Relanceêmos a chusma, nos theatros, nas feiras, nas romarias, nos

bazares? Pode dizer-se, em geral, que o typo do japonez, da sua femea, e

mais accentuadamente ainda nos obesos, ou nos magros, ou nos anões, ou

nos albinos, ou nos côxos, ou nos corcundas, ou nos leprosos, ou nos que

têem um lobinho, ou nos que têem o nariz roido, em todos aquelles em fim

em que um defeito, uma tara, sobresae, é caricatural supinamente, comico

a ponto de nos fazer morrer de rir ás gargalhadas!... Ah, maganões!

vocês, quando nos deram as imagens dos seus deuses, dos seus genios do

lar: uns pansudos, como odres; outros esqueleticos, macrabos; uns

pachorrentamente joviaes, outros terriveis, despedindo raios sobre a

terra; vocês retrataram-se a si mesmos, segurando com uma das mãos o

pincel e com a outra o espelhinho onde se viam, maganões!...

Especialisando, da multidão das ruas, essa figurinha em miniatura que

tão irresistivelmente captiva as attenções do estrangeiro, toda ella

matizes, perfumes, frescura, gentileza, a figurinha da _musumé_, da

rapariga, podemos ainda definil-a como uma caricatura, a caricatura mais

travessa, a chimera humana mais deliciosa, em que jámais olhos de

viajante se poisaram!...

Profundar o enygma do feitio moral da tribu é impossivel. Apenas

conhecemos vagamente que a vida intima desliza serena e pueril, sem

ralhos, sem exasperos, em culturas de arbustos, em contemplações dos

astros, em banhos quentes, em esmeros junto do espelho, em brinquedos

com as creanças, em debandadas pelos campos, em libações de chá, em

jantarinhos de arroz e fatias de nabos em salmoira, em sonecas

tranquillas debaixo do verde mosquiteiro protector... Mas d'esta mesma

gente expludem tambem por vezes os grandes dramas: crudelissimos

assassinios, por cegueira de ciumes; suicidios duplos, por desespero de

amor,--elle e ella cingidos n'um derradeiro abraço;--e essa horrivel

sede de sangue, o homem transformado em fera, trucidando tudo vivo que

encontra, estado de loucura conhecido entre os estrangeiros do Oriente

pela denominação de _amock_, palavra malaia ou javaneza.

* * * * *

A tribu parece ter sido feita de encommenda para o paiz exotico que lhe

foi dado em patrimonio. Percorrendo-o, estudando-o nos aspectos, melhor

se comprehende a indole estetica do povo, a alma nacional, com as suas

delicadezas, com as suas graciosidades, com os seus caprichos, com os

seus disparates; manifestações multiplices de um caracter

particularissimo de origem, mas no qual a influencia muito especial do

meio laborou tambem intensamente.

Comparando os aspectos normaes, comezinhos, que se desdobram por este

mundo fóra, com outros aspectos excepcionaes, em contraste flagrante com

a disposição commum das coisas, pergunto eu se o termo--disparate,--se o

termo--caricatura,--são permittidos, julgando a obra da omnipotente

creação? Haverá, por exemplo, um ilheo disparatado, um pinheiro

caricatural? Se permittidos são, se ha tal ilheo, se ha tal pinheiro,

então não se pode imaginar coisa mais disparatada, mais caricatural, do

que este archipelago, já disparatado de nascença, emergindo a pique e

como por encanto, do seio das aguas mais profundas do oceano, tenue,

rendilhado como uma joia em filigrana, convulsionado a todos os momentos

por mysteriosas commoções vulcanicas, zurzido por tremendos cyclones,

invadido por vezes pelas ondas enormes do Pacifico, caprichosa chimera

geologica emfim, que pode ámanhã desapparecer no abysmo, sem que por tal

se espantem muito os sabios!... Tal é o imperio do Japão.

[Figura]

A paisagem extravagante, inverosimil, inacreditavel, das porcellanas e

charões, hoje divulgada em toda a parte, é com effeito a paizagem real

d'este Japão. Collinas, penedias, verdes planices, lagos, cascatas,

torrentes espumantes, ribeiras dormentes, valles profundos, mares

interiores salpicados de ilhas e rochedos, tudo reduzido a miniaturas

graciosissimas, reunido em grupos incongruentes e projectado em fundos

de ceu estupendamente coloridos, eis o que os olhos abrangem n'um

relance.

