Então, tacitamente, impôz-se a cada qual a necessidade de fraternisar

com o seu visinho, de agremiar-se em bando. A união faz a força.

Procuraram-se, intenderam-se. Medonhos conciliabulos se passaram, a

coberto das trevas, pelas noites longas, sobre os lodos. Segredava-se,

aventurava-se um plano, discutia-se. Os olhos fuzilavam como raios, a

phrase rouca golfava dos labios, eloquente, persuasiva, os membros

disformes erguiam-se na sombra em gestos tragicos. E assim se escolheu o

barco menos podre, se nomeou a companha, o capitão, se esperou por uma

noite mais escura, azada aos seus intentos. Assim tiveram inicio e

proseguiram os estranhos cruzeiros, á aventura. Eil-os, o bando immundo

dos gafados, á capa, pairando ou remando a medo, de manso, de manso,

silenciosamente, e prescrutando as trevas. Se ia passando algum _tanka_,

os ouvidos subtis e os olhos experimentados, estudavam, presumiam,

adivinhavam. Quando era chegado o bom momento, então,--oh delirio

supremo!--n'um impeto de remadas e desejos, o barco voava, dava a

abordagem, os milhafres caiam sobre as victimas indefesas. Habeis no

ataque, com as mãos sem dedos suffocavam os gritos das mulheres, a

murros, ou premindo; n'um relance, pelo faro, distinguiam das velhas as

moças, apartavam dos ossos duros a carne fofa e tenra; e com fome de

hyenas, as boccas pestilentas comiam, devoravam com beijos as pobres

raparigas, que em vão se debatiam na lucta tremenda d'uns instantes...

Após, o barco dos leprosos seguia serenamente a atracar á margem

chineza, e elles dispersavam, mudos, quasi felizes, indifferentes por

momentos ao prurido das chagas; e semanas depois reuniam-se novamente.

No _tanka_, as moças ficavam-se chorando, arrepelando-se de horror, de

desespero, de vergonha por sua mofina sorte; e tanto mais mofina, que é

assim, por um beijo, segundo a voz do povo, que a lepra se propaga, se

multiplica de corpo para corpo.

1900.

UM PINTOR DE GATOS

A D. Miguel de Mello.[1]

[Figura]

Era uma vez, em mui remotos tempos, uma familia de boa gente lavradora,

vivendo em certa aldeia do Japão. Marido, mulher e um rancho de filhos;

gente pobre, é claro; e ajunte-se que a mui ardua fadiga se dava o

camponez, para que não faltasse em cada dia, a cada uma das vorazes

boquinhas dos garotos, a tigela de arroz do almoço e do jantar. O mais

velho dos rapazes, já aos quatorze annos, robusto quasi como um homem,

começava a ajudar o pae, nas varzeas e nos campos, o pobre pae, a quem

as forças minguavam; e os outros, cada um conforme a sua idade, iam

fazendo tambem o que podiam; até a irman pequena,--uma migalha de gente,

coitadita!--lá ia alliviando a atarefada mãe na lida do casebre.

Só o mais novo dos rapazes em nada se empregava que prestasse; era um

inutil; não que elle fôsse falto de juizo; pelo contrario, excedia em

esperteza qualquer dos irmãos ou das irmans; mas era enfezadito, debil

de musculo; e bem cedo os paes se convenceram de que aquelles braços

tenros não haviam nascido para a enxada.--«Faça-se d'elle um

bonzo»,--combinaram; e foi n'esta intenção que um bello dia decidiram

leval-o ao templo do logar, e á presença do velho sacerdote, que era

como quem diz--o prior d'aquella freguezia.--O pae fallou e expoz a

questão, em quanto que a mãe approvava com a cabeça; o reverendo, que em

breve trecho descobrira rara sagacidade na creança, consentiu em tomal-a

por pupillo, pensando talvez intimamente que alli o acaso lhe trazia um

digno successor, quando a hora lhe chegasse de despedir-se d'este mundo.

E ficou tudo resolvido.

