CANÇÃO XI.

Vinde cá meu tão certo Secretario

Dos queixumes que sempre ando fazendo,

Papel, com quem a pena desaffógo.

As semrazões digamos, que vivendo

Me faz o inexoravel e contrário

Destino, surdo a lagrimas e a rôgo.

Lancemos ágoa pouca em muito fogo,

Accenda-se com gritos hum tormento,

Que a todas as memorias seja estranho.

Digamos mal tamanho

A Deos, ao mundo, á gente e, emfim, ao vento,

A quem ja muitas vezes o contei,

Tanto debalde como o conto agora.

Mas ja que para errores fui nascido,

Vir este a ser hum delles não duvido.

E, pois ja d'acertar estou tão fóra,

Não me culpem tambem se nisto errei.

Se quer este refúgio só terei,

Fallar e errar, sem culpa, livremente.

Triste quem de tão pouco está contente!

Ja me desenganei que de queixar-me

Não s'alcança remedio; mas quem pena,

Forçado lh'he gritar, se a dor he grande.

Gritarei; mas he debil e pequena

A voz para poder desabafar-me;

Porque nem com gritar a dor se abrande.

Quem me dará se quer que fóra mande

Lagrimas e suspiros infinitos,

Iguaes ao mal que dentro na alma mora?

Mas quem pôde algum'hora

Medir o mal com lagrimas, ou gritos?

Direi, emfim, aquillo que m'ensinão

A ira, e mágoa, e dellas a lembrança,

Que outra dor he por si mais dura e firme.

Chegae, desesperados, para ouvir-me;

E fujão os que vivem d'esperança,

Ou aquelles que nella se imaginão;

Porque Amor e Fortuna determinão

De lhes deixar poder para entenderem

Á medida dos males que tiverem.

Quando vim da materna sepultura

De novo ao mundo, logo me fizerão

Estrellas infelices obrigado:

Com ter livre alvedrio, mo não derão;

Qu'eu conheci mil vezes na ventura

O melhor, e o peor segui forçado.

E para que o tormento conformado

Me dessem com a idade, quando abrisse

Inda menino os olhos brandamente,

Mândão que diligente

Hum menino sem olhos me ferisse.

As lagrimas da infancia ja manavão

Com huma saudade namorada;

O som dos gritos, que no berço dava,

Ja como de suspiros me soava.

Co'a idade e fado estava concertado:

Porque quando por caso m'embalavão,

Se d'Amor tristes versos me cantavão,

Logo m'adormecia a natureza;

Que tão conforme estava co'a tristeza!

Foi minh'ama huma fera; que o destino

Não quiz que mulher fosse a que tivesse

Tal nome para mi; nem a haveria.

Assi criado fui, porque bebesse

O veneno amoroso de menino,

Que na maior idade beberia,

E por costume não me mataria.

Logo então vi a image e semelhança

Daquella humana fera tão formosa,

Suave e venenosa,

Que me criou aos peitos da esperança;

De quem eu vi despois o original,

Que de todos os grandes desatinos

Faz a culpa soberba e soberana.

Parece-me que tinha fórma humana,

Mas scintilava espiritos divinos.

Hum meneio, e presença tinha tal,

Que se vangloriava todo o mal

Na vista della: a sombra co'a viveza

Excedia o poder da natureza.

Que genero tão novo de tormento

Teve Amor, sem que fosse não somente

Provado em mi, mas todo executado?

Implacaveis durezas, que ao fervente

Desejo, que dá fôrça ao pensamento,

Tinhão de seu proposito abalado,

E corrido de ver-se e injuriado:

Aqui sombras phantasticas, trazidas

D'algumas temerarias esperanças;

As bem-aventuranças

Tambem nellas pintadas e fingidas.

Mas a dor do desprêzo recebido,

Que todo o phantasiar desatinava,

Estes enganos punha em desconcêrto.

Aqui o adivinhar, e o ter por certo

Qu'era verdade quanto adivinhava,

E logo o desdizer-me de corrido;

Dar ás cousas que via outro sentido;

E para tudo, emfim, buscar razões:

Mas erão muitas mais as semrazões.

Não sei como sabía estar roubando

Co'os raios as entranhas, que fugião

Par'ella por os olhos subtilmente!

Pouco a pouco invisiveis me sahião;

Bem como do véo humido exhalando

Está o subtil humor o sol ardente.

O gesto puro, emfim, e transparente,

Para quem fica baixo e sem valia

Este nome de bello e de formoso;

O doce e piedoso

Mover d'olhos, que as almas suspendia,

Forão as hervas magicas, que o Ceo

Me fez beber: as quaes por longos anos

N'outro ser me tiverão transformado,

E tão contente de me ver trocado,

Que as mágoas enganava co'os enganos;

E diante dos olhos punha o véo,

Que m'encobrisse o mal que assi cresceo:

Como quem com affagos se criava

Daquella para quem crescido estava.

Pois quem póde pintar a vida ausente,

Com hum descontentar-me quanto via,

E aquell'estar tão longe donde estava;

O fallar sem saber o que dizia;

Andar sem ver por onde, e juntamente

Suspirar sem saber que suspirava?