Demorêmo-nos nos detalhes. As coniferas (algumas especies enormes)

vestem as encostas, trepam pelas ribanceiras acima, até irem coroar os

ultimos pincaros das serras. Aqui, um bosque de bambus gigantes, cuja

sombra eterna e cuja paz soturna dão allucinações áquelle que se

aventura em devassar o seu mysterio. Alli, outro bosque, de bordos, de

_momiji_; em novembro, a sua tenue folhagem digitada passa do verde

claro ao escarlate; o scenario adquire assim deliciosos exotismos

ultra-terrestres, como se a gente se achasse de repente pisando o solo

de Marte ou de Saturno. A semente do acaso caiu sobre uma pedra á flôr

das aguas; germinou o pinheiro, a rede das raizes abraça-se ao granito,

e ergue-se desamparado o tronco, torcido, contorcido pelos annos e pelas

intemperies, reflectindo no espelho glauco a sua eterna cabelleira de

verdura; ha arvores, enobrecidas ou pela vetustez ou pela forma

estranha, celebres como heroes, que são visitadas por uma multidão de

peregrinos. As ameixieiras, as cerejeiras, abundam; pela primavera,

cobrem-se de florescencias pasmosas, luxuriantes, como nunca se viu em

parte alguma; mas não dão fructo, as trapaceiras.

Nos jardins, continua a flora exotica, desconhecida. Trepa, por onde

pode, a _asagao_; e abre á alvorada, por curtas horas, as suas frescas

campanulas, de qualquer côr, porque as variedades não se contam, são

milhares. Desabrocha a peonia, enorme, paradoxal. E enfileiram as

chrysanthemas, a flôr nacional, sob tendas que as abrigam do sol,

podendo lembrar cortezãs em exposição nos bairros de prazer, pela

extravagancia das côres e dos feitios, que recordam a confusão

polychroma dos vestidos e dos penteados das mulheres; mas que realmente

se assemelham a enormes actineas, monstros dos mares, multiplicando-se

em mil tentaculos contorcidos, brancos, amarellos, rosados ou

sanguineos.

Agora a fauna. Pelo espaço, negrejam bandos de corvos, os _karasu_,

escarninhos, voando e rindo ás gargalhadas. Enormes borboletas pretas,

nunca vistas, sugam as corollas. De dia, de noite, é incessante o ruido

das cigarras, dos grilos, de outros bichos. Noites ha, pelo estio, junto

ás ribeiras, em que uma chuva de fogo, de pyrilampos aos myriades,

motiva festas ruidosas. Nos lagos dos jardins vagueam peixes de oiro,

com os olhos a estoirarem, com as caudas esfarrapadas e rojantes, como

se fôssem longos capotes de mendigos. Junto da casa de papel toma o sol,

cantarola o gallo anão, do tamanho d'uma pomba; e á porta assoma o gato

indigena, esqueletico, rabugento, sem rabo... porque todos os gatos no

Japão nascem sem rabo; ou é o cão que ladra, o _chin_, verdadeira

caricatura de cão, com os olhos esbogalhados a saltarem-lhe das orbitas,

sem nariz, a cauda em pluma, parente degenerado de qualquer monstro de

epochas remotas, hoje extincto.

* * * * *

[Figura]

De sorte que todo este Nippon,--arte, povo, paizagem, planta e bicho,--é

uma deliciosa mascarada. Como fazer sentir isto a quem o não conhece,

depois de ter escripto o que escrevi, e de concluir que nada escrevi do

que me vae no pensamento? Olhem: fixem um espelho espherico, ou

cylindrico; o aspecto das formas reflectidas é uma interminavel surpreza

hilariante, de caretas supinas, de linhas torturadas; pois tal é o

aspecto do Japão...

* * * * *

Todos sabem como a caricatura, pelo desenho e pela escripta, exerce nas

sociedades uma influencia decisiva. A pintura e o livro humoristicos

subjugam a attenção e imperam no espirito com intensidades unicas,

alheias ás outras formas de arte. Porque? Fôra difficil explical-o aqui.

