Snr. morgado! As forças populares de seis freguezias que ahi estão

reunidas fóra no terreiro d'esta illustrissima casa, mandaram-me a mim,

á frente dos seus doze commandantes que se acham presentes, declarar a

V. Ex.ª que por voto geral foi acclamado general em chefe d'esta

provincia. Eu lhes fiz um eloquente discurso para os tirar d'essa ideia,

allegando com o meu gráo de pharmaceutico que V. Ex.ª soffria dos

intestinos e d'outros incommodos intestinaes; mas elles não me

attenderam e obrigaram-me a vir offerecer a V. Ex.ª a espada de general

em chefe. Aqui está por consequencia esta valente espada que matou em

1810 muita somma de francez do Junot, e que ha de nas mãos de V. Ex.ª

limpar este paiz de escrivães de fazenda e outros mariolas que nos

desgraçam. Receba V. Ex.ª das minhas mãos esta espada e salve com ella a

patria do snr. D. Affonso Henriques!

Os commandantes

Viva o snr. boticario! Viva!

Macario

Obrigado, valentes guerreiros! _(A musica executa uma marcha muito

compassada. Macario caminha a passo solemne e cadencioso com a espada

offerecida segura pela lamina, levando a sua na bainha. O morgado faz

signal de que quer fallar. Silencio.)_

Pantaleão _(commovido)_

Snr. Macario Mendes, e mais Senhores! Grande impressão me fizeram as

vossas palavras e não pude deixar de me commover... Estou realmente

commovido, e sinto-me abalado com tanta honra; mas sinto muito dizer-lhe

que as minhas doenças e outras desgraças me não permittem tomar o

commando das valentes forças populares que representaes. Não posso,

senhores, não posso. Se a fortuna me tivesse dado um filho, essa espada

estaria já nas mãos d'elle.

Morgadinha _(tirando a espada da mão de Macario)_

Está nas mãos de sua filha esta espada; e, como infelizmente, sou

mulher, ha de haver um homem a quem meu pae chame filho, e elle será

digno d'ella! _(Chamando) _Frederico! Frederico!

SCENA ULTIMA

OS MESMOS E FREDERICO

Frederico _(ajoelhando diante da morgadinha)_

Sim! sim! recebo de vossas mãos, Senhora, a espada que ha de decepar as

infinitas cabeças da hydra financeira! _(Espanto geral.)_

Macario

Como se entende esta caranguejola, snr. morgado!?

Pantaleão

Snr. Macario... esse homem... vae ser... vae ser... Eu desmaio!

João Lopes

Vae ser o marido da menina... _(a Pantaleão)_ Faça favor de não

desmaiar, por quem é!

Frederico _(com vehemencia e fogo)_

E o marido da morgadinha de Val-d'Amores vae conduzir-vos á victoria,

briosos populares! Eu vos ensinarei a calcar tyrannos! Auxiliado por

vós, intrepidos filhos do norte, levantaremos o paiz das palhas pôdres

em que o prostraram os comilões. Eu fallo assim, porque cada nação, nas

horas criticas, tem o seu Vigor Hugo, o seu salvador por meio da

rethorica. Vamos a elles, filhos da victoria! As nossas bandeiras

desenroladas aos ventos das batalhas, dirão: Riqueza e Moralidade! Em

menos de quatro annos de regimen moral, e dieta aos lambões, o paiz não

deverá nada, e vós não pagareis um pataco de decima.

Vozes

Apoiado!

Frederico

Cidadãos! Eu tenho estudado profundamente as doenças de Portugal e pude

descobrir onde está o cancro que nos róe. Ahi vae o meu programma: O meu

systema é dividir o paiz em republicas confederadas, cada republica tem

seu presidente de eleição popular, quero dizer, cada conselho governa-se

a si, e não quer saber do conselho visinho. Não sei se me percebem...

Macario

Muito bem, entendemos muito bem.

Frederico

Por exemplo: Santo Thyrso fica sendo uma republica, que não tem nada com

a republica de Famalicão, nem com a republica de Fafe. Nós cá vivemos

com o que é nosso, fazemos as nossas despezas, e não damos nem vintem

aos de fóra.

Vozes

Apoiado! apoiado!

