Eil-o em terra, bamboleando-se, folgando com o chão firme, com as

palestras da turba, com o cheiro das tabernas, como effectivamente

succede aos marinheiros após longos dias de cruzeiro, enfadados de

balanço, de isolamento, de carne salgada e de bolacha. Issumboshi, pouco

maior que um escaravelho, passava despercebido por entre os muitos

passeantes; assim poude furtar-se a commentarios zombeteiros e percorrer

tranquillamente as ruas da cidade, embasbacando-se em face dos aspectos

grandiosos que aos seus olhitos sagazes se iam offerecendo. Por fim,

eil-o acercando-se da mais sumptuosa residencia em que os mesmos olhitos

jamais tinham poisado; era alli que vivia um grande personagem, o

principe Sanjo-no-Saishó, primeiro ministro na côrte do soberano. Entra

Issumboshi resolutamente no amplo pateo da entrada, e informa os

serviçaes de que pretende fallar ao senhor de tal dominio. Deu-se então

o comico incidente de estar sua alteza muito cerca e de acudir, á porta,

attrahido pela maviosa voz do visitante; como ninguem visse porém, ia de

novo recolher-se, resmungando que teria jurado achar-se alli um estranho

em conversas com a gente de serviço; mas um derradeiro olhar pesquisador

revelou-lhe, quasi occulto por detraz dos seus tamancos, que estavam

junto á entrada conforme o uso do paiz, o curioso figurão que

conhecemos.--«Oh! exclamou, eras tu, minusculo vivente que ainda ha

pouco proferias o meu nome?»--O rapaz, polidamente, assegurou que sim,

que era elle proprio.--«E que me queres então?»--Issumboshi expôz a sua

procedencia, os seus titulos e as tristes condições em que se via; e

concluiu rogando que lhe desse agasalho, e o admittisse ao seu

serviço.--«Pois sim, fica comnosco, respondeu sua alteza, após ligeira

reflexão; tu és sem duvida, continuou, o homem mais pequeno que tem

apparecido n'este mundo, e a tua historia uma das mais commovedoras que

conheço; não quero perder o léo de possuir tamanha galanteria,

praticando ao mesmo tempo um acto meritorio, protegendo-te.»

[Figura]

* * * * *

Embora tam infimo em grandeza, o _Cavalheiro Pollegada_ soube mostrar-se

utilisavel em tudo em que o occuparam. Dentro em pouco, tornou-se

querido da familia, o brinquedo, o passatempo predilecto para matar

enfados, dos quaes ninguem se livra, e menos ainda os ricos, sempre

ociosos em seus palacios de regalo. Ko-Haru, a filha do fidalgo, a mais

gentil donzella de Kyoto (que é a terra das mulheres mais gentis de todo

o Imperio), especialmente lhe votou as suas sympathias, impondo-lhe o

dever--dulcissimo dever!--de acompanhal-a por toda a parte onde ella

fôsse, qual rato sabio que seguisse a dona em seus passeios...

[Figura]

Entre os dois, a formosa _musumé_ e a migalha de gente, passaram-se

então graciosas scenas, as mais tocantes que póde imaginar-se, se

imaginaveis são... Era um enlevo vêl-o, sempre vestidinho de guerreiro,

a primor, com roupas de setim que ella pelos proprios dedos habilidosos

lhe bordava, e lhe cosia, privando de carinhos as suas bonecas

favoritas; e Issumboshi, muito compenetrado do seu papel de pagem, nunca

largando o sabre da cintura, arrogava-se uns taes ares marciaes, tão

petulantes, que a gente morria de rir, ao avistal-o!... Se chovia, ou se

a excursão se prolongava, Ka-Haru tomava nas mãos alvas de neve o seu

pequeno companheiro, aconchegando-o ao collo, ou aquecendo-o ao seio.

Issumboshi, é bem de crêr, possuia, como todo o ser humano possue, um

coração, embora reduzido ás proporções de uma cabeça de alfinete, mas

pulsando de gratidão e de ternura. Aquella convivencia escravisou-lhe a

alma. Uma dedicação immensa, uns zelos infinitos, um desejo constante de

agradar á sua nobre ama, taes fôram os sentimentos dominantes no animo

do pygmeu. A sua disformidade permittia-lhe delicadezas, que aos outros

mortaes eram vedadas... (oh, mysterio psychologico de todos os namorados

d'este mundo! quantos de vós, que lêdes estas linhas, invejareis a sorte

de Issumboshi!...) Quando, pelas noites calidas de agosto, Ko-Haru se

aprazia em estender-se sobre a relva dos jardins, Issumboshi, vencido

tambem pela fadiga, poisava e adormecia sobre um dos pés nus de sua ama,

como em leito de marmore de alvuras resplendentes. Uma vez, caiu dos

labios frescos da donzella uma petala de magnolia, em que por distracção

os dentinhos se entretinham mordicando: Issumboshi comeu-a; e durante um

dia inteiro não se serviu de outro alimento, assegurando com verdade que

aquelle lhe bastava...

