Mas quem nos diz a nós que a Venus de Milo, objecto de uma ardente e
justa admiração entre os modernos, não fosse no fim de contas uma
estatua vulgar no seu tempo?
Os grandes esculptores gregos, aquelles cuja chronologia e cuja historia
chegaram até nós, descobertas pela paciente erudição, em alguns
fragmentos de Plinio, de Pausanias, de Cicero, de Quintiliano, não
faziam as suas obras mais preciosas senão em ouro, em prata, em marfim,
em materias firmes bem mais raras que o paros e o pentelico, de que hoje
se guardam nos museus os torsos mutilados, os fragmentos soltos, as
reconstituidas estatuas.
Ao pé do que se sumiu d'essa sublime estatuaria grega, flôr suprema
d'aquella civilisação de athletas, de gymnastas, de oradores e de
heróes, quantas attitudes para a «esculptura»! O que resta vale bem
pouco, e representa apenas como documento de uma éra extincta.
Mas pelo que resta, nós sabemos que o corpo bello, viril, robusto e são,
movendo-se livremente sob a claridade azul de um céo sem manchas, era o
ideal artistico d'esse povo que, mais feliz que nenhum outro, traduziu
integro e immaculado o seu sonho da vida, e--para quem é a vida, mais
que um sonho?--na religião, na arte, na poesia, nas paginas luminosas de
Homero, Eschylo e Platão, na fórma sublime da sua Acropole, ante a qual
Renan soltou aquelle melancolico e sublime grito de amor, nas frisas e
estatuas dos seus templos, nas ceremonias divinas e inspirativas do seu
culto, que ora são castas como a longa procissão das Panatheneas, ora
são soberbas de força e de pujança animal como as dansas e os jogos de
ephebos nús...
A Grecia amou a sobriedade, a correcção, a graça e a força.
E depois de percorrer um periodo longo e o progressivo da iniciação,
chegou ao ponto de combinar e fundir os extremos mais oppostos n'aquella
completa harmonia, que só uma vez se realisou na terra e que não torna
mais!
Que importa, porém, que não torne?
Bastou que apparecesse uma vez, que brilhasse sobre nós, astro longinquo
e puro hoje apagado e de que ainda vêmos o reflexo calmo, para que o
mundo ficasse eternamente ungido d'aquella graça mysteriosa, d'aquelle
divino _atticismo_ que em alguns raros eleitos resplandece e de que
todos temos o presentimento, a sêde, ou a avidez!
Por isso Renan, a alma mais accessivel á influencia do bello de que
talvez possa ufanar-se o nosso tempo, dizia no alto da _Acropole_ estas
palavras que traduzem um sentir universal que até alli não achára
expressão condigna:
--«Ó Natureza impeccavel! Oh! simples e verdadeira Belleza! Deusa cujo
culto significa sabedoria e razão! oh! tu cujo templo é uma lição eterna
de sinceridade e consciencia! chego bem tarde aos umbraes dos teus
mysterios; venho ao teu altar cheio de remorsos! Para te encontrar, que
infinito esforço eu fiz!
«A iniciação que, n'um sorriso, davas ao atheniense na primeira
infancia, só á força de reflexões e de esforços eu pôde conquistal-a!
«Tu só és moça! tu só és pura! tu só és sã! tu só és invencivel!»
Um outro critico profundo, que estudou a Grecia com o amor com que se
estuda a civilisação-mãe, de que todas mais ou menos dependeram depois,
diz que no caracter nacional d'essa raça se discriminam claramente os
tres traços fundamentaes que constituem a intelligencia de um artista.
Estes tres traços são a _delicadeza da percepção_, a _necessidade
absoluta da clareza_ e o _amor e culto da vida presente_.
O primeiro d'esses traços permittiu-lhes perceber as relações secretas
das cousas, deu-lhes o sentimento fino e raro das _nuances_, e a suprema
aptidão para construirem conjunctos de fórmas, de seres e de côres,
combinações de circumstancias e de elementos tão bem ligados entre si e
por tão estreita identidade de relações, que a sua creação de arte foi
tão _viva_ que excedeu no mundo imaginario a harmonia preestabelecida no
mundo real e verdadeiro.