Frederico

Aqui está o meu systema que ainda não lembrou a ninguem, e que é o

resultado de quinze annos de estudo. Conseguido isto, não temos a

sustentar tropas, _(Apoiados)_ nem as estradas por onde andam os outros,

_(Apoiados)_ nem theatros onde os outros se divertem, _(Apoiados)_ nem

escrivães de fazenda. _(Apoiados)_ E declaro que me dou já por demittido

do meu logar, e levanto minha voz auctorisada bradando: Guerra e morte a

todos os escrivães de fazenda! _(Os populares desembainham as espadas, e

bradam: «guerra de morte!»)_ E, portanto, senhores, beijo esta espada, e

leio na sua lamina, os novos destinos que vão alvorecer para Portugal!

Recebi-a da mão do anjo protector das nossas tremendas batalhas! E

concedei, cidadãos, que essa bandeira seja arvorada nas mãos da Judith

lusitana! Não mais cahirá aos pés de vencedor algum o estandarte que foi

consagrado pela filha d'este honrado fidalgo! _(Frederico, tem passado a

bandeira á Morgadinha, a qual se colloca de maneira que o pae fica entre

ella e Frederico.)_ Bravos sycambros de Santo Thyrso! agora, á victoria,

á victoria que a patria nos chama! Está inaugurada a republica

confederada de Santo Thyrso! Toque o hymno! _(Os musicos executam.

Frederico florea a espada com arrebatada bravura. A morgadinha agita a

bandeira. Os commandantes fazem tambem seus ademanes de valentões. João

Lopes sentado com os queixos entre as mãos contempla tudo aquillo. Corre

o panno.)_

FIM.

* * * * *

ENTRE A FLAUTA E A VIOLA

ENTREMEZ EM UM ACTO

PERSONAGENS

ANICETO DA SILVA, pae de

VICTORINA.

GUTERRES ARTHUR DE MIRAMAR.

JOSÉ PIMENTA.

UM CREADO.

ACTO UNICO

Salão de estalagem em Barcellos. Quartos numerados desde 1 a 12,

occupando os lados, e parte do fundo. Um d'elles o n.º 10 tem

sobranceira á porta uma vidraça ou bandeira. Sobre um canapé de

palha está uma viola francesa.

SCENA I

_(Ao erguer o panno vem entrando Aniceto e Victorina precedidos de

um creado com dois saccos de noute e castiçal.)_

ANICETO, VICTORINA, CREADO

Aniceto

Vamos a saber: temos dois quartos limpos e camas asseadas onde se passe

a noute?

Creado

Háde haver.

Aniceto

Ha de haver?! Pergunto se ha.

Creado

Faça favor de entrar aqui para o n.º 6; e acolá defronte está o n.º 10

tambem de vago. _(Põe a bagagem dentro dos quartos.)_

Aniceto

Então os outros estão occupados? Pelo que vejo reuniram-se muitos

viajantes em Barcellos. Teem bom gosto! Quem está hospedado cá?

Creado

Nos n.os 1, 3, 5, 7 e 9 estão as snr.^as fidalgas de Lanhoso, que são

seis velhas.

Aniceto

Que faz por aqui esse mulherío?

Creado

Vão para os banhos da Povoa. V. S.ª faça favor de fazer pouca bulha que

ellas recommendaram-me todo o socego, que queriam dormir.

Aniceto

Pois que durmam. Ora que me importa cá a mim as fidalgas de Lanhoso!

Creado

V. S.ª toma alguma cousa?

Aniceto

Queres chá, Victorina?

Victorina

Não quero nada. Quero deitar-me, que estou moída. O meu quarto é

aquelle? _(Apontando para o 10.)_

Aniceto _(indo examinar o quarto)_

Para onde deita aquella janella?

Creado

Para o quintal.

Aniceto _(indeciso)_

Para o quintal? está bom... Vá... Vae-te deitar, menina. _(Ao creado)_

Vá você buscar outra luz. _(O creado sáe.)_

SCENA II

ANICETO E VICTORINA

Victorina

Boas noutes, meu pae.

Aniceto

Boas noutes. Se fôr preciso alguma coisa, bate na porta trez palmadas.

Victorina

Ai! _(Gemido longo.)_

Aniceto

Deixemo-nos de ais, Victorina. Juizo, juizo e juizo! _(Victorina

recolhe-se. O pae fecha a porta, e tira a chave.)_

SCENA III

ANICETO E O CRIADO QUE VEM COM O CASTIÇAL

Aniceto

Diga-me cá vossê...

