Tem seis metros de altura a famosa _Porta_. As estatuetas do alto,
alguns grupos dos paineis, e os baixos relevos inferiores estão
completos ou quasi completos, mas ha pela vasta officina, espalhadas no
chão, nos sofás, nas cadeiras, em _ètagères_, estatuetas de todas as
dimensões, em todas as posturas incoherentes, convulsas; de supplica, ou
desespero, de agonia ou de dôr, dando a impressão de um campo de batalha
em que os combatentes se conservassem todos vivos, ou de um cemiterio
que houvesse resuscitado inteiro, em virtude de qualquer galvanismo
prodigioso...
O escriptor a que me estou referindo considera esta multidão de estatuas
um agrupamento humano tão significativo, tão eloquente, tão expressivo
em cada uma das suas mil attitudes, que só o apreciará quem o estudar
individuo por individuo, como se folheia um livro pagina por pagina,
como se lê uma partitura nota por nota, como se analysa um corpo fibra
por fibra...
É a _Porta do Inferno_, quer dizer a agglomeração n'um drama cheio de
movimento e de vida dos Instinctos, das Fatalidades, das Paixões
inclementes que no homem vivem intensamente, dominando-lhe a vontade,
vencendo-lhe a razão, subjugando-lhe as resistencias, dobrando-o sob a
sua acção irreductivel, fazendo d'elle o instrumento inconsciente de uma
força da natureza que a sua intelligencia não comprehende, e que a sua
virtude não submette...
Sob o cinzel d'este artista genuinamente, apaixonadamente, sentidamente
_moderno_ que é Rodin, o poema do vate gibelino não conservou a côr
local, nem tão pouco o colorido catholico que o especialisa.
O esculptor despiu o seu symbolo de toda a significação italiana e
medievica, e sómente aproveitou a moldura que elle lhe prestava para
exprimir dentro d'ella os aspectos humanos e universaes, que o tempo não
transforma e que o meio não pode alterar.
A _Porta_ ainda está por concluir; sómente o enquadramento do poema
esculpido se póde julgar executado e completo.
As divisões principaes, todavia, já podem ser imaginadas.
Começando pela parte inferior da _Porta_ vê se que os baixos-relevos por
sobre os quaes se vae erguer a composição principal, têem nos paineis
centraes mascaras inolvidaveis, contrahidas por todas as expressões da
Eterna Dôr.
Corre em doida grinalda viva, em roda d'essas physionomias atormentadas,
uma dança vertiginosa de mulheres, de satyros e de centauros.
Pelos dois humbraes da Porta, sobe uma _theoria_ de figuras apertadas no
estreito espaço, alongadas, fluidas, em alto relevo parcial.
São as doces apaixonadas, as criminosas felizes da paixão illicita, os
amantes que a mesma angustia entrelaça, e as velhas, que já perderam o
que tinham de humano, e as creanças inconscientes, nascidas de pouco
tempo e já marcadas pela garra adunca da Vida, tentando em vão
prescrutar com os seus olhinhos cegos o limbo incolor onde os membros
rachiticos se lhes agitam convulsamente.
No alto, sobre o frontão ha tres homens que são a representação viva do
distico dantesco: _Lasciate ogni speranza_. Inclinam-se uns sobre os
outros na attitude da desolação inconsolada. Apontam com os braços
extendidos para um ponto ignoto, a região do irreparavel, do
horrendamente irreparavel.
Por debaixo d'elles á frente das multidões movediças, que constituem o
primeiro circulo do inferno, um poeta nú, sem nenhum dos distinctivos
que marcam uma época ou uma nacionalidade, medita, mas em uma postura de
repouso.
Os membros fortes são feitos para as longas caminhadas e para as luctas
asperrimas, o rosto inquieto e intrepido, que se crispa na obsessão de
uma idéa fixa, reflecte e repercuta a piedade, a indignação, a tristeza,
todas as sensações que excitam o pensador até ao enthusiasmo, e o
commovem até á lamentação dolorida e tragica.
Aos pés d'elle, sob o seu triste olhar meditativo passa em turbilhão
vertiginoso, cahe no espaço vasio, ou rasteja dolorosamente a humanidade
inteira, na sua teima feroz de viver, de viver atravez da lucta
dilacerante, de viver despedaçada, torturada, sangrenta, com espasmos
violentos de gozo que fazem soffrer mais do que as dôres, com agonias
d'alma que lembram arroubamentos de extase!..
Extraordinaria a concepção do Mestre! Dizem que esses esboços, esses
estudos, essas realisações plasticas bastam para provar a tenacidade de
trabalho do obreiro maravilhoso, a actividade genial de um creador de
seres vivos!
Cada figura isolada, cada grupo freneticamente enlaçado, cada
representação de uma das mil paixões que cingem nos seus tentaculos de
polvo o corpo fragil e a alma dolorida da pobre humanidade, affirma
victoriosamente não só a destreza magistral do estatuario, como tambem a
ardente visão do poeta e a comprehensão soberba do pensador.
Ha entre centenas de outros, cuja descripção acabo de ler enlevada, com
pena inconsolavel de os não ter chegado a vêr com os meus proprios
olhos, um que bastaria, segundo a mais exigente critica assegura, para
confirmar a grandeza de concepção, a força tranquilla e a doçura
melancholica d'este grande artista, que em fórmas asperas, atormentadas,
sem a molleza amaneirada de que hoje a estatuaria reveste o corpo
humano,--soube encerrar e traduzir o infinito das tormentas moraes e a
variedade horrorisante das dôres physicas.
