Tadahira, do nosso seculo X, pintou certo dia um cuco sobre o panno de

um leque. Tam perfeito era o cuco, tam inspirado de verdade foi o pincel

que o desenhou, que em todas as vezes que alguem abria o leque, o cuco,

assim exposto á luz do dia e á paizagem, acordava, soltava o pio

habitual dos cucos. Maravilha!...

* * * * *

Maruyama Okio, nome moderno, pois é do seculo XVIII, foi pintor muito

celebre, a ultima gloria talvez da escola classica, convencional, mas

cheio de amoroso realismo nas suas concepções. Um seu cliente fizera-lhe

encommenda de desenhar um urso bravo. O consciencioso Okio pede a certo

aldeão do seu conhecimento que o avise de quando algum appareça pela

serra; o aviso vem ligeiro, pois abundam taes bichos no Japão, e eil o

que parte, com a tinta, com os pinceis e com o mais de que carece.

Levado pelos campos, depara com o animal dormindo junto a uma arvore.

Mãos á obra, e em curto espaço conclue o seu trabalho e se retira; mas

dentro em pouco rasgava a tela, desgostoso, depois de a ter mostrado a

um caçador de officio, em ursos entendido, o qual lhe observou que

achava bello o quadro, mas falho de verdade após um exame attento, pois

não traduzia a imagem a vaga ondulação que é propria ao arfar do corpo

que respira. O melhor da passagem foi ter, annos corridos, contado o

aldeão ao bom Okio que o tal urso da serra se quedava dias e dias junto

á arvore; até que se deu fé, entre curiosos, que o bicho não dormia, mas

se achava alli caido morto...

[Figura]

* * * * *

Sonhou um dia o Shogun, Generalissimo do imperio, que um padre lhe

apparecia e lhe dizia estas palavras:--«Eu sou o defunto superior do

templo de Kurama; e rogo-vos, senhor, que ordeneis a Kano Motonoba de

pintar o meu retrato, para ser collocado no templo onde passei meus

longos dias de existencia.»--Acordando, mandou chamar o grande artista,

fez-lhe a encommenda, e soube então que elle tivera igual visão durante

a mesma noite.

O peor é que Kano não conhecera o reverendo, nem lhe constava que

existisse um só retrato para modelo. A tarefa era ingrata. O pintor

passou então dias sem conto, tendo na frente a tela nua, pincel em punho

e tinta preparada, immovel, perplexo, desesperado de jamais poder

realisar o seu intento. Foi em um d'aquelles dias que uma aranha desceu

do alto do tecto lentamente até poisar na tela, onde teceu a sua teia,

que era nada menos que o esboço do frade a traços rapidos; Kano

limitou-se a completar a obra em seus faceis detalhes.

Outra difficuldade se levanta: Kano desenhára um retrato gigante, em uma

grande tela, não reflectindo a principio que nunca poderia conseguir que

passasse pela porta do seu modesto albergue. Quando concluido e como o

problema se apresentasse irresoluvel, eis sopra de repente uma rajada em

furia, que deita a terra uma parede do albergue, e leva em triumpho,

pelos ares, o primoroso quadro até ao templo de Kurama, onde até hoje

está, e os visitantes o admiram.

* * * * *

[Figura]

Sesshiu, um nome glorioso entre a pleiade dos pintores do Dai-Nippon,

entrára como noviço aos treze annos no templo de Hofukuji. Sabe-se que,

durante a sua aprendizagem, mais se applicava á arte do que ás praticas

devotas. Uma vez, por uma offensa d'este genero, foi posto em penitencia

junto a uma columna do templo, durante longas horas, com as mãos atraz

das costas, fortemente amarradas. Quando o superior vinha

soltal-o,--imagine-se o espanto do sujeito!--eis que surde de junto dos

pés do pobre moço um bando de ratinhos, que se escapam espavoridos pela

casa. Qual era a explicação de tam estupendo caso? Eu lhes conto: o

penitente, choroso e inactivo, fôra entretendo o tempo a pintar sobre o

sobrado poeirento aquelles galantes animaes, servindo-se das proprias

lagrimas como tinta, e do dedo grande do pé nu, como pincel;

logicamente, os ratos salvavam das iras do velhote as preciosas vidas

com que o artista acabava de dotal-os.

* * * * *

Esta é uma velha lenda classica da religião de Shinto.