* * * * *

Aconteceu um dia dirigir-se Ko-Haru ao templo de Kiyomizu-no-Kwannon

(Kwannon é a deusa buddhista da piedade), a fim de praticar as suas

devoções; como sempre, o anão acompanhava-a. Ora, de volta, quando ambos

desciam o ultimo degrau da ampla escadaria que dá accesso ao templo,

dois demonios surdiram de improviso das proximas balseiras, horriveis de

figura, herculeos, colossaes, cuidando sem detenças de raptar a linda

peregrina. Ko-Haru desfaz-se em pranto e quasi desfallece. Issumboshi

retira a espada da bainha (a agulha que a mãe lhe dera n'outros tempos),

perfila-se em frente dos demonios e brada-lhes assim:--«Vis temerarios,

que commetteis a magna offensa de perturbar em seus passeios piedosos a

princeza Sanjó! sabei que se um de vós, com um só dedo lhe tocar,

commigo se ha de haver! e, tão certo como ser eu Issumboshi, assim este

meu sabre lhe rasgará a entranha!...»--Consta que os diabretes se

pozeram a rir, arreganhando os dentes; e um dos dois, mais fallador,

dignou-se responder com uma vóz de trovão que fez afugentar das arvores

os pardaes, em cinco leguas ao redor:--«Acalma a tua furia, infimo

insecto; não percebes acaso que a lucta contra nós é-te defeza? para

encurtar razões e não seres importuno, vaes vêr o que te

faço...»--Levantou-o do solo, mui delicadamente, com as pontas dos

dedos, e enguliu-o...

[Figura]

Pareceu a Ko-Haru fugir-lhe a ultima esperança de salvar-se. Illudia-se.

Em plenas trevas, escorregando pela guela babujenta do monstro, e

penetrando na enorme rotunda da barriga, o anãosinho empunhou o sabre a

duas mãos e foi espicaçando ao acaso, para a frente, para a direita,

para a esquerda, o ventre, a fressura, os intestinos; o diabo sentiu-se

de repente incommodado, soffreu ancias atrozes, vomitou o jantar e

Issumboshi de novo appareceu á luz do dia. O outro monstro tentou em

seguida igual ardil, devorando o pygmeu; d'esta vez Issumboshi subiu-lhe

para o nariz, em cujas fossas sanguineas e felpudas recomeçou

esgrimindo, a ponto de produzir tal comichão, que o diabo espirrou,

salvando-se o inimigo pelos ares. Foi então que os demonios se encheram

de pavor, convencidos de que tinham em frente de si um ente

extraordinario, posto que de tão desprezivel apparencia; e deitaram a

fugir...

Muito bem. Agora o heroe cuida de acalmar a desolada dama, convence-a da

ausencia do perigo e faz-lhe vêr que são horas de seguir para palacio,

onde de certo o pae a espera com anciedade. Ko-Haru vae partir; antes

porém testemunha ao pagem a sua muita gratidão, promettendo contar á

familia o succedido, para que chovam justas recompensas sobre o seu

donodado salvador.

* * * * *

Partiram com effeito. Eis que, a curta distancia, Ko-Haru encontra no

caminho um utensilio alli abandonado, o pequenino martello milagroso de

que os demonios e os deuses se utilisam, certamente esquecido pelos

monstros na ancia de safarem-se. Tomou-o pressurosa. Perguntou o

companheiro o que era aquillo; e, como ella lhe exposesse que bastava

brandil-o para a gente realisar os seus desejos, e que elle proprio, se

algum desejo tinha, lh'o dissesse, que logo lhe seria satisfeito,

Issumboshi berrou, no auge da commoção e da esperança:--«Altura! Altura!

