nutrindo então pelos estranhos. O shogun, generalissimo do imperador,
com residencia em Yedo, assignára por conta propria tratados de amisade
e de commercio com a America e com a Europa, e os estrangeiros, em
Yokohama, pisavam já afoitamente o solo japonez. O shogun violava por
este modo o dogma sagrado do imperio, que era o isolamento absoluto, a
exclusão do homem do Occidente, o desdenhoso desinteresse pelo mundo, o
goso eterno e sem partilha, deliciosamente egoista, do paiz maravilhoso
que os deuses haviam legado ao povo eleito. Quando a noticia do insolito
desacato chegou até Kioto, a cidade santa, onde vivia a côrte, em torno
do Soberano, a mais accesa colera explodiu, e todas as energias se
ligaram para humilhar o shogun e varrer para sempre da patria os
teimosos intrusos.--«Morte aos barbaros!»--foi o grito do soberano, da
côrte, dos senhores feudaes.--«Morte aos barbaros!»--foi o credo que
incutiram ás legiões á pressa reunidas, que corriam a expulsar, a
massacrar, a exterminar, os estrangeiros. O shogun, supremo em mando até
então, estava perdido, debaixo de seus pés tremia a terra, rugia o
vulcão politico que em breve ia esmagal-o; mas, pela fatalidade dos
tempos, as energias e as cubiças dos intrusos haviam de vencer, de impôr
os seus designios; e a rhetorica dos diplomatas, prudentemente
sublinhada pela metralha dos canhões, tinha de ser ouvida. Os dias iam
passando, e o solemne decreto de exterminio não podia ser cumprido;
apenas, de quando em quando, um ou outro _samurai_ lograva decepar
alguma cabeça loira de inglez, merecendo dos seus chefes fartos
applausos pelo feito. Cedo, bem cedo, os vultos dirigentes
comprehenderam que a lucta era impossivel, que o mysterio nipponico
findára; e o Japão foi descerrando pouco a pouco as suas portas,
entrando em negociacões com os diplomatas estrangeiros, não já pela
iniciativa incompetente do shogun, mas pela propria iniciativa do
soberano. O shogun, por inutil, foi deposto; como se não conformasse com
a vontade imperial, travou-se dura lucta, foi batido e retirou para
Yedo. Estes acontecimentos succediam-se em tropel; a grande maioria da
nação não podia aprecial-os, e menos presumir das vistas do soberano; a
grande maioria da nação ia odiando o shogun e repetindo o seu
credo--«Morte aos barbaros!»--sem se aperceber que a situação mudára,
que a côrte já tratava com as potencias, e que a aggressão aos europeus,
havia pouco meritoria, era agora condemnada e prejudicava fortemente a
marcha da politica imperial.
* * * * *
Foi assim que os soldados de Sakai, massacrando os marinheiros francezes
que encontravam, julgavam ter cumprido um dever grato ao soberano e util
para a patria. Illudiam-se. A resposta ás energicas reclamações das
auctoridades francezas foi a condemnação á morte de todos os culpados,
que eram vinte. Como guerreiros, não bandidos, foi-lhes concedido como
graça o _hara-kiri_, isto é, a morte honrosa, devendo cada qual rasgar a
propria carne a punhaladas.
[Figura]
Foi escolhido para a cerimonia Myokokuji, um templo de Sakai, e em 16 de
março teve logar o supplicio. Passou-se então um espectaculo tremendo,
não de tristeza, antes uma festa de sangue, de morte, que excede a
comprehensão dos homens europeus. Enchia o recinto do templo a multidão
dos officiaes do imperio, das auctoridades francezas, das testemunhas,
dos amigos, dos bonzos, dos curiosos, vistosa em côres, em bellos
uniformes, em garbo e fidalguia; e, um por um, por seu turno, veio
apparecendo cada condemnado, todo vestido de lucto, de alvas vestes,
ajoelhou no solo, curvou-se em reverencias, saudou a multidão, recebeu
solemnemente o curto sabre de etiqueta, cravou-o até aos copos nas
entranhas, rasgou as carnes com mão firme, tingiram-se as vestes de
escarlate, jorrou o sangue sob uma urna proxima, a fronte crispou-se
pela dôr, a côr fugiu da tez, o corpo pendeu inerte, para a frente...
