n'este Macau; lá está elle rezando aos seus deuses protectores. Que lhe
preste! Acabou de me roubar nas contas, como bom chinez que é,
serenamente aggressivo em tudo ao europeu; e passou a entregar-se a esta
outra occupação não menos meritoria.
Sendo seus os aposentos inferiores, é ali rei, ou pelo menos mandarim;
faz o que quer. Os altares aos deuses anicham-se pelas paredes, aos
cantos do sobrado, sobre as mesas; e até junto ao fogão, onde se guisa o
meu jantar, se presta culto a supinas divindades. Mysteriosos ritos. São
papeis encarnados, contendo cabalisticos dizeres; são figuras de
horriveis monstros, coloridas pelas tintas mais surprehendentes, nas
disposições mais grotescas, despertando quasi o riso, despertando quasi
o medo, a quem não vive em graça em tal Olympo. Alli o cosinheiro, em
humildes genuflexões de crente, vem depôr suas offertas, minhas
offertas, pois sou eu que pago a festa,--offertas de laranjas, de doces,
de chá, de porco assado e de outras iguarias.--Alli ardem lumes
mysticos; e frequentemente, pela noite, como agora, se queimam pivetes,
cirios rubros, rezinas e papeis, de tudo emanando um fumo atróz, que
invade em torvelino a casa toda, que chega sem respeito ao sitio onde me
encontro, e me soffoca. Paciencia! _Paciencia_ é o unico codigo de
conducta para o aventureiro que escolheu para exilio um canto exotico,
longe, muito longe do torrão onde nasceu, e no qual a civilisação
disparatada, a feição propria das gentes com quem lida, hão-de
fatalmente apresentar-se, dominantes.
[Figura]
Os deuses, com quem por assim dizer vivo em contacto, e a cuja sublime
protecção, posto que indirectamente, me confio, são muitos, um enxame. É
todo o Olympo buddhista e o inteiro mytho primitivo, amalgamados em
crendices; legiões de espiritos. Naturalmente, ha uns mais preferidos,
que se invocam no lar com mais piedoso amor; n'este numero, segundo
informações recentes que colhi, deve contar-se Pau-Man-Chen; e é a sua
historia maravilhosa que me proponho narrar, como puder.
* * * * *
O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o immenso imperio, tem uma face
branca e tem uma face preta. Na China não ha effectivamente ninguem que
não o adore, que não lhe preste no altar domestico, o culto merecido; a
elle, que tudo sabe e tudo pode, que possue a sciencia do bem e a
sciencia do mal, que com um olho contempla os ceus e as grandes coisas
puras, e com o outro mira a terra profunda até aos antros lobregos dos
demonios, adevinha-lhes os maleficos designos. O deus Pau-Man-Chen tem
uma face branca e tem outra face preta...
* * * * *
Ha não sei quantos mil annos, morreu não sei aonde, uma mulher casada. O
marido, não resta duvida, procedeu segundo o ritual do estylo, e mandou
depositar o caixão n'um solitario templo. Mal imaginava elle que a
defunta seguia gravida no esquife; e mal imaginava que o menino, que se
occultava no seu ventre, ia votado a altos destinos...
* * * * *
Foi por aquella epocha, n'uma mercearia do sitio, que começou sendo
notado, com justo sobresalto do dono da quitanda, o caso que vou expôr.
Fazia-se sem novidade a venda, dia a dia; mas, quando pela manhã se dava
balanço ás contas e ao dinheiro, encontrava-se sempre, de mistura com o
monte das sapecas, dois d'esses papelitos amarellos, com a competente
mancha prateada, que são nada menos do que a moeda corrente entre as
almas do outro mundo, nas suas transacções... Era prova clarissima de
que andava por alli coisa sobrenatural,--bruxaria, visita de phantasmas,
ou outro mysterio parecido.--Estudou-se o caso attentamente e com bem
justificaveis ancias de terror; observaram-se os freguezes, um por um.
