glauca, atravéz das rendas do arvoredo, movediças e multicôres.
Abril tudo em flor, atira em flocos a sua neve perfumada aos troncos ha
pouco despidos; os castanheiros agitam os seus pennachos brancos; os
lilazes saturam a atmosphera do seu cheiro estonteador; ha uma expansão
risonha n'este paraiso artificial creado pelo homem, que se não encontra
infelizmente nos nossos paizes do Sul, onde o solo é tão fecundo, onde a
Natureza um pouco acariciada e auxiliada se desentranharia em maravilhas
de producção!
A nós basta-nos o sol ardente e a vida brutal de que as cousas palpitam
no nosso verão africano; não sabemos pelo trabalho incessante,
intelligente e methodico crear estes paraisos, onde repousa depois
ineffavelmente a frenetica actividade do homem do Norte.
A mim, filha de um paiz accidentado, esta paizagem plena, em que as
alamedas se desdobram lentas, magestosas _à perte de vue_, faz-me uma
impressão de deliciosa calmaria. Não me canso de olhar para as arvores,
as formosas arvores, enormes, colossaes, de um verde tenro, de um verde
ruço, de um verde _mauve_, de todas as gradações imaginaveis do verde, e
em que a nota do verde esmeralda, mais rara, apparece de vez em quando
como uma estridula fanfarra de côr.
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Do alto da torre de Eiffel, Paris apparece todo entrecortado de manchas
negras de arvoredo--«Não ha cidade com mais arvores», digo eu
verdadeiramente abysmada ao meu companheiro e _cicerone_ que me
responde:--«Londres ainda tem mais!»
Só nós portuguezes, com uma terra maravilhosa, um céu esplendido, um
clima em que a flora de todas as zonas egualmente se domestica, somos
incapazes pela nossa inercia proverbial de ter esta abundancia adoravel
de arvoredo, de verdura massiça em torno de nós!
As alamedas de Saint Cloud, com os cimos verdes entrelaçados, formando a
abobada sobre a cabeça dos transeuntes, pareceriam um bocadinho de
floresta selvagem, se não fosse a invasão da burguezia e do povo vestido
de gala que ao domingo positivamente as inunda e banalisa, tirando ao
sonhador que alli foi acariciar a sua chimera intima todo o gozo que
elle podia beber na solidão.
Quando de Saint Cloud, por uma tarde serena e dôce e luminosa de Abril,
se regressa a Paris, como eu regressei, pelo caminho ao longo do Sena,
entre o renque fino e tenro dos choupos que se debruçam nas aguas do
rio, e os _chalets_ e os palacetes que espreitam do outro lado da
estrada do meio dos jardins coalhados de lilazes e de rosaes em flôr,
não ha coração por mais secco e positivo que resista ao encanto
embalador d'este passeio.
Surprehende-se uma pessoa a ser moça outra vez, moça e romanesca e a
arranjar na phantasia uma existencia que quereria ter vivido alli,
n'aquella paz tão proxima da infinda agitação, n'aquelle ermo tão
chegado ao borburinho de uma vida em festa.
Deve ser bom viver e sonhar alli, perto do mundo e tão longe d'elle, a
minutos de distancia do _boulevard_ da Yvette Guilbert, a deusa da
_chansonnette_ moderna, da _Comedie_ e da sua classica e correcta
interpretação da arte, do _Chat Noir_ e da sua phantasia revoltada, e ao
mesmo tempo tão longe de tudo isto, no silencio do arvoredo em flôr, na
serenidade pantheista da dormente e calma Natureza, no seio inebriante
dos lilazes e das rosas que estillam voluptuosa lethargia de cada petala
da sua flôr avelludada e tenra...
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A vida para certos organismos de eleição só se comprehende n'estes dois
pólos contrarios. Ou tudo que a civilisação tem de mais quintessencial e
de mais extremo, ou tudo que a natureza tem de mais calmo e de mais
_permanente_.
Juntar as duas cousas seria para o verdadadeiro artista o ideal, mas que
poucos são os que as sabem ou querem reunir!...