Minamura Inokichi Minamoto no Motoaki, de vinte e cinco annos, escreveu
no seu ultimo momento de vida uma curta poesia, que era
assim:--«Condemnam me; não discuto a minha morte; servirá ella de
pretexto á justiça do futuro, que decidirá se, para honra da patria,
devem ser expulsos os barbaros.»--Nishimura Saheji Minamoto no Ujiatsu,
de vinte e quatro annos, escreveu o seguinte:--«Não me pesa o morrer, a
vida passa como o orvalho desapparece com o vento; uma coisa me
afflige:--o futuro da patria»--Ikegami Iasakichi Fujiwara no Mitsunori,
de trinta e oito annos, escreveu o seguinte:--«É preciso alumiar o
espirito da nação; para isto abandono o corpo ao meu paiz;»--este,
quando as entranhas lhe caíram, fez menção de atiral-as á cara dos
francezes. Oishi Jinkichi Fujiwara no Yoshinobu, de trinta e oito annos,
escreveu o seguinte:--«Façamos hoje o sacrificio da vida, com o maior
respeito, pois somos todos filhos d'este paiz dos deuses.»--Sugimoto
Shirogora Minamoto no Yoshinaga, de trinta e quatro annos, escreveu o
seguinte:--«Sinto o coração feliz pela agonia que soffro, ao dar a vida
pela patria;» este, por um gesto respeitoso, offereceu as entranhas aos
francezes. Katsugase Saburoku Taira no Ioshihaya, de vinte e oito annos,
escreveu o seguinte:--«Ninguem póde abalar no animo d'um _samurai_ o
sentimento que tributa ao seu senhor.»--Iamamoto Tetsusuka Minamoto no
Toshiwo, de vinte e oito annos, escreveu o seguinte:--«Muitos condemnam
a alma do _samurai_; pensarão de outro modo aquelles que bem a
conhecem.»--Morishita Mokichi Fujiwara no Shigemasa, de trinta e nove
annos, escreveu o seguinte:--«Abramos o caminho aos ignorantes, a fim de
alumiar o mundo.»--Kitashiro Kensuke Minamoto no Katayoshi, de trinta e
seis annos, escreveu o seguinte:--«Para legar o seu nome á posteridade
ha um meio: o sacrificio da vida.»--Inada Kwannoyo Fujiwara no
Norashige, de vinte e oito annos, escreveu o seguinte:--«Os japonezes
não temem de perder a vida; tambem a cerejeira, rainha das arvores pelas
suas flôres, perde um dia essas flôres.»--Yanagase Tsuneshichi Fujiwara
no Yoshiyoshi, de vinte e seis annos, escreveu o
seguinte:--«Sacrifiquemos aqui as nossas vidas, e mostremos aos
estrangeiros o que vale a nobre coragem japoneza.»--Contando bem, são
onze já. Parou aqui a scena, porque o commandante do _Dupleix_, notando
já onze mortos para expiação dos onze crimes, deu-se por satisfeito,
pediu que cessasse aquelle espectaculo assombroso. Dos _samurais_
perdoados, um suicidou-se em breve trecho, dando de barato a graça pela
honra de morrer com os seus; os outros dispersaram-se; vive um ainda
hoje, presumo que em Nagoya, um interessante velhinho, que reconta de
bom grado as peripecias d'aquelle horrivel drama.
Os onze _samurais_ foram alli mesmo enterrados, no cemiterio, junto ao
templo. Ainda ha pouco lá estive. O templo é um placido retiro de sombra
e de silencio, tam velho, que ha alguns mezes um rijo vendaval quasi o
desfez em pó.