Creado

Meu amo, que manda?

Aniceto

Por aqui é tudo femeas, ou tambem ha machos?

Creado

Machos?!

Aniceto

Sim, homens! Se estão homens n'estes quartos.

Creado

Já disse que não, meu amo. Não ha homens.

Aniceto

Da banda do Porto não veio passageiro nenhum?

Creado

Não snr.

Aniceto

Está bom; dê cá você a luz e vá-se embora. Ás 7 da manhã, chame-me se eu

não estiver a pé, ouviu?

Creado

Sim snr. _(Aniceto recolhe-se, e fecha-se por dentro.)_

SCENA IV

GUTERRES E O CREADO

Guterres _(com um sacco de viagem)_

Olá, Gregorio!

Creado

Por cá, snr. Guterres! Como está V. S.ª?

Guterres

Bom. Ha quarto?

Creado

Hade haver. D'onde vem?

Guterres

Da Povoa. Venho no rasto d'uma mulher divina que veio n'um carro. Está cá?

Creado _(rindo)_

Ora V. S.ª que ha de sempre andar atraz de mulheres! Com esta é a setima

vez que o vejo n'aste fadario! E o maganão sabe-as escolher!

Guterres

Então viste-a, viste-a? Boa de lei, eim? Onde está ella?

Creado

Alli no n.º 10.

Guterres

Alli? Oh! que perola se esconde n'aquella feia concha! Quem dirá que o

meu ideal sonhado ha trinta e seis annos está na estalagem de Barcellos!

Alli! n'aquelle antro!

Creado

Sempre V. S.ª está um poeta d'aquella casta! Lembra-se da filha do

regedor de Guilhabreu que cá esteve na festa das Cruzes ha cinco annos?

Guterres

Lembro. Era uma trigueirita d'olhos pretos...

Creado

E os versos que V. S.ª lhe botou? a gente sempre se ria...

Guterres

Ah! vocês riam-se dos versos? Tens tu a felicidade bestial de te rires

da poesia? O talento póde contar com o couce até em Barcellos... Ora

vamos... onde tenho eu quarto?

Creado _(indicando-lhe um do fundo)_

Está alli o n.º 11.

Guterres

Bem. Podes ir. _(Entra na alcova. O creado sáe.)_

SCENA V

ANICETO SAINDO COM O CASTIÇAL EM PUNHO

Não posso adormecer com a idêa de que ha uma janella no quarto de

Victorina. Aquelle maldito não me deixa socegar em parte nenhuma. Receio

que elle me siga por que o lobriguei quando passávamos em Vallongo; e

ella tambem o viu. Quem me diz a mim que o tratante nos não persegue, e

anda á volta da casa? Cuidar aquelle valdevinos que se pôde com uma

flauta arranjar uma rapariga com fortuna! Ha dous annos que minha filha

está enfeitiçada por um trocatintas d'um estudante que conseguiu seduzir

o coração d'uma menina que regeitou os melhores casamentos de Penafiel e

Amarante! Afinal, não hasde vencer, sarrafaçal! Eu tolherei todos os

teus calculos. Não me pilharás descuidado um instante! Mas aquella

janella assusta-me. Vou fazer mudar Victorina para o meu quarto.

_(Olhando para o alto da porta)_ E de mais a mais esta porta tem vidraça

em cima. Se elle aqui entrar, ella póde vêl-o d'alli... Que imprudencia

eu ia commettendo! _(Bate a porta)_ Victorina, Victorina!

Victorina _(dentro)_

Quem é?

Aniceto

É teu pae. Já estás na cama?

Victorina

Não, snr.

Aniceto

Que estás a fazer?

Victorina

Nada. _(Dando volta á chave.)_

Aniceto

Nada? Posso entrar? _(Áparte)_ Lá está ella a descer a vidraça. _(Alto)_

Posso entrar?

Victorina

Póde.

Aniceto

Estavas á janella?

SCENA VI

ANICETO E VICTORINA SAHINDO DA ALCOVA

Victorina

Ai!

Aniceto

Que estavas a fazer na janella?