Pensava eu estas cousas vagas, ao passar deante de _Bagatelle_, a casa
campestre e o lindissimo parque, que surdiram com tão vertiginosa
rapidez de uma aposta entre a infeliz e então leviana Maria Antonietta e
o Conde de Artois, e que hoje, depois de varias vicissitudes--as casas e
os homens passam egualmente por ellas--pertence aos herdeiros do celebre
philanthropo William Wallace. A lembrança d'esse tempo, d'essa côrte,
d'essa mulher, cujo nome se fez prestigioso no martyrio, levaram a minha
imaginação para longe, para bem longe no passado.
Fazia justamente cem annos que tanto luxo tanto prestigio, tanta gloria
tradicional se tinham afogado tragicamente em ondas de sangue.
_Noventa e tres_, o anno fatal, surgia sangrento e tragico ante os meus
olhos, produzindo em mim aquelle espanto e aquella fascinação que eu
sempre sinto quando voluntaria ou involuntariamente o evoco.
Tambem ella, a pobre rainha martyr, quiz experimentar essa suprema
sensação da vida feita de contrastes fortes; tambem ella quiz, ao lado
das pompas de Versailles, a deliciosa pastoral do Trianon; tambem ella,
despindo os pesados brocados e as sedas tecidas com ouro da côrte, quiz
enfiar, ligeira e garrida, o vestidinho de cassa, com o lenço castamente
cruzado sobre os seios opulentos; a sua imaginação romanesca de leitora
de Rousseau, de admiradora de Gluck, tambem se soube comprazer n'esta
delicia das experiencias contrarias que é o sol do _dilettantismo_, mas
nem porque viveu intensamente a vida e gozou tudo que ella tem de
melhor, desde a amisade até á arte, lhe foi menos pesada a sua cruz, nem
menos cruel a sua dolorosa via desde Versailles até á Guilhotina.
O ambicioso coração humano deseja tudo, a tudo aspira e tudo quer!
E para que, no fim de contas? lá o diz Pascal na sua phrase incisiva e
sombria: «o remate é sempre identico, qualquer que tenha sido a comedia
ou a tragedia que o antecedeu».
E aqui está como a vista do arvoredo de Bagatelle me levou para longe do
bucolismo, encontrado, onde meu Deus?... a dois passos da fornalha de
Paris!...
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A mais completa visão de arte e de magnificencia que ainda os meus olhos
tiveram, de que elles guardarão para sempre o reflexo illuminado, foi em
Fontainebleau que a recebi.
Fontainebleau está para Versailles como uma joia de Benevenuto está para
um vaso de macissa prata imperfeitamente burilado. Não ha comparação
entre os dois, e para um artista não ha hesitação na escolha.
Como paizagem, aquelle sitio, aquella poetica e enorme floresta
consagrada por tantas recordações artisticas, litterarias e historicas,
é tudo que póde haver de mais estranhamente bello.
Tem a poesia selvagem e a graça outoniça, e saudosa. Parece um paiz
devastado onde se deram lutas de titans, por onde passou o sopro de uma
tempestade cyclopica, onde a natureza estrebuxa em cataclysmos
tremendos, e faz ao mesmo tempo o effeito calmante e doce de um ninho de
verdura que abriga a alma dolente, e a envolve no filtro subtil das suas
essencias vegetaes. O outomno na floresta de Fontainebleau, quando as
arvores se revestem de toda a riqueza infinita de colorido d'esse
periodo divino, quando a pompa victoriosa das fortes verduras acres de
seiva se degrada e decompõe em tons expirantes de um encanto mysterioso,
em como que gangrenas vegetaes que desde o purpureo sangrento e o
amarello alaranjado vão até ao côr de lilaz e ao côr de malva,--o
outomno alli deve ser um poema de voluptuosa melancolia, d'estes que só
sabem saborear os que se deleitam na tristeza como em um nectar sagrado,
defezo ás profanidades do vulgo...
Não admira que n'essa floresta tenham vindo meditar e soffrer tantas
grandes almas desenganadas da illusão multiforme da vida.
Conta Michelet, que perguntando a uma mulher intelligente para onde ella
quereria fugir se uma grande dôr lhe désse a sêde, a necessidade de um
asylo no seio da Natureza, ella lhe respondera:--Para Fontainebleau.
--E se tivesse uma alegria enorme, uma alegria que lhe dilatasse a alma
até ao infinito, onde mais lhe agradaria estar:--Em Fontainebleau!