O templo shintoista de Shimo-Gamo, em Kioto, é dedicado á deusa

Tamayeri-hime. Esta menina, antes de dar pretexto aos fieis para ser

adorada, achava-se uma vez dedilhando sentidas melodias na guitarra, á

beira do rio Seminogarva, quando avistou boiando á tona de agua uma

feicha vermelha, encimada de lindas pennas de certa ave das selvas.

Colheu-a e levou-a para casa, collocando-a junto do seu leito. Acto

continuo, succedeu a maravilha de dar á luz um filho. Seus paes,

descrentes de artes milagrosas, e a despeito dos mil protestos de

innocencia que ella lhes fez, singelamente, não acreditaram no milagre,

accusando-a da falta que mais póde envergonhar uma mulher honesta.

Passados annos, Taketsumi-no-Mikoto, o pae da desolada, resolveu aclarar

este mysterio. Em tal designio, offereceu um banquete a todos os

visinhos; e quando estavam todos reunidos, dirigindo-se ao neto, e

entregando-lhe uma taça cheia de _saké_, que é o vinho do paiz,

disse-lhe isto.--«Leva-a a teu pae»--A creança, obedecendo, saiu para a

rua e poz-se a contemplar o céo, e ia murmurando uma oração; de subito,

transforma-se n'um raio, que corisca, subindo ás regiões celestes,

acompanhado pela mãe, para a qual começou assim a glorificação.

* * * * *

Encontrei-me, em pleno dia, n'um luxuoso bairro indigena, que me

disseram chamar-se a _Cidade-Nocturna_, pois só com a noite acorda, e só

na noite vive, deslumbrante de galas, de lumes, de harmonias, de povo

alegre que transita, para cair em repouso ao alvorecer da madrugada.

Áquella hora, a estranha cidade, esbrazeando a um sol de intensidades

tropicaes, do mez de Agosto, modorrava; torpida quietação; raros vultos

se viam,--mendigos, vadios, párias da vida,--cosidos com as nesgas de

sombra dos edificios e das arvores que ajardinam ao centro as avenidas.

[Figura]

Fixei casualmente a attenção n'um edificio mais pomposo, de vastas

dimensões, todo de madeira nova, alto de quatro ou cinco andares,

rodeado de varandas, d'onde pendiam a arejar ricas colchas de seda e

mantos de matiz; não sei que caravançará de mysteriosos habitos,

aquelle, silencioso tambem áquella hora, mas dando de si a idéa de

conter nos seus arcanos uma legião do moradores.

Ao centro d'este edificio erguia-se em triumpho um amplo portal, de

madeiras lustrosas; seguia-se-lhe um vestibulo; depois alguns degraus de

escada, acharoados; e ao fundo, muito ao fundo, havia passadiças

cobertas de esteiras muito limpas, corrediças entreabertas patenteando,

n'uma meia penumbra, confusos verdes de jardim.

Junto ao portal, dois moços de serviço, quasi nus, dormiam sobre um

banco, como dois cães de guarda cançados da vigilia. Notei que vultos de

mulher, de quando em quando, passavam, perpassavam, longe, no ultimo

plano; languidas, vagarosas, com os penteados desfeitos, arrastando

amplas tunicas de seda estampadas de entrelaçamentos de flôres. Uma

d'ellas, por desenfado, avançou té ao portal, ergueu os braços alto,

enfiou os alvos dedos de ociosa pela juba negra dos cabellos; e assim,

n'aquella posição, poz-se a fitar o azul do céo que uma ave cruzava em

vôo rapido. Gentilissima, esplendida no vestido, miudas fórmas

graciosas, da côr do jaspe os pés descalços em habito de humildade, e um

olhar de dezoito annos quando muito, pueril, coando a expressão intima

de um ser affeito á passibilidade e inconsciente das coisas d'este

mundo. De dentro, uma voz de velha, azeda e imperativa, chamou-a pelo

nome:--«_Mitsu-Riyo!_»--E eu fui seguindo o meu caminho, acordando de

subito para um enternecimento doloroso, que me é peculiar em presença de

certos relances da existencia, um pequenino nada ás vezes, confuso e

passageiro... _Mitsu-Riyo_ quer dizer, litteralmente:--_Mel que se

offerece_--a quem? á turba, a toda a gente.

* * * * *

No Japão, uma vez em cada anno é a festa das meninas, e uma outra vez em

cada anno é a festa dos rapazes.

