palestras da turba, com o cheiro das tabernas, como effectivamente
succede aos marinheiros após longos dias de cruzeiro, enfadados de
balanço, de isolamento, de carne salgada e de bolacha. Issumboshi, pouco
maior que um escaravelho, passava despercebido por entre os muitos
passeantes; assim poude furtar-se a commentarios zombeteiros e percorrer
tranquillamente as ruas da cidade, embasbacando-se em face dos aspectos
grandiosos que aos seus olhitos sagazes se iam offerecendo. Por fim,
eil-o acercando-se da mais sumptuosa residencia em que os mesmos olhitos
jamais tinham poisado; era alli que vivia um grande personagem, o
principe Sanjo-no-Saishó, primeiro ministro na côrte do soberano. Entra
Issumboshi resolutamente no amplo pateo da entrada, e informa os
serviçaes de que pretende fallar ao senhor de tal dominio. Deu-se então
o comico incidente de estar sua alteza muito cerca e de acudir, á porta,
attrahido pela maviosa voz do visitante; como ninguem visse porém, ia de
novo recolher-se, resmungando que teria jurado achar-se alli um estranho
em conversas com a gente de serviço; mas um derradeiro olhar pesquisador
revelou-lhe, quasi occulto por detraz dos seus tamancos, que estavam
junto á entrada conforme o uso do paiz, o curioso figurão que
conhecemos.--«Oh! exclamou, eras tu, minusculo vivente que ainda ha
pouco proferias o meu nome?»--O rapaz, polidamente, assegurou que sim,
que era elle proprio.--«E que me queres então?»--Issumboshi expôz a sua
procedencia, os seus titulos e as tristes condições em que se via; e
concluiu rogando que lhe desse agasalho, e o admittisse ao seu
serviço.--«Pois sim, fica comnosco, respondeu sua alteza, após ligeira
reflexão; tu és sem duvida, continuou, o homem mais pequeno que tem
apparecido n'este mundo, e a tua historia uma das mais commovedoras que
conheço; não quero perder o léo de possuir tamanha galanteria,
praticando ao mesmo tempo um acto meritorio, protegendo-te.»
[Figura]
* * * * *
Embora tam infimo em grandeza, o _Cavalheiro Pollegada_ soube mostrar-se
utilisavel em tudo em que o occuparam. Dentro em pouco, tornou-se
querido da familia, o brinquedo, o passatempo predilecto para matar
enfados, dos quaes ninguem se livra, e menos ainda os ricos, sempre
ociosos em seus palacios de regalo. Ko-Haru, a filha do fidalgo, a mais
gentil donzella de Kyoto (que é a terra das mulheres mais gentis de todo
o Imperio), especialmente lhe votou as suas sympathias, impondo-lhe o
dever--dulcissimo dever!--de acompanhal-a por toda a parte onde ella
fôsse, qual rato sabio que seguisse a dona em seus passeios...
[Figura]
Entre os dois, a formosa _musumé_ e a migalha de gente, passaram-se
então graciosas scenas, as mais tocantes que póde imaginar-se, se
imaginaveis são... Era um enlevo vêl-o, sempre vestidinho de guerreiro,
a primor, com roupas de setim que ella pelos proprios dedos habilidosos
lhe bordava, e lhe cosia, privando de carinhos as suas bonecas
favoritas; e Issumboshi, muito compenetrado do seu papel de pagem, nunca
largando o sabre da cintura, arrogava-se uns taes ares marciaes, tão
petulantes, que a gente morria de rir, ao avistal-o!... Se chovia, ou se
a excursão se prolongava, Ka-Haru tomava nas mãos alvas de neve o seu
pequeno companheiro, aconchegando-o ao collo, ou aquecendo-o ao seio.
