ALICUTO.

Se alguem vê, se alguem ouve o sibilante

Furor lançando flammas e bramidos,

Quando as pasmosas serras traz diante,

Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos;

A braços derribando o ja nutante

Mundo co'os elementos destruidos;

Assim me representa a phantasia

A desesperação de ver um dia.

Estas Estancias diz Faria que as estranha o estilo bucolico. Mas se as

estranha necessariamente ha de ser ou pelos pensamentos ou pela dicção.

Pelos pensamentos seguramente não he, porque ninguem dirá que está fóra do

alcance de um pastor ou de um pescador o sentir a semelhança que tem as

furias do ciume, ou da desesperação com as tempestades do inverno, ou com o

mar agitado pelos ventos. Pela dicção tambem não, porque se o pensamento

não he estranho, tambem esta o não póde ser, quando tão perfeitamente se

lhe accommoda e ajusta, como aqui se observa; e muito mais quando as mesmas

figuras e imagens de que o poeta aqui usa, andão na boca do povo de sorte,

que nada he mais ordinario que ouvir dizer a um camponez _que o ceo está

toldado de negras nuvens etc._, ou a um marinheiro ou pescador _que o vento

traz todo o mar em serras diante de si; que parece querer destruir a terra

etc._ A differença está em que onde o pastor diria _coberto_ ou _toldado_,

diz o poeta _vestido_, e onde o marinheiro diria _abalado_, diz o poeta

_nutante_, para se levantar um pouco do uso commum de fallar. E portanto

não ha aqui impropriedade alguma; antes summa conveniencia de pensamentos e

palavras. E desta mutua conveniencia e propriedade resulta esta viveza de

pintura, esta sublimidade, de que se espanta Faria. Porém sem razão se

espanta, porque fóra do natural não ha sublime, e o que he natural não se

estranha. Nem se persuada ninguem que se o poeta aqui se elevou, foi porque

não podia domar-se; que mui de proposito o fez, por assim julgar que o

devia fazer. Porque não ha poeta, que melhor soubesse variar de tom, pintar

os objectos com propriedade e viveza, e seguir com a phrase o pensamento.

Senão veja-se nas Estancias logo seguintes como ja serpeia manso regato o

que inda ha pouco era rio caudaloso.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 24 / 391 题