Os peregrinos visitam primeiro um jardim interior, onde uma arvore
sagrada, um enorme sagueiro, occupa o espaço todo, lançando em volta as
suas palmas verdes. A lenda dá-lhe mui longos annos de existencia, e
reza que ha quasi quatro seculos o shogun Nobunaga tanto se agradou
d'aquella arvore, que mandou arrancal-a e transportar para um dos seus
jardins; mas tanto se mirrava o sagueiro, e tanto se lamentava noite e
dia, que não houve remedio senão trazel-o de novo ao velho poiso.
Do jardim, passa-se ao pequeno cemiterio. As sepulturas, apresentando a
fórma de cubos de granito, aconchegam-se, agrupam-se n'uma intimidade
commovente; por entre as pedras, tufam e florescem as azaleas e verdejam
os musgos, e mãos piedosas vêem depôr ramos de flôres e de verdura.
Entre estas sepulturas contam-se as dos onze _samurais_. Mais adeante,
as urnas de charão que serviram ao supplicio, alinham-se n'um altar, e
ainda se distinguem manchas negras, do sangue derramado.
* * * * *
Como eu dizia ha pouco, os annos passaram sobre os factos e esfriaram os
rancores. N'estes dois cemiterios, de Kobe e de Sakai, nem já existe
sequer o pó dos ossos, existem só legendas. Em Kobe, as onze sepulturas
evocam no espirito esse periodo de frenesi da Europa, de curiosidade, de
cubiça, em face da morna inercia d'este canto do mundo; e as esquadras
que o devassam, que o visam com os canhões; e os diplomatas que
intrigam, que teimam, conduzindo o finalmente, á força, ao convivio das
nações; e, como peripecias infimas, quasi olvidadas e não pesando na
marcha progressiva dos negocios, o sacrificio inglorio de alguns
humildes obreiros d'essa empreza... Em Sakai, as onze sepulturas
rememoram a desesperada resistencia d'uma tribu feliz, contra aquelles
que vinham arrancal-a aos seus sonhos amorosos, rasgar-lhe a lenda e a
crença, e bradar-lhe que ser-se assim ditoso, já não é permittido.
Pobres mortos! abraço com um mesmo olhar d'alma, enternecido, as vinte e
duas campas...
1900.
[Figura]
O ESPELHO DE MATSUYAMA
Ás Filhas de Carlos Campos
Viveu ha muito tempo no Japão um feliz casal de gente rustica, modelo de
virtudes conjugaes; eram elles, os dois, e uma filhinha, o seu encanto.
O povo varreu já da memoria os nomes d'essa gente; não admira, quando se
pense que tantos seculos passaram. Indica-se apenas o logar,
_Matsuyama_, que quer dizer _Montanha dos pinheiros_, na provincia de
Echigo. Esta ligeira indicação basta para que imaginemos o scenario:
serranias, pinheiraes, succedendo-se a serranias, pinheiraes; a terra, a
rocha, fôfas de musgos, de fetos, de herva brava; covôes, precipicios,
cachoeiras, por onde a agua golfa, espuma e rumoreja; pios de corvos e
hymnos de cigarras; raros caminhos serpeando, calcados pelas sandalias
dos que passam; e aqui, e alem, alguma humilde cabana de aldeões, de
barro e colmo, aonde a vida intima, após as horas de labuta, desliza em
longos repousos sobre a esteira, em simplicidades primitivas, em face da
grande paz da scena agreste, e do azul sem fim dos largos horisontes.
N'uma d'essas cabanas vivia o casal a que alludi.
