Aquelle unico exemplo
De fortaleza heroica e ousadia,
Que mereceo no templo
Da Fama eterna ter perpétuo dia;
O grão filho de Thetis, que dez anos
Flagello foi dos miseros Troianos;
Não menos ensinado
Foi nas hervas e Medica polícia,
Que destro e costumado
No soberbo exercicio da Milicia:
Assi que as mãos que a tantos morte derão,
Tambem a muitos vida dar puderão.
E não se desprezou
Aquelle fero e indomito mancebo
Das Artes qu'ensinou
Para o languido corpo o intonso Phebo;
Que se o temido Heitor matar podia,
Tambem chagas mortaes curar sabía.
Taes Artes aprendeo
Do semiviro Mestre e docto velho,
Onde tanto cresceo
Em virtude, e em sciencia e em conselho,
Que Telepho, por elle vulnerado,
Só delle pôde ser despois curado.
Pois vós, ó excellente
E illustrissimo Conde, do ceo dado
Para fazer presente
D'altos Heroes o seculo passado;
E em quem bem trasladada está a memoria
De vossos ascendentes, a honra e glória:
Postoque o pensamento
Occupado tenhais na guerra infesta,
Ou co'o sanguinolento
Taprobano, ou Achem, que o mar molesta,
Ou co'o Cambaico, occulto imigo nosso,
Que qualquer delles teme o nome vosso;
Favorecei a antiga
Sciencia que ja Achilles estimou;
Olhae que vos obriga
O ver qu'em vosso tempo rebentou
O fructo daquell'Orta onde florecem
Plantas novas, que os doctos não conhecem.
Olhae qu'em vossos anos
Huma Orta produze várias hervas
Nos campos Indianos,
As quaes aquellas doctas e protervas,
Medêa e Circe, nunca conhecêrão,
Postoque a lei da Magica excedêrão.
E vêde carregado
D'annos e traz a vária experiencia
Hum velho, qu'ensinado
Das Gangeticas Musas na sciencia
Podaliria subtil, e arte sylvestre,
Vence ao velho Chiron, d'Achilles mestre.
O qual está pedindo
Vosso favor e amparo ao grão volume,
Qu'impresso á luz sahindo,
Dara da Medicina hum vivo lume;
E descobrir-nos-ha segredos certos,
A todos os Antiguos encobertos.
Assi que não podeis
Negar a que vos pede benigna aura:
Que se muito valeis
Na sanguinosa guerra Turca e Maura,
Ajudae quem ajuda contra a morte;
E sereis semelhante ao Grego forte.