Nem roxa flor de Abril,
Pintor do campo ameno e da verdura,
Colhida entre outras mil,
Foi nunca assi agradavel á donzella
Cortez, alegre e bella,
De sua mãe cuidado e glória pura,
Como a mi foi a inculta formosura
Natural, que pudera
A Saturno render na sua Esphera.
Natural fonte agreste,
Não lavrada d'Artifice excellente,
Mas por arte celeste
Derivada de rustico penedo,
Não fez ja mais tão ledo
Cansado caçador por sesta ardente,
Quanto o cuidado a mi me fez contente
Do ver tão descuidado,
Que faz sereno a Jupiter irado.
Fructa, que sem concêrto
Naturalmente em ramos se pendura,
Achada por acêrto;
A quem pintada a vê de sangue e leite,
Não lhe dara o deleite,
Qu'essa graça me dá sem compostura,
Ornamento da mesma formosura,
E o toucado sem arte,
Que tornára pastor ao bravo Marte.
A manhãa graciosa,
Que derramando sahe d'entre os cabellos
A flor, o lirio, a rosa,
Sem ajuda d'ornato, ou d'artificio,
Não faz o beneficio,
Que faz a luz dos vossos olhos bellos
A quem os vê tão puros e singelos;
E esse innocente riso,
Por quem Apollo o Tejo torna Amphriso.
Outeiros coroados
Das árvores que fazem a espessura
Com os ramos copados
Alegre, que mão destra os não cultiva,
Graça tão excessiva
Não t[~e]e na sua natural verdura,
Quanta na d'esses olhos, clara e pura,
Deposita a esperança,
Com que Amor gôsto, a mãe tormento alcança.
Dos simples passarinhos
A musica sem arte concertada,
D'entre os verdes raminhos,
Tão suave não he, tão deleitosa
A quem na selva umbrosa
Com mente ouvindo-a está toda enlevada,
Quanto a mi essa falla doce agrada,
E o natural aviso,
Que roubão a Mercurio sceptro e siso.
De frescos rios ágoa,
Que clara entre arvoredos se deriva,
Cahindo d'alta fragoa,
Esmaltando de perolas no prado
O verde delicado,
Com brando som aos olhos fugitiva,
Não nos alegra quanto a graça esquiva
D'essa luz soberana,
Que faz cortez a rustica Diana.
A tal luz (ó Canção, que ousaste vella!)
Vendo estás ja prostrado
Saturno triste, Jupiter irado,
Bravo Marte, aureo Apollo, Venus bella,
E Mercurio, e Diana, e toda estrella.