bazares? Pode dizer-se, em geral, que o typo do japonez, da sua femea, e
mais accentuadamente ainda nos obesos, ou nos magros, ou nos anões, ou
nos albinos, ou nos côxos, ou nos corcundas, ou nos leprosos, ou nos que
têem um lobinho, ou nos que têem o nariz roido, em todos aquelles em fim
em que um defeito, uma tara, sobresae, é caricatural supinamente, comico
a ponto de nos fazer morrer de rir ás gargalhadas!... Ah, maganões!
vocês, quando nos deram as imagens dos seus deuses, dos seus genios do
lar: uns pansudos, como odres; outros esqueleticos, macrabos; uns
pachorrentamente joviaes, outros terriveis, despedindo raios sobre a
terra; vocês retrataram-se a si mesmos, segurando com uma das mãos o
pincel e com a outra o espelhinho onde se viam, maganões!...
Especialisando, da multidão das ruas, essa figurinha em miniatura que
tão irresistivelmente captiva as attenções do estrangeiro, toda ella
matizes, perfumes, frescura, gentileza, a figurinha da _musumé_, da
rapariga, podemos ainda definil-a como uma caricatura, a caricatura mais
travessa, a chimera humana mais deliciosa, em que jámais olhos de
viajante se poisaram!...
Profundar o enygma do feitio moral da tribu é impossivel. Apenas
conhecemos vagamente que a vida intima desliza serena e pueril, sem
ralhos, sem exasperos, em culturas de arbustos, em contemplações dos
astros, em banhos quentes, em esmeros junto do espelho, em brinquedos
com as creanças, em debandadas pelos campos, em libações de chá, em
jantarinhos de arroz e fatias de nabos em salmoira, em sonecas
tranquillas debaixo do verde mosquiteiro protector... Mas d'esta mesma
gente expludem tambem por vezes os grandes dramas: crudelissimos
assassinios, por cegueira de ciumes; suicidios duplos, por desespero de
amor,--elle e ella cingidos n'um derradeiro abraço;--e essa horrivel
sede de sangue, o homem transformado em fera, trucidando tudo vivo que
encontra, estado de loucura conhecido entre os estrangeiros do Oriente
pela denominação de _amock_, palavra malaia ou javaneza.
* * * * *
A tribu parece ter sido feita de encommenda para o paiz exotico que lhe
foi dado em patrimonio. Percorrendo-o, estudando-o nos aspectos, melhor
se comprehende a indole estetica do povo, a alma nacional, com as suas
delicadezas, com as suas graciosidades, com os seus caprichos, com os
seus disparates; manifestações multiplices de um caracter
particularissimo de origem, mas no qual a influencia muito especial do
meio laborou tambem intensamente.
Comparando os aspectos normaes, comezinhos, que se desdobram por este
mundo fóra, com outros aspectos excepcionaes, em contraste flagrante com
a disposição commum das coisas, pergunto eu se o termo--disparate,--se o
termo--caricatura,--são permittidos, julgando a obra da omnipotente
creação? Haverá, por exemplo, um ilheo disparatado, um pinheiro
caricatural? Se permittidos são, se ha tal ilheo, se ha tal pinheiro,
então não se pode imaginar coisa mais disparatada, mais caricatural, do
que este archipelago, já disparatado de nascença, emergindo a pique e
como por encanto, do seio das aguas mais profundas do oceano, tenue,
rendilhado como uma joia em filigrana, convulsionado a todos os momentos
por mysteriosas commoções vulcanicas, zurzido por tremendos cyclones,
invadido por vezes pelas ondas enormes do Pacifico, caprichosa chimera
geologica emfim, que pode ámanhã desapparecer no abysmo, sem que por tal
se espantem muito os sabios!... Tal é o imperio do Japão.
[Figura]
A paisagem extravagante, inverosimil, inacreditavel, das porcellanas e
charões, hoje divulgada em toda a parte, é com effeito a paizagem real
d'este Japão. Collinas, penedias, verdes planices, lagos, cascatas,
torrentes espumantes, ribeiras dormentes, valles profundos, mares
interiores salpicados de ilhas e rochedos, tudo reduzido a miniaturas
graciosissimas, reunido em grupos incongruentes e projectado em fundos
de ceu estupendamente coloridos, eis o que os olhos abrangem n'um
relance.