* * * * *

O noviço mostrou-se, desde os primeiros dias, submisso, intelligente e

piedoso; e tambem--valha a verdade--não lhe iam mal a rude tunica

amarella e a cabecita rapada á navalha, de preceito; mas como não ha

formosa sem senão, segundo um proverbio portuguez (e a philosophia dos

proverbios se applica á humanidade inteira), tinha um defeito o

rapazito: pintar gatos. Expliquemos o caso, que é curioso: nas horas de

sueto ou nas horas de estudo, no templo, na cella, no jardim, em toda a

parte onde estivesse, punha-se a pintar gatos; e tão bem os

pintava,--faça-se-lhe justiça n'este ponto,--que nenhum pintor até então

pintou gatos melhor do que o fradinho. As paginas dos livros sagrados do

convento, as paredes, os biombos, os pilares, as arvores, os

rochedos,--forte mania de creança!--tudo servia, tudo era tela para

exercer a sua pecha. Por onde elle passava, por onde se quedasse dois

minutos, era logo a successão interminavel de desenhos, eram as curvas

caprichosas dos travessos felinos, de todos os tamanhos, em todas as

posturas, creio que até enjaneirados, os olhos redondos, esbrazeando as

duas orelhas espetadas, o côtosito alçado e petulante (os gatos

japonezes não têem rabo), a garra atrevida posta em guarda... Está-se a

adivinhar com que azedume o reverendo acolhia taes desmandos; vezes sem

conto reprehendeu o _artista_ (como por ironia lhe chamava), tentando

dissuadil-o d'aquella triste balda, que nem lhe permittia estudar com

attenção os velhos alfarrabios do buddhismo, de tam necessaria sciencia

ao seu santo mister. Intento inutil: não por maldade, por instincto,

quanto mais lhe prohibiam a proeza, mais ia pintando gatos o teimoso.

Até que finalmente, em certa occasião, o reverendo perdeu de todo a

paciencia e gritou ao moço incorregivel:--«Vae-te embora! Foge da minha

vista!... Bom padre, nunca serás seguramente; serás talvez um bom

pintor.»--A ordem era terminante. Foi facil ao mocinho entrouxar os seus

poucos haveres, pôz a trouxinha ás costas, e fez uma mesura ao padre

mestre.

[Figura]

* * * * *

Eil-o na rua, escorraçado, em bem angustiosas condições. Que fazer?

Tremeu de voltar ao lar domestico, onde o pae, mui certamente, o puniria

da sua teimosia. Lembrou-se então que a quatro leguas de distancia havia

uma outra aldeia, com um templo cheio de bonsos, e para lá se

encaminhou, disposto a pedir abrigo e protecção aos padres. Era notorio

que o tal templo desde alguns mezes se achava abandonado, por n'elle ter

entrado um demonio, um espirito malfazejo, como tantos que abundavam

então pelo Japão; muitos guerreiros animosos se tinham decidido a ir lá

dentro, mas nem um só voltou; porem estas noticias, que iam ja

apavorando aldeias e cidades em redor, nunca haviam chegado aos ouvidos

do pequeno.

Era já noite escura quando alcançou a aldeia; o povo dormia nas

choupanas; ao fundo da rua principal, e sobre um dorso de collina, de

entre a rama das mattas erguia-se o templo magestoso, e uma luz interior

bruxoleava, luz de esperança para a misera creança. Luz de esperança

parecia: mas o povo bem a tinha por feiticeira do diabo, que assim

manhosamente ia attrahindo algum caminheiro solitario em busca de

poisada. Bate ao portal uma primeira vez, bate segunda vez, bate

terceira, sem que ninguem acuda ao chamamento. Por fim percebe que basta

empurral-o para abril-o; e então, por um leve impulso dos seus braços,

achou livre o ingresso, e assim entrou, largando dos pés nús as suas

sandalias poeirentas.