Altura»--Ko-Haru não percebeu o que elle queria. Elle então, mais

prolixo, explicou que queria a altura de si proprio, crescer em tamanho,

tornar-se um homem como todos os homens d'este mundo. O milagre, a um

gesto da _musumé_, realisou-se. Issumboshi attingiu n'um momento as

regulares proporções de um guapo mocetão; ao lado da princeza, quem se

pozesse a vêr aquelle par, diria-os feitos um para o outro, de

encommenda...

[Figura]

* * * * *

Chegaram ao palacio. A admiração foi grande; mas não sei o que mais

commentarios mereceu, se as peripecias da princeza, rematadas com tão

feliz epilogo, se o milagre do martello na pessoa de Issumboshi. Logo

alli se lhe mudou o nome, para outro nome apropriado; recebeu do seu

nobre protector mil recompensas, mais tarde do soberano mui fartas

honrarias, subindo aos mais altos cargos publicos; mas a mais doce

recompensa que aqui se lhe póde assignalar foi tornar-se o esposo

querido de Ko-Haru, que elle amava, do fundo da alma, desde o primeiro

dia que lhe foi dado contemplal-a...

Kobe, março de 1902.

O PESCADOR URASHIMA

A Joaquim Costa

Viveu em remotos tempos, n'um logarejo da costa do Japão, Urashima, um

moço pescador. D'este simples, pouco ia tagarelando a visinhança:--que

tinha um coração propenso ao bem, e que em destreza ninguem o igualava,

tratando-se de artes de linhas e de anzoes;--nada mais, mas já não era

pequeno o elogio.

Ora, um bello dia, saiu elle a pescar, sósinho no seu barco. E que

pescou Urashima d'essa feita? Oh! a sorte sorria-lhe em tal hora...

pescou uma enorme tartaruga, com a casca espessa e dura, a cabecita

rugosa, denunciando assim a grande vetustez; é notorio que as tartarugas

vivem muito; vivem mil annos, no Japão.

Era um opiparo jantar que o acaso offerecia ao pobre pescador, pouco

mimoso de acepipes; jantar, ceia e almoço, e mais ainda, fóra os lucros

que a casca lhe trouxesse; mas o moço poz-se a scismar na crueldade que

ia commetter, roubando assim talvez longos seculos de vida áquelle

bruto, fadado pela sorte ao goso da existencia, durante gerações e

gerações da tribu humana; e lembrou-se da mãe, da santa velha que tantas

vezes lhe ensinava a ser caritativo com os brutos indefezos... É certo

que as mãos abandonaram a presa, n'um largo gesto de bondade; e a

tartaruga, volvendo á agua sem se fazer rogada, lepida mergulhou no azul

e se safou das vistas.

[Figura]

* * * * *

Fazia então tanto calor!... Era um d'esses dias abrazadores de agosto,

embebidos de paz, de luz, de torpidos affluvios. Além, a aldeia

quedava-se na sésta, amodorrava, jazia em aniquilamento absoluto;

apenas, sobre as arvores, cantavam as cigarras, doidas de cio,

estonteadas... Interrompera-se nos campos a faina da lavoira; nas choças

escancaradas, patenteavam-se os corpos nús, estendidos em repoiso,

adormecidos, banhados em suor. E Urashima, no seu barco, vencido tambem

pelos ardores d'aquella hora, largou das mãos os remos e as linhas,

encostou-se á bancada e adormeceu.

No entretanto, eis que surge das aguas um vulto feminino, encantador. O

episodio, que a tradição do povo foi retendo até aos nossos dias, póde

agora reconstituir-se em pensamento. Sobre o convez do esquife, poisa

esse vulto, essa fada adoravel de feitiços, envolta em roupas carmezins,

solto o cabello ás brisas e corôada a fronte com o diadema de oiro, que

é apanagio das princezas; estende o braço de neve para o adormecido,

toca-lhe na fronte com as pontas dos dedos delicados, e diz-lhe de manso

estas palavras:--«Acorda, Urashima, escuta-me; eu vou contar-te quem eu

sou; sou a filha do deus do oceano immenso, habito com meu pae o palacio

do dragão, no seio das ondas; a tartaruga, que ainda ha pouco colheste e

restituiste á liberdade, era eu propria; meu pae impoz-me um tal

disfarce, para que assim podesse estudar-te bem os sentimentos; por sua

ordem e meu aprazimento pessoal, serei a tua esposa, se me queres; mil

annos viveremos sempre juntos, sempre jovens, sempre felizes, no palacio

do dragão, sob o azul das aguas...»

