CANÇÃO XVI.

Por meio d'humas serras mui fragosas,

Cercadas de sylvestres arvoredos,

Retumbando por asperos penedos,

Correm perennes ágoas deleitosas.

Na ribeira de Buina, assi chamada,

Celebrada,

Porqu'em prados

Esmaltados

Com frescura

De verdura,

Assi se mostra amena, assi graciosa,

Qu'excede a qualquer outra mais formosa;

As correntes se vem, que acceleradas,

As hervas regalando e as boninas,

Se vão a entrar nas ágoas Neptuninas,

Por diversas ribeiras derivadas.

Com mil brancas conchinhas a aurea areia

Bem se arreia;

Voão aves;

Mil suaves

Passarinhos

Nos raminhos

Acordemente estão sempre cantando,

Com doce accento os ares abrandando.

O doce rouxinol n'hum ramo canta,

E d'outro o pintasirgo lhe responde;

A perdiz d'entre a mata, em que s'esconde,

O caçador sentindo, se levanta:

Voando vai ligeira mais que o vento;

Outro assento

Vai buscando;

Porém quando

Vai fugindo;

Retinindo,

Traz ella mais veloz a setta corre,

De que ferida logo cahe e morre.

Aqui Progne d'hum ramo em outro ramo,

Co'o peito ensanguentado anda voando,

Cibato para o ninho indo buscando;

A leda codorniz vem ao reclamo

Do sagaz caçador, que a rede estende,

E pretende

Com engano

Fazer dano

Á coitada,

Qu'enganada

D'huns esparzidos grãos de louro trigo,

Nas mãos vai a cahir de seu imigo.

Aqui sôa a calhandra na parreira;

A rôla geme; palra o estorninho;

Sahe a candida pomba do seu ninho;

O tordo pousa em cima da oliveira:

Vão as doces abelhas susurrando,

E apanhando

O rocio

Fresco e frio

Por o prado

D'herva ornado,

Com que o aureo licor fazem, que deo

Á humana gente a indústria d'Aristeo.

Aqui as uvas luzidas, penduradas

Das pampinosas vides, resplandecem;

As frondiferas árvores se offrecem

Com differentes fructos carregadas:

Os peixes n'ágoa clara andão saltando,

Levantando

As pedrinhas,

E as conchinhas

Rubicundas,

Que as jucundas

Ondas comsigo trazem, crepitando

Por a praia alva com ruido brando.

Aqui por entre as serras se levantão

Animaes Calidoneos, e os veados

Na fugida inda mal assegurados,

Porque do som dos proprios pés s'espantão.

Sahe o coelho, e lebre sahe manhosa

Da frondosa

Breve mata,

Donde a cata

Cão ligeiro.

Mas primeiro

Qu'ella ao contrário férvido s'entregue,

Ás vezes deixa em branco a quem a segue.

Luzem as brancas e purpúreas flores,

Com que o brando Favonio a terra esmalta;

O formoso jacintho alli não falta,

Lembrado dos antiguos seus amores.

Inda na flor se mostrão esculpidos

Os gemidos:

Aqui Flora

Sempre mora;

E com rosas

Mais formosas,

Com lirios e boninas mil fragrantes,

Alegra os seus amores circumstantes.

Aqui Narciso em líquido crystal

Se namora de sua formosura:

Nelle as pendentes ramas da'spessura

Debuxando-se estão ao natural.

Adonis, com que a linda Cytherêa

Se recrêa,

Bem florido,

Convertido

Na bonina,

Qu'Erycina

Por imagem deixou de qual sería

Aquelle por quem ella se perdia.

Lugar alegre, fresco, accommodado

Para se deleitar qualquer amante,

A quem com sua ponta penetrante

O cego Amor tivesse derribado;

E para memorar ao som das ágoas

Suas mágoas

Amorosas,

As cheirosas

Flores vendo,

Escolhendo,

Para fazer preciosas mil capellas,

E dar por grão penhor a Nymphas bellas.

Eu dellas, por penhor de meus amores,

Huma capella á minha deosa dava:

Que lhe queria bem, bem lhe mostrava

O bem-mequeres entre tantas flores:

Porém, como se fôra mal-mequeres,

Os poderes

Da crueldade

Na beldade

Bem mostrou;

Desprezou

A dadiva de flores; não por minha,

Mas porque muitas mais ella em si tinha.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 368 / 391 题