Nos aposentos interiores ardia uma lampada com effeito; mas nem um bonzo

só, de tantos que alli deviam estar, apparecia. Julgou que tinham ido

dar o seu passeio e que em breve voltariam, e resolveu esperal-os. O

tempo ia passando, e os seus olhos curiosos de garoto entretinham-se em

devassar o aspecto do sitio onde se achava. Notou com espanto que

abundava o lixo, e pelo tecto as aranhas iam tecendo sem cerimonia as

suas longas teias; era estranho que, sendo em regra os templos, mimos de

limpeza e de cuidados, aquelle se encontrasse em tal desleixo, como se

fôsse coisa abandonada. É que, provavelmente, aos santos bonzos faltava

o auxilio d'um acolyto, a quem, como de praxe, cabe o dever de todas as

manhãs lavar, varrer e sacudir o pó, arte exercida no Japão com especial

disvelo; e concluiu logicamente que bom acolhimento lhe fariam, no

proprio interesse da communidade.

Agora o rapazito, proseguindo no exame, fixa o olhar n'um movel que o

captiva, que é um grande biombo que tem em sua frente, com as duas faces

brancas; passára-lhe na mente o irresistivel desejo de encher aquellas

faces de gatos, de cem gatos, de mil gatos, lindos, felpudos,

assanhados, com as bigodeiras hirtas e os olhos chammejantes; e uma

subita alegria illuminava-lhe o rosto sonhador... Pensado e resolvido.

Cerca encontrou a classica escrivaninha japoneza,--a caixa com os

pinceis, com a gota de agua n'um deposito metalico, com o pedaço de

tinta negra e com a loisa onde esta se prepara.--Mãos á obra. O pincel

voava em curvas humoristicas; a mãosinha inspirada corria, pullava de

alto a baixo, ponto aqui, rabisco alli, traduzindo a impressão propria

com habilidades prodigiosas. Assim fôram apparecendo, sobre aquella tela

improvisada, ranchos e ranchos de gatos adoraveis; e tantos gatos

desenhou, e tantas horas correram, sem que os bonzos voltassem do

passeio, que o pobre garotito sentiu-se de repente cheio de somno e de

fadiga; n'um cubiculo contiguo se recolheu e se fechou; estendeu-se

sobre a esteira, e em breve adormeceu.

* * * * *

Lá pela noite velha, um barulho inaudito, como se uma terrivel lucta se

travasse entre mysteriosos combatentes, despertou a creança. Os gritos,

os gemidos, o ruido dos corpos que caiam, vinham de perto, do aposento

visinho onde estivera; tremiam as paredes, o chão, a casa toda; a

pelleja durou até á madrugada. Como elle soffria de pavor! Caido sobre a

esteira, immovel, parecia coisa morta, sustendo o proprio folego, para

que a sua presença não fôsse presentida...

[Figura]

Já com a manhã clara e sol bem alto, ergueu-se então, e animou-se a

espreitar um pouco para fóra, por uma fenda da parede. Foi medonho o que

viu. No chão grandes poças de sangue se alastravam; e mesmo ao meio da

casa, jazia morta, esphacelada, uma enorme ratazana,--maior do que uma

vacca!... Mas quem matára o monstro, se ninguem parecia ter entrado?

Reparou por acaso no biombo, onde horas antes pintára tantos gatos; lá

os viu, mas com os focinhos lambusados de sangue e as patinhas

igualmente; eram elles que tinham dado cabo do demonio...

* * * * *

O mocinho tornou-se, com o correr do tempo, um grande artista. Ainda

hoje se ademiram muitos gatos pintados pelo seu pincel inimitavel.

* * * * *

O chronista de quem extrahi esta legenda, nada conclue, como moralidade,

da historia que narrou. Concluirei eu o que bem me parecer, se m'o

permittem. Em primeiro logar, pouco propenso a crêr em coisas do diabo,

embora mesmo no Japão, concluo que, se a rata do convento era tam

grande, é que a despensa se achava provida com um enorme arsenal de

gulodices; o que, a despeito de tanto que se diz dos frades de outras

terras, dos frades portuguezes por exemplo, faz honra á sobridade de

habitos dos maganos, pois não consta que jamais os presuntos e a

marmellada de reserva nutrissem uma rata lambareira até attingir igual

tamanho. Concluo ao mesmo tempo, humilhado, confundido, que os pintores

do meu paiz estão bem longe do traço creador dos pintores do Dai-Nippon.

