(De Leonor a Mauricio)
Bemfica, 1860.
«Apezar da expressa prohibição dos medicos de me evitarem tudo o que possa
prejudicar o meu estado melindroso de saude: não pude, ainda assim,
furtar-me a um desejo imperioso de me associar ao teu pezar, mitigando-o,
no caminho espinhoso do meu Golgotha.
É uma expiação, que a mim propria imponho, sem outro galardão, que não seja
a retribuição do teu entranhado affecto.
As lagrimas têm um condão mysterioso. Adoçam a adversidade terrestre, com a
consolação extrema d'um futuro incerto. Assim eu podesse encontrar n'ellas
o topico provavel para a medonha enfermidade moral que hoje me devora.
Tudo creio impossivel.
Só a tua presença me poderia ser, talvez, refrigerio momentaneo para o meu
aturado martyrio, e doloroso esquecimento.
Regressa, portanto, á patria, meu bom amigo. Vem engrinaldar a fronte da
esposa com as flores amarellecidas do sepulchro, e prestar um derradeiro
tributo áquella que te amou na terra com o fervor da virgem e pureza dos
anjos.
Só Deus poderá abençoar o nosso amor!...
Não posso mais,... Mauricio... Sinto-me desfallecer sensivelmente.