* * * * *
[Figura]
Ora, aconteceu uma vez que negocios muito graves chamaram o marido á
faustuosa cidade, á capital de todo o imperio. Figure-se o alvoroço e o
reboliço na choupana. Em coisas de viagem, a experiencia da esposa
resumia-se ao trilho que seguíra raras vezes, em duas horas de caminho,
do seu lar ao logarejo mais visinho. Alanceavam-n'a agora varios sustos,
acudiam-lhe ao espirito não sei que perigos e trabalhos, maleficios dos
genios das florestas, mil revezes a que se ia expôr o companheiro... Por
outro lado, envaidava-se com a idéa de ser elle o primeiro do logar que
ia vêr por seus olhos a mansão da côrte e do soberano, e contemplar as
grandes maravilhas que lá por certo havia. Ella ficava; ella tinha a sua
pequerrucha e o cuidado do lar; e, embora mordida de saudades, devia
resignar-se aos deveres do seu mister, e aos anceios d'aquella dura
ausencia.
E que terna que foi a despedida!... Beijos e abraços não se deram,
porque os japonezes não dão nem beijos nem abraços; lagrimas não
correram, porque os japonezes nunca choram; mas fôram tantas as mesuras
e tantos os sorrisos, e tam longa a ultima palestra, elle promettendo
voltar breve, ella prodigalisando mil conselhos, que era mesmo um regalo
contemplar casal tam meigo e tam feliz!...
E lá foi o marido.
* * * * *
[Figura]
Passaram-se semanas e semanas; para encurtar razões, annuncia-se agora o
regresso do sujeito. É vêl-a então, a cirandeira, ora varrendo, ora
lavando ora arrumando, dispondo a choça em festa para a ditosa hora da
chegada. É a pequenita certamente que mais cuidados lhe merece: o
_kimonosinho_ de crepe de seda preciosa, a faixa da cintura, a flôr para
o cabello, tudo novo, tudo fresco, tudo lindo, se põe de parte, se
examina; e os dedos finos da maman, em curvas adoraveis, saltam, vôam,
aqui alizam pregas, alli compõem laços, com habilidades unicas,
prodigiosas; convem saber que não ha mãos mais bonitas e mais destras do
que as mãos das japonezas, nem mães mais carinhosas do que estas mamans
do Dai-Nippon. Ella propria, a maman, tambem cuida de si, não se furta
aos adornos, não por arte talvez, por instinto do sexo; e eil-a enfiando
os pés nús em grandes soccos novos, de charão negro e luzente, e
estreando um _kimono_ catita, azul e branco. E lá vão ellas, as duas,
certo dia, trilhos fóra, tic-tac, tic-tac, ao encontro do homem.
* * * * *
Ai, que jubilos, ao toparem com elle são e salvo, todo chibante,
bamboleando-se no seu passo vagaroso, para mais prolongar tam doce
transe!...--«Bons dias, senhor marido! Bons dias, senhor meu pae!»--e os
corpos agaxam-se em mesuras, e as cabecitas vão quasi tocar o chão do
campo. E como a pequerrucha bate as palmas, e se lhe accendem os
olhitos, quando elle logo alli lhe quer vasar no regaço a caixa de
bonecos que comprára, carretas de madeira, raposas de pellucia, uma
viola, minusculos apparelhos de cosinha e muitas outras maravilhas!...
Elle promette entreter dias inteiros, só com a narração do que seus
olhos viram: theatros regorgitando de _musumés_, vestidas como deusas;
principes em comitivas resplendentes, passeando em liteiras de charão, e
o povo prostrado a adoral-os pelas ruas; serenatas nos rios, barcos
vogando a transbordarem de mulheres e enfeitados com balões, gemem as
cordas das violas e estalejam nos ares foguetes de mil côres; templos
gigantes e enormes sinos badalando; palacios cheios de luxo; jardins
cheios de flôres; e por toda a parte a immensa multidão, de velhos, de
rapazes, de meninos, feliz, risonha, pachorrenta; e a immensa industria
dos bazares, charões, oiros, sedas, porcellanas, adornos sem conta nem
medida, tudo digno de ir adornar mansões de fadas, no mundo das
chimeras!...