É certo que a ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza

um defeito, aponta um ridiculo, sublinha uma virtude. As coisas

triviaes, taes como as conhecemos, passam desapercebidas ou esquecem

brevemente; o exaggero, pelo contrario, fica, grava-se a estylete na

memoria. Viu-se hoje um bom retrato d'um sujeito, de Balzac, de

Bonaparte, se quizermos; amanhã nada restará no pensamento; mas, se foi

relanceada a caricatura, fica a summula cá dentro, uma reminiscencia

pertinaz do traço phisionomico (e mais do que isso) do individuo. Seja

como fôr e por que fôr, é hoje indiscutivel que a caricatura representa

um meio altamente poderoso de impressionar os homens; estude-se-lhe os

effeitos, por exemplo, na polemica dos principios, onde ella vale pela

mais possante picareta demolidora das instituições, dos thronos e das

crenças, rasgando a estrada nova por onde investem os partidos

avançados.

Estando isto assente, imaginem agora um paquete, despejando em qualquer

caes japonez um bando de loiros estrangeiros. Elles todos, os lorpas,

têem nos rostos essa feição anodina das cabeças, que é uma das formas de

belleza mais frequentes nas raças europeas; e a julgar pelo olho azul,

de porcellana, sem expressão, sem alma, póde admittir-se que lá dentro

da casca não ha senão pevides em guisa de miolos.

[Figura]

Mãos rudes, vermelhas, cabelludas, pés enormes;--estigmas de um

temperamento avesso a coisas de arte e a todas as delicadezas do

sentir.--Emparelham pelas manifestações do gosto: vestidos todos de

alvadio, côco no cocuruto da cabeça, sapatos amarellos e ramosinho na

carcela. Como entidades prestantes, embora talvez não prestem para nada,

uns são sabios, outros são navegadores, outros são diplomatas, outros

possuem manhas maravilhosas de balcão; mas--coitados!--em todos se

acoberta o microbio desvastador, oriundo dos grandes centros, nascidos

da podridão da descrença, do egoismo, da inveja, da cubiça e da

misanthropia; e na face e nos gestos alguma coisa já assoma do mal de

que enfermaram. Alguns dão o braço a outros sujeitos sem bigode, com

grandes mãos vermelhas igualmente, e enormes pés calçando sapatos

amarellos; usam bengala, collarinho alto de bretanha, gravata, tunicas

em forma de campanula, uma alcofa á cabeça, cheia de hervas, de aves e

de fitas:--são as damas--.

Os pobres forasteiros vêem-se assim de improviso e de surpreza no meio

exotico entre todos, requintadamente artistico, caricatural e

sorridente, que é todo este Japão. Dominados pelos aspectos, allucinados

pela iniciação imposta, riem tambem, e julgam tambem sentir a

graciosidade indigena e a gentileza dos scenarios. Eil-os que cruzam as

estradas e os trilhos das montanhas, seguem em caravanas numerosas a

visitar os logares celebres, encorporam-se nas romarias, entram nos

templos e entram nos theatros, bebem chá japonez, e até, burlescamente

ajoelhados, engolem o arroz cosido e deliciam-se no peixe cru que as

creadinhas vão servindo.

[Figura]

Oh, a paisagem japoneza! Como ella é encantadora e fresca, estranha,

paradisiaca!... e como aqui o pensamento se dilata, n'um longo divagar

sereno e amoroso, tão distincto das preocupações sombrias que alem, na

Europa, azedam a existencia!... Mas não sei quê da alma asiatica,

subtilmente motejador e sarcastico, subtilmente intolerante, paira aqui,

emana da coloração e da forma das coisas, do grito dos animaes, do gesto

e voz da gente; não se define, mas existe, hostilisando em tudo o pobre

intruso. É como que uma exhortação continua e impertinente do Buddha e

dos deuses tutelares, murmurada a todos os instantes:--«Vae-te, volta á

terra dos loiros; contempla os teus deuses, visita os teus templos,

recrea-te nos teus salões, bebe o teu whisky e soda; mas deixa em paz

este solo, que não é teu, que te detesta; e onde, para assimilares a

harmonia da creação e o sentimento nacional, precisas de uma fluidez de

espirito e de uma serenidade de consciencia, que te faltam!...»--

Cedo ou tarde, ámanhã, em dois mezes, em dois annos, o homem loiro

enfastia-se, compenetra-se da fatalidade dos destinos, que crearam o

Japão para os japonezes. Uns desertam, e fazem n'isso muito bem; outros

ficam. Nos que ficam, o desgosto pela terra do exilio enraiza, alastra

como uma lepra corrosiva.