Ao segundo deveram o sentimento da proporção que possuiram como nenhum
outro povo, o odio ao vago e ao abstracto, o desdem pelo monstruoso e
pelo enorme,--que é a marca distinctiva do Oriente, do qual elles só
aproveitaram o bom,--o gosto dos contornos firmes e precisos. _O amor_ e
o _culto da vida presente_ bem o revelaram na sua religião sem mysterio
e sem _au delá_, na sua paixão pela belleza plastica, na sua sêde de
serenidade e de alegria, no seu antagonismo ingenito com a doença, com
as miserias physicas ou moraes, no seu encantamento absoluto, e que é
para nós immoral mas que para elles o não era, deante do corpo nú,
representação suprema da força, da graça, da saude e da belleza...
Uma raça tão maravilhosamente dotada, idealista e positiva a um tempo,
tinha por força de traduzir-se no esplendor das artes plasticas.
O espectaculo permanente dos bellos corpos nús, ou envoltos lassamente
na elegante e longa tunica que na altura do joelho se duplica e cahe
sobre os pés em pregas esculpturaes de inimitavel graça, a contemplação
habitual d'essa raça que se distingue pela nobreza simples das
attitudes, pela perfeição athletica da fórma, pela serenidade do aspecto
que as nossas mesquinhas ambições ou o nosso devastador pensamento não
tinham convulsionado,--tudo devia naturalmente produzir, pelo pendor
imitativo que caracterisa o espirito do homem, a maravilhosa floração de
artistas sublimes que ao principio tentaram e depois conseguiram
libertar a noção do bello da estreita prisão que o cingia e apertava,
fixar no marmore, no ouro, no marfim e no bronze a soberba visão da
força militante ou graça ingenua e pura!
Como é interessante seguir a evolução da arte grega desde o ponto em que
ella parece ainda pedir á inspiração hieratica do Egypto o molde
incorrecto que a liga e mumifica, até a hora em que Praxiteles arranca
do marmore a sua Venus de Gnido, de que a Anthologia canta assim a
voluptuosa formosura:
«Cythera trazida pelas ondas foi a Gnido admirar a propria imagem, e
após longa contemplação falou d'est'arte: Onde é que Praxiteles me viu
sem véos?... Não, Praxiteles não ousou violar-te com olhar sacrilego. O
que elle fez foi representar-te com o cinzel qual te havia sonhado!»
Ao principio, a architectura e a estatuaria, estreitamente unidas,
pareciam identificadas e inseparaveis; mas quando a estatuaria se
emancipou, não foram sómente as frisas e os baixos relevos dos templos,
as colossaes effigies da «cella» interior, que captivaram e deslumbraram
o olhar do povo grego, foram as soberbas figuras erguidas ao ar livre, a
Athenêa colossal de Phidias, a Sosandra de Kalamis, as mulheres de
Carya, a Artémis divina em volta de cuja estatua as virgens da
Lacedemonia vêm tecer annualmente as suas dansas rituaes!
Desappareceu o ingenuo symbolismo primitivo, que representava cada
divindade com os attributos do seu poder, ou com os accessorios
significativos das transformações naturaes de que ellas todas eram a
concreta imagem; agora o que se revela ao fanatismo de belleza que
palpita na alma grega, são divinos corpos de mulheres em toda a
magnifica pujança da sua belleza creadora, em toda a graça adoravel da
sua feminina poesia.
V
A estatua deante da qual eu acabo de passar algum tempo, pedindo-lhe o
segredo do perdido Ideal que ella traduz, representa, como eu já disse,
esse momento fugitivo e bello da vida grega.
Esculpiu-a um desconhecido artista: mas não são totalmente desconhecidos
tambem para nós, os pobres oleiros que amassaram e modelaram as lindas
estatuas encontradas nos tumulos de Tanagra e não são tambem ellas a
poesia, o encanto, o velado mysterio, a ineffavel graça?
Falando d'ella, diz Paulo de Saint Victor: «Oh! bemdito seja o camponez
grego, cuja enxada exhumou a deusa enterrada ha dois mil annos em uma
leiva de trigo!... Graças a elle, a idéa do Bello ascendeu mais um gráu
sublime, o mundo plastico encontrou a sua Rainha!... A belleza ondula
d'essa cabeça divina e espraia-se em todo o corpo como uma luz!... Só a
lingua de Homero e de Sophocles seria digna de celebrar tão regia Venus!
Sómente a amplidão do rythmo hellenico poderia moldar, sem
deslustral-as, fórmas tão perfeitas!
«Por que palavras exprimir a magestade d'esse marmore triplamente
sagrado, a attracção mesclada de assombro que elle inspira, o ideal
supremo e ingenuo que revela?»