É que realmente aquella paizagem, como diria Amiel, representa todos os
_estados da alma_.
Por isso S. Luiz nas suas fundas dôres, quando as idéas e os sentimentos
do seu tempo agonisavam, dando-lhe um espectaculo que lhe pungia
atrozmente o coração, era alli na floresta sombria que ia rezar pedindo
a Deus conforto e paz.
Luiz XIV vencido e velho, corroido por esse tédio dos Cesares, a quem
nada resistiu--que é de certo o estado de espirito que mais deve
approximar-se da infinita desolação de Satanaz, foge de Versailles, das
suas pompas, dos triumphos que os seus pintores lhe coloriam e que então
não eram mais que ironias diabolicas do passado orgulho, e vem procurar,
sob as arvores colossaes da floresta amiga, o repouso, o silencio, o
adormecimento ás suas lancinantes dôres de rei... Francisco I,
desenganado d'esse sonho da Italia, que durante os seculos XV e XVI
perseguiu os reis da França, vem alli construir uma Italia franceza que
o console de haver perdido a outra, a que Miguel Angelo e Raphael,
Bramante e Donatello, Leonardo de Vinci e o Ticiano tinham feito tão
fascinadora e tão grande!...
É em Fontainebleau que Napoleão se despede do seu sonho homerico e
sublime, d'esse sonho de um Imperio Universal, que unificasse o mundo
civilisado sob um despota intelligente, e que lhe foi commum com
Alexandre, com Cesar, com Carlos Magno e Carlos V, com todos os grandes
capitães da historia, tão raros como os grandes poetas.
É alli que essa epopéa magestosa e tremenda se lhe desfaz nas tremulas
mãos que assignam a suprema abdicação do poder e da gloria.
Quantas recordações me suggere esse logar fatidico de Fontainebleau, ou
seja o palacio de fadas, ou seja a grande floresta sombria e vasta, onde
talvez os Celtas, ascendentes dos francezes de hoje, colherão no tronco
dos annosos carvalhos o _qui_ das evocações druidicas.
E sahindo d'essas espheras da grandeza social para outra, mais ampla
talvez, mas menos visivelmente pomposa, é em Fontainebleau, que Georges
Sand e Musset dão aquelles ultimos passeios tão tristes, de uma
melancolia feita de tanta saudade, quando _elle_ já sabe que não podia
viver sem _ella nem com ella_, como diz a triste cantiga peninsular
quando _ella_ começa a perceber, que, Ashaverus femenil do amor, tem de
percorrer até ao fim o seu amargo e cru fadario, sem encontrar quem
satisfaça a sua sêde do infinito, sem poder parar n'essa caminhada atroz
em procura do _impossivel_!
Que fundo de paizagem tão triste para um fim de amor! Onde poderiam
elles encontral-o que lhes saturasse a alma de mais tristeza, de mais
melancolia, de mais intensa e inexoravel saudade!...
Era alli ainda que Musset voltara mais tarde evocando em soluços
immortaes as melhores recordações do seu fatal amor.
Dante pourquoi dis tu qu'il n'est pire misère
Qu'un souvenir heureux dans les temps de douleur
Quel chagrin t'a dicté cette parole amère
Cette offense au malheur!
En est il donc moins vrai que la lumière existe
Et faut-il l'oublier du moment qu'il fait nuit
Est ce bien ta grand âme immortellement triste
Est ce tu qui l'as dit?
Non, par ce pur flambeau dont la splendeur m'éclaire
Ce blasphème vanté ne vient pas de ton coeur
Un souvenir heureux est peut-être sur terre
Plus vrai que le bonheur
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As estatisticas dirão quantas leguas quadradas tem a floresta; os
naturalistas saberão explicar quaes as diversas qualidades da sua flora,
e que essencias se distillam das suas varias resinas; eu sei sómente que
ella me encantou, como uma das mais bellas cousas que os meus olhos
ainda contemplaram. Fui a Barbozin, a aldêa em que Millet e Rousseau
pintaram as suas télas melhores, e evoquei alli as figuras da
litteratura contemporanea que tem por fundo magestoso--bem mais
magestoso do que ellas são grandes!--a floresta divina de Fontainebleau.
