VI

Visto que no outro capitulo fallei, não na inferioridade o que seria um

mal escolhido termo, mas na differença que distingue a estatuaria

moderna da estatuaria antiga, vou dizer alguma cousa a respeito de um

dos artistas mais palpitantemente _modernos_, mais caracteristicamente

diversos dos antigos que hoje possue a França e a quem de passagem me

referi nos meus anteriores artigos.

Este artista é Rodin. Os seus principios foram rudes e difficilimos,

como o de quasi todos os verdadeiros artistas, quer dizer d'aquelles que

trazem comsigo um temperamento tão accentuadamente independente e tão

intransigentemente pessoal, que desnorteia todas as rotinas e

revoluciona todas as estheticas estabelecidas e todas as escolas

triumphantes.

Hoje Rodin é, elle proprio, um triumphador.

Acceitam-lhe as suas audacias, proclamam-lhe a altiva independencia

artistica, chamam-lhe um dos primeiros, senão o primeiro esculptor do

seculo.

Nem sempre comtudo succedeu assim.

Quando elle primeiro apresentou no _Salon_ a sua figura denominada

«L'áge d'airain», que hoje, comprada pelo Estado, se admira no Jardim do

Luxemburgo, a primeira impressão do Jury, diante da escrupulosa

exactidão de algumas partes d'esse corpo energico, foi que o estatuario

o tinha modelado sobre um corpo vivo e real.

Como se um tal excesso realista e anti-esthetico não fosse a condemnação

de um artista e pudesse produzir outra cousa a não ser uma obra morta

logo á nascença.

Foi em 1877 que a figura da «Idade de bronze» foi mandada ao _Salon_. Em

1881 Rodin expunha o «S. João de bronze», «um anachoreta magro e

robusto, de musculatura devastada e solida, erguida sobre pés que a

marcha endureceu, torso nodoso, habituado a todas as intemperies, com um

gesto de prégador obstinado, que levanta a face illuminada e aberta dos

mysticos e dos colericos.»

Até 1885 Rodin, que ao pé do «S. João» expuzera tambem a «Creação do

homem», apresenta na grande nave do Palacio da Industria os bustos

expressivos e magistraes de Jean Paul Laurens, de Carrier-Belleuse, de

Victor Hugo, de Dalou, de Antonin Proust.

No emtanto o acontecimento magno que até o presente domina a carreira

artistica de Rodin é a concepção e a execução da «Porta», destinada ao

«Museu das artes decorativas», á qual me referi já n'estas mesmas notas.

Fiz, acompanhada do meu amavel _cicerone_ o trajecto longo que leva ao

«atelier» de Rodin.

Caminhámos pela rua da _Universidade_, atravez dos longos _boulevards_ e

das largas avenidas que se entrecruzam ou correm parallelamente nas

proximidades dos Invalidos.

É uma rua aristocratica e socegada; tem grandes palacetes e tem velhas

arvores.

Outras vezes surprehendem-nos entre esses vestigios de antigas

grandezas, pequenas casas graciosas com jardinsinhos á ingleza cuidados

e cheios de flores.

No fim, perto da odiosa torre Eiffel, escandalo de mau gosto,

americanismo revoltante erguido em plena Athenas moderna,--a physionomia

d'esta rua placida e tranquilla modifica-se bastante.

Grandes muralhas nuas, grandes tectos envidraçados, mais altos do que as

muralhas, annunciam ao observador que entra n'um bairro de esculptores e

pintores.

Entrámos no n.^o 182.

Transposta a grande porta, que lembra o portão de uma das nossas

quintas, achámo-nos dentro de um cerrado bastante vasto, em que o chão é

musgoso e esverdinhado, em que ha recantos de herva alta e viçosa, e por

sobre os muros do qual, verdes ramarias de arvores espreitam

curiosamente...

A dois passos do vertiginoso movimento de Paris respira-se aqui uma paz

profunda, uma quasi solidão melancolica e doce.

Aqui e alli, enormissimos blocos de marmore de fórmas diversissimas, de

côr frigida e branca, de arestas que brilham como aço ou como vidro ao

sol de abril, de veias azuladas em que parece gyrar um mysterioso

sangue...