Victorina

Ora o pae tem manias! Credo! que havia de eu fazer na janella! Estava a

tomar a fresca. Não tinha somno, não podia dormir, estava muito

afflicta, muito opprimida, muito abafada, abri a janella, ai!

Aniceto

Pois sim, sim, minha menina. Assim será; mas troquemos os quartos. Vae

para aquelle, que eu vou para este. Dá cá o teu sacco de noute. Vamos.

Leva o castiçal. Dá-me o meu sacco. Muito bem. Agora entra...

Victorina _(entrando)_

Oh céos!

Aniceto

Sim, sim. _(Fechando a porta, e tirando a chave)_ Agora vou descançado.

_(Recolhe-se.)_

SCENA VII

GUTERRES

_(Caminhando contemplativo com o castiçal em punho e os olhos postos

no quarto d'onde sahiu Victorina. Pousa o castiçal.)_

Ella alli está, a formosa como a rolinha adormecida com o bico debaixo

da aza; e eu venho aqui dar pasto ao coração;... mas que pasto tão pouco

nutriente! Pobre poeta! todo o teu alimento são esperanças! Em quanto a

gente prosaica se embrutece com timbaes de pombos e pasteis de camarão,

tu, poeta _(batendo no peito)_ engoles timbaes de esperanças com pasteis

de sonetos. Eu já sou do tempo em que um homem de genio amava com o

auxilio dos sonetos, e fazia consistir toda a sua gloria de fino amante

em gargarejar ternuras para um terceiro andar e recolher-se a casa com o

coração a trasbordar de catarro. Hoje não. Os anjos actuaes se apparecem

de noite á janella é para namorar a lua, ou vêr a cauda d'algum cometa.

Desde que entrou a moda do amor ideal, os olhos d'uma senhora, que

conversa com as estrellas, não descem a procurar na rua um d'estes

amadores fanhosos, que só se sentem inspirados e eloquentes na occasião

em que a patrulha os não deixa fallar. Eram d'uma paciencia adoravel as

donzellas de ha vinte annos, quando em meu coração rebentavam as

primeiras flôres!.. Que sensaborias a gente lhe disparava lá para cima,

e a sancta resignação com que a gente as ouvia a ellas! A virtude

d'aquelle tempo só se explica bem pela temperatura de sorvete em que os

corações se conservavam de parte a parte. Isto agora é outra coisa. Um

homem sente no peito o progresso material. Aqui dentro ha gaz, ha

vias-ferreas, ha fio electrico, ha balões, ha petroleo, ha tudo quanto é

fogo, energia, rapidez, etc. Eu cá pelo menos sinto isso tudo; conheço

que remoço, que amo e que ardo. Tenho phosphoros e ácido prussico aqui

dentro. _(batendo no peito)_ E esta mulher! Como eu amo esta mulher

desde que a vi hontem na Povoa de Varzim! Eu, na minha qualidade de

escrivão do juiz eleito, estava a escrever n'um processo, quando ella

passava luminosa e radiante como uma aurora boreal. Larguei o processo

como largaria um sceptro, se fosse rei. Segui-a; vi-a jantar á meza

redonda do hotel portuense. Comeu apenas uma aza de borracho e meia

banana. Que estomago tão fino! É que alli está um coração immenso cheio

de ternura e com mais poesia que um livro de versos. Sahiram, e eu

segui-os. Vi entrar o pai n'um escriptorio de viação e comprar dous

bilhetes. Perguntei para onde iam os passageiros; disseram-me que para

Barcellos. Pedi bilhete; mas não havia. Ó desventura! que farei? ficar?

não! Ha fatalidades invenciveis, funestissimas! Esta mulher tem o meu

destino nas suas mãos; disse eu comigo. Cumpre-me seguil-a. Mas que

farei? Não ha bilhete. Embora. Alma de poeta, exclamei eu, não

succumbas! Heroicidade na desgraça, homem de coração de bronze! Segue-a!

segue-a! Fui alugar um garrano, e segui-os a galope, terra a terra, a

rédea solta, receando a cada passo que o coração e o garrano me

rebentassem. Aqui estou. Ó mulher, mulher quem és tu? Ave do paraizo,

que estás sonhando delicias do teu Éden, lembra-te, ó Eva, que és

costella do homem, e que está aqui Adão digno de ti. _(Repara na

viola.)_ Uma viola franceza! _(Pega d'ella e corre-lhe as cordas.)_ Está

desafinada. Oh! que saudades me tu fazes, instrumento interprete das

minhas paixões infantis! Que trovas eu descantava em noites de lua cheia

ao arpejar dos teus bordões que gemiam comigo! _(Pensativo)_ Quem sabe?