Demorêmo-nos nos detalhes. As coniferas (algumas especies enormes)
vestem as encostas, trepam pelas ribanceiras acima, até irem coroar os
ultimos pincaros das serras. Aqui, um bosque de bambus gigantes, cuja
sombra eterna e cuja paz soturna dão allucinações áquelle que se
aventura em devassar o seu mysterio. Alli, outro bosque, de bordos, de
_momiji_; em novembro, a sua tenue folhagem digitada passa do verde
claro ao escarlate; o scenario adquire assim deliciosos exotismos
ultra-terrestres, como se a gente se achasse de repente pisando o solo
de Marte ou de Saturno. A semente do acaso caiu sobre uma pedra á flôr
das aguas; germinou o pinheiro, a rede das raizes abraça-se ao granito,
e ergue-se desamparado o tronco, torcido, contorcido pelos annos e pelas
intemperies, reflectindo no espelho glauco a sua eterna cabelleira de
verdura; ha arvores, enobrecidas ou pela vetustez ou pela forma
estranha, celebres como heroes, que são visitadas por uma multidão de
peregrinos. As ameixieiras, as cerejeiras, abundam; pela primavera,
cobrem-se de florescencias pasmosas, luxuriantes, como nunca se viu em
parte alguma; mas não dão fructo, as trapaceiras.
Nos jardins, continua a flora exotica, desconhecida. Trepa, por onde
pode, a _asagao_; e abre á alvorada, por curtas horas, as suas frescas
campanulas, de qualquer côr, porque as variedades não se contam, são
milhares. Desabrocha a peonia, enorme, paradoxal. E enfileiram as
chrysanthemas, a flôr nacional, sob tendas que as abrigam do sol,
podendo lembrar cortezãs em exposição nos bairros de prazer, pela
extravagancia das côres e dos feitios, que recordam a confusão
polychroma dos vestidos e dos penteados das mulheres; mas que realmente
se assemelham a enormes actineas, monstros dos mares, multiplicando-se
em mil tentaculos contorcidos, brancos, amarellos, rosados ou
sanguineos.
Agora a fauna. Pelo espaço, negrejam bandos de corvos, os _karasu_,
escarninhos, voando e rindo ás gargalhadas. Enormes borboletas pretas,
nunca vistas, sugam as corollas. De dia, de noite, é incessante o ruido
das cigarras, dos grilos, de outros bichos. Noites ha, pelo estio, junto
ás ribeiras, em que uma chuva de fogo, de pyrilampos aos myriades,
motiva festas ruidosas. Nos lagos dos jardins vagueam peixes de oiro,
com os olhos a estoirarem, com as caudas esfarrapadas e rojantes, como
se fôssem longos capotes de mendigos. Junto da casa de papel toma o sol,
cantarola o gallo anão, do tamanho d'uma pomba; e á porta assoma o gato
indigena, esqueletico, rabugento, sem rabo... porque todos os gatos no
Japão nascem sem rabo; ou é o cão que ladra, o _chin_, verdadeira
caricatura de cão, com os olhos esbogalhados a saltarem-lhe das orbitas,
sem nariz, a cauda em pluma, parente degenerado de qualquer monstro de
epochas remotas, hoje extincto.
* * * * *
[Figura]
De sorte que todo este Nippon,--arte, povo, paizagem, planta e bicho,--é
uma deliciosa mascarada. Como fazer sentir isto a quem o não conhece,
depois de ter escripto o que escrevi, e de concluir que nada escrevi do
que me vae no pensamento? Olhem: fixem um espelho espherico, ou
cylindrico; o aspecto das formas reflectidas é uma interminavel surpreza
hilariante, de caretas supinas, de linhas torturadas; pois tal é o
aspecto do Japão...
* * * * *
Todos sabem como a caricatura, pelo desenho e pela escripta, exerce nas
sociedades uma influencia decisiva. A pintura e o livro humoristicos
subjugam a attenção e imperam no espirito com intensidades unicas,
alheias ás outras formas de arte. Porque? Fôra difficil explical-o aqui.
