CANÇÃO XIII.

Oh pomar venturoso,

Onde co'a natureza

A subtil arte t[~e]e demanda incerta;

Qu'em sítio tão formoso

A maior subtileza

D'engenho em ti nos mostras descoberta!

Nenhum juizo acerta,

De cego e d'enlevado,

Se t[~e]e em ti mais parte

A natureza, ou arte;

Se Terra ou Ceo de ti t[~e]e mais cuidado,

Pois em feliz terreno

Gozas d'hum ar mais puro e mais sereno.

De teu formoso pêzo

Se mostra o monte ledo,

E o caudaloso Zezere t'estranha,

Porque ólhas com desprêzo

Seu crystal puro e quedo,

Que com Pera os teus pés rodeia e banha.

Em ti pintura estranha,

A que Apelles cedêra,

Enigmas intricados,

E myrtos animados

Vemos, que o proprio Escopas não fizera;

Em ti, co'a paz interna,

T[~e]e o santo prazer morada eterna.

Os jardins da famosa

Babel, tão nomeados,

Por maravilha o mundo não levante,

Inda que com gloriosa

Voz, qu'estão pendurados

Do instavel ar, a fama antigua cante:

Nem haja quem s'espante

Dos famosos d'Alcino;

Nem as mais doutas pennas

Cantem os de Mecenas,

Cultor de todo engenho peregrino;

Mas onde quer que vôe,

De ti só falle a Fama, e te pregôe.

Que s'era antiguamente

De pomos d'ouro bellos

O jardim das Hesperidas ornado;

E, a pezar da serpente

Que os guardou, só colhellos

Pôde o famoso Alcides, d'esforçado;

Tu, mais avantajado,

Mostras a hum'alma casta

Seguir o que deseja,

Fugir da torpe inveja

(Pomos d'ouro que o tempo não contrasta):

Emfim, co'a caridade

Vencer o Inferno, abrir a Eternidade.

Por tanto da ventura,

Para ti reservada,

Te deixe o Ceo gozar perpetuamente;

Porque sejas figura

Da gloria avantajada

Delle mesmo, e qu'em ti se represente;

Porqu'em quanto sustente

O ceo, o mar e a terra,

Seus feitos milagrosos,

Mysterios mais gloriosos,

Com que a morte das almas nos desterra,

Por onde em nossas almas

Com mais pompas triumpha e com mais palmas,

.......................

Goza, pois, longamente

Teu venturoso fado,

Da mãe do teu autor bem possuido:

Qu'em ti, sempre contente

De seu sublime estado,

A alma dos seus alegra e o sentido.

Cada qual preferido

Nas grandes qualidades

Ao sabio Nestor seja,

Para que o mundo os veja

Exceder as longuissimas idades;

E com a longa vida

Seja sua memoria ennobrecida.

Canção, pois mais famosas

Por ti não podem ser

Deste monte as estancias deleitosas;

Bem póde succeder

Que aquelle que os teus numeros governa,

Por querê-las cantar te faça eterna.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 365 / 391 题