* * * * *

Lá seguem os dois pelo mar fóra. Urashima empunha a esparrela da pôpa,

maneja-a com denodo, dá-lhe--podera não!--forças herculeas a ancia de

chegar; a princeza poisa no outro remo as mãos franzinas, e vae sorrindo

ao companheiro. E vão remando, e vão remando, sem que a fadiga os

aquebrante, até que finalmente o barco alcança o porto desejado, e já de

longe o palacio se desenha, em arcarias, em grimpas, em mirantes

recortados.

Que encanto! que prodigio! nem mesmo a phantasia ousára imaginar tantos

primores!... As paredes do palacio são de renda de coral; as arvores do

jardim têem por folhas, esmeraldas, e fructificam em perolas e rubis; as

escamas dos peixes são de prata, os olhos de diamantes, as caudas dos

dragões, de oiro lavrado...

Então, toda a bicharia do oceano acode á praia, vestindo _kimonos_ de

cerimonia, e vem saudar os noivos viajantes. Após os cumprimentos e os

discursos laudatorios que prescreve a etiqueta em casos taes, a

princeza, seguida do cortejo, entra em palacio; gorazes e toninhas

seguram-lhe a cauda do vestido; poisa nas fofas esteiras, de uma

meticulosa limpeza indescriptivel, as plantas alvas dos seus pésinhos

deliciosos; descança n'um salão que mais lhe apraz, pela delicia dos

adornos e pela paizagem que se avista, e a seu lado offerece um logar ao

companheiro. As tartarugas, os peixes, as lagostas, os dragões, a turba

em fim dos escravos jubilosos, corre a prostrar-se em frente da

princeza; e de joelhos, barbatanas erguidas em offertorio, começa

servindo em taças preciosas o branco arroz cosido, os licôres, os

fructos, os manjares.

Urashima extasia-se diante do que é seu, bem seu, pois que é de sua

esposa. Durante tres annos assim vivem, sempre juntos, sempre felizes,

sem enfados, sem nuvens de tristeza no céo dos seus amores; ora na paz

da esteira, no enlevo das mãos que se entrelaçam, dos olhos humidos que

se fitam, das palavras em segredo que se trocam, das almas enamoradas

que se dão; ora perscrutando os mysterios do oceano, em excursões

pachorrentas pelas florestas das algas viajantes, por onde a vida

aquatica, de plantas, de animaes, se multiplica em maravilhas que a

ninguem é dado conhecer; ora em longos passeios pelos jardins, onde as

arvores não cessam de vestir-se de ramos de esmeraldas, vergando ao

pendor das perolas e rubis.

* * * * *

Tres annos decorridos. Um dia porém Urashima acerca-se da esposa e

diz-lhe pouco mais ou menos o seguinte:--que a adora e se sente ditoso,

mas cresce-lhe o desejo de ir vêr a sua aldeia, o velho pae, a doce mãe,

os irmãos, os antigos companheiros de trabalho; e promette voltar após

curta visita.--Então, pela primeira vez sem duvida, uma ligeira nuvem de

tristeza, um vago presentimento angustioso, turvaram o olhar sereno da

princeza.--«Vae, diz-lhe; vae, Urashima, porque assim o desejas, embora

bem me pese, pois imagino que vaes expôr-te a grandes riscos; leva

comtigo este pequeno cofre, que alguma coisa contém que te pertence;

sirva-te elle de lembrança de quem muito te quer; mas nunca o abrirás,

pois se o fizesses, estarias perdido, e nunca mais voltarias a esta

mansão do nosso amor...»

E partiu, e abordou o solo patrio...

* * * * *

[Figura]

O que quer que era de bem estranho se passára durante a ausencia de

Urashima. Aonde estava a sua aldeia? aonde se erguia a cabana de seus

paes? A mesma praia loira, os mesmos penedos carcomidos, os mesmos

cerros sobrepondo-se, alli lhe appareciam, bem taes como os deixára, na

fria impassibilidade das coisas immutaveis; mas os povoados offereciam

outro aspecto, os campos outro amanho; mas as arvores, que lhe haviam

dado abrigo e sombra, e de que tão bem se recordava, erguiam apenas

troncos seccos, algumas, porque outras já nem mesmo existiam, e outras

arvores medravam n'outros sitios, projectando outras sombras,

fructificando em outros fructos. Aonde fôra a sua aldeia, surgia agora

um pinheiral. Reconheceu o mesmo arroio, que serpeava junto ao lar; e

ainda agora a agua crystalina ia correndo, e sussurrante, como dantes;

mas agora deserto, faltando o grupo galhofeiro das _musumés_ que tinham

por costume ir alli lavar a roupa, entre ellas as suas tres irmans,

_kimonos_ arregaçados, pernas núas, braços nús, lidando, palestrando e

rindo umas com as outras.