Por ultimo (e talvez esta final conclusão seja a mais util), vejo que ás

vezes as nossas qualidades, de que os outros se riem e escarnecem, são

as que mais nos valem n'este mundo.

[Figura]

1901.

IMPRESSÕES RAPIDAS

A S. Peres Rodrigues.

Era uma noite de luar do mez de abril, esplendida. Eu seguia pelo

caminho de Suwayama, na parte mais elevada da cidade. De um lado

alinham-se as casinhas japonezas, entre ellas as mais famosas _chayas_

de Kobe, _Tokiwa_ e outras, onde os japonezes vêem folgar; do outro

lado, é a rampa ingreme, coberta de pinheiros, e sóbe a collina inculta,

em corcovas accidentadas, onde assenta um templo notavel.

Nas _chayas_, segundo o costume, havia festa. As corrediças de papel

estavam fechadas; mas a luz interior coava-se para fóra vivamente,

desenhando alguns vultos dos convivas em sombrinhas deliciosas; eram os

vultos d'elles, dos amigos reunidos, certamente banqueteando-se sobre a

esteira, e eram os vultos d'ellas, das _gueshas_, que lhes iriam vasando

o vinho nas taçasinhas de fina porcellana, e cantando balladas ao som do

_shamicen_. Musica, cantigas, gargalhadas, chegavam-me aos ouvidos n'um

vago sussurro de alegria.

Na minha frente iam seguindo uns cinco sujeitos europeus, gente de

distincta sociedade, a julgar pelo esmero do trajo e da linguagem, e

pelo aroma dos soberbos charutos que fumavam. Iam fallando inglez. Dois

discutiam finança:--o Japão atravessava uma crise economica terrivel; os

cofres do governo, segundo as apparencias, exhauriam-se; o trafego em

marasmo; duas grandes fabricas de Osaka, constava, suspendiam o

trabalho...--Os tres outros palestravam de politica:--primeiro foi o

Transvaal, e fez-se a conta de quantos boers haviam já caido sob o

chuveiro das balas inglezas; depois saltou-se ao Extremo-Oriente; a

Russia ameaçava o imperio japonez; apparecesse um pretexto, o mais leve,

o mais futil, e era a guerra; discutiam-se as probabilidades da

victoria, presumiam-se os estragos, o numero de victimas no primeiro

embate das esquadras...--Teriam talvez muita razão, todos os cinco; mas

ia-me parecendo aquella gente um bando de mochos agoirentos, folgando

com a ruina, dando-se bem com o fetido dos mortos. Para elles não

nascera, imaginava eu, aquella lua esplendida, que ia alumiando o espaço

todo e espargindo sobre a terra uma chuva de prata; nem era para elles

que os pinheiros de Suwayama se enchiam agora de rebentos viçosos; nem

para os seus pulmões que o ar vinha oloroso de florescencias

multiplices, distantes. Suppunha-os, coitados, dyspepticos, biliosos,

misanthropos, perseguidos nos fofos leitos por cruciantes pesadelos.

N'aquelle ponto, as _gueshas_ de Suwayama entoavam uma cantiga popular,

que assim começa:--«_Haru wa, ureshiki_...»--cujas primeiras estrophes

se podem traduzir, pouco bem, por estas duas quadras:

Na primavera, enlevae-vos

Nas cerejeiras em flor.

No v'rão, folgae nas ribeiras,

Quando se abraza em calor.

No outono, vêde a folhagem,

Toda escarlate, voando.

No inverno, espreite-se a neve,

Bebendo vinho e cantando.