O marido passou depois ás mãositas da esposa, tremulas de emoção, um
bello cofre de madeira branca, cuidadosamente fechado, e disse-lhe
isto:--«Não me esqueci de ti, como estás vendo; trago-te uma coisa muito
linda, que tu de certo não conheces, um espelho, um _kagami_, como lhe
chamam na cidade.»--Ella então, abrindo o cofre, observou a offerta; era
um grande disco de metal, com o seu cabo, tendo uma face prateada, com
relevos de folhagem de bambu e vôos de cegonhas, e a outra face limpida
e brilhante como um puro crystal.
É bom saber-se que, sendo a industria do vidro recentissima no Japão, só
ha mui pouco tempo aqui se conheceram os espelhinhos reles da industria
occidental; nos velhos tempos, os espelhos do paiz eram metalicos, de
preciosa liga e artistico trabalho, objectos caros excluidos, do lar dos
aldeões; de sorte que é presumivel, dada a simplicidade de alma da pobre
gente rustica de então, que as bellas ignorassem que eram bellas, por
nem no espelho da agua das ribeiras se mirarem. Mas vamos nós á
historia, excluindo divagações que pouco interessam.
Dizia o marido á companheira:--«Olha bem para a face brilhante d'este
espelho e conta-me o que vês.»--Ella era toda olhos, toda surpresas,
toda extasis; e respondeu por fim que via o rosto de uma mulher muito
gentil, com um oval de enfeitiçar, com uns olhinhos negros muito doces,
com uma rubra boquinha de cubiça. Disse mais que essa mulher não cessava
de fital-a; e se ria, a mulher ria; e se fallava, os labios da mulher
acompanhavam-n'a no gesto; e, para cumulo de estranheza, vestia um
_kimono_ azul e branco, igual ao seu, que ella trazia... O marido
sorria-se, já com uns ares de doutor, que da viagem lhe provinham; e foi
benevolamente convencendo-a de que essa mulher era ella mesma, e que o
espelho, por um mysterio que elle não sabia explicar, apenas reproduzia
a sua imagem, os seus encantos proprios; lá na cidade, muitas raparigas
possuiam espelhos como aquelle, e n'elles se viam e reviam, ora compondo
as voltas do cabello, ora pintando os labios de escarlate, ora por mero
passatempo de se acharem bonitas, as garridas. A esposa ficou então
louquinha com o presente; e... diga-se toda a verdade: cheia de orgulho
de si mesma, por se vêr tam catita, tam fresca, apetecivel. Fôram
semanas e semanas votadas a esse enlevo, a mirar-se, a namorar-se--quem
não lhe relevará essa vaidade?--até que finalmente convenceu-se de que
um espelho era joia preciosa de mais para servir todos os dias, alli na
choça núa, na solidão dos bosques; assim se explica o caso de ter elle
ido parar dentro de uma gaveta, esquecido de mistura com as velhas
reliquias da familia.
* * * * *
E vão passando os dias, os mezes e os annos. A felicidade bafeja
constantemente aquelle lar. A grande alegria do casal é a filha, que
cresce em mimos, tornando-se a verdadeira imagem da maman, e como ella
submissa, e como ella affectuosa, e como ella activa na labuta. Vaidades
de mulher, que tanto prejudicam no futuro as raparigas, não as tinha; e
deve aqui prestar-se inteiro applauso á previdencia da maman, que em
lembrança dos seus caprichos de outro tempo, passageiros, nunca á
mocinha confiou o espelho, velha joia sem uso, esquecida na gaveta.
* * * * *
E vão passando os dias, os mezes e os annos. Muitos annos. A mãe, uma
velhinha com a alvura da neve por côr dos seus cabellos, jaz prostrada
na cama, sem forças, moribunda; a filha, junto d'ella, multiplica-se em
cuidados, anima a triste enferma.
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A custo, diz a velha:--«Sinto que morro, vae-me fugindo a luz dos olhos.