Ao longo do areal iam então seguindo dois sujeitos. Urashima alcança-os

e interpella-os:--«Bons dias; fazem favor de me dizer onde é agora a

casa da familia de Urashima?»--Pensaram, consultaram-se, coçaram a

cabeça, buscando recordar-se.--«Urashima, Urashima... Urashima, o

pescador? tem graça tal pergunta: ha já quatrocentos annos pelo menos,

como contam, se afogou elle quando pescava no seu barco, pois nunca mais

appareceu; o seu pae, a sua mãe, os seus irmãos, os filhos dos seus

irmãos, dormem todos além no cemiterio, ha muito tempo; a cabana que

procura, apodreceu antes de nossos avós serem nascidos, nem o pó d'ella

sequer existe por aqui...»

Então, como um relampago que acode subitamente pela noite, a illuminar a

estrada, uma idéa acudiu de subito ao pensamento de Urashima, a

allumiar-lhe o espirito. Elle alli estava, volvido á patria, poisando os

pés descalços no areal da sua querida aldeia, relanceando as curvas da

paizagem em que por tantos annos a vista se poisara, e a recordação lhe

gravára para sempre na memoria. O palacio do deus do mar, no abysmo das

ondas, com as suas paredes de renda de coral, com os seus pomares de

folhas de esmeraldas e fructos de perolas e rubis, e os seus peixes de

escamas prateadas e olhos de brilhantes, e os seus dragões de caudas de

oiro fino, não pertencia á terra, era do mundo dos prodigios, regia-se

pelas leis do encantamento; um dia, dos seus dias, valia por muitos

annos, dos nossos annos; e assim, sem que Urashima o suppozesse, seculos

sobre seculos haviam passado sobre a terra, matando, destruindo,

transformando, arrastando as coisas e os individuos á fatalidade dos

destinos, ao aniquilamento, ao pó, ao nada, surgindo das ruinas outros

aspectos e outros seres...

* * * * *

O antigo pescador sentiu o calafrio da sua soledade; e o disparate

anachronico da situação em que se via, incutiu-lhe no animo não sei que

horrivel oppressão de angustia e de pavor. Patria? sim, a mesma areia

inerte e os mesmos monstros de granito; mais nada. Aldeia, amigos,

aspectos familiares da sua mocidade, nada havia; outras aldeias, outros

aspectos, outra gente, e para esta o nome de Urashima entrava já na

lenda. Em nada o captivava aquella terra. O anceio de fugir, de volver

ao esplendor do seu palacio, acudiu-lhe então, dominador; e a imagem das

mil graças da princeza multiplicava-lhe o desejo de abandonar para

sempre o solo onde nascera. Lançou um olhar de adeus ao cemiterio, esse

no mesmo poiso ainda, mas mais vasto e mais povoado de freguezes; e ia

partir, deixar em paz a aldeia morta...

Antes porém lembrou-se de abrir o cofre que recebera da princeza.

Porque? Talvez leviandade, talvez mofino séstro, que tantas vezes guia o

homem a seguir pelo caminho prohibido... Do cofre aberto, que continha

nada menos do que a essencia dos longos annos corridos, e ao mesmo tempo

descontados na existencia de Urashima, escapou-se e pairou no espaço uma

ligeira nuvem esbranquiçada. Chamado á razão, ao sentimento da

desobediencia em que incorrera, e ao medo de um desastre, Urashima

correu sobre essa nuvem, desvairado, e bradou-lhe que parasse. Era

tarde. De prompto, as proprias forças lhe faltaram, e a voz se lhe

extinguiu; a nuvem envolvia-o; a nuvem transportava-o ao seu justo logar

nas paginas do tempo, fazia-o galgar de um pulo a grande barreira que o

afastava dos seus contemporaneos; as leis da terra tinham pressa em

corrigir erro tamanho... Repentinamente, os cabellos, a barba,

branquejaram como linho, sulcou-se o rosto em rugas, estalou a pelle do

corpo, os ossos romperam para fóra, as costas dobraram-se n'um arco,

viu-se como um macrobio não sei quantas vezes secular, como um esqueleto

em férias, fugido do sepulcro, faltou-lhe o ar, faltou-lhe a luz,

morreu, caiu, desfez-se em pó, desfez-se em nada...