E Theophile Gauthier, descrevendo-a, diz assim:
«A fronte soberba, de linhas curvas, cingida pelas _bandelettes_ do
penteado, é tal qual a podiamos sonhar para séde de uma alma divina; o
collo direito e firme lembra o fuste de uma columna dorica, o seio de
virgindade eterna é digno de servir de modelo, como o de Helena, para a
taça dos altares!»
E, no emtanto, essa bella e pequenina cabeça, que uma graça ideal nimba
eternamente, não é tal como elle diz, séde _de uma alma divina_. A Venus
de Milo não pensa. N'aquella branca flôr marmorea uma alma vegetativa
sonha e dorme! Que sabe ella da Vida e das suas longas tragedias, que
sulcam de rugas profundas a fronte pallida das mulheres, que contorcem
em ancias, indomitas como o Oceano, a alma dos homens?
Quem lhe revelou, a ella, o segredo das nossas paixões que devastam, das
nossas luctas que ou disvirilisam ou depravam, das contradicções
medonhas de que erriçamos o nosso cruel destino, dos abysmos que abrimos
debaixo dos nossos cançados pés? Que presentimento sequer tem ella--a
deusa inalteravel e serena--de tudo que a engenhosa imaginação dos que
vieram depois--deuses e homens--inventou para se torturarem e nos
torturarem?
Os dois mil annos que temos a pesar-nos sobre a cabeça e sobre o peito,
passou-os ella ignorante e tranquilla sob a terra da Grecia.
O que ella representa é um momento risonho e curto da existencia humana;
um momento em que tudo é bello e harmonioso na terra e no céo, em que,
para imitar os deuses que crearam, os homens não precisam de deixar
mutilar as suas energias mais vivas, os seus instinctos mais naturaes;
um momento em que o amor é sagrado e puro como a fonte inexgotavel dos
sêres, e como tal tem culto e tem altares; um momento em que a Natureza
é benevola e sã, e em que da espuma dos mares da Jonia póde brotar a
flôr maravilhosa da eterna belleza, em que a inconstancia das ondas, a
perfida doçura das sereias, o abysmo glauco, que tem no fundo grutas de
esmeralda collaboram em uma obra divina e produzem um symbolo
immortal...
* * * * *
Que differença d'essa concepção propria á esculptura antiga e a nossa de
hoje, tão fundamentalmente opposta nos fins e nos processos!
E no emtanto a estatuaria franceza representa no seculo XIX um momento
glorioso da historia da arte! Mas desenganem-se. Póde a estatuaria
franceza moderna revelar um grande talento da parte de quatro ou cinco
ou mesmo mais individuos; não é, não pode já ser uma necessidade, uma
aspiração da raça, universal e irreductivel!
É um esforço de talento individual, não é o rebento vigoroso e vivaz em
que desabrocha finalmente a alma de um povo!
Depois da minha visita incompleta, mas cheia de interesse, ás galerias
da antiguidade classica, fui ao Luxemburgo vêr as estatuas francezas
modernas, e procurei, nos monumentos erguidos aqui ou alli, á memoria de
um artista querido ou de uma gloria nacional, o sello, a marca, pelos
quaes uma arte revela as intimas fibras de que é feita.
Vi corpos de mulher verdadeiramente encantadores! O marmore, branco de
mais, tinha a fluidez da carne tenra sob a qual o sangue, púrpura viva,
circúla rico e livre, mas pareceu-me que a preoccupação da _expressão_
dominava absolutamente os artistas e que elles tinham quasi todos
perdido o segredo em virtude do qual um corpo humano, masculino ou
feminino, interessa por si só, pela harmonia das suas proporções, pela
liberdade com que jogam os seus musculos, pelo rythmo mysterioso de cada
uma das suas linhas.
E voltei d'essa peregrinação artistica sempre mais convencida, de que a
esculptura é talvez a mais bella das artes, mas a que está em menos
harmonia intima com o nosso ideal da vida!
Que temos nós feito em um longo esforço de dezenove seculos, apenas
interrompido pelo movimento artificial, erudito e artistico, mas não
popular da Renascença?
Temos contrariado pertinazmente a acção da Natureza sobre os nossos
gostos, instinctos e paixões. O que é o christianismo na sua essencia
philosophica e na sua influencia social? Uma reacção violenta e
permanente contra essa noção pagã da existencia que fazia d'ella uma
festa perenne e magnifica; que fazia do corpo humano alguma cousa de
sagrado e de inviolavel, que tudo devia tender a satisfazer e a servir;
que fazia dos instinctos naturalistas da nossa especie a lei suprema a
que céo e terra se subordinassem, pois que os deuses para serem amados
deviam ter e tinham as paixões que hoje fazem os homens criminosos.