[Figura]

O desgosto, nas mulheres, crystallisa brevemente em odio, um odio

desesperado, sem treguas; explicavel pela maior vibratilidade dos nervos

no sexo, pela vida ociosa, e tambem, e principalmente, pelo penoso

confronto com a mulher indigena, cujo fresco perfil e requintado tacto

femenil são uma provocação terrivel aos seus meritos. A mascarada eterna

japoneza, a despreocupação, o riso chronico, os traços caricaturaes de

todos e de tudo, os dichotes zombeteiros dos gaiatos,--«ijin, ijin!»

estrangeiro, estrangeiro!--tudo irrita, bellisca redunda por fim n'um

supplicio insuportavel, que nêm respeita o lar, entrando mesmo pelas

janellas dentro como um exame de mosquitos. Triste lar, tantas vezes!...

Junto da familia do sr. Fulano, seja qual for a sua nacionalidade e

situação, contae como provavel um hospede permanente,--o

aborrecimento.--A embriaguez, a dissipação, a quebra fraudulenta, o

roubo, o suicidio, o adulterio, o assassinio, todos os desmandos de uma

sociedade incongruente, succedem-se nas pequenas colonias europeas do

Japão com uma triste frequencia, eloquentissima!...

1900.

DOIS CEMITERIOS JAPONEZES

A V. Almeida d'Eça

Pelos fins de dezembro, em vesperas de Natal e de Anno-Bom, encontrei-me

um bello dia, sem bem saber porque, vagabundeando no cemiterio dos

europeus em Kobe, o velho. O velho, porque ha um cemiterio novo que se

estreou ha pouco tempo, e onde até agora se reuniu coisa de meia duzia

de inquilinos; está este situado longe da cidade, n'um declive de

collina, amplo, com bellos horisontes em redor. O velho, de acanhadas

dimensões, enchera-se de moradores em uns trinta annos de exercicio, e

foi por tal razão posto de parte.

O velho cemiterio fica em plena cidade, para as bandas de oeste e cerca

dos edificios da alfandega, quando começa um bairro sujo, de fabricas,

de armazens, que povôa uma misera ralé de carregadores e de mendigos.

Encerrado entre as altas paredes de tijolo vermelho de enormes depositos

de mercadorias, sem outro horisonte, com pouco ar, com pouca luz, humido

e ermo, é bem triste este canto; até, se não me illudo, os vetustos

pinheiros que o arborisam, testemunham pelo verde escuro e estorcimentos

convulsos das ramadas, alguma coisa da desolação que aqui impera sobre

tudo.

[Figura]

* * * * *

Hoje, que é um domingo, acolá, a curtos passos, sobre a relva do parque

publico, a chusma dos caixeiros--inglezes, americanos, allemães,--a

chusma cosmopolita, em mangas de camisa, sem chapeu, berra, corre,

esbraceja, espernea, joga o _tennis_, o _fout-ball_. Mais alem, pelas

ruas de trafego indigena, presumo magna enchente, bazares em festa, povo

em barda, entre japonezes e estrangeiros. D'estes ultimos, são

especialmente as damas que mais se alvoroçam com a proximidade do

_christmas day_, e que afanosamente percorrem a cidade, em carruagens,

em _jinrikshas_, a pé--a pés... e que pés!...--enfiando pelas lojas,

mercadejando bonecas, quinquilherias, guloseimas, as mil e mil

frivolidades que vão constituir os fructos d'essas estupendas arvores de

Natal, préstes a surgirem nos salões. Pobre natal! N'estes paizes

exoticos, de ganho e de aventura, as festas particulares da familia

europea perdem em regra a sua feição de severidade tocante e amorosa,

para se transformarem n'um simples _sport_, irritante, massador,--fallo

por mim,--mero pretexto para ostentações, dissipações e mexericos, a

caterva de todos os symptomas da morbidez do exilio. Para o povo

japonez, o impulso é bem outro: o dia de anno novo é a festa principal

de cada anno, a unica para muitos; religiosa, emocionando a alma

indigena, levando a turba aos templos a dar graças aos deuses pelas

prosperidades realizadas, e a implorar novas fortunas: intima, de

familia, preceituando o doce dever das saudações aos parentes e aos

amigos; ninguem trabalha, veste-se fato novo, enfeitam-se os altares e a

casa toda; por isto, com louvavel antecipação se compram nos bazares os

pequeninos nadas que vão ornar o lar, e os bolos de arroz, e o córte de

fazenda, e a flôr para o cabello, coisas de que não prescinde a mais

modesta familia de lavrador ou de operario, n'aquelle dia abençoado.

