ODE X.

Aquelle moço fero

Nas Pelethronias covas doctrinado

Do Centauro severo;

Cujo peito esforçado

Com tutanos de tigres foi criado.

N'ágoa fatal menino

O lava a mãe, presaga do futuro,

Para que ferro fino

Não passe o peito duro

Que de si mesmo a si se t[~e]e por muro.

A carne lh'endurece,

Porque não seja d'armas offendida.

Cega! pois não conhece

Que póde haver ferida

N'alma, e que menos doe perder a vida.

Que donde o braço irado

Dos Troianos passava arnez e escudo,

Alli se vio passado

Daquelle ferro agudo

Do menino qu'em todos póde tudo.

Alli se vio captivo

Da captiva gentil que serve e adora;

Alli se vio que vivo

Em vivo fogo mora,

Porque de seu senhor a vê senhora.

Ja toma a branda lyra

Na mão que a dura Pelias meneára;

Alli canta e suspira,

Não como lh'ensinára

O velho, mas o moço que o cegára.

Pois, logo, quem culpado

Será, se de pequeno offerecido

Foi todo a seu cuidado;

No berço instituido

A não poder deixar de ser ferido?

Quem logo fraco infante

D'outro mais poderoso foi sujeito,

E para cego amante

Desd'o princípio feito,

Com lagrimas banhando o tenro peito?

Se agora foi ferido

Da penetrante ponta e fôrça d'herva;

E se Amor he servido

Que sirva á linda serva,

Para quem minha estrella me reserva?

O gesto bem talhado;

O airoso meneio e a postura;

O rosto delicado,

Que na vista figura

Que s'ensina por arte a formosura,

Como póde deixar

De render a quem tenha entendimento?

Que quem não penetrar

Hum doce gesto, attento,

Não lhe he nenhum louvor viver isento.

Aquelles, cujos peitos

Ornou d'altas sciencias o destino.

Se vírão mais sujeitos

Ao cego e vão menino,

Arrebatados do furor divino.

O Rei famoso Hebreio,

Que mais que todos soube, mais amou;

Tanto, que a deos alheio

Falso sacrificou.

Se muito soube e teve, muito errou.

E o grão Sabio qu'ensina,

Passeando, os segredos da Sophia,

Á baixa concubina

Do vil Eunuco Hermia

Aras ergueo, que aos deoses só devia.

Aras ergue a quem ama

O Philosopho insigne namorado.

Doe-se a perpétua fama,

E grita qu'he culpado:

Da lesa divindade he accusado.

Ja foge donde habita;

Ja paga a culpa enorme com destêrro.

Mas, oh grande desdita!

Bem mostra tamanho êrro

Que doctos corações não são de ferro.

Antes na altiva mente,

No subtil sangue e engenho mais perfeito

Ha mais conveniente

E conforme sogeito,

Onde s'imprima o brando e doce affeito.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 380 / 391 题