Eu não admitto rethoricas em objecto tão sério como é o casamento! Olhem

que educação fina a d'este anjo! Trepa ás arvores, atira aos passaros, e

joga o páo! Que predicados estes tão mimosos para augmentarem as graças

virginaes d'uma menina! Não lhe falta senão vestir-se de homem, que é

agora o trajar das senhoras innocentes das novellas e dos dramas. Uma

menina que enfia os seus pezinhos n'umas botas de canhão, e rompe com

elles por umas pantalonas dentro, fica a recender um aroma suave de

amores que nem açafétida! E hade a gente persuadir-se que mora uma alma

muito candida e muito pura dentro do peito que se albarda com um paletó

de homem para arrotar francamente umas phrases de bomba real que nos

fazem comichões nos miolos e arrepios na espinha! Arreda! olha o que me

estava reservado para os quarenta e seis annos! Uma mulher assim

paralisava-me as funcções do intellecto, e lá se me iam as minhas

ovações parlamentares! Primeiro que tudo, sou do meu paiz, devo-me á

regeneração da minha patria, sou homem publico; e um homem publico

quando se casa deve fazel-o com dama que o não impeça nem apoquente. A

femea natural do homem politico é a politica; a esposa, para os homens

devotados aos interesses materiaes do seu circulo, significa tão sómente

um supplemento vivo e util ás commodidades domesticas. Percebe vocemecê,

snr. Macario?

Macario

Ora se percebo! A minha mulher cá para mim tambem é um supplemento ha

muitos annos; e mais eu faço-a trabalhar na politica enchendo os

bilhetes de votos na eleição. Diz V. Ex.ª muito bem, que nós os homens

publicos não temos tempo para cuidar de mulheres... _(Reparando em

Frederico)_ Ahi vem o atheu...

Cosme

Vou-me safando que não quero palestras com este safio. _(Sáe.)_

SCENA VI

MACARIO E FREDERICO

Frederico _(encarando o outro com a costumada careta)_

O douto pharmacopóla está irado contra mim por que fui causa a

interromper-se o escandalo do auto...

Macario

Eu não me metto com o senhor... Tenha a bondade de não embarrar cá por mim.

Frederico

A sciencia é sempre orgulhosa. Façamos pazes e alliança, snr. Macario

Mendes. Eu, com a minha sciencia das coisas espirituaes e o snr. com a

sua sciencia do bazalicão e do oleo de mamona, podemos dominar este

concelho, reunidas as duas forças n'uma aspiração unica. Por que me faz

guerra inexoravel e crua, snr. Macario? Que lucra em impedir o meu

consorcio com a Morgadinha? Por que anda o snr. servindo de alcaiote

d'este alarve de Guimarães, que é o trompão grandioso das maiores

asneiras civicas assopradas na charanga parlamentar? O officio do snr.

Macario, n'este negocio, desacredita um pharmaceutico, que reune ao

conhecimento do gamão, sciencia não vulgar da historia dos doze Pares de

França, e tem orvalhado com lagrimas os fastos sanguinosos de

_Roncesvalhes_.

Macario

Vá mangar com o diabo que o leve... Eu lhe mostrarei brevemente quem é

Macario Mendes... _(Sâe.)_

SCENA VII

FREDERICO, JOÃO LOPES, E CABOS

_(As cantadeiras que no fim do 1.º acto acompanharam a morgada

entram a cantar a moda com que se fechou o dito acto:)_

_D'onde vens, ó velha,_

_Eu venho da feira_, etc.

_(N'um intervalo da 1.ª á 2.ª trova João Lopes acerca-se de

Frederico com disfarce)_

João Lopes

Olhe, se foge, que o snr. vae levar pancada de crear bicho. Estão-se a

preparar os valentões. _(Frederico apita rijo. Apparecem de differentes

sahidas 6 cabos de policia que escutam Frederico, em quanto se repete a

cantilena. Finda a cantilena, ouve-se fóra o rumor da desordem, e o

estalido dos varapáos. As cantadeiras fogem alvoroçadas a dar gritos.)_

SCENA VIII

FREDERICO, CABOS, UM DESCONHECIDO, E CAMPONIOS

Frederico _(com intimativa bellica)_

Formem em linha. Carregar armas!

Um cabo

Estão carregadas.