_(vai afinando)_ Quem sabe? Se tu fizesses o milagre, ó lyra das canções

apaixonadas! Vamos! é o fado que me impelle; mas não vou tocar o fado.

Inspira-me, coração, umas trovas dignas do anjo que alli está dormindo.

_(Avisinha-se da porta, onde presume que está Victorina, e preludía com

tregeitos de vate que invoca a inspiração do céo, e canta)_:

(MUSICA DA «ALTEA, MIMOSA ALTEA»)

Se tu soubesses, lindinha,

Quanto é grande o meu amor

Não dormiras descançada

Quando eu morro aqui de dôr.

_(Allegro)_

Acorda menina,

Não durmas agora,

Em quanto se fina

De dôr quem te adora.

Eu na Povoa descuidado

Já não sentia disvelos,

Eis que surges luz brilhante,

E eu te sigo até Barcellos.

Acorda, menina,

Não durmas agora,

Em quanto se fina

De dôr quem te adora.

SCENA VIII

ANICETO E GUTERRES

_(Aniceto abre a porta, e sáe de barrete de dormir e rob-de-chambre,

com a luz na mão. Guterres recúa espavorido.)_

Aniceto

Passasse muito bem.

Guterres

Viva.

Aniceto

Eu já vi o senhor se não me falha a memoria.

Guterres

Sim, senhor, já tive a honra de jantar na meza em que V. S.ª estava na

Povoa.

Aniceto

É verdade. Pois snr., V. S.ª canta e toca muito bem; n'outra occasião

muito lhe agradecerei o prazer de o ouvir; mas agora pedia-lhe o

obsequio de se calar, porque tenho de seguir amanhã viagem e preciso

dormir...

Guterres

Pois não, senhor! Eu deponho já o instrumento importuno.

Aniceto

Agradeço muito a sua delicadeza. Se não fosse indiscreto, perguntaria

com quem tenho a honra de fallar?

Guterres

Sou Guterres Arthur de Miramar, para o servir.

Aniceto

Então é estrangeiro? Esse nome não me parece de cá.

Guterres

Sou portuguez nascido e baptisado na Povoa, onde exerço funcções publicas.

Aniceto

Ah! exerce funcções publicas? Esse emprego deve ser bem bom.

Guterres

Soffrivel; mas vivo mais do espirito que do funccionalismo. Sou homem de

bastantes lettras.

Aniceto

Ah! de bastantes lettras? então é capitalista... Eu tambem trago um

pouco de dinheiro em descontos... O juro por aqui como regula?

Guterres

O juro? está favoravel. Um amigo meu empenhou o relogio a doze por cento

ao mez. V. S.ª é do Porto?

Aniceto

Não senhor, sou de Penafiel, onde sou bem conhecido por Aniceto da Silva.

Guterres

Oh! pois não, snr. Aniceto! E anda pelo Minho a divertir-se com sua

ex.^ma filha?

Aniceto

A divertir-me não... Isso são contos largos... se V. S.ª por aqui

estiver ámanhã, conversaremos. Agora boas noutes, que são horas de dormir.

Guterres

Tem razão, tem razão... Boas noutes. _(Aniceto fecha-se.)_

SCENA IX

GUTERRES

Ora ahi está a deidade, que eu eternizei nos meus versos! As esperanças

de muitos poetas, quando se realisam, são pouco mais ou menos como esta.

Este Aniceto, offerecendo-se aos meus devaneios d'alma, é uma imagem que

eu tambem offereço como lição a todos os poetas. _(Vê-se um encapotado

ao fundo, com chapéo de aba derrubada)_.

Mas, a final, onde é que está a filha? Foi o velhaco do creado que me

enganou! É o couce da proza que bateu no peito da poesia. Filha de

Aniceto, onde quer que estejas, eu te offereço este calix d'amargura, e

boas noutes. _(Vai a recolher-se ao quarto.)_

SCENA X

JOSÉ PIMENTA E GUTERRES

Pimenta _(rebuçado)_

Boas noutes.