* * * * *

No sitio onde me encontro a quietação é plena, em contraste com o que

palpita lá por fóra. É positivo que os mortos não festejam o Natal...

nem eu tam pouco, poderia accrescentar, desde mui largos annos de

bohemia, sem lar e sem familia. Pesa aqui, no cemiterio, mais duramente

por certo do que em outro logar, a aspereza de um triste dia de inverno,

sem sol, sombrio e humido; paira no ar uma poeira levissima de neve, que

mal se vê, mas fere o rosto como picadas de alfinetes; de quando em

quando, uma rajada fresca sacode a rama dos pinheiros, corta o silencio

então um vago murmurio de folhagem,--da folhagem sem duvida, mas que

acaso poderia parecer o palrear dolente dos mortos uns com os outros, de

cova para cova...--

[Figura]

Vou vagueando, com passos e em espirito. Estou só, ou quasi só; ha pouco

dei fé, por entre as sepulturas, de uma velha japoneza, guarda do

cemiterio, que ia apanhando do chão alguns cavacos. Vou lendo os

epitaphios, estudando a botanica tumular nos arbustos plantados e nos

musgos espontaneos, lançando um olhar condoïdo ás corôas murchas, que

aqui e ali se encostam ao marmore das lapidas, pobres corôas queimadas

pelo sol, rasgadas pelo vento, roïdas pelos vermes, polluidas pelo pó, e

em pó se desfazendo... N'este gremio de mortos abundam os padres e os

missionarios de todas as seitas e de todos os paizes; varios pilotos dos

mares do Japão, capitães, tripulantes de barcos; gente de negocio; e a

mais uns pobres nomes obscuros de mulheres e de creanças, sem titulos

nem historia. Aqui deparo agora com um nome de portuguez, Felisberto da

Cunha, da Figueira, que morreu com quarenta annos, e a esposa (uma

japoneza) lhe mandou erigir o mausuleo.

* * * * *

De trilha em trilha e de tumulo em tumulo, eis-me em frente do monumento

tumular dos marinheiros francezes assassinados em Sakai. Lugubre

historia; e aqui, n'este Japão da grande hospitalidade e da notoria

cortezia, impressiona por estranha e quasi inverosimil. Pois foi bem

verdadeira. Ha mais de trinta annos, por um dia de março, uma lancha a

vapor da corveta _Dupleix_ aguardava na praia de Sakai a volta de alguns

officiaes, que haviam descido á terra e seguido para Osaka; passa

casualmente um troço de tropas do Mikado, _samurais_ da provincia de

Tosa; e sem provocação, sem um leve pretexto, fazem fogo sobre os

marinheiros, matam onze. São os onze tumulos d'estes martyres, d'estes

miseros camaradas (porque eu sou como elles marinheiro), que agora

contemplo.

Sobre tres degraus de pedra alça-se uma alta cruz; e aos lados, cinco

por banda, e o aspirante á frente, como se estivessem na tolda da

corveta em formatura, estão os onze corpos, estão as onze lages,

aquelles desfeitos em pó seguramente, estas ennegrecidas pelo tempo e

pela lepra dos lichens resequidos... pois não se esqueça que ha mais de

trinta invernos vae durando a triste formatura. Sobre a cruz leio o

seguinte:--«_À la memoire des onze marins de Dupleix, massacrés à Sakai

le 8 mars 1868. Requiescant in pace._»--_Massacrés!_ massacrados! Como

isto é destonante n'este solo, no _Dai-Nippon_ das paizagens amorosas e

do sorriso perenne nos rostos dos que passam!...

Vou lendo seguidamente as inscripções dos tumulos:--«_Ci git Guillon,

Charles Pierre, aspirant de 1^{ère} classe, agé de 22 ans. Priez pour

lui.--Ci git Boulard, Vincent, matelot de 3^{ème} classe, agé de 21 ans.