É certo que a ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza
um defeito, aponta um ridiculo, sublinha uma virtude. As coisas
triviaes, taes como as conhecemos, passam desapercebidas ou esquecem
brevemente; o exaggero, pelo contrario, fica, grava-se a estylete na
memoria. Viu-se hoje um bom retrato d'um sujeito, de Balzac, de
Bonaparte, se quizermos; amanhã nada restará no pensamento; mas, se foi
relanceada a caricatura, fica a summula cá dentro, uma reminiscencia
pertinaz do traço phisionomico (e mais do que isso) do individuo. Seja
como fôr e por que fôr, é hoje indiscutivel que a caricatura representa
um meio altamente poderoso de impressionar os homens; estude-se-lhe os
effeitos, por exemplo, na polemica dos principios, onde ella vale pela
mais possante picareta demolidora das instituições, dos thronos e das
crenças, rasgando a estrada nova por onde investem os partidos
avançados.
Estando isto assente, imaginem agora um paquete, despejando em qualquer
caes japonez um bando de loiros estrangeiros. Elles todos, os lorpas,
têem nos rostos essa feição anodina das cabeças, que é uma das formas de
belleza mais frequentes nas raças europeas; e a julgar pelo olho azul,
de porcellana, sem expressão, sem alma, póde admittir-se que lá dentro
da casca não ha senão pevides em guisa de miolos.
[Figura]
Mãos rudes, vermelhas, cabelludas, pés enormes;--estigmas de um
temperamento avesso a coisas de arte e a todas as delicadezas do
sentir.--Emparelham pelas manifestações do gosto: vestidos todos de
alvadio, côco no cocuruto da cabeça, sapatos amarellos e ramosinho na
carcela. Como entidades prestantes, embora talvez não prestem para nada,
uns são sabios, outros são navegadores, outros são diplomatas, outros
possuem manhas maravilhosas de balcão; mas--coitados!--em todos se
acoberta o microbio desvastador, oriundo dos grandes centros, nascidos
da podridão da descrença, do egoismo, da inveja, da cubiça e da
misanthropia; e na face e nos gestos alguma coisa já assoma do mal de
que enfermaram. Alguns dão o braço a outros sujeitos sem bigode, com
grandes mãos vermelhas igualmente, e enormes pés calçando sapatos
amarellos; usam bengala, collarinho alto de bretanha, gravata, tunicas
em forma de campanula, uma alcofa á cabeça, cheia de hervas, de aves e
de fitas:--são as damas--.
Os pobres forasteiros vêem-se assim de improviso e de surpreza no meio
exotico entre todos, requintadamente artistico, caricatural e
sorridente, que é todo este Japão. Dominados pelos aspectos, allucinados
pela iniciação imposta, riem tambem, e julgam tambem sentir a
graciosidade indigena e a gentileza dos scenarios. Eil-os que cruzam as
estradas e os trilhos das montanhas, seguem em caravanas numerosas a
visitar os logares celebres, encorporam-se nas romarias, entram nos
templos e entram nos theatros, bebem chá japonez, e até, burlescamente
ajoelhados, engolem o arroz cosido e deliciam-se no peixe cru que as
creadinhas vão servindo.
[Figura]
Oh, a paisagem japoneza! Como ella é encantadora e fresca, estranha,
paradisiaca!... e como aqui o pensamento se dilata, n'um longo divagar
sereno e amoroso, tão distincto das preocupações sombrias que alem, na
Europa, azedam a existencia!... Mas não sei quê da alma asiatica,
subtilmente motejador e sarcastico, subtilmente intolerante, paira aqui,
emana da coloração e da forma das coisas, do grito dos animaes, do gesto
e voz da gente; não se define, mas existe, hostilisando em tudo o pobre
intruso. É como que uma exhortação continua e impertinente do Buddha e
dos deuses tutelares, murmurada a todos os instantes:--«Vae-te, volta á
terra dos loiros; contempla os teus deuses, visita os teus templos,
recrea-te nos teus salões, bebe o teu whisky e soda; mas deixa em paz
este solo, que não é teu, que te detesta; e onde, para assimilares a
harmonia da creação e o sentimento nacional, precisas de uma fluidez de
espirito e de uma serenidade de consciencia, que te faltam!...»--
Cedo ou tarde, ámanhã, em dois mezes, em dois annos, o homem loiro
enfastia-se, compenetra-se da fatalidade dos destinos, que crearam o
Japão para os japonezes. Uns desertam, e fazem n'isso muito bem; outros
ficam. Nos que ficam, o desgosto pela terra do exilio enraiza, alastra
como uma lepra corrosiva.