Issumboshi, é bem de crêr, possuia, como todo o ser humano possue, um
coração, embora reduzido ás proporções de uma cabeça de alfinete, mas
pulsando de gratidão e de ternura. Aquella convivencia escravisou-lhe a
alma. Uma dedicação immensa, uns zelos infinitos, um desejo constante de
agradar á sua nobre ama, taes fôram os sentimentos dominantes no animo
do pygmeu. A sua disformidade permittia-lhe delicadezas, que aos outros
mortaes eram vedadas... (oh, mysterio psychologico de todos os namorados
d'este mundo! quantos de vós, que lêdes estas linhas, invejareis a sorte
de Issumboshi!...) Quando, pelas noites calidas de agosto, Ko-Haru se
aprazia em estender-se sobre a relva dos jardins, Issumboshi, vencido
tambem pela fadiga, poisava e adormecia sobre um dos pés nus de sua ama,
como em leito de marmore de alvuras resplendentes. Uma vez, caiu dos
labios frescos da donzella uma petala de magnolia, em que por distracção
os dentinhos se entretinham mordicando: Issumboshi comeu-a; e durante um
dia inteiro não se serviu de outro alimento, assegurando com verdade que
aquelle lhe bastava...
* * * * *
Aconteceu um dia dirigir-se Ko-Haru ao templo de Kiyomizu-no-Kwannon
(Kwannon é a deusa buddhista da piedade), a fim de praticar as suas
devoções; como sempre, o anão acompanhava-a. Ora, de volta, quando ambos
desciam o ultimo degrau da ampla escadaria que dá accesso ao templo,
dois demonios surdiram de improviso das proximas balseiras, horriveis de
figura, herculeos, colossaes, cuidando sem detenças de raptar a linda
peregrina. Ko-Haru desfaz-se em pranto e quasi desfallece. Issumboshi
retira a espada da bainha (a agulha que a mãe lhe dera n'outros tempos),
perfila-se em frente dos demonios e brada-lhes assim:--«Vis temerarios,
que commetteis a magna offensa de perturbar em seus passeios piedosos a
princeza Sanjó! sabei que se um de vós, com um só dedo lhe tocar,
commigo se ha de haver! e, tão certo como ser eu Issumboshi, assim este
meu sabre lhe rasgará a entranha!...»--Consta que os diabretes se
pozeram a rir, arreganhando os dentes; e um dos dois, mais fallador,
dignou-se responder com uma vóz de trovão que fez afugentar das arvores
os pardaes, em cinco leguas ao redor:--«Acalma a tua furia, infimo
insecto; não percebes acaso que a lucta contra nós é-te defeza? para
encurtar razões e não seres importuno, vaes vêr o que te
faço...»--Levantou-o do solo, mui delicadamente, com as pontas dos
dedos, e enguliu-o...
[Figura]
Pareceu a Ko-Haru fugir-lhe a ultima esperança de salvar-se. Illudia-se.
Em plenas trevas, escorregando pela guela babujenta do monstro, e
penetrando na enorme rotunda da barriga, o anãosinho empunhou o sabre a
duas mãos e foi espicaçando ao acaso, para a frente, para a direita,
para a esquerda, o ventre, a fressura, os intestinos; o diabo sentiu-se
de repente incommodado, soffreu ancias atrozes, vomitou o jantar e
Issumboshi de novo appareceu á luz do dia. O outro monstro tentou em
seguida igual ardil, devorando o pygmeu; d'esta vez Issumboshi subiu-lhe
para o nariz, em cujas fossas sanguineas e felpudas recomeçou
esgrimindo, a ponto de produzir tal comichão, que o diabo espirrou,
salvando-se o inimigo pelos ares. Foi então que os demonios se encheram
de pavor, convencidos de que tinham em frente de si um ente
extraordinario, posto que de tão desprezivel apparencia; e deitaram a
fugir...
Muito bem. Agora o heroe cuida de acalmar a desolada dama, convence-a da
ausencia do perigo e faz-lhe vêr que são horas de seguir para palacio,
onde de certo o pae a espera com anciedade. Ko-Haru vae partir; antes
porém testemunha ao pagem a sua muita gratidão, promettendo contar á
familia o succedido, para que chovam justas recompensas sobre o seu
donodado salvador.