O animal humano era realmente então o rei da creação, mas nenhuma das
suas forças enfraquecera ou diminuira, nenhuma das suas energias fôra
mutilada, nenhum dos seus instinctos domados, e elle movia-se livre,
feliz, triumphante e bello, em uma atmosphera de apotheose, que nenhuma
sombra vinha sinistramente obumbrar.
A antiguidade grega não é uma orgia, porque a orgia precisa de ter por
fundo a consciencia do peccado, e a Grecia em tudo que fez de
peccaminoso e de immoral aos nossos olhos, não violou nenhuma lei
divina, não foi de encontro a nenhum preceito dogmatico; pelo contrario,
obedecendo ao seu instincto, obedeceu á sua religião.
D'esta harmonia entre a lei moral, que então não existia senão
rudimentar, e a realidade physica, vem a sua immensa felicidade e o
encanto incomparavel da sua civilisação.
Para o christianismo, pelo contrario, o corpo é o involucro, amaldiçoado
as mais das vezes, de paixões condemnaveis, de instinctos que é
necessario a todo o custo dominar, subjugar, vencer.
Não é impunemente que a especie humana tem vivido acurvada durante
longos seculos a este jugo incomportavel.
Resente-se d'elles até a revolta dos atheus.
Por isso a nossa concepção da belleza physica, partindo de outras fontes
mais profundas e mais turvas, não podia ter nunca a incomparavel
claridade que tem o ideal grego. Os esculptores, que conservam na sua
alma o cunho indelevel que alli tem imprimido a civilisação christã, á
belleza do corpo humano prendem fatalmente considerações de ordem
complexa que não influenciaram a estatuaria antiga.
As mulheres teem a attitude languida de peccadoras nuas, a carne, que o
marmore quer fingir, e que tem d'ella ás vezes a flexibilidade, a
macieza, a vibratil poesia, tem tambem palpitações e solicitações
voluptuosas que a grave e simples belleza nunca deve suggerir aos que a
contemplam e que não suggeria aos contemporaneos de Phidias!
Isto não quer dizer que desde a antiguidade a esculptura seja uma arte
morta. E seria realmente sacrilego que tal avançasse, quem viu curvada,
em religioso assombro, a reproducção fiel d'essa _Noite_ de Miguel
Angelo, de uma tristeza tão tragica e sublime, e o grandioso _Moysés_ de
biblica magestade incomparavel, e o _Penseroso_, e o _San Jorge_ do
Donatello, cuja nobre attitude altiva faz passar um calafrio de
admiração pelos nervos ainda mais resistentes.
Mas quer dizer que a estatuaria é hoje uma arte destinada a satisfazer,
não a alma collectiva das multidões, mas o espirito culto dos
_dilettanti_ e dos artistas; uma arte em que o genio individual póde
manifestar-se sublimemente e lá está a _Porta de Bronze_ que Rodin anda
esculpindo que o diga, e lá estão os tumulos de Barrias, e lá está o
baixo relevo de Rude, e lá estão as innumeras estatuas, os innumeros
monumentos que enchem as praças e os museus affirmando que a França
d'este seculo possue uma intensa vitalidade artistica que a honra a deve
encher de justo orgulho. O proprio Falguière, um pouco amaneirado como
é, e dando ao marmore palpitações sensuaes e lubrica languidez, lá tem
no monumento erguido na _Escola das Bellas-Artes_ a Henri Regnault uma
figura de mulher deliciosa e viva, que faz estremecer de goso o
verdadeiro artista, isto para não fallarmos na sua formosa Diana por
quem consta que morreu de amor um pobre hysterico, dos muitos que andam
enchendo este triste mundo com o espectaculo das suas perversões
morbidas!
A arte moderna, a que inspira a todas as almas de hoje o mesmo spasmo de
agonisante prazer, é a musica. Essa sim, que é para nós o que a
estatuaria pura, augusta e simples foi para os athenienses, o que a
architectura gothica foi para as torturadas almas idealistas da idade
media, o que a pintura foi para os renascidos pagãos da Renascença
italiana, ébrios de côr, de luz, de vida. Essa sim, que é de nós todos,
e que nos faz vibrar, chorar, soffrer, e nos consola e nos tortura, e
nos arranca a nós mesmos e nos leva ao Inferno e ao Céo.