[Figura]

Na primeira, como de justiça, e em attenção ao sexo, tudo se passa entre

a familia, de paredes a dentro; e o profano nada logra devassar dos

jubilos d'aquellas presumidas, vestidinhas com mil esmeros e attenções,

em extasis em frente do altar que se arma em casa em honra d'ellas,

aonde se dispõe, além de coisas santas, a collecção de bonecas e

brinquedos, a serie em miniatura do espelho, da caixa de costura, do

brazeiro, das chavenas, da chaleira, de tudo mais onde mais tarde os

seus dedos mimosos poisarão, no placido exercicio dos seus deveres de

esposa e mãe por sua vez.

A festa dos rapazes é publica, ostensiva. É certo que no lar se agrupam

os trophéos de armas e allegorias de guerreiros, e brinquedos

condizentes com a turbulencia innata nos garotos; mas no que mais se

empenha o cuidado da familia é n'um curioso emblema que enfeita a cidade

inteira, offerecendo aos passeantes um estranho quadro de festa e

alegria. Cada qual que tem filhos--e quem ha que os não tenha?--espeta a

prumo ao pé da sua casa uma vara de bambu de grande comprimento, tendo

amarrado na ponta um enorme peixe de papel, soberbamente pintado de

negro ou de vermelho, escamudo, com ampla cauda e esbogalhados olhos;

cada qual amarra um peixe, ou dois, ou tres, ou quatro, conforme o

numero de filhos; e ha casaes tam abençoados dos deuses e tam

cumpridores do seu dever, que amarram sete peixes, oito peixes, um

cardume!...

Qualquer curioso em coisas de estatistica poderia, sobre uma eminencia

da cidade, registar pelo numero dos peixes o numero de filhos varões

n'aquelle sitio; mais ainda: os ventres benemeritos que mais soldados

dão ao exercito imperial.

Ha uma lenda adoravel n'esta usança. Os peixes figuram carpas, no Japão

abundantissimas; a carpa, sabe-se, vive nos rios, e apraz-se teimando a

nadar contra a corrente, subindo da fóz té ás origens; aquelles peixes

de papel, enfunados pelas brisas fuscas que reinam em geral n'aquella

epocha, que é em maio, perfilando-se contra o vento, dão uma perfeita

imagem do phenomeno. Assim o homem, no curso da existencia, deve

adquirir a rude teimosia de resistir, de passar para além da corrente

dos revezes, dos desalentos, das intrigas, té alcançar o lago bonançoso

da paz da consciencia e da abastança ganhas com o seu trabalho

intelligente. A festa é ao mesmo tempo um aviso aos tenros nipponicos de

agora, ranhosos, rabujentos, dependurados da teta maternal, ou, mais

crescidos, caçando as cigarras poisadas sobre as arvores, lambendo

doçarias e soletrando o _i-ro-ha_ pelas escolas, mas que amanhã

constituirão a massa activa e dirigente d'esta tribu inchada de orgulhos

patrioticos, e abrazada em ambição.

* * * * *

Se um dia me sobrarem ocios e pachorra juntamente, hei-de ainda escrever

um longo capitulo inspirado na mulher japoneza, tal como eu a

comprehendo, ou antes, tal como a não comprehendo. Não agora. Agora

intento apenas fallar d'ella em breves phrases, ao capricho das rapidas

idéas que me occorrem.

Qual é o seu destino? O enlevo do lar. Seria pois, como quem diz, um

canario cantador, gentil e inutil, saltitante, papeando ao sol e

enchendo a casa toda de alegria, se não se devesse incluir em tal

enlevo, dois meritos ainda: o delicado instincto da ordem, da limpeza, e

um fundo de carinho maternal, tam amoroso, que talvez não tenha egual no

mundo inteiro. De sorte que, sem missão activa propriamente, parece vir

ao mundo destinada a uma doce passibilidade feita de cuidados e

sorrisos, para tornar feliz o esposo, e preparar para a vida um outro

homem, o seu filho. Sem iniciativa propria no ramerrão da existencia

quotidiana, simples nos habitos, nas occupações e nos desejos, a sua

condição mantem-lhe, e mesmo lhe exaggera, os attributos peculiares do

sexo,--delicadezas phisicas fixadas no requinte, e um discorrer ingenuo

de creança.