1900.

INDICE

As Borboletas, 1

A Alforreca, 9

O Anno novo, 20

A Primavera, 30

Nilguyo, 50

O Cavallo Branco de Nanko, 62

A primeira formiga, 78

Os Diabos e os velhos, 90

Pan-Man-Chen, 98

A Caricatura no Japão, 107

Dois Cemiterios Japonezes, 134

O Espelho de Matsuyama, 153

Amôres, 164

Um pintor de gatos, 171

Impressões rapidas, 181

Issumboshi, 213

O Pescador Urashima, 229

Livraria Editora VIUVA TAVARES CARDOSO

5, Largo de Camões, 6--Lisboa

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800 réis

O CONDE DE S. PAULO Romance original, por _Mauricia C. de Figueiredo_, 1

vol., 800 rs.

NA RUSSIA Aspectos da guerra e da revolução. Narrativa historica e

anecdotica por _Eduardo de Noronha_, 1 vol. com 107 gravuras, 800 rs.

OS BRAVOS DO MINDELLO romance historico, por _Faustino da Fonseca_. 1

vol., 600 rs.

O ANNO PARLAMENTAR--1905--A sessão--A questão dos tabacos, por _João

Costa_, 1 volume, 800 rs.

A RUA DO OIRO romance lisboeta, por _Alfredo Mesquita_, 1 volume, 600

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POSTA-RESTANTE Cartas a toda a gente, por _João Chagas_, 1 volume, 600

rs.

NO BRASIL uma epopéa maritima, romance historico da actualidade.

illustrado com cincoenta photogravuras, por _Eduardo de Noronha_. 1 vol,

800 rs.

VAMIRÉ romance dos tempos primitivos, traduzido de _J. H. Rosny_ por

_Candido de Figueiredo_, 1 vol, 300 rs.

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ÁS MULHERES PORTUGUESAS 1 volume, 600 rs.

ANECDOTAS DE REIS, PRINCIPES e outras personagens extrangeiras.

Extraidas compiladas e prefaciadas por _Faustino da Fonseca_, 1 volume,

500 rs.

JOAQUIM DE ARAUJO

O "FREI LUIZ DE SOUZA" de _Garrett_. Notas, com um prefacio de _T.

Braga_, 1 vol. illustrado, 400 rs.

TERRA VIRGEM Romance original por _Cesar Porto_, 1 volume 800 rs.

ALBERTO CAMPOS

O LIVRO DE UM JORNALISTA Sciencia, politica, moral, religião,

coordenação e notas de _Zuzarte de Mendonça_. 1 volume, 500 rs.

AS ALEGRES CANÇÕES DO NORTE por _Alberto Pimentel_, 1 v., 600 rs.

*Notas:*

[1] Official da marinha morto em 25 de outubro de 1902. Vivia, quando o

auctor lhe consagrava este capitulo.

[2] Os desenhos que illustram este conto são originaes do proprio W. de

Moraes.

*Lista de erros corrigidos*

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

+----------+------------------------+-------------------------+

| | Original | Correcção |

+----------+------------------------+-------------------------+

|#pág. 25| n'estas | n'estes |

|#pág. 49| whisyk | whisky |

|#pág. 68| difflceis | difficeis |

|#pág. 69| focinho snostalgicos | focinhos nostalgicos |

|#pág. 76| offereco | offereço |

|#pág. 79| tempelos | tem pelos |

|#pág. 81| entrasae | entrasse |

|#pág. 92| diabolidamente | diabolicamente |

|#pág. 111| niconsciencia | inconsciencia |

|#pág. 130| vermelha s | vermelhas |

|#pág. 150| _sumarais_ | _samurais_ |

|#pág. 174| At que | Até que |

|#pág. 208| fabulosa | fabulosas |

|#pág. 209| ?ontes | fontes |

|#pág. 219| encahlava | encalhava |

|#pág. 223| queaquelle | que aquelle |

|#pág. 227| a palacio | ao palacio |

|#pág. 235| rante | durante |

+----------+------------------------+-------------------------+

As figuras podem não estar no sítio original. Algumas foram movidas para

que os parágrafos não fossem cortados.

Paisagens da China e do Japão · 第 9 / 9 段