Frederico

Vamos ser atacados pelos desordeiros. Á voz de fogo, atirem. _(Vê-se

atravessar a scena por entre o povo um Desconhecido de chapéo derrubado,

o rosto coberto por um lenço, de caraça, polainas de briche nas pernas e

pés, com um grosso páo de choupa. Proximos de Frederico os valentões

param, com os páos cruzados nas pernas, gingando em attitude ameaçadora.

Frederico, não se desvia dos cabos. De repente, rompem de fóra uns

poucos varrendo o campo a pauladas.)_

Frederico

Cabos de policia, sentido! Preparar armas! _(Sáe perto da bocca da scena

o Desconhecido. Encosta-se ao páo observando os movimentos dos

valentões, os quaes vem já avançando, já recuando, crescendo sobre

Frederico.)_

Frederico _(aos cabos)_

Aperrar armas! _(Uma paulada faz saltar a clavina das mãos d'um cabo. Os

outros fogem. Frederico recúa, apitando rijamente. No maior aperto, o

Desconhecido salta para a beira d'elle, descobre a choupa do páo, e

arremette com os aggressores. Estes, forçados pela destreza, fogem, logo

que o primeiro cáe d'uma paulada. A vozeria cresce no momento em que o

palco está despejado. O Desconhecido trava do braço de Frederico, e o

traz á bocca da scena.)_

Frederico

Quem é o valente homem a quem devo a vida?! quem é?

Morgadinha _(arrancando o lenço do rosto)_

Sou eu! salvei-te, Frederico!

Frederico

Ó morgadinha de Val-d'Amores! Tu!.. oh! tu!.. Como és ideal e angelica!

_(Ajoelhando.)_

FIM DO SEGUNDO ACTO.

ACTO TERCEIRO

Salão da casa de Val-d'Amores. Mobilia antiga de couro de Moscovia.

Reposteiros já envelhecidos com brazões. Alguns retractos. Um piano

moderno.

SCENA I

PANTALEÃO E MACARIO

Pantaleão

Como eu lhe vinha contando, amigo e snr. Macario Mendes, minha filha,

desde que começou a vestir-se á moda, e a tocar piano, está muito

distrahida do troca-tintas do escrivão. Não anda por janellas, não sáe

de casa, e gasta alegremente o seu tempo a tocar, a cantar e a

vestir-se. Isto custa-me um dinheiro callado; mas dou-o por bem empregado.

Macario

E quem é que ensina a snr.ª morgadinha a tocar?

Pantaleão

É a mulher d'um sujeito que se estabeleceu ha pouco em Santo Thirso com

loja de fazendas brancas...

Macario

Bem sei, bem sei.

Pantaleão

Foram lá as primas de Ruivães que fizeram a descoberta; mas o que tem

muita graça é que o homem da mestra é tão ciumento que só a deixa ir a

casas onde não ha homens...

Macario

Que tal pezêta é ella!..

Pantaleão

E para vir aqui, pôz por condição que a mulher só viria á noitinha

acompanhada pelo marido que a deixa á porta, e vem por ella duas horas

depois. Eu estive quasi a não aceitar tal professora por saber que o

escrivão de fazenda estava muitas vezes na loja do marido; e receei que

ella fosse medianeira d'alguma carta...

Macario

E tem rasão, snr. morgado... Veja lá!.. olhe que o mundo é um covil de

marotos!

Pantaleão

Não ha receio; que eu tratei de me informar, e soube que o logista pôz

fóra da loja o velhaco do Frederico, por desconfiar que elle lhe trazia

d'ôlho a consorte.

Macario

Não que sem licença d'elle não ha maior desmoralisação n'este mundo!

Aquillo tem mesmo idêas de Sardanapalo! Ainda bem que lhe está por um

fio a ladroeira da repartição...

Pantaleão

Conte lá isso então. Em que termos está a bernarda? Rebenta hoje ou ámanhã?