* * * * *

Quando eu escrevi a _Primavera_, e a offereci a um delicado amigo,

prometti a mim mesmo, e creio que tambem a elle prometti, completar com

pachorra e vagar, os aspectos das estações, aos quaes o tempo, o sol, a

cor do ceu, n'este paiz deslumbrante de scenarios, imprimem mais

intensivamente, mais emotivamente do que em outro logar, feições

differentes e imprevistas. Por preguiça ou outras causas, não cumpri a

promessa, com o que,--valha a verdade,--nada se perdeu que falta faça;

mas, succedendo agora que tenho de reunir em volume umas impressões

dispersas, que intitulei _Paizagens_, pareceu-me indispensavel, por um

melindre de consciencia litteraria, voltar ao assumpto, concluil-o.

Pede-me pressa um editor bondoso. Tomo o negocio de empreitada; reuno as

ligeiras notas soltas que encontro em esquecidos papeis velhos.

Antes assim. Impressões do acaso, apontamentos rapidos, vão-me parecendo

preferiveis a um longo estudo que intentasse das mutações de scena que

hoje, amanhã, meus olhos relanceam; e não perco o ensejo, por natural

intuito de desculpar-me perante quem me lêr, de traduzir aqui uma

deliciosa pagina de um livro francez, tambem sobre o Japão, escripto ha

poucos annos.--«As circumstancias concorrem mais para a inspiração, do

que todos os esforços do homem, e a experiencia quotidiana é a grande

instigadora das imaginações. Vêde em litteratura: de ordinario, tanto

mais breve é um trabalho, ou, se é extenso, tanto mais é feito de

pedaços, de fragmentos escriptos primitivamente ao acaso dos tempos,

tanto melhor elle é; um longo livro de historia, um longo romance, um

longo tratado de philosophia ou de moral, jamais valerão um conjuncto de

memorias, uma curta novella, um jornal intimo ou um caderno de

pensamentos, e jamais um poeta epico alcançará o viço de vida que dá ao

improviso feliz tamanho encanto; porventura, o homem sensato deveria

decidir-se a não publicar senão volumes de paginas destacadas.»

Pretendo ser sensato uma vez na minha vida.

* * * * *

Verão.

Um calor de fornalha. Na Africa, na China, não é mais suffocante. O

enervamento é enorme. Desfalece-se de preguiça, de langor.

No entretanto, é no estio que o Japão alcança a sua genuina feição

typica, pela natureza e pelo povo, descripta pela lenda, pintada pela

arte e como os estranhos a imaginam.

A terra é toda verde. Crescem as mattas, trepa a herva, viceja o mar de

arroz nas varzeas alagadas. Nos jardins, floresce a _asagao_, a

caprichosa trepadeira, cujas flores, as frescas campanulas de todas as

cores imaginaveis, duram o espaço de uma madrugada; nas aguas, floresce

o lotus.

O vestuario attinge a maior simplicidade; um unico _kimono_ de algodão

azul e branco, amarrado na cintura, é tudo... e ás vezes nem é tanto. O

europeu, quando ainda estranho ao meio, encara então surpreso este Japão

nu ou quasi nu, passeando sem cerimonia as suas pernas, os seus braços,

os seus collos, os seus seios e ainda mais,--exposição paradoxal de

grotescos e de encantos...

A casa, durante o dia, tambem se despe; despe-se das suas paredes de

papel, ficam o telhado e quatro ripas; patenteam-se aos olhos de toda a

gente, o lar, a vida intima.

É a epocha das peregrinações, das excursões aos templos, aos logares

frescos, onde ha brisas, onde ha sombras, onde ha aguas. Trepa-se ao

Fujiyama, a montanha sagrada. Busca-se o abrigo de um pinheiro, para

petiscar, para folgar em companhia; e os corpos estendem-se na relva,

como repetis. As _musumés_ vão molhar os pésitos nas areias das praias,

para colherem algas e mariscos. As ribeiras convidam: n'umas, entre

juncos, é a caça nocturna aos pyrilampos; n'outras,--o Sunsidagawa em

Tokio, o Iodogawa em Osaka,--em noites calmas, é a flotilha immensa dos

barcos de prazer, todos elles sanefas multicores, lanternas, balões,

galhardetes, harmonias de instrumentos, festins, rapazes, raparigas,

amores...