[Figura]
O desgosto, nas mulheres, crystallisa brevemente em odio, um odio
desesperado, sem treguas; explicavel pela maior vibratilidade dos nervos
no sexo, pela vida ociosa, e tambem, e principalmente, pelo penoso
confronto com a mulher indigena, cujo fresco perfil e requintado tacto
femenil são uma provocação terrivel aos seus meritos. A mascarada eterna
japoneza, a despreocupação, o riso chronico, os traços caricaturaes de
todos e de tudo, os dichotes zombeteiros dos gaiatos,--«ijin, ijin!»
estrangeiro, estrangeiro!--tudo irrita, bellisca redunda por fim n'um
supplicio insuportavel, que nêm respeita o lar, entrando mesmo pelas
janellas dentro como um exame de mosquitos. Triste lar, tantas vezes!...
Junto da familia do sr. Fulano, seja qual for a sua nacionalidade e
situação, contae como provavel um hospede permanente,--o
aborrecimento.--A embriaguez, a dissipação, a quebra fraudulenta, o
roubo, o suicidio, o adulterio, o assassinio, todos os desmandos de uma
sociedade incongruente, succedem-se nas pequenas colonias europeas do
Japão com uma triste frequencia, eloquentissima!...
1900.
DOIS CEMITERIOS JAPONEZES
A V. Almeida d'Eça
Pelos fins de dezembro, em vesperas de Natal e de Anno-Bom, encontrei-me
um bello dia, sem bem saber porque, vagabundeando no cemiterio dos
europeus em Kobe, o velho. O velho, porque ha um cemiterio novo que se
estreou ha pouco tempo, e onde até agora se reuniu coisa de meia duzia
de inquilinos; está este situado longe da cidade, n'um declive de
collina, amplo, com bellos horisontes em redor. O velho, de acanhadas
dimensões, enchera-se de moradores em uns trinta annos de exercicio, e
foi por tal razão posto de parte.
O velho cemiterio fica em plena cidade, para as bandas de oeste e cerca
dos edificios da alfandega, quando começa um bairro sujo, de fabricas,
de armazens, que povôa uma misera ralé de carregadores e de mendigos.
Encerrado entre as altas paredes de tijolo vermelho de enormes depositos
de mercadorias, sem outro horisonte, com pouco ar, com pouca luz, humido
e ermo, é bem triste este canto; até, se não me illudo, os vetustos
pinheiros que o arborisam, testemunham pelo verde escuro e estorcimentos
convulsos das ramadas, alguma coisa da desolação que aqui impera sobre
tudo.
[Figura]
* * * * *
Hoje, que é um domingo, acolá, a curtos passos, sobre a relva do parque
publico, a chusma dos caixeiros--inglezes, americanos, allemães,--a
chusma cosmopolita, em mangas de camisa, sem chapeu, berra, corre,
esbraceja, espernea, joga o _tennis_, o _fout-ball_. Mais alem, pelas
ruas de trafego indigena, presumo magna enchente, bazares em festa, povo
em barda, entre japonezes e estrangeiros. D'estes ultimos, são
especialmente as damas que mais se alvoroçam com a proximidade do
_christmas day_, e que afanosamente percorrem a cidade, em carruagens,
em _jinrikshas_, a pé--a pés... e que pés!...--enfiando pelas lojas,
mercadejando bonecas, quinquilherias, guloseimas, as mil e mil
frivolidades que vão constituir os fructos d'essas estupendas arvores de
Natal, préstes a surgirem nos salões. Pobre natal! N'estes paizes
exoticos, de ganho e de aventura, as festas particulares da familia
europea perdem em regra a sua feição de severidade tocante e amorosa,
para se transformarem n'um simples _sport_, irritante, massador,--fallo
por mim,--mero pretexto para ostentações, dissipações e mexericos, a
caterva de todos os symptomas da morbidez do exilio. Para o povo
japonez, o impulso é bem outro: o dia de anno novo é a festa principal
de cada anno, a unica para muitos; religiosa, emocionando a alma
indigena, levando a turba aos templos a dar graças aos deuses pelas
prosperidades realizadas, e a implorar novas fortunas: intima, de
familia, preceituando o doce dever das saudações aos parentes e aos
amigos; ninguem trabalha, veste-se fato novo, enfeitam-se os altares e a
casa toda; por isto, com louvavel antecipação se compram nos bazares os
pequeninos nadas que vão ornar o lar, e os bolos de arroz, e o córte de
fazenda, e a flôr para o cabello, coisas de que não prescinde a mais
modesta familia de lavrador ou de operario, n'aquelle dia abençoado.