Esse grupo é o de _Francesca e Paolo_, ou antes, tão supprimidas estão
todas as condições do tempo e do logar, tanto escrupulo houve da parte
do artista em conservar os caracteres geraes e puramente humanos, este
grupo é o do amante e da amante, quer dizer do Amor.
Do Amor, não como a Grecia o pintou nos seus mythos risonhos, mas do
Amor ardente, apaixonado, cruciante e doloroso, cruel e divino, prodigo
em extasis e em torturas, em espasmos e em lagrimas, tal como a morbida
imaginação de hoje o concebeu e creou!...
O homem é alto e forte, esbelto e flexivel. A mulher, em pleno
desabrochar da puberdade, está sentada com tal ligeireza e tal meiguice
sobre o seu joelho esquerdo, que parece pesar apenas o que pesaria uma
ave.
A mesma doçura de contacto é perceptivel aos sentidos no gesto com que
elle, fazendo do braço um collar quente e caricioso, a prende a si,
emquanto que a outra mão lhe toca no corpo com delicada ternura... Essa
mão forte e musculosa, feita para se imprimir pesadamente nas cousas,
tem a leveza divina do contacto de uma flôr.
O abandono da amante é completo. Enlaça-o como uma liana, enrola-se
n'elle com um carinho em que ha a gratidão do amor feliz e a avidez
insaciavel de caricias; e com a mão que lhe fica livre d'este abraço
apaixonado toca femenilmente nos cabellos com um geito feito de timidez
e de graça pueril.
A cabeça do homem inclina-se, a cabecinha da mulher ergue-se para elle e
as duas boccas encontram-se em um beijo que é como que a união mystica
de dois seres!
A extraordinaria magia d'esse beijo consiste n'isto: é um beijo visivel!
Visivel na impressão violenta que contorce em uma attitude de sedenta
adoração o corpo do homem; visivel no arroubamento da mulher todo ardor
e todo graça!
É triste e deliciosa essa representação sublime e symbolica do amor
humano. Envolve-a como que o nimbo da tristeza que envolve aos nossos
olhos tudo que é bello, intenso de vida e condemnado á morte!...
Como vêm, a inspiração de Rodin participa do que mais agudo tem a
observação da vida real, da vida verdadeira em todas as suas
manifestações e fórmas physicas, e de tudo que mais alto e subtil tem a
poesia das cousas e que d'ellas se destaca como um perfume inebriante,
capitoso e perturbador!
O que elle principalmente traduz é o amor nas suas infinitas modalidades
tragicas ou divinamente bellas...
O amor dos nervos, o amor da carne e o amor da alma entrelaçados e
produzindo esse mixto doloroso, que embriaga como um filtro, que corróe
como um veneno, que contrahe como uma convulsão, que entontece os
sentidos e dá ao coração as revelações da infinita Dôr!
D'entre os criminosos de Dante, elle escolheu para os modelar pela sua
mão genial de grande artista pensador, os criminosos que o amor
subverteu no abysmo infernal.
Elles exprimem o cançasso devastador da saciedade que já nada espera; o
phrenezi do extase que nada satisfaz; a ternura desbordante que a morte
ha de breve estancar; as fadigas as aspirações, os sonhos morbidos, as
angustias e as melancholias que essa paixão entre todas omnipotente
inflinge aos seus condemnados escravos.
O amor que Schopenhauer descreve como a astucia suprema da Natureza que
se recusa a morrer, e que a maior parte das vezes não passa de um
arrebatamento ephemero, de uma illusão rapida e momentanea; o amor que é
a impossivel aspiração que leva dois seres a quererem formar essa
Unidade mysteriosa que seria o supremo triumpho da Vida sobre a
Dôr,--aspiração que remata no tragico desengano e na fallencia absoluta
do Ideal sonhado, pois que nunca uma alma consegue penetrar
absolutamente outra alma, nunca dois entes estranhos conseguem ser
apenas um _ser unico_, e não ha agonia mais tragica do que esse luctar
angustioso para alcançar um impossivel bem,--o amor tal como á triste
lucidez dos nossos dias elle apparece, doloroso, violento e cheio de
ardentes lagrimas: eis a inspiração, senão unica, principal do grande
traductor plastico da sombria epopéa dantesca!
Como é triste, como representa bem o _Terror_ sentido perante as duras
revelações da Vida, a sua Eva admiravel que, levantando os dois braços
em um gesto de espavorida angustia, e como que esmagando com elles os
seios tumidos da humanidade futura, tapa com as mãos entrelaçadas os
olhos que tanta miseria têm de ver ainda na terra...
É triste, soberba e bella, rica sobretudo de maravilhosas interpretações
a concepção que Rodin fórma da estatuaria moderna. E por elle ser,
d'entre os esculptores modernos, o que mais frisantemente e
voluntariamente se afasta do ideal da Antiguidade, é que eu, em face da
Venus de Milo radiosa, tranquilla, serena e pura, quiz levantar deante
dos olhos do leitor um esboço ao menos rude e tosco embora, d'essa
tragica _Porta do Inferno_, pela qual o esculptor nos faz penetrar na
gehenna das loucas paixões insaciadas, que erguem na sombra o seu brado
ululante de intraduzivel dôr...