Não, senhor. Isto de casamento é um acto sério e solemne. Corações

apanhados de surpreza não me servem. A mulher, que houver de ser minha,

hei de conquistal-a palmo a palmo com as armas do sentimentalismo

poetico. Logo que eu conhecer que consegui apaixonar sua filha, então a

contemplarei como objecto matrimonial. Eu sobretudo, snr. Aniceto, sou

poeta.

Aniceto

Então que é preciso?

Guterres

É preciso que ella me ame espiritualmente. Eu vou principiar os meus

primeiros ensaios no coração de sua filha empregando os expedientes

sentimentaes.

Aniceto

Que vae o senhor fazer n'esse caso?

Guterres

V. S.ª não me disse que sua filha se apaixonara pelo tal Pimenta em

consequencia de elle tocar flauta?

Aniceto

Foi isso.

Guterres

Pois eu vou empregar tambem a musica. Póde ser que esta menina tenha a

alma lyrica e philarmonica e que o seu coração só possa ser abalado

instrumentalmente. Faz-me o snr. Aniceto o favor de recolher-se ao seu

quarto, e esperar lá os phenomenos que se forem operando na

sensibilidade de sua filha?

Aniceto

Sim senhor, eu cá vou esperar os phenomenos. _(Recolhe-se.)_

SCENA XIII

GUTERRES _(só)_

_(Guterres pega da viola, preludía, aproxima-se do quarto de

Victorina e canta em postura de inspirado)_

Eu na Povoa descuidado

Já não sentia disvelos;

Eis que surges, luz brilhante,

E eu te sigo até Barcellos.

Acorda, menina,

Não durmas agora,

Em quanto se fina

De dôr quem te adora.

Victorina, escuta os hymnos,

Que te canta o meu amor;

Escuta os versos divinos,

De Guterres, trovador!

Acorda menina,

Não durmas agora,

Em quanto se fina

De dôr quem te adora.

_(Escutando declama:)_

Ella não se bole. Parece-me que a ouço resonar. É a belleza que ronca

nos seus sonhos innocentes. _(Reparando em José Pimenta que vem

entrando)_ Temos chinfrim.

SCENA XIV

JOSÉ PIMENTA, GUTERRES, VICTORINA, NO QUARTO E DEPOIS NA SCENA, ANICETO

MAIS TARDE, E O CREADO

_(José Pimenta entra embuçado, medindo os passos á tragica. Chega ao

meio da scena, arroja o chapéo, deixa cahir a capa, cruza os braços,

relançando um olhar sinistro. Depois tira da algibeira interior

d'uma jaqueta de pelle os canudos d'uma flauta, liga-os, dá dois

passos á frente, e com a maior solemnidade toca a aria da Sombra de

Nino, da Semiramis. Guterres tem passado com a viola para o outro

lado, e faz menção de se defender com uma cadeira, em quanto o outro

não toca. Victorina, assim que José Pimenta tem tocado a primeira

parte da aria, começa aos empurrões á porta.)_

Victorina _(dentro)_

Josésinho, Josésinho, eu estou aqui. Acode-me, salva-me! Arromba esta

porta! _(Aniceto rompe do quarto com os braços no ar, a tempo que

Victorina faz saltar a fechadura e corre aos braços de José Pimenta,

exclamando:)_ José, José, quero morrer nos teus braços. Ai! _(Desmaia

nos braços d'elle.)_

Aniceto _(ao creado que tem entrado com a luz)_

Você faz favor de me ir chamar o regedor? chame-me as auctoridades

todas. Ah grande facinora, cuidavas tu que em Barcellos não ha justiça

que vingue um pae?

Guterres

Snr. Aniceto, não mande chamar as auctoridades. Nada de escandalos

inuteis. Agora conheço que a chaga da sua filha só póde ser curada com o

pêllo do mesmo... do mesmo José Pimenta. Não ha duvida que o coração

d'esta menina está magnetisado pela musica; mas o que é certo é que a

propensão d'ella não é a viola. A alma d'esta senhora inclina-se para

instrumento de sopro. Não é assim, snr.ª D. Victorina? Faça favor de

voltar a si para responder, e desmaie depois se quizer. _(Ella abre os

olhos)_ É verdade ou não?

Victorina

Ai! _(Aniceto cáe prostrado n'uma cadeira á boca da scena.)_

Guterres _(a Pimenta)_

O senhor não tem habilidade senão para a flauta. Aproveite a occasião e

vá com a pequena ajoelhar-se aos pés do velho. Andem para diante.

_(Empurrando-os)_ Parece que nunca estiveram no theatro!

Pimenta e Victorina _(ajoelhando)_

Meu pae! piedade!

Aniceto _(erguendo-se de impeto)_

Oh! _(Grito rouco e prolongado; com os braços affasta tragicamente da

vista o espectaculo dos dois que se ajoelharam.)_

Guterres

Snr. Aniceto, deixemo-nos de attitudes. Abençôe a união d'essas

creaturas. Deixe-os casar; alegre-se com a esperança de que ha de ainda

vêr meia duzia de netos a tocarem flauta; e meia duzia de netas, com o

genio de sua mãe, amando uma orchestra de sujeitos distinctos desde a

trompa até á corneta de chaves. Vamos, volte o seu semblante

misericordioso para os propagadores da sua individualidade tipica.

Aniceto

Levantem-se d'ahi! _(Erguem-se submissos.)_

Guterres

Bem; estão os senhores absolvidos. Parabens. Ó snr. Pimenta, eu creio

que algum serviço lhe fiz, provocando com esta viola o poder fascinador

da sua flauta. Em recompensa, faça-me o senhor o favor de dizer se foi

realmente com a aria da Sombra de Nino que enfeitiçou esta sympathica

joven?

Pimenta

Esta aria era a senha com que os nossos corações se entendiam.

Guterres

Ah! sim? Eu quero tocar isso no violão; vou experimentar o effeito

d'essa aria no coração de certas pessoas que costumam arrebatar-se

fascinadas pela minha voz de tenor. _(Tange na viola o acompanhamento da

Sombra de Nino, e canta:)_

Pobre poeta, ninguem te preza,

Pobre poeta, ninguem te quer;

Nem co'a viola tu conseguiste

Mover o peito d'uma mulher.

_(No intervalo de uma quadra á outra. A José Pimenta)_

Isto vae bem? _(Faz na viola escalas sobre os bordões.)_

Mas não importa; vença a flauta

A sympathia das fracas almas;

Que eu antes quero, meus bons amigos,

O vosso affecto e as vossas palmas.

FIM.

Os direitos de representação das duas comedias que formam este volume

pertencem ao auctor.

Porto, 3 de Fevereiro de 1871.

CAMILLO CASTELLO BRANCO.

A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a Flauta e a Viola Theatro Comico de Camillo Castello Branco · 第 4 / 4 段