Quem com sólido intento
Os segredos buscar da natureza,
Quanto d'Athenas préza,
Entregue ao mar irado, ao leve vento:
Em forjar meu tormento,
Nova Philosophia,
D'experiencias feita, Amor m'ensina.
Das Leis do antigo tempo bem declina;
Que Amor a natureza em mi varía;
Donde escola de Sabios nunca vio
Em natural sogeito
Quanto Amor em meu peito descobrio.
As aves no ar sereno,
O gado de Proteo nas ágoas pasce;
Vive o homem e nasce
Neste mundo, qual mundo mais pequeno:
Eu tudo desordeno,
Em todos dividido;
A boca no ar, na terra o entendimento:
Dá-me esse Amor, dá-me esta o pensamento;
O coração no fogo he consumido:
Mas a ágoa, que dos olhos sempre desce,
T[~e]e effeito tão vário,
Qu'em hum humor contrário o fogo cresce.
Da vista Amor sohia
Abrir ao coração segura entrada:
Lei he ja profanada;
Que quando a luz d'huns olhos me fería,
Amando o que não via,
Qual d'escopeta o lume,
Primeiro o querer vi, que a causa visse.
Quem o desejo co'a esperança unisse,
Cego iria apos cego e vil costume;
Qu'eu dest'alma, das leis do mundo isenta,
Morta a esperança vejo,
Onde sempre o desejo se sustenta.
Em vão se considera
Que hum semelhante a outro busca e ama,
E que foge e desama
Todo mortal a morte esquiva e fera:
Sigo huma linda fera,
Qu'esconde em vista humana
Coração de diamante e peito d'aço,
De meu sangue faminta; e satisfaço
Com cruel morte a sêde deshumana.
Assi que, sendo em tudo differente,
Corro apos minha sorte,
E se m'entrego á morte, estou contente.
Cahe em maior defeito
Quem cuida ser sciencia clara e certa,
Que a causa descoberta
Sempre produz a si conforme o effeito:
Rendeo-me hum lindo objeito,
Que, sendo neve pura,
Vivo me abraza, e o fogo interno aviva;
Qu'esta formosa fera fugitiva,
Com ser neve, do fogo s'assegura:
Donde infiro por certo (e cesse a fama
Vãa, mentirosa e leve)
Que não desfaz a neve ardente chama.
Bem no effeito se sente
Cessar, cessando a causa donde pende;
Que o fogo mais se accende,
Estando á vista, donde mais ausente;
Mas n'alma vivamente
A trazem debuxada,
De noite Amor, de dia o pensamento:
E quando Apollo deixa o claro assento,
Por entre sombras vejo a Nympha amada.
Pois se sem luz Amor os olhos ceva,
Cego, se não concede
Qu'em nada a Amor impede a escura treva.
Erra quem atrevido
Pregôa ser maior que a parte o todo:
Amor me t[~e]e de modo,
Qu'estou n'hum'alma minha convertido:
Desta gloria ha nascido
O temor de perdê-la:
E, postoque o receio a muitos finge
Lá na imaginação Chimera e Sfinge
De mal futuro, que urde imiga estrella,
Vejo em mi, por incognito segredo,
Quando estou mais contente,
Que só do bem presente nasce o medo.
T[~e]e-se por manifesto
Parecer-se ao sogeito o accidente;
Mas inda em mi se sente
O pensamento, a côr, o riso, o gesto;
E, tendo todo o resto
Da vida ja perdido
Neste tormento meu tão duro e esquivo,
A gostos morto estou, a penas vivo.
E, sendo morto ja, vive o sentido,
Porque sinta que n'alma despedida
Póde em meu mal unir-se
O ficar e o partir-se, a morte e a vida.
Destas razões, Canção, infiro e creio,
Que ou se mudou em tudo a fórma usada
Da natural firmeza,
Ou tenho a natureza em mi mudada.