Dormem na severa prisão cyclopica d'esses blocos brutaes corpos airosos,

leves, esbeltos de nymphas florentinas, bustos delicados de Eva

adolescente, divinas nudezas de que esses marmores são a primeira fórma

rude, fórmas delicadas em que o genio do artista accenderá uma chispa

mysteriosa de vida immortal.

Que deliciosas figuras de mulher um cinzel magistral arrancará d'essa

massa dura e informe!

Como elle saberá flexibilisal-a em membros de uma graça serpentina,

arredondal-a em braços que se abrem em uma curva deliciosa e suggestiva,

derramar, sobre niveas espaduas nuas, a vaga fluida e revolta de uma

cabelladura crespa e magnifica, entreabrir em um sorriso enygmatico

finos labios femenis, allumiar de ignota chamma o globo cavado de uns

olhos, desabrochar em molles curvas a flôr de um seio virginal...

Todas estas visões de um mundo increado nos são suggeridas pela vista

d'esse campo cheio de pedras enormes, que á tarde, na luz rosea e

violeta do crepusculo, parece--disse-nos alguem--uma charneca semeada de

gigantescos tumulos...

Sobre esse armazem de pedra ao ar livre abrem as portas baixas dos

«ateliers» de esculptores que alli vieram buscar a commodidade e a

solidão. Um d'elles é o atelier de Rodin, que eu ia visitar.

* * * * *

Infelizmente, foi trahida a minha anciosa espectativa. O mestre não

estava, e o discipulo, que trabalha com elle,--um rapaz do Norte, de

immensa distincção de aspecto,--nem sequer pôde mostrar-nos a esplendida

_Porta_, que estava no compartimento fechado contiguo áquelle em que nós

entrámos, para admirar alguns grupos de marmore, em que a poderosa

_griffe_ do grande esculptor se imprimira profundamente.

O talento de Rodin é tão pessoal, é tão inconfundivel a sua maneira,

que, depois de se ter visto um corpo humano modelado por elle, não

tornamos a confundir este poderoso manejador do cinzel com nenhum dos

seus contemporaneos celebres.

Discipulo de Barye e de Carrier-Belleuse, a originalidade de Rodin

destaca, comtudo, em uma energia indominavel.

E original é ainda o assumpto que elle escolheu para essa _Porta_

monumental, apesar de arrancado á Divina Comedia Dantesca. É uma

transformação da idéa do poeta, não é uma copia do seu pensamento, nem

um reflexo exacto da terrivel visão florentina.

Transcrevo de um critico eminente que fez a analyse da obra do esculptor

a descripção d'essa obra soberba, que eu tanto quizera ter visto.

Mas, antes d'isso, o retrato do esculptor tal como elle apparece,

envolto no prestigio de uma sympathia merecida, aos seus admiradores que

se contam por milhares.

Rodin é baixo, atarracado e placido de aspecto.

A barba loura cahe-lhe em ondas fartas por sobre o peito, enquadrando um

rosto friamente espiritual, um d'estes rostos de homem que valem

principalmente pela luz interior que os illumina, e que ora traduz a

serenidade silenciosa do trabalhador satisfeito com a sua obra, ora a

distracção absorvente do artista em lucta com as difficuldades ingentes

da execução manual, ora a preoccupação dolorosa do investigador

insaciavel em busca do novo e do perfeito. A fronte de mystico, um pouco

ogival na fórma, é vasta bastante para conter um cerebro potente de

pensador e de poeta.

O olhar e a voz estão em harmonia absoluta; olhar agudo, brilhante, que

concentra em si a luz; voz doce, intima, penetrante, que se insinua, e

onde um toque de causticidade põe não sei que estranho realce...

Tal o artista de tenaz vontade, a quem a estatuaria moderna, complicada

e symbolica, revela os seus segredos mais subtis.

Como typo representativo da arte moderna, não o ha mais culto, mais

philosophico, mais apto para entender tudo e tudo realisar.

E porque elle é assim, absolutamente incompativel com o simples ideal

grego, é que procurou no grande poeta da Idade Média o assumpto da sua

obra definitiva e magistral, obra de metaphysico e de observador, ao

mesmo tempo que é obra de artista; representação tragica, complexa e

soberbamente executada, da Natureza e da Vida, em alguns dos seus

aspectos mais inquietadores.

Pelo mundo fóra · 第 10 / 52 题