Macario

Hoje. Está tudo alevantado quando fôr nove horas. Os sinos hão-de tocar

a rebate nas quatro freguezias mais chegadas, e o povo cáe todo sobre

Santo Thyrso, e faz cêrco para que o escrivão não possa escapulir-se;

que elle é leve como uma penna, e quando a gente mal se precatar, vê-o

fazer vispre, zêpe-zêpe _(expressão sibilante para imitar a rapidez da

corrida.)_

Pantaleão

Se elle fugir, amigo Macario, deixal-o ir. Nada de o agarrar, que não

vão os meus creados escadeiral-o e eu ter de o pagar por bom. O que eu

desejo é que elle não appareça mais em Santo Thirso. Lá a respeito da

papellada isso é queimal-a toda; que depois o governo como não tem

cadernos para a cobrança dos impostos, não o manda para cá a elle nem a

outro.

Macario

Grande idêa é essa, snr. morgado! E o governo faz uma economia bem boa.

Se a gente fosse dando cabo dos empregados, ajudava o governo a fazer

economias, porque depois não havia quem quizesse servir os empregos. O

sytema é um bocado violento para os empregados, mas eu não vejo outro

meio de os ir acabando...

Pantaleão

Não acho isso humanitario!

Macario

Meu caro amigo e snr. morgado, eu sou homem politico ha trinta annos,

leio jornaes, e tenho feito muita somma de deputados; conheço por dentro

e por fóra o paiz e as suas necessidades. Fique certo d'isto; em quanto

se não der fim a uma casa a que os jornaes chamam _burrocracia_, não se

indireita a patria.

Pantaleão

Como se chama isso?

Macario

_Burrocracia_, que pelos modos é palavra de idioma francez, que vem a

dizer empregado publico.

Pantaleão

Snr. Macario, vá indo cá com as minhas idêas moderadas. O melhor systema

de se acabar com os escrivães de fazenda é queimar os cartorios. Eu lhe

ponho uma comparação. Se eu queimar a palha que tenho, e não comprar

outra, que me acontece á minha parelha de machos? Morrem de fome, não é

verdade?

Macario

Isso é.

Pantaleão

Pois ahi tem: os escrivães, em se lhe queimando os papeis, não tem que

roer.

Macario _(duvidoso)_

Nada; a comparação dos machos não me convence, queira V. Ex.ª perdoar.

_(Com energia)_ Matal-os, matal-os, é o grande _desideratum_.

Pantaleão

E os papeis? deixam-se ficar?

Macario

Os papeis queimam-se, queimam-se as casas, queimam-se os escrivães! Nada

de cataplasmas emolientes; o paiz o que precisa é causticos e ventosas.

Pantaleão

Ora vocemecê, snr. Macario Mendes, sabe que no cartorio do tal pulha

está o processo da execução que a fazenda nacional me move...

Macario

Por seis contos d'uma fiança dos bens dos frades, sei muito bem...

Esteja descançado, que não ha de lá ficar papel em que se amortalhe um

cigarro.

Pantaleão

Quem é o chefe da revolução?

Macario

Á falta d'homens por hora sou eu; mas não sei a que os commandantes das

freguezias decidirão. Já ouvi rosnar que elles querem acclamar V. Ex.ª

general em chefe.

Pantaleão

Homem, tire isso da cabeça ás freguezias. Vocemecê bem sabe que eu ando

muito adoentado dos intestinos, e não posso deixar de tomar o meu banho

de canôa á noute. Dinheiro, sendo preciso, algum darei para a revolução;

mas entrar nella em pessoa não posso por causa d'esta molestia dos reins

que me não deixa cavalgar; e vocemecê bem entende que um general em

chefe a pé não tem geito, nem pode vêr de longe o inimigo, se nos fôr

necessario entrar em batalha com o exercito. Dispensem-me por tanto de

tamanha honra.

Macario

Farei as diligencias; mas receio que...

SCENA II

OS MESMOS E A MORGADINHA

_(A morgadinha traja na ultima moda, mas exageradamente. Vestido

muito curto, sem alguma roda, apanhando-se-lhe cingido ás pernas;

grande laço na cintura posteriormente; sapatos de salto dourado;

cabelleira com estupendos tufos encaracolados.)_

Pantaleão

Vens para o piano, Joanninha?

Morgadinha _(pondo luneta d'oiro)_

Sim, papá, vou estudar a minha lição de escala. _(Senta-se ao piano.)_

Macario _(á parte, benzendo-se espantado do trajar da morgada)_

Que desmoralisação! Isto é o peccado em carne e ôsso!

Pantaleão

Está vocemecê admirado d'estas modas, amigo Macario!