* * * * *
Partiram com effeito. Eis que, a curta distancia, Ko-Haru encontra no
caminho um utensilio alli abandonado, o pequenino martello milagroso de
que os demonios e os deuses se utilisam, certamente esquecido pelos
monstros na ancia de safarem-se. Tomou-o pressurosa. Perguntou o
companheiro o que era aquillo; e, como ella lhe exposesse que bastava
brandil-o para a gente realisar os seus desejos, e que elle proprio, se
algum desejo tinha, lh'o dissesse, que logo lhe seria satisfeito,
Issumboshi berrou, no auge da commoção e da esperança:--«Altura! Altura!
Altura»--Ko-Haru não percebeu o que elle queria. Elle então, mais
prolixo, explicou que queria a altura de si proprio, crescer em tamanho,
tornar-se um homem como todos os homens d'este mundo. O milagre, a um
gesto da _musumé_, realisou-se. Issumboshi attingiu n'um momento as
regulares proporções de um guapo mocetão; ao lado da princeza, quem se
pozesse a vêr aquelle par, diria-os feitos um para o outro, de
encommenda...
[Figura]
* * * * *
Chegaram ao palacio. A admiração foi grande; mas não sei o que mais
commentarios mereceu, se as peripecias da princeza, rematadas com tão
feliz epilogo, se o milagre do martello na pessoa de Issumboshi. Logo
alli se lhe mudou o nome, para outro nome apropriado; recebeu do seu
nobre protector mil recompensas, mais tarde do soberano mui fartas
honrarias, subindo aos mais altos cargos publicos; mas a mais doce
recompensa que aqui se lhe póde assignalar foi tornar-se o esposo
querido de Ko-Haru, que elle amava, do fundo da alma, desde o primeiro
dia que lhe foi dado contemplal-a...
Kobe, março de 1902.
O PESCADOR URASHIMA
A Joaquim Costa
Viveu em remotos tempos, n'um logarejo da costa do Japão, Urashima, um
moço pescador. D'este simples, pouco ia tagarelando a visinhança:--que
tinha um coração propenso ao bem, e que em destreza ninguem o igualava,
tratando-se de artes de linhas e de anzoes;--nada mais, mas já não era
pequeno o elogio.
Ora, um bello dia, saiu elle a pescar, sósinho no seu barco. E que
pescou Urashima d'essa feita? Oh! a sorte sorria-lhe em tal hora...
pescou uma enorme tartaruga, com a casca espessa e dura, a cabecita
rugosa, denunciando assim a grande vetustez; é notorio que as tartarugas
vivem muito; vivem mil annos, no Japão.
Era um opiparo jantar que o acaso offerecia ao pobre pescador, pouco
mimoso de acepipes; jantar, ceia e almoço, e mais ainda, fóra os lucros
que a casca lhe trouxesse; mas o moço poz-se a scismar na crueldade que
ia commetter, roubando assim talvez longos seculos de vida áquelle
bruto, fadado pela sorte ao goso da existencia, durante gerações e
gerações da tribu humana; e lembrou-se da mãe, da santa velha que tantas
vezes lhe ensinava a ser caritativo com os brutos indefezos... É certo
que as mãos abandonaram a presa, n'um largo gesto de bondade; e a
tartaruga, volvendo á agua sem se fazer rogada, lepida mergulhou no azul
e se safou das vistas.
[Figura]
* * * * *
Fazia então tanto calor!... Era um d'esses dias abrazadores de agosto,
embebidos de paz, de luz, de torpidos affluvios. Além, a aldeia
quedava-se na sésta, amodorrava, jazia em aniquilamento absoluto;
apenas, sobre as arvores, cantavam as cigarras, doidas de cio,
estonteadas... Interrompera-se nos campos a faina da lavoira; nas choças
escancaradas, patenteavam-se os corpos nús, estendidos em repoiso,
adormecidos, banhados em suor. E Urashima, no seu barco, vencido tambem
pelos ardores d'aquella hora, largou das mãos os remos e as linhas,
encostou-se á bancada e adormeceu.