* * * * *
No sitio onde me encontro a quietação é plena, em contraste com o que
palpita lá por fóra. É positivo que os mortos não festejam o Natal...
nem eu tam pouco, poderia accrescentar, desde mui largos annos de
bohemia, sem lar e sem familia. Pesa aqui, no cemiterio, mais duramente
por certo do que em outro logar, a aspereza de um triste dia de inverno,
sem sol, sombrio e humido; paira no ar uma poeira levissima de neve, que
mal se vê, mas fere o rosto como picadas de alfinetes; de quando em
quando, uma rajada fresca sacode a rama dos pinheiros, corta o silencio
então um vago murmurio de folhagem,--da folhagem sem duvida, mas que
acaso poderia parecer o palrear dolente dos mortos uns com os outros, de
cova para cova...--
[Figura]
Vou vagueando, com passos e em espirito. Estou só, ou quasi só; ha pouco
dei fé, por entre as sepulturas, de uma velha japoneza, guarda do
cemiterio, que ia apanhando do chão alguns cavacos. Vou lendo os
epitaphios, estudando a botanica tumular nos arbustos plantados e nos
musgos espontaneos, lançando um olhar condoïdo ás corôas murchas, que
aqui e ali se encostam ao marmore das lapidas, pobres corôas queimadas
pelo sol, rasgadas pelo vento, roïdas pelos vermes, polluidas pelo pó, e
em pó se desfazendo... N'este gremio de mortos abundam os padres e os
missionarios de todas as seitas e de todos os paizes; varios pilotos dos
mares do Japão, capitães, tripulantes de barcos; gente de negocio; e a
mais uns pobres nomes obscuros de mulheres e de creanças, sem titulos
nem historia. Aqui deparo agora com um nome de portuguez, Felisberto da
Cunha, da Figueira, que morreu com quarenta annos, e a esposa (uma
japoneza) lhe mandou erigir o mausuleo.
* * * * *
De trilha em trilha e de tumulo em tumulo, eis-me em frente do monumento
tumular dos marinheiros francezes assassinados em Sakai. Lugubre
historia; e aqui, n'este Japão da grande hospitalidade e da notoria
cortezia, impressiona por estranha e quasi inverosimil. Pois foi bem
verdadeira. Ha mais de trinta annos, por um dia de março, uma lancha a
vapor da corveta _Dupleix_ aguardava na praia de Sakai a volta de alguns
officiaes, que haviam descido á terra e seguido para Osaka; passa
casualmente um troço de tropas do Mikado, _samurais_ da provincia de
Tosa; e sem provocação, sem um leve pretexto, fazem fogo sobre os
marinheiros, matam onze. São os onze tumulos d'estes martyres, d'estes
miseros camaradas (porque eu sou como elles marinheiro), que agora
contemplo.
Sobre tres degraus de pedra alça-se uma alta cruz; e aos lados, cinco
por banda, e o aspirante á frente, como se estivessem na tolda da
corveta em formatura, estão os onze corpos, estão as onze lages,
aquelles desfeitos em pó seguramente, estas ennegrecidas pelo tempo e
pela lepra dos lichens resequidos... pois não se esqueça que ha mais de
trinta invernos vae durando a triste formatura. Sobre a cruz leio o
seguinte:--«_À la memoire des onze marins de Dupleix, massacrés à Sakai
le 8 mars 1868. Requiescant in pace._»--_Massacrés!_ massacrados! Como
isto é destonante n'este solo, no _Dai-Nippon_ das paizagens amorosas e
do sorriso perenne nos rostos dos que passam!...
Vou lendo seguidamente as inscripções dos tumulos:--«_Ci git Guillon,
Charles Pierre, aspirant de 1^{ère} classe, agé de 22 ans. Priez pour
lui.--Ci git Boulard, Vincent, matelot de 3^{ème} classe, agé de 21 ans.