A scena capital e magistral da _Sapho_ de Daudet é alli que se passa;
quando o pobre moço, empolgado pelo polvo terrivel que é para a mocidade
uma mulher perdida, tenta despegar-se d'ella, quer fugir-lhe para
recomeçar ao longe uma existencia calma e boa--em harmonia com as leis
sociaes, protectoras para quem as respeita, inexoraveis e implacaveis
para quem as despreza ou para quem as illude--e é vencido
irreductivelmente pela piedade que ella lhe inspira, por aquelle bramido
de animal, longo, constante, ininterrupto, com que _Sapho_ acorda e
sobresalta os écos de immensa solidão ao vêr imminente a ruptura de que
elle lhe fala, que elle com mil precauções lhe faz prever... Grande
quadro e de uma moral acre e dolorosa mas incontestavel, que os moços
deviam meditar, se é que os moços meditam, se é que a mocidade é
compativel com a previdencia e o calculo.
O parisiense tem a uma hora e meia de caminho de ferro essa grande matta
que é uma das maiores da Europa e a maior da França, por isso parte da
litteratura contemporanea a tem para theatro das suas scenas de
enthusiasmo, de paixão ou de desespero.
Os pintores vão alli procurar os effeitos maravilhosos da luz penetrando
na espessura, banhando-a em purpura, recortando em fundo de ouro a renda
delicada da sua folhagem, picando de pontos deslumbrantemente luminosos
os seus intersticios mais miudos e mais finos; Millet arrancou-lhe em
paginas immortaes o segredo da religiosidade infinita que possuem as
velhas arvores; Rousseau recortou em pequenas télas retalhos de paizagem
em que a alma das cousas palpita mysteriosamente.
A floresta de Fontainebleau educou uma geração de paizagistas, qual
d'elles mais penetrado da melancolica poesia da natureza. Que benefica
tem sido a sua calma e suggestiva influencia, que saudade eu tenho da
luz a que ella me appareceu, luz primaveril, que punha tons de um tenro
ineffavel em cada rebento, que rejuvenescia os velhos troncos colossaes!
É perto d'alli o lindo Castello de Francisco I, a que é preciso conduzir
o leitor. Deixemos, pois, a floresta e penetremos no palacio.
X
Nos seculos XV e XVI todos os principes, todos os poderosos da terra
tiveram um distinctivo commum que os caracterisa: o seu amor enthusiasta
das maravilhas da arte.
Sabe-se o que foi Lourenço de Medicis, esse Mecenas da litteratura
italiana, esse amante apaixonado e prodigo da erudição, da architectura,
da pintura, da estatuaria. Esse homem intelligente e sagaz, poeta elle
proprio, e apezar de humanista notavel, sacudindo com bastante
independencia o jugo do antigo que pesava demais sobre as musas da
Italia,--mereceu a gloria suprema de ficar immortal no marmore modelado
pela garra de Miguel Angelo.
O _Penseroso_, das estatuas do mestre uma das mais emocionantes, uma das
mais mysteriosamente e tragicamente bellas, teve por modelo o grande
homem florentino, cujo tumulo havia de adornar mais tarde. Leão X, Julio
II e Clemente VII, foram os papas mais doudos pela arte de que reza a
historia.
Ludovico o Mouro encheu de bens e de glorias a Leonardo Da Vinci; os
chefes da aristocratica Republica veneziana não hesitavam quando se
tratava de pagar com prodigalidade louca aos seus soberbos pintores. Mas
Francisco I, o rei da França a quem se deve a magica de Fontainebleau,
esse não sómente adorava a Arte, mas era amigo apaixonado dos artistas.
Sabe-se o enthusiasmo louco com que elle acolheu na sua côrte o já
octogenario Leonardo Da Vinci.
--«Hei de afogar-te em ouro, dizia elle a Benevenuto.--_Faço-te
conego_--exclamou deslumbrado para o italiano Rosso no dia em que este,
pela primeira vez o fez penetrar n'essa galeria esplendida, ainda hoje
chamada de Francisco 1.^o--em que o rei desenganado e cançado passou
depois quasi todos os ultimos annos da sua accidentada existencia. E a
promessa extravagante cumpriu-se tal como se fez. Rosso teve um logar de
conego na collegiada da Sainte Chapelle.
O que fizera elle para merecer tão piedosa distincção? Pintára o mais
estranho e luminoso carnaval de alegria e de côr, que ainda a imaginação
febril de um artista d'aquelle tempo de febre concebera e realizára.