No entretanto, eis que surge das aguas um vulto feminino, encantador. O
episodio, que a tradição do povo foi retendo até aos nossos dias, póde
agora reconstituir-se em pensamento. Sobre o convez do esquife, poisa
esse vulto, essa fada adoravel de feitiços, envolta em roupas carmezins,
solto o cabello ás brisas e corôada a fronte com o diadema de oiro, que
é apanagio das princezas; estende o braço de neve para o adormecido,
toca-lhe na fronte com as pontas dos dedos delicados, e diz-lhe de manso
estas palavras:--«Acorda, Urashima, escuta-me; eu vou contar-te quem eu
sou; sou a filha do deus do oceano immenso, habito com meu pae o palacio
do dragão, no seio das ondas; a tartaruga, que ainda ha pouco colheste e
restituiste á liberdade, era eu propria; meu pae impoz-me um tal
disfarce, para que assim podesse estudar-te bem os sentimentos; por sua
ordem e meu aprazimento pessoal, serei a tua esposa, se me queres; mil
annos viveremos sempre juntos, sempre jovens, sempre felizes, no palacio
do dragão, sob o azul das aguas...»
* * * * *
Lá seguem os dois pelo mar fóra. Urashima empunha a esparrela da pôpa,
maneja-a com denodo, dá-lhe--podera não!--forças herculeas a ancia de
chegar; a princeza poisa no outro remo as mãos franzinas, e vae sorrindo
ao companheiro. E vão remando, e vão remando, sem que a fadiga os
aquebrante, até que finalmente o barco alcança o porto desejado, e já de
longe o palacio se desenha, em arcarias, em grimpas, em mirantes
recortados.
Que encanto! que prodigio! nem mesmo a phantasia ousára imaginar tantos
primores!... As paredes do palacio são de renda de coral; as arvores do
jardim têem por folhas, esmeraldas, e fructificam em perolas e rubis; as
escamas dos peixes são de prata, os olhos de diamantes, as caudas dos
dragões, de oiro lavrado...
Então, toda a bicharia do oceano acode á praia, vestindo _kimonos_ de
cerimonia, e vem saudar os noivos viajantes. Após os cumprimentos e os
discursos laudatorios que prescreve a etiqueta em casos taes, a
princeza, seguida do cortejo, entra em palacio; gorazes e toninhas
seguram-lhe a cauda do vestido; poisa nas fofas esteiras, de uma
meticulosa limpeza indescriptivel, as plantas alvas dos seus pésinhos
deliciosos; descança n'um salão que mais lhe apraz, pela delicia dos
adornos e pela paizagem que se avista, e a seu lado offerece um logar ao
companheiro. As tartarugas, os peixes, as lagostas, os dragões, a turba
em fim dos escravos jubilosos, corre a prostrar-se em frente da
princeza; e de joelhos, barbatanas erguidas em offertorio, começa
servindo em taças preciosas o branco arroz cosido, os licôres, os
fructos, os manjares.
Urashima extasia-se diante do que é seu, bem seu, pois que é de sua
esposa. Durante tres annos assim vivem, sempre juntos, sempre felizes,
sem enfados, sem nuvens de tristeza no céo dos seus amores; ora na paz
da esteira, no enlevo das mãos que se entrelaçam, dos olhos humidos que
se fitam, das palavras em segredo que se trocam, das almas enamoradas
que se dão; ora perscrutando os mysterios do oceano, em excursões
pachorrentas pelas florestas das algas viajantes, por onde a vida
aquatica, de plantas, de animaes, se multiplica em maravilhas que a
ninguem é dado conhecer; ora em longos passeios pelos jardins, onde as
arvores não cessam de vestir-se de ramos de esmeraldas, vergando ao
pendor das perolas e rubis.
* * * * *
Tres annos decorridos. Um dia porém Urashima acerca-se da esposa e
diz-lhe pouco mais ou menos o seguinte:--que a adora e se sente ditoso,
mas cresce-lhe o desejo de ir vêr a sua aldeia, o velho pae, a doce mãe,
os irmãos, os antigos companheiros de trabalho; e promette voltar após
curta visita.--Então, pela primeira vez sem duvida, uma ligeira nuvem de
tristeza, um vago presentimento angustioso, turvaram o olhar sereno da
princeza.--«Vae, diz-lhe; vae, Urashima, porque assim o desejas, embora
bem me pese, pois imagino que vaes expôr-te a grandes riscos; leva
comtigo este pequeno cofre, que alguma coisa contém que te pertence;
sirva-te elle de lembrança de quem muito te quer; mas nunca o abrirás,
pois se o fizesses, estarias perdido, e nunca mais voltarias a esta
mansão do nosso amor...»