Pois quando aquelle mal m'atormentava,

E aquella dor, que das Tartareas ágoas

Sahio ao mundo, e mais que todas doe,

Que tantas vezes soe

Duras íras tornar em brandas mágoas?

Agora co'o furor da mágoa irado,

Querer, e não querer deixar de amar;

E mudar n'outra parte, por vingança,

O desejo privado d'esperança,

Que tão mal se podia ja mudar?

Agora a saudade do passado,

Tormento puro, doce e magoado,

Que converter fazia estes furores

Em magoadas lagrimas d'amores?

Que desculpas comigo só buscava,

Quando o suave Amor me não soffria

Culpa na cousa amada, e tão amada!

Erão, emfim, remedios que fingia

O medo do tormento, qu'ensinava

A vida a sustentar-se d'enganada.

Nisto huma parte della foi passada;

Na qual se tive algum contentamento

Breve, imperfeito, timido, indecente,

Não foi senão semente

D'hum cumprido, amarissimo tormento.

Este curso contino de tristeza,

Estes passos vãamente derramados,

Me forão apagando o ardente gôsto,

Que tão de siso n'alma tinha pôsto,

Daquelles pensamentos namorados

Com que criei a tenra natureza,

Que do longo costume da aspereza,

Contra quem fôrça humana não resiste,

Se converteo no gôsto de ser triste.

Dest'arte a vida em outra fui trocando;

Eu não, mas o destino fero, irado;

Qu'eu, inda assi, por outra a não trocára.

Fez-me deixar o patrio ninho amado,

Passando o longo mar, que ameaçando

Tantas vezes m'esteve a vida chara.

Agora exprimentando a furia rara

De Marte, que nos olhos quiz que logo

Visse, e tocasse o acerbo fructo seu.

E neste escudo meu

A pintura verão do infesto fogo.

Agora peregrino, vago, errante,

Vendo nações, linguagens e costumes,

Ceos varios, qualidades differentes,

Só por seguir com passos diligentes

A ti, Fortuna injusta, que consumes

As idades, levando-lhes diante

Huma esperança em vista de diamante:

Mas quando das mãos cahe se conhece

Que he fragil vidro aquillo que apparece.

A piedade humana me faltava,

A gente amiga ja contrária via,

No perigo primeiro; e no segundo,

Terra em que pôr os pés me fallecia,

Ar para respirar se me negava,

E faltava-me, emfim, o tempo e o mundo.

Que segredo tão arduo e tão profundo,

Nascer para viver e para a vida,

Faltar-me quanto o mundo t[~e]e para ella!

E não poder perdella,

Estando tantas vezes ja perdida!

Emfim, não houve trance de fortuna,

Nem perigos, nem casos duvidosos,

Injustiças daquelles que o confuso

Regimento do mundo, antigo abuso,

Faz sôbre os outros homens poderosos,

Qu'eu não passasse, atado á fiel coluna

Do soffrimento meu, que a importuna

Perseguição de males em pedaços

Mil vezes fez á fôrça de seus braços.

Não conto tantos males, como aquelle

Que despois da tormenta procellosa,

Os casos della conta em porto ledo;

Qu'inda agora a fortuna fluctuosa

A tamanhas miserias me compelle,

Que de dar hum só passo tenho medo.

Ja de mal que me venha não m'arredo,

Nem bem que me falleça ja pretendo;

Que para mi não val astucia humana,

De fôrça soberana,

Da Providencia, emfim, Divina pendo.

Isto que cuido e vejo, ás vezes tomo

Para consolação de tantos danos.

Mas a fraqueza humana quando lança

Os olhos no que corre, e não alcança

Senão memoria dos passados anos;

As ágoas qu'então bebo, e o pão que como,

Lagrimas tristes são, qu'eu nunca domo,

Senão com fabricar na phantasia

Phantasticas pinturas d'alegria.

Que se possivel fosse que tornasse

O tempo para traz, como a memoria,

Por os vestigios da primeira idade;

E de novo tecendo a antigua historia

De meus doces errores, me levasse

Por as flores que vi da mocidade;

E a lembrança da longa saudade

Então fosse maior contentamento,

Vendo a conversação leda e suave,

Onde huma e outra chave

Esteve de meu novo pensamento,

Os campos, as passadas, os sinais,

A vista, a neve, a rosa, a formosura,

A graça, a mansidão, a cortezia,

A singela amizade, que desvia

Toda a baixa tenção, terrena, impura,

Como a qual outra alguma não vi mais...

Ah vãas memorias! onde me levais

O debil coração, qu'inda não posso

Domar bem este vão desejo vosso?

Não mais, Canção, não mais; qu'irei fallando,

Sem o sentir, mil annos; e se acaso

Te culparem de larga e de pezada;

Não póde ser (lhe dize) limitada

A ágoa do mar em tão pequeno vaso.

Nem eu delicadezas vou cantando

Co'o gôsto do louvor, mas explicando

Puras verdades ja por mi passadas.

Oxalá forão fábulas sonhadas!

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 363 / 391 题