CANÇÃO XIV.

Quem com sólido intento

Os segredos buscar da natureza,

Quanto d'Athenas préza,

Entregue ao mar irado, ao leve vento:

Em forjar meu tormento,

Nova Philosophia,

D'experiencias feita, Amor m'ensina.

Das Leis do antigo tempo bem declina;

Que Amor a natureza em mi varía;

Donde escola de Sabios nunca vio

Em natural sogeito

Quanto Amor em meu peito descobrio.

As aves no ar sereno,

O gado de Proteo nas ágoas pasce;

Vive o homem e nasce

Neste mundo, qual mundo mais pequeno:

Eu tudo desordeno,

Em todos dividido;

A boca no ar, na terra o entendimento:

Dá-me esse Amor, dá-me esta o pensamento;

O coração no fogo he consumido:

Mas a ágoa, que dos olhos sempre desce,

T[~e]e effeito tão vário,

Qu'em hum humor contrário o fogo cresce.

Da vista Amor sohia

Abrir ao coração segura entrada:

Lei he ja profanada;

Que quando a luz d'huns olhos me fería,

Amando o que não via,

Qual d'escopeta o lume,

Primeiro o querer vi, que a causa visse.

Quem o desejo co'a esperança unisse,

Cego iria apos cego e vil costume;

Qu'eu dest'alma, das leis do mundo isenta,

Morta a esperança vejo,

Onde sempre o desejo se sustenta.

Em vão se considera

Que hum semelhante a outro busca e ama,

E que foge e desama

Todo mortal a morte esquiva e fera:

Sigo huma linda fera,

Qu'esconde em vista humana

Coração de diamante e peito d'aço,

De meu sangue faminta; e satisfaço

Com cruel morte a sêde deshumana.

Assi que, sendo em tudo differente,

Corro apos minha sorte,

E se m'entrego á morte, estou contente.

Cahe em maior defeito

Quem cuida ser sciencia clara e certa,

Que a causa descoberta

Sempre produz a si conforme o effeito:

Rendeo-me hum lindo objeito,

Que, sendo neve pura,

Vivo me abraza, e o fogo interno aviva;

Qu'esta formosa fera fugitiva,

Com ser neve, do fogo s'assegura:

Donde infiro por certo (e cesse a fama

Vãa, mentirosa e leve)

Que não desfaz a neve ardente chama.

Bem no effeito se sente

Cessar, cessando a causa donde pende;

Que o fogo mais se accende,

Estando á vista, donde mais ausente;

Mas n'alma vivamente

A trazem debuxada,

De noite Amor, de dia o pensamento:

E quando Apollo deixa o claro assento,

Por entre sombras vejo a Nympha amada.

Pois se sem luz Amor os olhos ceva,

Cego, se não concede

Qu'em nada a Amor impede a escura treva.

Erra quem atrevido

Pregôa ser maior que a parte o todo:

Amor me t[~e]e de modo,

Qu'estou n'hum'alma minha convertido:

Desta gloria ha nascido

O temor de perdê-la:

E, postoque o receio a muitos finge

Lá na imaginação Chimera e Sfinge

De mal futuro, que urde imiga estrella,

Vejo em mi, por incognito segredo,

Quando estou mais contente,

Que só do bem presente nasce o medo.

T[~e]e-se por manifesto

Parecer-se ao sogeito o accidente;

Mas inda em mi se sente

O pensamento, a côr, o riso, o gesto;

E, tendo todo o resto

Da vida ja perdido

Neste tormento meu tão duro e esquivo,

A gostos morto estou, a penas vivo.

E, sendo morto ja, vive o sentido,

Porque sinta que n'alma despedida

Póde em meu mal unir-se

O ficar e o partir-se, a morte e a vida.

Destas razões, Canção, infiro e creio,

Que ou se mudou em tudo a fórma usada

Da natural firmeza,

Ou tenho a natureza em mi mudada.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 366 / 391 题