E partiu, e abordou o solo patrio...
* * * * *
[Figura]
O que quer que era de bem estranho se passára durante a ausencia de
Urashima. Aonde estava a sua aldeia? aonde se erguia a cabana de seus
paes? A mesma praia loira, os mesmos penedos carcomidos, os mesmos
cerros sobrepondo-se, alli lhe appareciam, bem taes como os deixára, na
fria impassibilidade das coisas immutaveis; mas os povoados offereciam
outro aspecto, os campos outro amanho; mas as arvores, que lhe haviam
dado abrigo e sombra, e de que tão bem se recordava, erguiam apenas
troncos seccos, algumas, porque outras já nem mesmo existiam, e outras
arvores medravam n'outros sitios, projectando outras sombras,
fructificando em outros fructos. Aonde fôra a sua aldeia, surgia agora
um pinheiral. Reconheceu o mesmo arroio, que serpeava junto ao lar; e
ainda agora a agua crystalina ia correndo, e sussurrante, como dantes;
mas agora deserto, faltando o grupo galhofeiro das _musumés_ que tinham
por costume ir alli lavar a roupa, entre ellas as suas tres irmans,
_kimonos_ arregaçados, pernas núas, braços nús, lidando, palestrando e
rindo umas com as outras.
Ao longo do areal iam então seguindo dois sujeitos. Urashima alcança-os
e interpella-os:--«Bons dias; fazem favor de me dizer onde é agora a
casa da familia de Urashima?»--Pensaram, consultaram-se, coçaram a
cabeça, buscando recordar-se.--«Urashima, Urashima... Urashima, o
pescador? tem graça tal pergunta: ha já quatrocentos annos pelo menos,
como contam, se afogou elle quando pescava no seu barco, pois nunca mais
appareceu; o seu pae, a sua mãe, os seus irmãos, os filhos dos seus
irmãos, dormem todos além no cemiterio, ha muito tempo; a cabana que
procura, apodreceu antes de nossos avós serem nascidos, nem o pó d'ella
sequer existe por aqui...»
Então, como um relampago que acode subitamente pela noite, a illuminar a
estrada, uma idéa acudiu de subito ao pensamento de Urashima, a
allumiar-lhe o espirito. Elle alli estava, volvido á patria, poisando os
pés descalços no areal da sua querida aldeia, relanceando as curvas da
paizagem em que por tantos annos a vista se poisara, e a recordação lhe
gravára para sempre na memoria. O palacio do deus do mar, no abysmo das
ondas, com as suas paredes de renda de coral, com os seus pomares de
folhas de esmeraldas e fructos de perolas e rubis, e os seus peixes de
escamas prateadas e olhos de brilhantes, e os seus dragões de caudas de
oiro fino, não pertencia á terra, era do mundo dos prodigios, regia-se
pelas leis do encantamento; um dia, dos seus dias, valia por muitos
annos, dos nossos annos; e assim, sem que Urashima o suppozesse, seculos
sobre seculos haviam passado sobre a terra, matando, destruindo,
transformando, arrastando as coisas e os individuos á fatalidade dos
destinos, ao aniquilamento, ao pó, ao nada, surgindo das ruinas outros
aspectos e outros seres...
* * * * *
O antigo pescador sentiu o calafrio da sua soledade; e o disparate
anachronico da situação em que se via, incutiu-lhe no animo não sei que
horrivel oppressão de angustia e de pavor. Patria? sim, a mesma areia
inerte e os mesmos monstros de granito; mais nada. Aldeia, amigos,
aspectos familiares da sua mocidade, nada havia; outras aldeias, outros
aspectos, outra gente, e para esta o nome de Urashima entrava já na
lenda. Em nada o captivava aquella terra. O anceio de fugir, de volver
ao esplendor do seu palacio, acudiu-lhe então, dominador; e a imagem das
mil graças da princeza multiplicava-lhe o desejo de abandonar para
sempre o solo onde nascera. Lançou um olhar de adeus ao cemiterio, esse
no mesmo poiso ainda, mas mais vasto e mais povoado de freguezes; e ia
partir, deixar em paz a aldeia morta...
