ODE IX.

Fogem as neves frias

Dos altos montes quando reverdecem

As árvores sombrias;

As verdes hervas crecem,

E o prado ameno de mil côres tecem.

Zephyro brando espíra;

Suas settas Amor afia agora;

Progne triste suspira,

E Philomela chora:

O ceo da fresca terra se namora.

Ja a linda Cytherêa

Vem, do côro das Nymphas rodeada;

A branca Pasitêa Despida e delicada,

Com as duas irmãas acompanhada.

Em quanto as officinas

Dos Cyclopas Vulcano está queimando,

Vão colhendo boninas

As Nymphas, e cantando,

A terra co'o ligeiro pé tocando.

Desce do aspero monte

Diana, ja cansada da espessura,

Buscando a clara fonte,

Onde por sorte dura

Perdeo Actêo a natural figura.

Assi se vai passando

A verde Primavera e o sêcco Estio;

O Outono vem entrando;

E logo o Inverno frio,

Que tambem passará por certo fio.

Ir-se-ha embranquecendo

Com a frigida neve o sêcco monte;

E Jupiter chovendo

Turbará a clara fonte:

Temerá o marinheiro a Orionte.

Porque, emfim, tudo passa;

Não sabe o Tempo ter firmeza em nada;

E a nossa vida escassa

Foge tão apressada,

Que quando se começa he acabada.

Que se fez dos Troianos

Heitor temido, Enêas piedoso?

Consumírão-te os anos,

Ó Cresso tão famoso,

Sem te valer teu ouro precioso.

Todo o contentamento

Crias qu'estava em ter thesouro ufano!

Oh falso pensamento!

Que á custa de teu dano

Do sabio Solon crêste o desengano.

O bem que aqui se alcança,

Não dura por passante, nem por forte:

Que a bem-aventurança

Duravel, de outra sorte

Se ha de alcançar na vida para a morte.

Porque, emfim, nada basta

Contra o terrivel fim da noite eterna;

Nem póde a deosa casta

Tornar á luz superna

Hippolyto da escura sombra averna.

Nem Thesêo esforçado,

Ou com manha, ou com fôrça valerosa,

Livrar póde o ousado

Perithoo da espantosa

Prisão Lethêa escura e tenebrosa.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 379 / 391 题