É uma escrava do homem? É difficil dizel-o, n'este mundo, que é todo

escravidão. Sim, será talvez; e recorda-se este velho preceito de moral,

ainda não esquecido:--«Obedece a teu pae, mais tarde a teu marido, mais

tarde a teu filho primogenito.»--No entretanto, bem chimericas algumas

devem ser as que supportam... pois para que lhes servem a ellas, as

_musumés_, o sorriso perenne dos labios, o mimo dos gestos, das feições,

do garridismo do seu trajo, a alma de graças que têem nas pontas dos

dedinhos, que tudo aformoseam onde tocam, senão para trazerem submisso

ao jugo dos seus desejos e caprichos o bruto seu senhor (porque os

homens são brutos em todo o planeta) e folgarem como princezinhas

voluntarias?... Que se julgam felizes, ellas, esta Senhora Ameixeeira,

esta Senhora Crysanthemo, esta Senhora Primavera, não ha duvida,

concluindo por este mesmo sorriso dos labios frescos durante todo o

dia--e possivelmente toda a noite--pela alegria fervilhante dos olhitos,

pela serena ondulação da mimica, já surprehendendo-as nos mil misteres

caseiros, já pela rua, caminho dos bazares, dos templos, dos theatros,

dos campos floridos...

É certo todavia que uma grande dissemilhança afasta a mulher japoneza,

da mulher occidental, pelo menos d'aquella que a importação despeja dos

paquetes e vem pisar a terra de Nippon; a ponto, persuado-me, que um

sabio zoologo qualquer, que descesse do planeta Marte a estas paragens,

jamais ousaria classifical-as como exemplares da mesma fauna.

[Figura]

Vede esta femeasita minuscula, toda ella pieguices de roupas e maneiras,

fragil, sem musculos, com mãos e pulsos de creança, impropria para o

esforço e para a lucta; passa a vida de joelhos, sobre macias almofadas,

brincando com bonecas como se fôssem filhos seus, ou brincando com seus

filhos como se fôssem as bonecas; se sae de casa, vae arrastando os

pésitos em passos indecisos, preguiçosos, borboleta bohemia, sem rumo e

sem intento; sabe cuidar dos seus cabellos, pintar a bocca de escarlate,

dedilhar no _shamicen_, compôr ramos de flôres, servir o chá nipponico,

lêr historias de raposas fabulosas e de macacos legendarios...

Agora comparae esta chimera humana com as rudes viageiras que o mar aqui

arroja, bravos exemplares do feminismo em moda, fontes de musculos, de

animo atrevido, usando monoculo, bengala e collarinho; deixam ás amas os

filhos, se é que os têem, para correrem as cidades a passos de gigante,

ou, mais velozes ainda, manejando com mão firme a bicycleta; umas são

jornalistas, outras são missionarias, outras são medicas, outras são

sabias, outras são coisa nenhuma. Não ha comparação possivel entre as

duas. A europea offusca a japoneza pelos seus meritos triumphantes. A

esta, humilde e timida, só restaria acaso uma desforra:--era entreabrir

o _kimono_ de seda na parte junto ao peito, patentear lhe o par de

maminhas brancas e roliças, com os bicos côr de rosa macerados pelos

dentinhos do garoto que lhe brinca no collo, nu em pêlo...

* * * * *

Uma amavel senhora, cujas cartas vem de quando em quando amenizar a

solidão do meu viver, dizia-me ainda ha pouco coisa parecida com o

seguinte, a proposito de dois livros que escrevi (que ella leu, a

bondosa), e da subsequente prolongada preguiça litteraria em que

fiquei:--«Você deu ao publico as suas illusões; o publico espera agora

as suas desillusões.»--Não sei ao certo o que então lhe retorqui; mas

eis o que me occorre responder-lhe, ao escrever a ultima pagina d'este

livro:

Vá de barato que a gente publique as suas illusões; melhor fôra

calar-se, todavia. Mas para as desillusões não ha, supponho eu,

publicidade ademissivel; soffrem-se no silencio intimo, e manda o

orgulho proprio, além de outros motivos, que a gente as não divulgue. No

entretanto, para o paiz japonez, com o qual ia especialmente contender a

gentil observação que referi,--um nadinha maliciosa, querendo aparentar

estimulo apenas ás minhas actividades em lethargo,--para o paiz japonez,

devo confessar que me encontro ainda no periodo do enlevo e dos

feitiços. Não ha terra, que eu conheça,--e tantas tenho conhecido!--mais

deslumbrante do que esta nos aspectos; não ha povo mais interessante do

que este, pelo feitio moral, pelos costumes, pela alma artistica; não ha

mulheres mais mimosas do que estas _musumés_; e não ha no mundo inteiro

gente mais feliz do que esta gente japoneza; é dizer tudo. O que o tempo

e a experiencia me têem dado a conhecer, é a convicção profunda da

incompatibilidade absoluta entre tudo isto e o europeu; o Japão é dos

japonezes e só dos japonezes, o europeu, como um pingo de azeite dentro

de agua; conserva-se aqui sempre isolado, não se assimilla ao meio.