[Figura]

* * * * *

Outono.

Em novembro floresce a chrysanthema, a flor heraldica. Estupenda coisa.

Não me parece flor; antes um monstro, com a sua enorme cabelleira de mil

petalas, contorcidas como tentaculos de um polypo, em colorações

indefiniveis. Alinhadas nos jardins, sob tendas de abrigo, as

chrysanthemas lembram mulheres, lembram-me cortezãs de Ioshiwara, quando

ellas vestem os ricos mantos polychromos, quando ellas enfeitam os

cabellos com diademas de espavento, e vêem postar-se em filas, princezas

pompejantes do vicio, encantadoras e perversas...

No outono, a folhagem do arvoredo perde naturalmente o verde, e cobre-se

das cores mais vivas e mais estranhas, o amarello, o vermelho, o roxo,

em cambiantes varios. A paizagem offerece então um luxo de tintas

innarravel; momentaneo, porque as brisas vêem breve despir os troncos, e

juncar de folhas mortas os campos e os caminhos. A delicada arvore que

aqui chamam _momiji_, de graciosas folhas digitadas, torna-se toda em

purpura, como em fogo; ao abrigo da sua rama ardente acolhe-se o povo,

em magotes, que vem rir, que vem beber, que vem folgar, arrebatado pela

scena, que é sem rival em maravilhas.

* * * * *

O inverno.

[Figura]

Mas ha inverno no Japão? Julgo que sim, pois gela a agua nos charcos e

ribeiros, cae profusa a neve, alvejam no horisonte as serras, como

embrulhadas em lençoes. No entretanto, ainda ao sol de dezembro

desabrocha a chrysanthema, e já em janeiro as ameixeeiras, nuas de

folhas, começam a florir. Seja pois um inverno de flores. É certo que

essa grande desolação das longas invernias dos climas temperados é

desconhecida em solo japonez. A paizagem é sempre alegre; o ceu é sempre

azul; os pinheiros, que são as arvores que mais abundam, sempre verdes.

Se então se prolongam mais as palestras em roda do brazeiro, chegando os

deditos ao calor, tomando chá, o povo não cessa de affluir aos theatros,

aos bazares, aos templos, aos jardins; apenas, por cuidado ou

garridismo, as _Musumés_ cobrem com um manto de delicada cor as

cabecinhas petulantes, deixando vêr do rosto apenas uma nesga da fronte

e os olhos negros, humidos de amor e de mysterio... deve ser antes

garridismo, pois ficam d'este modo mais seductoras do que nunca.

[Figura]

A neve, que constitue uma calamidade em tantas regiões, entra aqui no

rol das coisas deleitosas. Tanto é assim, que as mulheres, cujos nomes

são sempre mimosos como ellas, lembrando flores ou outras gentilezas, se

apropriam do termo com frequencia:--_Yuki-San_, a Senhora Neve, ou com

mais cortezia, _Ó Yuki-San_, a Nobre Senhora Neve, é nome muito em uso.

A nevada, sem que prejudique o povo na vida e no conforto, vem branquear

as serranias, os campos e as estradas, esplendida apothéose de alvuras e

purezas; rendilha as arvores de crystalinos ornamentos, ostentando-se

como uma florescencia immensa, uniforme, que brotasse dos restolhos, da

herva, dos bambus, dos cedros, dos pinheiros; sobre os telhados das

casas e dos templos, sobre os dorsos das grandes raposas de granito que

d'estes se avisinham, sobre as lanternas de pedra dos jardins, demora-se

em fofos floccos, que dão ás coisas proximas, realces seductores; por

onde a agua corre e se despenha, o frio congela as gottas, adormece-as,

transforma-as em recortadas estalactites, que um raio de sol mais quente

virá em breve desfazer.