Priez pour lui.--Ci git Nonail, Jean Mathurin, matelot de 3^{eme}
classe, agé de 25 ans. Priez pour lui.--Ci git Condette, François
Désire, matelot de 3^{ème} classe, agé de 24 ans. Priez pour lui.--Ci
git Lemeur, Gabriel Jacques Marie, quart.^r m.^{tre} de manoeuv.^{re} de
1^{ere} classe, agé de 29 ans. Priez pour lui.--Ci git Savie, Jacques,
matelot de 3^{eme} classe, agé 23 ans. Priez pour lui.--Ci git Humet,
Arséne Florimont, matelot de 3^{eme} classe, agé de 24 ans. Priez pour
lui.--Ci git Langenais, Auguste Louis, matelot de 3^{eme} classe, agé de
22 ans. Priez pour lui.--Ci git Bobes, Lazare Marie, matelot de 3^{eme}
classe, agé de 22 ans. Priez pour lui.--Ci git Modest, Pierre Marie,
matelot de 2^e classe, agé de 26 ans. Priez pour lui.--Ci git
Grunenberger, Victor, ouvrier chaufeur de 3^{eme} classe, agé de 24 ans.
Priez pour lui._»--A ladainha é longa, como vêem; e bem commovedora,
quando se attenta nas idades. Onze rapazes; quadra de illusões, de
amores, de esperanças. O mais velho do grupo teria hoje os seus sessenta
e dois annos, se fosse vivo; de sorte que todos estes pobres moços
poderiam muito bem gozar ainda agora da doce alegria de viver, se o
destino lhes fosse menos duro: o aspirante vestiria provavelmente a sua
farda de capitão de mar e guerra, chapada de veneras; e os marujos
estariam talvez com a sua baixa, na aldeia patria, em descanço, a vêrem
o mar por um oculo, rodeados de filhos e de netos... Ah! barbara cafila
de soldados japonezes!...
A gente póde recompôr em pensamento a scena da praia de Sakai. Uns
bellos loiros, rosados como pecegos, robustos como jovens Hercules.
Riem, brincam, cantam, pisando a fôfa areia. É um bando de irmãos, todos
da mesma idade, tratando-se por tu, passando de mão em mão a bolsa de
tabaco, e até de bocca para bocca o cachimbo de gesso fumegante.--«Olha,
Jacques! Repara, Gabriel!»--E batem palmadas nas costas uns dos outros,
e brilham-lhes as pupillas gaiatas e sagazes, apontando, em grandes
gestos rudes, para os recortes estranhos da paisagem, para os
contorcidos pinheiros que rendilham o horisonte, para as ameixeeiras em
pasmosas florescencias, para as casinhas de madeira e de papel, para as
_musumés_ em sedas, seductoras... exoticos, captivantes aspectos de um
paiz maravilhoso, que abre agora as suas portas á curiosidade do mundo
occidental, deslumbrando a imaginação juvenil d'estes pobres francezes,
habituados á monotonia do azul das longas viagens fadigosas. Consta que
os garotitos de Sakai iam affluindo á praia, e quedavam-se em volta dos
marujos, bocca aberta, espantados dos seus modos, do uniforme, das suas
feições de raça branca; e que estes com as creanças partilharam algum
pão das suas provisões. De repente, surde de algures um bando petulante,
irrequieto, multicôr pelas bandeiras desfraldadas e pelas sedas das
cabaias, e reluzente pelas armas que empunha; são _samurais_ do imperio;
o quadro é deveras interessante; os marujitos, surpresos e attentos, são
todos olhos... olhos que em breve se cerram, quando os corpos caem
inertes sobre a areia, após uma descarga de metralha... Ah! barbara
cafila de soldados japonezes!...
[Figura]
* * * * *
No meu espirito vagabundo, depois da ferocissima scena de matança, é
agora a sorte d'estes _samurais_ que relembro, e me commove. Commovem-me
assassinos? Sim; os annos fôram correndo sobre os factos e esfriaram os
rancores. Póde hoje memorar-se, sem asco, com sympathia, mesmo nos seus
transes sanguinarios, a breve lucta de resistencia que o velho Nippon
feudal, embevecido na sua lenda prestigiosa, manteve contra aquelles que
vinham despertal-o do seu sonho; e para o bando de Sakai, soldados
todos, pertencendo á nobre casta dos guerreiros, seria realmente
excepção estranha se não fulgurassem no seu animo, remindo-os do
opprobrio, as virtudes da casta--a extrema dedicação aos chefes, o
sacrificio de si proprios pela patria, e o amor por essa patria guindado
á intensidade de paixão, mais alto ainda, aos paroxismos do delirio.--