Uma multidão pantagruelica em que ha de tudo: o bello e o horrendo, o
delicioso de graça, e o grotesco; figuras virginaes a que talvez
serviram de modelo para o pintor, e de encanto ephemero para o rei, as
doces raparigas que alli perto ceifavam as tremulas searas, ou iam
buscar as amphoras cheias de agua crystallina das rochas, ás fontes de
Fontainebleau que Jean Goujon e Benevenuto vão fazer idealmente bellas.
No meio da immensa turba de mulheres e de homens, uma flora e uma fauna
inteiramente novas, a flora e a fauna que os navegadores e os
conquistadores da peninsula iberica acabavam, no fim das suas
aventurosas viagens, de revelar ao velho mundo attonito.
A delicia de Francisco I não teve limites ao entrar n'aquelle recinto
encantado em que o mundo da arte lhe desvendava os seus aspectos mais
bellos!
Interrogador e curioso como era, cada quadro lhe suggeria uma pergunta e
uma investigação nova.
O mundo estranho de que o Rosso pintava algumas das maravilhas ineditas
fazia scismar o pagão devoto que Francisco I era, como todas essas
crianças grandes da Renascença.--Mas então mentia a Biblia quando
contava a creação do homem?
Essas raças, cujo segredo agora se desvendava pela vez primeira, não
eram tal, não podiam ser filhas do biblico Adão?
E a terra movia-se em torno do sol? Onde ficavam n'esse caso as palavras
de Josué?...
Depois contavam-lhe as magnificencias da Turquia, a magnanimidade de
Solimão, as maravilhas da civilisação arabe, tão superior em certos
pontos n'aquelle tempo á civilisação christã, e esta idéa de que o turco
não era finalmente o ante christo, o inimigo figadal de todo o bem e de
todo o bello, produzia um espanto infantil no animo de Francisco I.
Tempo encantador este de que a galeria de Fontainebleau ouviu as
conversações curiosas, mixto de tudo que ha mais ingenuo e mais subtil,
mais refinado e mais credulo!...
Ao lado do fauno sensual, do satyro coroado, que foi Francisco I,--o
qual para contrapor aos seus vicios innumeros teve sómente a vibrante
sensibilidade para tudo que é bello;--surge a Margarida das Margaridas,
a encantadora, a diserta, a latinista, a intelligente rainha de Navarra.
N'aquelle tempo saber latim não é um requinte de pedantismo, é uma
exigencia da fina cultura.
Quem não soubesse latim não sabia nada, não tinha conhecimento nem da
poesia no que ella tem de mais perfeito e mais bello, nem da Historia no
que tem de mais suggestivo e de mais inspirador. Ora Margarida amava os
poetas e a poesia, e ajudava seu irmão a fazer a Historia,
aconselhando-o, auxiliando-o, inspirando-o, negociando por elle com os
diplomatas do tempo.
A sciencia, a erudição, a poesia enchem o espirito de Margarida; quem
lhe enche completamente a alma é o irmão, esse irmão grosseiro e
sensual, natureza que, a não ser o amor da arte, seria feita do barro
mais vil, e que mesmo salvo por esse amor, que é no fim de contas mais
uma sensualidade requintada do seu temperamento que uma aspiração
espiritualista, reflecte a omnipotencia dos seus instinctos animaes no
soberbo, no inolvidavel retrato que d'elle fez Ticiano, o maior
retratista do mundo, aquelle que melhor traduz a profunda expressão
moral, a mobil physionomia, o caracter pessoal inconfundivel de cada um
dos seus modelos...
Esse perfil de fauno sensual, que o Ticiano retratou, domina e absorve o
coração delicado e subtil de Margarida.
