Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura,
Que sempre na alma vejo?
Ou me pinta o desejo
O bem qu'em vão cad'hora m'assegura?
Mal póde a noite escura,
Amando a sombra fria,
Mandar-me em sonho a luz formosa e bella,
Que se não torne em dia,
De seus luzentes raios inflammada.
Oh vista desejada
De graciosa Nympha e viva estrella!
Que ha tanto que por este mar navego
(Sem ver meu claro Polo) escuro e cego.
Nesses formosos olhos, d'enlevada,
Minh'alma se escondeo,
Quando ordenava o Ceo
Que vivesse comigo desterrada.
Vós a mais certa estrada
De ver a summa alteza,
Do efeito a causa abris a est'alma minha.
Assi mortal belleza
Só della nasce, e nella se resume;
Assi celeste lume
Lá dos ceos se deriva, e lá caminha.
Pois, como a Deos unir-me a vista possa,
Porque a negais, meu sol, a est'alma vossa?
Se me quereis prender a parte a parte,
Cabello ondado e louro,
Tecei-me a rede de ouro
Em que prendeo Vulcano a Cypria e Marte.
Des que com gentil arte
Vestis de flores bellas
A terra em que tocais co'a bella planta,
Quantas vezes com vellas
Quiz n'huma d'essas flores transformar-me?
Porque, vendo pizar-me
D'esse candido pé, que a neve espanta,
Póde ser que na flor mudado fôra
Que deo a Juno irada a linda Flora.
Mas onde te acolheste (ó doce vida!)
Mais leve e pressurosa,
Do que na selva umbrosa
Cerva d'aguda setta vai ferida?
Se para tal partida,
Meus olhos, vos abristes,
Cerrára-vos o somno eternamente,
Antes que ver-vos tristes,
Perdendo tão suave e doce engano!
Agora, com meu dano,
Vêdes, para mor mágoa, claramente,
Neste bem fugitivo e somno leve,
Que mal não ha mais longo, que hum bem breve.
Ditoso Endymião que a deosa chara,
Que a noite vai guiando,
Teve em braços sonhando!
Ah quem de sonho tal nunca acordára!
Tu só, Aurora avara,
Quando os olhos feriste,
Me mataste cruel d'inveja pura.
Mas se d'esta alma triste
A negra escuridão vencer quizeste,
Sabe qu'em vão nasceste;
Que para desfazer-se a nevoa escura
De meus olhos, importa estar presente
Outro sol, outra aurora, outro Oriente.
Se a luz de meu Planeta,
Não m'aviva, Canção, branda e quieta,
Qual flor de chuva, em breve consumida,
Verás desfeita em lagrimas a vida.