[Figura]

No vocabulario japonez, tam amorosamente naturalista, ha um termo de que

agora me recordo, que não tem, como muitos, synonimo em linguas

europeas; é _yukimi_. _Yukimi_ quer dizer:--excursão ou banquete

preparado para ir vêr cair a neve.--Nas _chayas_, em certos sitios

pittorescos, exemplo--as collinas de Kioto,--combinam-se reuniões; vêem

os rapazes, vêem as _gueshas_ com as guitarras, começa a festa ruidosa,

interrompida a espaços pela contemplação muda do espectaculo que se

offerece; no entretanto, a neve vae caindo n'uma chuva continua de

folhepos, ligeiramente sussurante, de um ruge-ruge de sedas que

arrastassem, vestindo o solo, as arvores, o colmo das choupanas,

poisando mesmo nos vestidos e nas mãos brancas como a neve das moças

irriquietas...

* * * * *

Outro assumpto: a historia da arte.

No Japão, não ha nem houve nunca, sabios; é medida, penso eu, de hygiene

nacional, consequencia de antigos habitos de limpeza das creadas, que os

sacodem do solo como sacodem as teias de aranha das paredes. No

respeitante a historia, é evidente que o officio de historiador, com a

secura e a frieza que lhe suppomos inherentes, não existe. A historia

japoneza é feita pelo povo, incluindo a collaboração preciosa das

velhas, das raparigas, dos garotos; emana das tradições, da lenda e da

intuição sentimental das massas. Recorda por este facto os evangelhos

biblicos, escriptos pelos rudes discipulos de Christo, pobres e simples

pescadores alheios ao convivio dos classicos, sem sciencia e sem arte,

mas abrazados em poesia, em crenças, em amor. Na historia japoneza,

palpita, como nas paginas da Biblia, a alma da tribu, propensa, pela

tendencia geral da gente rustica, ao milagre, á maravilha, ao

inverosimil; convindo apenas não esquecer que o japonez, menos idealista

do que o hebreu, não vae mui alto no mundo das chimeras, voeja terra a

terra, aprazendo-se em entretecer de graciosas fabulações as aventuras

dos seus homens illustres. A historia da arte, para este povo feito todo

de artistas, sempre sob o arrebatamento das bellezas naturaes do seu

paiz, é um dos capitulos preferidos, por onde mais rodopia sem freio a

phantasia; e é d'este capitulo da arte que eu destaco algumas graciosas

lendas que se seguem.

* * * * *

O bonzo Chyo Densu, que viveu pela primeira metade do nosso seculo XV,

foi um grande pintor em coisas religiosas.

Sendo noviço n'um templo da Kioto, Tofukuji, conta-se que já se dava á

pintura com paixão, incorrendo por esta fórma no desagrado do superior

Daidô, que o ia asperamente reprehendendo. Certo dia, acabava elle de

pintar um retrato de Buddha, quando sente passos de Daidô, que se

approxima do seu poiso; rapidamente, esconde o desenho entre os joelhos;

o vulto entra na cella, esbrugando as suas contas, resmungando; do

resplandor do deus subito irradiam chammas de apothéose, que innundam de

luz a casa toda; a falta do noviço estava assim conhecida; mas tambem

perdoada, pois Daidô humilhou-se a este avizo do céo, e nunca mais

atormentou o seu discipulo.

[Figura]

Já no fim da existencia, dignou-se uma vez o Shogun recompensal-o dos

seus muitos serviços, dizendo-lhe que pedisse o que quizesse.--De nada

careço n'este mundo, retorquiu Chyo Densu, tendo em cada dia um _kimono_

lavado para vestir e uma tijela com arroz; só vos supplico, senhor, que

por vossa ordem terminante sejam cortadas cerces todas as cerejeiras do

jardim d'este templo, para que de futuro se não torne um logar de folia

e desacato.»--Foi-lhe o desejo satisfeito; e em Tofukuji, ainda até

hoje, nem um só pé de cerejeira floresce.

* * * * *

Paisagens da China e do Japão · 第 7 / 9 段