Por isso eu a evocava agora, na galeria soberba, em que o sol entra a
flux, ao lado do rei seu irmão, analysando com elle as bellas pinturas
que fazem das paredes um kaleidoscopo tão curioso e illuminado, em que o
velho e o novo mundo se confundem, discutindo--com Budé seu
bibliothecario, com Duchatel seu leitor, com os dois irmãos du Bellay,
os celebres humanistas da Renascença franceza, seus favoritos e
commensaes,--um dialogo de Platão que tivesse acabado de lêr em grego,
um verso de Virgilio de que ella houvesse ha pouco saboreado o nectar
subtil, servido na lingua de ouro do seculo de Augusto; uma apostrophe
de Cicero, nas suas Catilinarias, mais abrazada em rhetorica flamma;
conversando com Marot, seu poeta e seu servidor, ácerca da medição e do
rythmo de um hexametro ou de um hendecassyllabo; ou perguntando a todos
elles, curiosamente, avidamente, informações ácerca do novo livro
extravagante que um physico e antigo tonsurado chamado Rabelais acabava
de dar á estampa em Lyão, contando as mirabolantes e inverosimeis
aventuras de Gargantua e Pantagruel, dois gigantes de quem ninguem até
alli ouvira falar, e de Panurgio, o maior sacripante que de memoria de
homem fôra celebrado em lingua vulgar...
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Ao reinado do prisioneiro de Pavia segue-se o do mystico e apaixonado
Henrique II. Margarida eclypsa-se na sombra, e á musa dos poetas succede
a inspiradora dos artistas ébrios de enthusiasmo...
No céo da Renascença azul e ouro, é Diana quem desponta... A Salamandra,
emblema e symbolo do rei que arde continuamente na flamma impura do
desejo, sem jámais chegar a consumir-se, é substituida pela inicial de
Henrique enlaçada por dois crescentes symbolicos, e esta data assim
poeticamente indicada vale para a posteridade muito mais que a mais
rigorosa chronologia marcada pelos sabios. Este anagramma amoroso
representa um grande amor, um estranho sentimento que participa do
mysticismo cavalleiresco e do sortilegio magico, do ideal mais puro e do
_envoûtement_ mais pavoroso.
Quem é esta esbelta Diana, ligeira, airosa e bella? Não o perguntem á
Historia, que essa, implacavel como a verdade, falar-lhes-ha de uma
velha furia, sedenta de dinheiro e de vinganças, esmagando os povos, que
a maldizem, com o peso das contribuições mais engenhosas, das que tiram
o sangue e a pelle á plebe opprimida que se lamenta em vão.
Perguntem-n'o á Arte, a magica divindade que transfigura tudo aquillo em
que toca. Responder-lhes-ha a Diana de Jean Goujon, encostada
familiarmente ao veado manso e bello que lembra o principe encantado das
lendas, ou mais longe ainda, sempre modelada pelo sublime artista,
contemplando amorosamente o mesmo bicho symbolico, que approxima da
bocca finamente recortada da deusa a sua bocca de animal, como que a
pedir o beijo mysterioso que quebre o encanto que o tem encarcerado
n'aquella fórma inferior e que o restitua bello e victorioso á antiga
fórma humana.
Responde-lhes a Nympha de Benevenuto Cellini, ora entre as féras que
caçou e os galgos que as perseguiram, ora estendendo-se voluptuosa junto
á frescura das fontes, ora caminhando nua pelos campos, seguida pelo
cortejo das nymphas que ella, a Diana immortal, a inspiradora dos
eternos amores que não se extinguem, domina inalteravelmente pela altiva
elegancia e pelo magestoso porte regio.
De todas estas imagens estranhas, inverosimeis, de corpo longo e
flexivel, que parecem copiar na pedra dura a fluidez das aguas
correntes, o baloiço ondeante das hervas altas, a voluptuosa
flexibilidade das lianas que se enredam e entrelaçam,--de todas estas
imagens que a arte prodigalisou aqui, a nossa imaginação compõe uma só
figura, um só vulto, uma só imagem que as concretiza a todas.
É a mulher amada e triumphante, a Diana dos encantos invenciveis e
inviolados, a que pediu á deusa, sua madrinha o segredo dos filtros que
fazem parte do seu culto antigo, para ser eternamente amada, contra o
tempo, contra a fortuna, contra tudo...
A arte que a immortalisou no marmore devia-lh'o. Ninguem como ella fez
da arte uma auxiliar, uma amiga, uma feiticeira cumplice dos seus
encantamentos de mulher. Que importa o que diz a historia de Diana de
Poitiers? Quem fala verdade é a Arte. De todas as mil illusões de que a
vida se faz e se compõe, só ella é mais intensa do que a realidade, e
mais verdadeira do que a verdade!