Guterres _(suspendendo-se)_

Boas noutes.

Pimenta

Quem é o senhor?

Guterres

Não respondo a encapotados de melodrama. Destape-se.

Pimenta _(deixa cair as bandas do capote)_

Eis-me.

Guterres

Eis-me o que? Cada vez o conheço menos.

Pimenta

O senhor fallava agora aqui em filha d'Aniceto. Que ha de commum entre o

senhor e a filha de Aniceto?

Guterres

De commum de dois? temos questão grammatical ou phisiologica?

Pimenta

Que tem o senhor que ver com ella?

Guterres

Que tenho que ver com ella? Ha muita cousa que ver: por exemplo,

Barcellos, o rei dos tambores, V. S.ª etc. Falta elle que ver...

Pimenta

O senhor sabe que da zombaria ao rewolver não ha mais que um passo?

Guterres _(sorrindo)_

O senhor figura-se-me um patusco bastante tragico. Um tyranno em

Barcellos não póde ser melhor nem peor que a sua pessoa. Como se chama,

posso saber?

Pimenta

Sou José Pimenta.

Guterres

Pimenta? por isso o senhor é tão cálido!... Eu sou de apellido Mira-mar.

Tenho uma alma larga e fresca como o oceano. Saibamos: o senhor namora a

filha d'este Aniceto? Falle franco, que tem em mim um coração de poeta e

um respeitador dos direitos adquiridos. Ama a tal pequena?

Pimenta

Amo.

Guterres

Tambem eu.

Pimenta

Tambem o senhor?

Guterres

Tambem eu; mas ha uma differença entre nós, e vem a ser que ella a mim

não me conhece, e provavelmente ao senhor ama-o.

Pimenta

Tenho provas d'isso.

Guterres

Tem? _(Solemne)_ O senhor sabe que esmagou n'este momento um dos mais

romanticos corações que batem em peito de homem? Sabe que espezinhou as

florinhas d'um amor nascente que burbulhavam na charneca d'esta alma?

_(concentra-se)_ Coragem! Deixe-me saborear voluptuosamente o meu fel. E

então o senhor vem aqui fallar-lhe? Sabe que ella está...

Pimenta _(apontando para o quarto de Aniceto)_

Sei que está alli no N.º 10, que m'o disse o creado da hospedaria.

Guterres _(apontando)_

Alli?

Pimenta

Alli sim. O senhor tambem o deve saber. Espere... _(reparando na vidraça

sobranceira á porta.)_ Vejo um vulto de cara por detraz d'aquelles

vidros.. O senhor não vê?

Guterres

Sim, eu vejo lá o que quer que seja.

Pimenta

É ella que me conheceu a voz. Quer outra prova?

Guterres

Não senhor, estou satisfeito. Aquella mulher é sua. Sou magnanimo até aqui!

Pimenta

Se me fosse possivel subir á altura da vidraça! Alli está uma mêza. O

senhor guarda segredo? Não revella este arrojo d'um amante apaixonado?

Guterres

O senhor chama a isso arrojo? Arrojo seria o snr. Pimenta quebrar os

caixilhos das vidraças e passar-se lá p'ra dentro. Póde fazêl-o que eu

não digo nada.

Pimenta _(attento nos vidros)_

É ella. É o anjo! Lá está o rosto amado!

Guterres

Vá, não perca tempo. Dê-lhe um beijo envidraçado. _(Pimenta aproxima uma

banca da porta; sobe, e, ao chegar a cara aos vidros, Aniceto parte a

vidraça com um murro, e põe fóra a cabeça.)_

Aniceto

Ah cão!

Pimenta _(saltando)_

Traição! traição! _(Ouve-se o rodar da chave. Pimenta foge.)_

SCENA XII

ANICETO E GUTERRES

_(O palco escuro)_

Aniceto _(correndo para Guterres)_

Ainda aqui estás, ladrão!

Guterres _(accendendo um phosphoro)_

Olhe que está enganado, snr. Aniceto. Suspenda-se. Veja que eu sou o

funccionario da Povoa, Guterres Arthur. _(Continúa a accender phosphoros.)_

Aniceto

Mas eu vi a cara do meu algoz atraz d'aquella vidraça. Onde está o

scelerado, o canalha do flautista?