Macario _(ironico)_

São bonitas... _(Grave)_ Mas não acho isto decente para a observancia

dos bons costumes.

Morgadinha

Que quer? é moda; andam assim todas as senhoras do tom.

Macario

Do tom? Sem tom nem som. As minhas filhas assim não hão de vestir, se

Deus quizer.

Morgadinha _(voltando o rosto com aborrecimento)_

Então as suas filhas são senhoras?

Macario

D'aquella massa se fazem, snr.ª morgada...

Morgadinha _(dedilha nervosamente nas teclas)_

Adeus, adeus. Temos historia!

Pantaleão _(a meia voz)_

Não a zangue... Deixe-a lá... Tomára eu que ella se entretivesse com os

vestidos...

Macario

A cabeça... está feito, mas as pernas a vêr-se-lhe, snr.ª morgada! Assim

não se podem observar os bons costumes... _(A Morgadinha canta

acompanhando a escala, e desafina quando guincha as notas das oitavas

altas. Macario Mendes, offendido pela desharmonia, faz caretas.)_

Pantaleão

Ainda não sabes cantar modinha nenhuma, menina?

Morgadinha

A mestra não quer que eu cante modinhas; aprendo a escala que é o

essencial. _(Repete a escala, e quando principia a desafinar, Macario

despede-se, apertando a mão a Pantaleão.)_

Pantaleão

Veja lá os meus papeis, snr. Macario.

SCENA III

OS MESMOS E JOÃO LOPES

João Lopes _(trazendo castiçaes com luzes)_

Está na sala de espera a snr.ª mestra pianista e mais o marido.

Morgadinha

Está! Papá, é preciso sahir, tenha paciencia. Bem sabe que ella, se vir

homem aqui, não entra.

Pantaleão

Está bom pedaço d'asno o marido! Então elle não sabe que eu sou um homem

sério!

Morgadinha

Que quer o papá! Já lhe tenho dito que póde entrar segura de que não

ouve palavra que a offenda; ella bem o sabe; mas o marido, se souber que

a mestra fallou com um homem, seja elle quem fôr, não a deixa voltar.

Pantaleão

Com certos individuos tem elle rasão; mas nem todos são como o devasso

escrivão de fazenda, que lhe andava a fazer a côrte á mulher, e por isso

foi posto de lá para fóra. Acho justo que elle se acautele dos

tratantes; mas de mim... parece-me bestialidade! Emfim cá vou. _(Sáe.)_

SCENA IV

MORGADINHA, JOÃO LOPES E DEPOIS FREDERICO

Morgadinha

Póde entrar a snr.ª D. Thomazia.

João Lopes _(para dentro, levantando o reposteiro)_

Póde entrar a snr.ª D. Thomazia. _(João Lopes sáe, assim que entra a

supposta mestra. Frederico vestido de mulher, o rosto coberto de véo

espesso, e cachos. Chapéu antiquado de orelhas, que lhe ajudem a cobrir

a cara. Vae direito ao piano. Vê-se a cabeça de Pantaleão que espreita

por uma fimbria do reposteiro. João Lopes tosse.)_

Morgadinha _(alto)_

Passou bem, snr.ª D. Thomazia!.. _(Baixo)_ Não me falles que meu pae

está espreitando, em quanto João Lopes tossir... _(Tocam e cantam a

escala, Frederico canta em falsete a duo. Desharmonia nas vozes.)_

João Lopes

O snr. morgado já está no pateo a conversar com o marido do snr.

Frederico; estejam á vontade que eu vou para o postigo da escada. Quando

eu tossir, vejam lá...

Frederico _(levanta o véo, abraçando o velho)_

Este João Lopes é um prodigio de dedicação! é o typo genuino do antigo

creado portuguez! Se eu realisar os meus sonhos, João Lopes, você ha de

progredir na escala das importancias sociaes... Eu hei de arranjar-lhe a

você um habito de Christo!

Morgadinha

Deixa-o ir, deixa-o ir... _(João Lopes sáe.)_

Frederico _(tomando-lhe as mãos calorosamente)_

E os nossos sonhos vão realisar-se, minha fada! Oh! _(contemplando-a

absorto)_ que deslumbrante! que eclipse estás fazendo nos anjos do céo!

