(De Mauricio a Leonor)
Paris, 1860.
«Não sei como communicar-te o temor violento, que se apoderou da minha
debilitada existencia ao ler e reler a tua carta. Aquellas linhas, dictadas
pela fatalidade poderosa do amor, e escriptas por tua angelica mão, que
tantas vezes beijei com o anceio de largas esperanças no futuro,
compungiram-me profundamente.
Justamente, quando o meu espirito allucinado procurava o calix da ventura
para docemente o libar, veiu a desdita sentar-se ao lado, e involver-me no
luto de medonha desesperança.
Meu Deus! meu Deus! Quanto a vida é cruel, sem uma esperança fagueira que
nos alimente os sonhos radiosos do porvir! Quão duro é de tragar o absintho
d'esta existencia ephemera!
Porque será que o espirito do homem é tão possante librando-se nos vôos
d'uma phantasia ardente; e cahe depois prostrado pela vertigem das paixões
no mais temeroso de todos os precipicios?
Insondaveis são os arcanos do Creador!
A esperança vivifica; o amor martyrisa!
Podesse ao menos o holocausto do meu doloroso soffrer resgatar os dias
sanctificados de Leonor, e eu satisfeito deporia a minha cruz, orvalhada
pelas lagrimas de eterna saudade.
A ventura é um anceio febril em espiritos privilegiados. Mas a ventura é
uma vaidade, uma chimera, entrecortada, apenas, pelas alternativas
radiantes de melhores horisontes!
Feliz o homem que tem fé; porque a fé, para almas bem formadas, é a agua
redemptora do seu baptismo.
Porém o homem, que sente o gêlo da descrença no seu coração; o homem, que
não pode evitar a peçonha corrosiva do cynismo e da perversidade; esse
homem é um desgraçado, um miseravel, como muitos, que a sociedade escolhe
para instrumento da sua implacavel vingança, e opprobrio da humanidade!!
E quem me permitte ajuizar da minha virtude?...
Só Deus o sabe, meu anjo, quanto é leal e verdadeiro o pranto acerbo, que
derramei ao saber da tua sentida doença.
Possa, emfim, o Senhor ouvir a sinceridade da minha supplica, e fazer
descer sobre ti o anjo da felicidade e do amor.--_Mauricio._»