Vou deixar-te, e o nosso velho amigo. É isto que me pesa; cheguei a
persuadir-me de que este nosso bem não tinha fim. Por ti, tam só que
ficas, receio muito, filha: o mundo é um grande mar, cheio de escolhos e
de perigos...»--E deteve-se e pôz-se a meditar por muito tempo, passando
pela fronte os dedos descarnados; então, um pensamento lhe acudiu, uma
d'essas travessuras de velha que só redundam para o bem, e proseguiu
d'esta maneira:--«Olha, tenho uma idéa: toma este espelho, este objecto
milagroso que veio de muito longe; e jura-me que uma vez em cada dia e
uma vez em cada noite, o irás vêr. Eu te apparecerei então, no mesmo
espelho; e assim, na minha companhia, terás mais animo na vida, mais
força nas angustias, mais tento com as indecisões da juventude e com os
males que te rodeem.»--E a filha jurou isto; e a velha deixou-se morrer
serenamente, resignada, sorrindo á paizagem verde, sorrindo ao sol
festivo, que investia em faixas de ouro pela casa...
* * * * *
A _musumé_ cumpriu attentamente o juramento. Por esta forma percorreu a
via da existencia, tranquilla, sempre assistida pela mãe, que nunca
cessou de apparecer-lhe, quando, nas mãos piedosas sustinha o espelho
milagroso. Não era da moribunda, livida, prostrada em agonia,
desfallecendo pouco a pouco, a doce apparição; era a maman gentil, de
outros tempos, cheia de louçanias e sorrisos. Achava-se com ella n'um
placido convivio sem reservas, com ella palestrava, a ella confiava os
seus segredos, os seus sobresaltos de donzella; e n'aquella face pura
bebia conforto e recompensas.
O velho algumas vezes surprehendeu a filha com o espelho entre as mãos,
sorrindo, murmurando singellas confidencias. Pareceu-lhe estranho o
caso; e ia um bello dia notar-lhe o disparate, quando a moça lhe fez uma
pergunta, por onde avaliou a chimera amorosa com que ella ia embalando o
pensamento.--«Repare, senhor meu pae: não vê no espelho a minha
mãe?...»--O que o velho via claramente, era a imagem da filha, que alli
tinha junto de si em carne e osso,--e que carne! e que osso!--palpitante
de vida e gentileza... mas julgou mais prudente conserval-a sob o
prestigio da illusão; e, franzindo muito o rosto, de rude pergaminho,
sem que se percebesse se ria ou se chorava, ou se ria e chorava ao mesmo
tempo, fez côro com ella, assegurando que sim, que via a santa mãe, e
tam bella, e tam fresca, como no dia do noivado...
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1900.
AMÔRES...
A J. Godinho de Campos
Uma impressão de Macau.
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O que faria aquelle bando de leprosos, que a policia da colonia
surprehendeu e agarrou? O que faria aquelle bando de leprosos, além no
meio do rio, sobre um miseravel barco, pela noite velha, tenebrosa e
fria, ora pairando e deslisando ao grado da corrente, ora remando manso,
de margem para margem, em vigia?...
Elles eram uns ossudos filhos das aldeias, dando-nos de longe uma
impressão de robustez de musculos, de gente affeita á enxada e á vida de
lavoira. Vistos de perto, resaltava horrivelmente o ferrete de peçonha
do seu sangue; eram indiscriptiveis seres inuteis, abjectos, quasi sem
mãos, quasi sem pés, porque os dedos lhes iam caindo podres aos pedaços;
rostos medonhos lavrados pelo mal, sem narizes, com os beiços roidos,
com as faces chagadas; ainda mais sinistros pela infamia estampada nas
feições e nos olhares, denunciando perversidades de alma de infimo
quilate, por certo derivadas da suprema degradação do seu viver. Vestiam
farrapos immundos, sem fórma definida e sem côr reconhecivel; e
escondiam as frontes, talvez envergonhadas, sob as abas enormes dos
chapeus de rota, em uso nas aldeias.
Pescavam? por aquellas horas da noite e n'aquelle paradeiro, não era
admissivel esta supposição; nem no misero barco, onde se amontoavam
alguns trapos, se deu fé de anzoes ou de outras artes de pescar.