Não és só uma bellesa! és um milagre! uma gloria! uma divinisação! Não

ouso beijar-te as mãos... Os pés, os pés! Estes pés requerem tapetes de

labios e almofadas de corações! Consente que t'os beije, houri!

Morgadinha _(desviando-se)_

Não sejas tôlo! Gostas de me vêr assim?

Frederico

Se gosto!.. Sinto delicias que atormentam, amor que me rescalda as

fibras intimas do peito! Luz, luz que me cégas, faz-te lavareda, e...

devora-me!

Morgadinha

Vamos ao caso... Como estão os negocios?

Frederico

Optimos. Logo que chegarmos a Lisboa, tenho a certeza de que será

consagrado nos altares o nosso amor. Poderiamos evitar a fugida,

requerendo tu a tua emancipação, visto que já contas vinte e seis annos;

mas, como receias que eu seja assassinado logo que requeiras ao juiz,

cumpra-se a tua vontade. _(João Lopes tosse. Vão sentar-se rapidamente

ao piano, tocando e cantando a escala. Depois, a Morgadinha vae

espreitar, em quanto Frederico toca uma valsa voluptuosa que obriga a

Morgadinha a fazer alguns passos de dança. Frederico, arrebatado do

donaire gracioso d'ella, ergue-se de mãos postas fazendo tregeitos de

enlevado.)_

João Lopes _(mettendo a cabeça)_

Podem conversar, que elle passou para a tulha.

Frederico _(com transporte)_

És divinamente grande nas minimas bagatellas da humanidade! Se lanças o

pé quebradiço e chinez em attitude dançante, sacodes e impelles brazas á

minha alma. O pavimento arde debaixo dos teus pés lindissimos. Tudo que

fazes mata e aviventa. Como não serás esbelta, nos salões de Lisboa,

princeza dos bailes, a rodopiar vertiginosamente nas valsas, nos

cotillons, nos lanceiros, na doidice sublime em que ha um espadanar de

felicidade por todos os póros! Ó Joaninha, deixa-me sonhar! _(Fixa os

olhos espantados no tecto da platêa. Musica surda)_ A minha vida vae ser

uma etherisação de todas as potencias espirituaes. Embriagado nas taças

nectáreas do céo, viverei enlevado nos arrobos da minha embriaguez...

Esse rosto em que se espelham as formosuras não vistas de Angelos nem de

Raphaeis, será o meu Al-korão, porque o summo artifice escreveu ahi a

suprema estrophe do seu poema. Quando os teus olhos se abrirem ao

diluculo da manhã, vêr-me-has de joelhos a beijar os teus cabellos;

quando os fechares, cansados de serem beijados, e as sedosas palpebras

se cerrarem como conchas ciosas de suas perolas, eu me quedarei a teus

pés velando que os sylphos amorosos da noite não ousem perturbar o teu

dormir. Oh! Joanna, Joanna! _(Ajoelha-se-lhe aos pés. João Lopes tosse

com maior força. A morgadinha adverte em vão Frederico que continúa no

seu arrebatamento:)_ Abre-me aqui já o sepulchro, se em alguma hora hei

de sentir-me orphão dos teus carinhos... _(Pantaleão ao fundo, erguendo

o reposteiro.)_

Morgadinha

Ah!

Frederico _(sobresaltado)_

O diabo! _(Desce o véo. Canta qualquer aria conhecida no acto de

ajoelhar, e cantando, diz perceptivelmente á Morgadinha:)_

Diz a teu pai que a mestra

Para melhor te ensinar,

Te está cantando uma ária

Das que se usa cantar

No Theatro de Lisbôa:

Prega-lhe a pêta, que é bôa;

E se esta nos não salva,

Nada nos póde salvar.

SCENA V

OS MESMOS E PANTALEÃO

Pantaleão _(ao fundo)_

Então que é isso?

Morgadinha

É a minha mestra que me está ensinando uma ária das que se cantam no

theatro de Lisbôa.

Pantaleão

Ella tem a voz tão grossa! Não parece voz feminina!

Morgadinha

Ella canta na voz que quer.... Então o papá já se esqueceu que o marido

d'ella...

Pantaleão

Está bom, está bom; eu vou-me embora. Lá estive conversando com o marido

da senhora, e lhe disse que não tivesse ciumes que eu sou um velho!...