Antes porém lembrou-se de abrir o cofre que recebera da princeza.
Porque? Talvez leviandade, talvez mofino séstro, que tantas vezes guia o
homem a seguir pelo caminho prohibido... Do cofre aberto, que continha
nada menos do que a essencia dos longos annos corridos, e ao mesmo tempo
descontados na existencia de Urashima, escapou-se e pairou no espaço uma
ligeira nuvem esbranquiçada. Chamado á razão, ao sentimento da
desobediencia em que incorrera, e ao medo de um desastre, Urashima
correu sobre essa nuvem, desvairado, e bradou-lhe que parasse. Era
tarde. De prompto, as proprias forças lhe faltaram, e a voz se lhe
extinguiu; a nuvem envolvia-o; a nuvem transportava-o ao seu justo logar
nas paginas do tempo, fazia-o galgar de um pulo a grande barreira que o
afastava dos seus contemporaneos; as leis da terra tinham pressa em
corrigir erro tamanho... Repentinamente, os cabellos, a barba,
branquejaram como linho, sulcou-se o rosto em rugas, estalou a pelle do
corpo, os ossos romperam para fóra, as costas dobraram-se n'um arco,
viu-se como um macrobio não sei quantas vezes secular, como um esqueleto
em férias, fugido do sepulcro, faltou-lhe o ar, faltou-lhe a luz,
morreu, caiu, desfez-se em pó, desfez-se em nada...
1900.
INDICE
As Borboletas, 1
A Alforreca, 9
O Anno novo, 20
A Primavera, 30
Nilguyo, 50
O Cavallo Branco de Nanko, 62
A primeira formiga, 78
Os Diabos e os velhos, 90
Pan-Man-Chen, 98
A Caricatura no Japão, 107
Dois Cemiterios Japonezes, 134
O Espelho de Matsuyama, 153
Amôres, 164
Um pintor de gatos, 171
Impressões rapidas, 181
Issumboshi, 213
O Pescador Urashima, 229
Livraria Editora VIUVA TAVARES CARDOSO
5, Largo de Camões, 6--Lisboa
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Costa_, 1 volume, 800 rs.
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illustrado com cincoenta photogravuras, por _Eduardo de Noronha_. 1 vol,
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Extraidas compiladas e prefaciadas por _Faustino da Fonseca_, 1 volume,
500 rs.
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coordenação e notas de _Zuzarte de Mendonça_. 1 volume, 500 rs.
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*Notas:*
[1] Official da marinha morto em 25 de outubro de 1902. Vivia, quando o
auctor lhe consagrava este capitulo.
[2] Os desenhos que illustram este conto são originaes do proprio W. de
Moraes.
*Lista de erros corrigidos*
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+----------+------------------------+-------------------------+
| | Original | Correcção |
+----------+------------------------+-------------------------+
|#pág. 25| n'estas | n'estes |
|#pág. 49| whisyk | whisky |
|#pág. 68| difflceis | difficeis |
|#pág. 69| focinho snostalgicos | focinhos nostalgicos |
|#pág. 76| offereco | offereço |
|#pág. 79| tempelos | tem pelos |
|#pág. 81| entrasae | entrasse |
|#pág. 92| diabolidamente | diabolicamente |
|#pág. 111| niconsciencia | inconsciencia |
|#pág. 130| vermelha s | vermelhas |
|#pág. 150| _sumarais_ | _samurais_ |
|#pág. 174| At que | Até que |
|#pág. 208| fabulosa | fabulosas |
|#pág. 209| ?ontes | fontes |
|#pág. 219| encahlava | encalhava |
|#pág. 223| queaquelle | que aquelle |
|#pág. 227| a palacio | ao palacio |
|#pág. 235| rante | durante |
+----------+------------------------+-------------------------+
As figuras podem não estar no sítio original. Algumas foram movidas para
que os parágrafos não fossem cortados.