Mendigavam? menos possivel ainda que assim fosse. A taes horas, dormem
todos, incluindo os mendigos. O rio dormia, silencioso, lugubre pelo
aspecto das suas aguas negras, dos cascos alterosos das grandes lórchas
juntas em magotes, desenhando-se vagamente junto ás margens os barquitos
em cardumes, presos ás varas de bambú encravadas no lodo. Apenas de
espaço a espaço algum raro _tanka_ atravessava d'um lado para outro,
chape-chape, remos movidos lentamente pelas mãos das raparigas
somnarentas, fartas da lida do dia,--coisa de ir levar ao seu albergue
algum retardatario, de volta do jogo ou das orgias.--Não era dos
nocturnos viajeiros, e menos dos pobres tankareiras, que o bando de
leprosos lograria um punhado de sapecas, que compensasse o esforço da
vigilia. Nem a sua miseria, realmente, era tal, que os levasse a tão
duros extremos. É certo que o leproso se encontra excluido dos povoados.
Em paragens mais rusticas, matam-n'o á pedrada, se o encontram; em
Macau, porém, a brandura dos costumes regeita em regra esta medida,
tenha embora o miseravel de viver pelos esteiros, em barcos podres, ou
sobre os lodos, escondido das gentes como um bicho peçonhento. No
entretanto, o esteiro fornece-lhe peixes vis, e caranguejos, e
molluscos, e vermes; os cäes vadios encontram de quando em quando, nos
despejos, um punhado de arroz cosido, e o leproso tambem o encontra,
como elles. Na altivez da sua pasmosa abjecção, o leproso não vem
expôr-se ao asco, ao opprobrio; sorri ao mundo com desdem, acoita-se no
antro, come immundicies, bebe agua pôdre; e os fados são-lhe bastante
complacentes em geral, para matal-os da molestia antes que arrebentem
pela fome...
* * * * *
Averiguou-se finalmente o que fazia aquelle bando de leprosos.
Aquelles infimos párias passavam a existencia isoladamente, cioso cada
qual do seu covil, dos seus farrapos, devorando sem partilha o que o
acaso lhe offerecia nos enxurros. Conheciam-se certamente, pela
visinhança dos antros, sobre a mesma vasa que se alastra na margem
fronteira á de Macau, e a fatalidade commum estabelecia de direito
affinidades, allianças tacitas de tribu, entre elles; mas, como não
carecessem uns dos outros para soffrerem, para odiarem a natureza
creadora, para jazerem no ninho da trapagem, para morrerem, não se
procuravam. Na imaginação immersa em trevas de cada um, rustica, pouco
elastica, e cultivada em ascos, em maldições, em misanthropias
rancorosas, nunca por certo passara a phantasia de vir insinuar-se na
turba, partilhar das suas distracções, relancear os festins, percorrer
os bazares, invadir os templos e os theatros. Mas na torva e lenta
elaboração do pensamento, durante os longos dias, os longos mezes, os
longos annos de isolamento e de ocio, um desejo se fôra pouco a pouco
avolumando, definindo, convertido finalmente em tortura, amargurando
como uma dôr constante e implacavel:--era a mulher, o desejo, a tortura
da mulher.--Prazeres do mundo não se queriam, nem mesmo se lhes
imaginavam os feitiços; era-se superior a essa chimera. Mas, no ambiente
acariciador da vida, em presença das arvores fructificando, das flores
perfumadas, dos animaes requestando-se, os hymnos da terra, da creação
em galas, do amor dos sexos, vinham tambem echoar n'aquelles cerebros,
electrisar aquelles nervos; a visão da mulher, durante as mornas
monotonias sem termo, aparecia como um apetite crescente, como uma fome
de carne; e os miseraveis, allucinados pela obsecação de todos os
momentos, estremeciam, erguiam-se de subito do seu leito de trapos,
arquejantes, o sangue a escaldar-lhes as frontes, o olhar em fogo...
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