Aquelle seu marido parece-me um doudo!.. _(Rindo)_ Ora andem lá, andem

lá. _(Sáe.)_

SCENA VI

FREDERICO, MORGADINHA E JOÃO LOPES A INTERVALOS

Frederico

Salvei-te ou não? Tu salvaste-me com a força, na romaria; e eu aqui,

salvei-te com o genio! Vês como o amor me deu espirito n'um trance

difficil? Fazes maravilhas de perspicacia e finura, tu, com a magia dos

teus olhos, ó formosa! _(Ouve-se toque a rebate de sinos, que sôa de

diversas longitudes. Rumôr longiquo de vozes.)_

Morgadinha

Que será isto!? Ó João Lopes!

João Lopes _(dentro)_

Que quer, snr.ª morgadinha?

Morgadinha

Sabes a que tocam os sinos? é fogo?

João Lopes _(dentro)_

Fogo não me parece. Acho que é bernarda. Estou cá á janella a vêr se

entendo a gritaria.

Morgadinha

Diz que é bernarda...

Frederico _(alvoroçado)_

Horrivel! oh! horrivel! Isso bole sériamente comigo, comtigo, comnosco,

com o nosso futuro, Joanna!

João Lopes _(dentro)_

É revolução.

Morgadinha

Revolução!

Frederico

Não ouves a fatalidade que esbraveja? Terei eu de perder-te, archanjo?

Morgadinha

Qual perder-me! Importa-me cá a mim a bernarda! Hei de ser tua! Não

temas, Frederico, que eu sou forte!..

João Lopes _(na scena)_

Já intendi o que elles dizem... Dão morras aos papeis, e que se queime o

escrivão da fazenda... E trazem musica... Ouvem?... _(Ouve-se

distinctamente, mas ainda longe, o hymno da «Maria da Fonte», á mistura

com os «môrra!»)_

João Lopes

O snr. morgado está na torre a ouvir. Agora bom será que o snr.

Frederico se escape, senão desconfio que o matem, sendo aqui pilhado...

_(Frederico apanha as saias na cintura para poder fugir. A Morgadinha

agarra-o.)_

Morgadinha

Não te deixo sahir agora, que é perigoso.

Frederico _(muito inquieto)_

Morrer aqui, seria uma morte ingloria, Joanninha! Dá-me armas que eu

quero defender-me com uma bravura digna de ti! Armas! armas! um revolver

de doze tiros! Quero armar-me até aos dentes, e combater, e morrer

gloriosamente ao teu lado!

Morgadinha

Frederico, tu estás maluco!.. Olha que elles não vem cá... Não percas o

juizo!

Frederico _(muito á tragica, alludindo ao estrondo da gritaria)_

Não vem? Vem! Escuta! escuta! Não ouves o bramido do tigre popular?

Olha... é o leão que ruge, partidos os grilhões de respeito á lei! É a

Libia e a Hircania a vomitarem féras! Olha o lago sujo como se levanta

em vagalhões e como elles roncam!

Morgadinha

Vem então esconder-te, vem esconder-te!

Frederico

Não! Um homem não se esconde quando olhos como os teus são testemunhas

de tamanha covardia! É mister ser heroe!.. Mas eu estou vestido

ignobilmente! _(Arranca os vestidos mulheris: fica de quinzena; mas

conserva o chapéo e os boucles)_ Agora, armas! armas! _(A morgada ri-se

apontando-lhe para a cabeça.)_ Por que ris tu, mulher forte! porque ris

tu, se fazes favor?!

Morgadinha

Tira a cartola e os cachos, meu amor.

Vozes _(que sobrelevam o estrondo dos figles)_

Morra o escrivão de fazenda! morra! _(Grande catharro de João Lopes.)_

Frederico

É chegada a hora! Dá-me um abraço, querida! Um abraço! e até ao reino

eterno! As nossas nupcias são no céo!.. _(Aponta para o tecto e fica

como extactico; em quanto a Morgadinha vae rapidamente dentro, e sáe com

dous bacamartes de bocca de sino.)_

Morgadinha

Aqui tens um bacamarte; defende-te, que eu te defenderei tambem! _(Ella

aperra o bacamarte.)_

SCENA VII

OS MESMOS, PANTALEÃO E JOÃO LOPES

Pantaleão _(estupefacto)_

Que vejo? que é isto? como entrou este homem aqui?