Porquê? por dissemelhanças irreconciliaveis do sentir, da educação, dos

habitos, por essa invencivel barreira que se define em tres palavras,

a--differença de raças.

Minha senhora: para poder assim synthetisar-se um sentimento como eu

acabo de fazer, para adivinhar o encanto no que nos é vedado, para dizer

que é grato o aroma de um ramalhete de flôres que nos mostrassem dentro

de uma redoma de crystal, não é fácil tarefa; tem de elevar-se a alma a

um extremo altruismo estetico, paradoxal até, não por virtude nem

sciencia, mas derivado de condições tristes da vida, e quando se é já

tam pobre em esperanças e desejos, que o individuo rasteja como um pária

moral, alheio a tudo.

[Figura]

Tal pária, n'um ponto, n'um só ponto, é grande como um Deus: vê o mundo

do alto, parecem-lhe os homens formigueiros, segue com a vista as

formigas nas batalhas, nas labutas, nos cuidados e nos prazeres; em tal

estado de desinteresse e independencia, custa pouco então apontar com o

dedo para a tribu que mais bem dotada parece na partilha das graças,

dizer--é esta, o Dai-Nippon.

Deixe-me pois guardar, para guardar alguma coisa, as illusões d'este

paiz... e a sua estima, e esta não é uma illusão.

1901

ISSUMBOSHI[2]

(CONTO JAPONEZ)

A A. A. Ferreira d'Almeida.

Ha mui remotas eras, dois velhos esposos residiam na provincia de

Settsu, em Naniwa, como então se chamava a cidade de Osaka. Eram os dois

sósinhos; nunca tiveram filhos, posto que ardentemente os desejassem.

Ora, a prole é a grande preoccupação da familia japoneza; considera-se

mesmo incompleta e quasi ignominiosa a existencia d'aquelle que a não

teve, e assim se vê privado de legar o seu nome, e os encargos do culto

devido aos ascendentes, ao natural herdeiro de taes honras, restando-lhe

apenas o triste expediente da adopção de um filho estranho, que, com a

herança do appellido de familia, assuma os encargos da supposta

primogenitude.

[Figura]

--Um filho... um filho ao menos, fôsse elle embora um aleijado, um

monstro, uma migalha de gente, com o tamanho de um dedo por estatura...

mas um filho!...--tal o thema constante, durante longos annos, das mais

gratas esperanças do casal a que me referi. Quando, pelas rugas nos

rostos e pela alvura dos cabellos, os bons velhos concluiram que não

mais lhes era dado confiar na iniciativa propria, elevaram então o

pensamento aos deuses, como dispensadores que são de todos os milagres;

encaminhando de preferencia a sua devoção para o glorioso Myojin, que é

a divindade venerada no celebre templo de Sumyoshi, a curta distancia de

Naniwa. Quasi todas as manhãs elles se dirigiam em piedosa romaria,

juntos, cada qual arrimado ao seu bordão, pois já as pernas lhes

vergavam ao peso dos invernos; e era então um espectaculo deveras

commovente, e supinamente grotesco ao mesmo tempo, que fazia correr

lagrimas e estalejar risadas á gente que passava, o d'aquelles dois

decrepitos, cheios de uncção e abrazados em fé, erguendo ao céo as

pobres mãos escarnadas, e implorando o deus para que lhes desse um

filho, fôsse elle como fôsse, fôsse elle uma migalha de gente, do

tamanho de um dedo por estatura!...

* * * * *

Ora, succedeu que tendo assim decorrido varios annos, o deus de Sumyoshi

se apiedou por fim de tantas supplicas dos velhos, e lhes appareceu um

dia para lhes proferir estas palavras:--«Faço-vos a vontade, bons

caturras, haveis de ter um filho.»--Os dois pularam de contentes, como

se póde imaginar; galhofando, batendo palmadas amigaveis nas costas um

do outro, voltaram para o albergue. Não tardou muito que a velha

sentisse com alvoroço os primeiros remoques que prenunciam gravidez; e

finalizados nove mezes dava á luz uma creança, um menino...