Priez pour lui.--Ci git Nonail, Jean Mathurin, matelot de 3^{eme}

classe, agé de 25 ans. Priez pour lui.--Ci git Condette, François

Désire, matelot de 3^{ème} classe, agé de 24 ans. Priez pour lui.--Ci

git Lemeur, Gabriel Jacques Marie, quart.^r m.^{tre} de manoeuv.^{re} de

1^{ere} classe, agé de 29 ans. Priez pour lui.--Ci git Savie, Jacques,

matelot de 3^{eme} classe, agé 23 ans. Priez pour lui.--Ci git Humet,

Arséne Florimont, matelot de 3^{eme} classe, agé de 24 ans. Priez pour

lui.--Ci git Langenais, Auguste Louis, matelot de 3^{eme} classe, agé de

22 ans. Priez pour lui.--Ci git Bobes, Lazare Marie, matelot de 3^{eme}

classe, agé de 22 ans. Priez pour lui.--Ci git Modest, Pierre Marie,

matelot de 2^e classe, agé de 26 ans. Priez pour lui.--Ci git

Grunenberger, Victor, ouvrier chaufeur de 3^{eme} classe, agé de 24 ans.

Priez pour lui._»--A ladainha é longa, como vêem; e bem commovedora,

quando se attenta nas idades. Onze rapazes; quadra de illusões, de

amores, de esperanças. O mais velho do grupo teria hoje os seus sessenta

e dois annos, se fosse vivo; de sorte que todos estes pobres moços

poderiam muito bem gozar ainda agora da doce alegria de viver, se o

destino lhes fosse menos duro: o aspirante vestiria provavelmente a sua

farda de capitão de mar e guerra, chapada de veneras; e os marujos

estariam talvez com a sua baixa, na aldeia patria, em descanço, a vêrem

o mar por um oculo, rodeados de filhos e de netos... Ah! barbara cafila

de soldados japonezes!...

A gente póde recompôr em pensamento a scena da praia de Sakai. Uns

bellos loiros, rosados como pecegos, robustos como jovens Hercules.

Riem, brincam, cantam, pisando a fôfa areia. É um bando de irmãos, todos

da mesma idade, tratando-se por tu, passando de mão em mão a bolsa de

tabaco, e até de bocca para bocca o cachimbo de gesso fumegante.--«Olha,

Jacques! Repara, Gabriel!»--E batem palmadas nas costas uns dos outros,

e brilham-lhes as pupillas gaiatas e sagazes, apontando, em grandes

gestos rudes, para os recortes estranhos da paisagem, para os

contorcidos pinheiros que rendilham o horisonte, para as ameixeeiras em

pasmosas florescencias, para as casinhas de madeira e de papel, para as

_musumés_ em sedas, seductoras... exoticos, captivantes aspectos de um

paiz maravilhoso, que abre agora as suas portas á curiosidade do mundo

occidental, deslumbrando a imaginação juvenil d'estes pobres francezes,

habituados á monotonia do azul das longas viagens fadigosas. Consta que

os garotitos de Sakai iam affluindo á praia, e quedavam-se em volta dos

marujos, bocca aberta, espantados dos seus modos, do uniforme, das suas

feições de raça branca; e que estes com as creanças partilharam algum

pão das suas provisões. De repente, surde de algures um bando petulante,

irrequieto, multicôr pelas bandeiras desfraldadas e pelas sedas das

cabaias, e reluzente pelas armas que empunha; são _samurais_ do imperio;

o quadro é deveras interessante; os marujitos, surpresos e attentos, são

todos olhos... olhos que em breve se cerram, quando os corpos caem

inertes sobre a areia, após uma descarga de metralha... Ah! barbara

cafila de soldados japonezes!...

[Figura]

* * * * *

No meu espirito vagabundo, depois da ferocissima scena de matança, é

agora a sorte d'estes _samurais_ que relembro, e me commove. Commovem-me

assassinos? Sim; os annos fôram correndo sobre os factos e esfriaram os

rancores. Póde hoje memorar-se, sem asco, com sympathia, mesmo nos seus

transes sanguinarios, a breve lucta de resistencia que o velho Nippon

feudal, embevecido na sua lenda prestigiosa, manteve contra aquelles que

vinham despertal-o do seu sonho; e para o bando de Sakai, soldados

todos, pertencendo á nobre casta dos guerreiros, seria realmente

excepção estranha se não fulgurassem no seu animo, remindo-os do

opprobrio, as virtudes da casta--a extrema dedicação aos chefes, o

sacrificio de si proprios pela patria, e o amor por essa patria guindado

á intensidade de paixão, mais alto ainda, aos paroxismos do delirio.--

Paisagens da China e do Japão · 第 5 / 9 段