Guterres

Elle toca flauta? São fataes os flautistas...

Aniceto

Transtornou a cabeça de minha filha o infame... Onde está elle?

Guterres

Safou-se. Os phosphoros acabam-se. Eu vou buscar uma vela ao meu quarto.

_(Engana-se, e vae querer abrir o quarto de uma das fidalgas, que

exclama de dentro.)_

Voz de velha

Quem está ahi?

Guterres

Enganei-me.

Voz

Um homem! que desafôro! um homem!

Guterres

Perdão, minha senhora; não grite tanto. V. Ex.ª parece-me bastante velha

pelo metal de voz, e não deve recear-se de homens.

Voz

Que escandalo! um homem! a empurrar a porta do quarto de uma senhora...

Guterres

Não se assuste. V. Ex.ª em guerra de paixões é paiz neutro. Esteja

socegada. Durma. _(Engana-se novamente com a porta d'outra fidalga.)_

Voz

Quem bate? quem anda aqui, mana?

Guterres

Cá está outra inviolavel. Não é nada, minha senhora. A mana não teve

perigo.

Aniceto _(sahindo com uma luz do seu quarto)_

Aqui está luz. Venha cá, snr. Miramolim.

Guterres

Miramar, se faz favor.

Aniceto

Que me diz á perseguição d'este facinora? O senhor não lhe disse que eu

estava n'este quarto?

Guterres

Nada, eu não lhe disse coisa nenhuma. Eu bem vi que o senhor estava a

espreitar pelos vidros; mas como elle disse «lá está o rosto amado»

cuidei realmente que o rosto amado era o da sua pessoa. Não se afflija.

O caso tem remedio. Trate a doença de sua filha pelo systema

homoeopathico. _Similia similibus._ Sabe latim? _(Signal negativo)_ Quer

dizer: cura-se a molestia com a mesma droga que a faz, percebe? quer

dizer: a doença de sua filha é causada pelo tal sujeito, não é? _(Signal

affirmativo)_ Pois _similia similibus_ arranje-lhe outro similhante.

Aniceto

Dois? tomára eu desfazer-me d'este.

Guterres

Outro marido, percebeu?

Aniceto

Percebi, sim, senhor; mas eu não acho que a minha filha tenha

necessidade de casar com este nem com o outro.

Guterres _(com enfaze e rapidez)_

Snr. Aniceto, a natureza tem direitos inauferiveis. Ha periodos fataes

no fluido nervoso que repellem toda a violencia, e a não soffrem sem que

a especie seja deteriorada por transtornos contrapostos ás evoluções

palyngenesicas da reproducção genesiaca, resultando d'ahi que as

evoluções abafadas disparam em atrophia do sensorio e outras aberrações

de graves consequencias: o senhor percebe, eim?

Aniceto

As aberrações curam-se com uma boa bengala, snr. Miramolim.

Guterres

Miramar, se faz favor. Vejo que V. S.ª não entendeu. Sua filha ha de

dar-lhe grandes penas e trabalhos, se não tiver em quem empregar a

actividade do seu coração: percebeu agora?

Aniceto

Muito bem. Aconselha-me então o senhor que lhe procure marido.

Guterres

E quanto antes.

Aniceto

O senhor é solteiro?

Guterres

Sou, sim senhor, porque?

Aniceto

Quer casar com minha filha?

Guterres _(com gravidade)_

A sua filha, snr. Aniceto, é uma imagem que me sorria nos meus sonhos

antes de a conhecer. Eu amo-a com este coração de anjo que tenho; e, se

eu já não fosse poeta, os olhos d'ella fariam de mim um Camões

d'occasião. Mas a sua pergunta á queima-roupa é um choque tal de

felicidade que me burrifica. Deixe-me tomar ar. Ha commoções de alegria

que achatam os bofes e sacodem todas as visceras d'um homem.

Aniceto

Não ha tempo a perder. Quero livrar-me da perseguição d'este bandido da

flauta. Se V. S.ª annue, vamos sahir immediatamente de Barcellos, e onde

podermos parar em paz e socego trataremos do seu casamento com a minha

Victorina. Eu vou chamar minha filha. Quero que ella o veja e ouça fallar.

Guterres

A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a Flauta e a Viola Theatro Comico de Camillo Castello Branco · 第 3 / 4 段