Caspité!... Mas reparem agora no ponto mais surprehendente da aventura:

o menino, lindo como os amores, tinha a estatura de um boneco, como

esses de porcellana que se usa collocar nos jardins liliputianos,

contidos n'um vaso ou n'uma caixa, muito do agrado da gente japoneza. O

espanto dos paes foi grande, e a decepção tambem; mas em verdade não

havia motivo de queixa contra o deus, que concedêra o que se lhe

rogára,--um filho, com o tamanho de um dedo por estatura.--Era assim.

[Figura]

_Issumboshi_ foi o nome que deram ao menino, isto é, traduzindo

litteralmente em portuguez: o _Cavalheiro Pollegada_. As chronicas não

rezam se foi amamentado a _biberon_, ou se o mirrado seio maternal

entumeceu de subito e se offereceu solicito aos labios do garoto. O que

é facto é que Issumboshi foi medrando em graças e em esperteza; não

porém em tamanho; e quando tinha os seus dez annos era tal como viera a

este mundo. Esta gentil disformidade trouxe o enfado ao lar e até um

certo azedume mal contido contra as suppostas bondades do deus de

Sumyoshi. O escarneo era espontaneo nas boccas dos visinhos; os gaiatos

do sitio apraziam-se em zombarias d'esta ordem:--«Lá está o _anão_

comendo arroz! lá vae a _ervilha_ passear!»--Emfim, para encurtar

razões, direi apenas que chegou um momento em que Issumboshi se tornou

insupportavel a seus paes, vergonha viva do casal, sem prestimo

presente, e sem que se lhe suppozesse utilidade possivel no futuro.

* * * * *

Certo dia decidiram os velhos, embora lhes pezasse, pôl-o fóra de casa,

abandonal-o ao acaso da fortuna. Foi chamado o menino á presença do pae,

que lhe expôz os motivos da sua resolução, e lhe apontou de um gesto o

caminho da rua.--«Sim, papá, partirei sem demora, retorquiu, resignado e

submisso; mas faça-me favor de dar-me antes uma agulha d'aquellas de que

a maman se serve para coser os seus _kimonos_.»--Perguntou o pae para

que? e foi-lhe respondido que era para usar d'ella como um sabre, muito

proporcionado ao seu tamanho. Depois pediu á mãe uma tigela de madeira,

d'aquellas que se empregam em servir o caldo ás refeições, e mais um

d'esses pausinhos que se chammam _hashi_, com o comprimento de um palmo,

substituindo na mesa japoneza o garfo e a colher. Perguntou a mãe para

que? e foi-lhe respondido que, para a longa viagem que ia emprehender, a

tigela seria o barco, o _hashi_ seria o remo, tudo proporcionado ao seu

tamanho.

Em posse dos utensilios que alcançára da munificencia de seus paes,

Issumboshi fez-lhe uma rasgada reverencia e desappareceu de casa.

* * * * *

Eil-o só, o pobre abandonado, entregue ao seu arbitrio, dispondo como

haveres de uma tigela, de um palito e de uma agulha, collocando esta á

cinta, á laia de catana, com uma palhinha por bainha!... Que fazer? Para

onde ir?... Corria cerca o Iodogawa, o extenso rio lodoso e calmo que

tem suas origens no famoso lago Biwa, desce a Kyoto, atravessa Naniwa, e

vae perder-se no oceano. Que fazer? Para onde ir?--«Ir a Kyoto, pensou

comsigo o anãosinho, á capital do Imperio (então não era Tokyo a

capital), á residencia do Soberano, aonde muitas coisas curiosas deve

haver, dignas de vêr-se...»--E abalou.

Seria impossivel relatar as peripecias da viagem, os mil perigos

affrontados por tão exiguo barco, que uma simples casca de laranja,

boiando á tona de agua, já punha em risco de naufragio. Issumboshi ia

perguntando aos pescadores o caminho para Kyoto; se refrescava o vento,

abrigava-se junto da estacaria das pontesinhas que galgavam de uma

margem do rio para a outra margem; pelas noites escuras, ou quando a

fadiga o affligia, encalhava o seu barco junto á terra, por entre a

maranha dos limos e das plantas aquaticas; e foi assim, com mais de

trinta dias de derrota, que abordou uma manhã á famosa capital do paiz

do Sol Nascente.

[Figura]

* * * * *

Paisagens da China e do Japão · 第 8 / 9 段