Frederico _(atirando ao chão o bacamarte)_

Venho offerecer-me á vingança de V. Ex.ª

Morgadinha

Meu papá, o snr. Frederico vem pedir-lhe a minha mão de esposa!

Pantaleão

Das duas uma: ou o senhor foge, ou é espatifado pelo povo!

Frederico

Não sei fugir: sei morrer.

Pantaleão

Mas vá morrer a casa do diabo; não quero que o matem aqui.

João Lopes

V. Ex.ª tem rasão; matal-o aqui é máo: o melhor é eu ir escondêl-o no

meu quarto; por que, se o povo o achasse aqui a estas horas, os creditos

da menina não ficavam com muita saude.

Pantaleão

Pois vae escondêl-o... some-o no inferno!

Morgadinha

Meu pae, se Frederico fugir, fujo eu; se elle morrer, morre sua filha,

sua filha unica, a sua Joanninha, a luz dos seus olhos! Meu papá

_(ajoelha-lhe)_ eu já não posso deixar de ser esposa de Frederico, e

juro que sou d'elle na vida e na morte! _(Ergue-se: conduz Frederico

pela mão, e ajoelha com elle)_ Dê-nos a sua benção, querido papá!

Pantaleão

Nunca! nunca! _(Ouvem-se fora as acclamações.)_

Morgadinha _(erguendo-se soberba)_

Então, não tenho pae! tenho só marido! Se o povo o matar, ha de vêr

morrer-me ao pé d'elle... mas vingada!.. _(Lança mão do bacamarte)_ Que

entre o povo!

Pantaleão

Em que apertos me vejo! Rebenta-me o coração!..

João Lopes _(muito commovido)_

Snr. morgado!.. Olhe que perdemos a nosa menina!..

Pantaleão _(a Frederico)_

Esconda-se n'aquelle quarto, homem... Depressa.

Frederico

Obedeço, por que m'o ordena o pae d'este anjo. _(Sáe com João Lopes.)_

SCENA VIII

PANTALEÃO E A MORGADINHA

Pantaleão

Perdi a cabeça!.. Estou doudo... não sei o que vinha aqui fazer!.. Ah!..

onde está a pianista, que está alli fóra o marido á espera...

Morgadinha

A pianista?..

Pantaleão

Sim, a pianista onde está?.. _(Olha para o chão, tropeçando no vestido

de mulher)_ Que é isto? _(levantando o chapéo e os caracoes)_ Que é

isto?! que é isto, Joanna?..

Morgadinha _(afflicta)_

Isso? Ah! meu pae, que eu morro, se me apoquenta muito!..

Pantaleão

Então a pianista era... era o escrivão?!..

Morgadinha _(soluçando)_

Era, sim, snr.!

Pantaleão

Que sucia de tratantadas se passam n'esta casa!.. e eu a conversar com o

patife do logista que se dizia o marido d'esse velhaco!..

Morgadinha

É meu espôso... perdôe-nos...

Pantaleão

Tu és o demonio, mulher!

Morgadinha

Sou uma infeliz apaixonada... O meu papá, tenha piedade! Olhe que o

Frederico é muito bom môço. Se não é fidalgo hoje, póde sêl-o ámanhã. O

papá bem sabe que os fidalgos agora se fazem d'um dia pr'ó outro.

Pantaleão

Ergue-te, ingrata, que déste cabo de teu pae! _(Rompe a musica pelo

interior da casa, com grande vozeria, tocando o hymno.)_

SCENA IX

JOÃO LOPES, PANTALEÃO, MORGADINHA, MACARIO

_(A musica, na vanguarda, ladeia para dar passagem a Macario vestido

de official de ordenanças, mas com chapéo embicado. Traz uma espada

empunhada, e outra debaixo do braço, seguem-no 12 commandantes

subalternos, vestidos a capricho, uns com chapéo redondo e banda e

dragonas, outros de barretina e niza. Um d'estes arvora uma bandeira

de varias côres.)_

Macario

Viva o snr. morgado de Val-d'Amores, general em chefe das forças

populares do Minho!

Vozes

Viva! _(Cala-se a musica.)_

Macario _(á frente dos revolucionarios com enfaze oratoria)_

A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a Flauta e a Viola Theatro Comico de Camillo Castello Branco · 第 2 / 4 段