Chegou-se por fim á conclusão de que, em tal enigma, andava por certo
envolvido aquelle vulto de mulher de maneiras suspeitosas, trazendo uma
creança no regaço, e chegando-se todas as noites ao balcão para comprar
um bolo, que offerecia ao pequerrucho. Aos cobres, que largava das mãos
lividas, cadavericas, não havia nada que dizer-se; eram excellentes; mas
quem ignora que de noite todos os bruxedos são possiveis, e é a luz
fraca do dia que seguidamente os desmascara?... O patrão (os tendeiros
do mundo inteiro, e desde seculos sem conto, são homens de raro
engenho), o patrão, certa noite, conseguiu sem ser sentido, atar um
longo fio á ponta da cabaia da fregueza; e quando ella se ausentou,
pôz-se a largar o fio, á medida dos seus passos. No dia seguinte,
facilmente o finorio percorreu a linha de trajecto da mysteriosa
caminheira; e foi assim esbarrar, no termo do passeio, com o caixão da
defunta, de que atraz se fez mensão. Do caso, sem detenças, correu a dar
parte ao viuvo, de quem era conhecido.
[Figura]
Acercam-se o viuvo e um bando de curiosos, do esquife, e abrem-n'o, ao
pasmo de todos. Scena extranha! Sobre os farrapos descoloridos, humidos,
fetidos, pasto de vermes,--quem já, dos que me lêem, poisou os olhos no
espectaculo d'uma tumba escancarada?--lá está estendida a esposa, e lá
está um menino. Vivo? sim. Viva? viva parece, d'uma existencia
sobrenatural embora; mas como ninguem d'ella cuidasse, alli ficou
jazendo para sempre. As attenções, os carinhos, convergem para o menino;
o pae estende-lhe os braços, arranca-o á desolação d'aquelle leito,
chama-o á vida, á sociedade, ao mundo.
* * * * *
[Figura]
A lenda popular completa esta curiosa historia pela maneira que vae
vêr-se. A defunta, alli amortalhada, alli estendida sobre as tabuas, foi
mãe, não sei por que milagre--não se discutem milagres.--O resto
explica-se melhor: o mysterio psychico da maternidade, isso que nas mães
se patenteia como uma força immensa, sem limites no affecto, sem
barreiras nos zelos, capaz de todos os arrojos, poude aninhar-se
n'aquelle corpo inerte, e imprimir vontade áquelle feixe de ossos. Aos
primeiros vagidos da creança, o cadaver pôz-se a contemplar os proprios
seios murchos, pendentes, vazios de seiva, roïdos pelos bichos. O
cadaver moveu-se então, galvanisado pelo amor--qualquer cadaver de mãe,
n'aquellas condições, faria o mesmo;--começou a dar pontapés no
impossivel; partiu a murros as paredes do seu carcere; e apertando de
encontro aos ossos o filhito, e embrulhando-se discretamente na
mortalha, foi a correr comprar um bolo á venda proxima. A creança assim
foi medrando, passando os dias n'aquelle estranho berço. Foi por isso
que ficou com uma face branca, a que voltava para a luz e para o ceu, e
com uma face preta, a que poisava na sombra, de encontro á terra negra.
De então lhe veio o duplo condão de conhecer o bem e de conhecer o mal,
de vêr com um olho os deuses, e com um olho os demonios. Pelo correr dos
annos, foi mandarim de modestos logarejos, pois lhe sobrava asco pelas
riquezas, pelo fausto e pelos altos cargos. Os nobres senhores, o
proprio imperador que muito o honrava, tremiam do seu juizo. Lia nas
consciencias e lia nos destinos. Distinguia na turba os humildes, os
bons, os opprimidos; e tambem os impostores, os verdugos, os infames.
Premiava as virtudes, azorragava os vicios. Os desmandos da côrte, a
rapina dos ministros, os mexericos das concubinas, fôram por elle
desmascarados e punidos. Assim viveu por longos tempos este grotesco e
sublime figurão; assim passou por todo o imperio, para gloria da China e
para consolação dos offendidos. O povo punha de parte os labores e vinha
prostrar-se em saudações á borda das estradas, ao vêl-o atravessar
cidades e campinas, galgar os montes e descer os valles, sempre
incansavel, seguindo a largos passos, como se fosse um procurador
atarefado com demandas. Fluctuava-lhe ao vento a longa cabaia
esfarrapada, suja de lama e de poeira dos caminhos; a mão adunca brandia
um baculo nodoso; as pupillas chammejavam iracundas; o corpo ossudo
definia-se, na magestade façanhuda dos gestos arrogantes, nos compridos
bigodes de asiatico, pendentes como franjas, na barba aberta em leque,
chegando-lhe á barriga, e na disformidade do rosto pintado a duas côres,
branca uma face e outra face preta. Um bello dia safou-se d'este mundo;
mas lá anda no outro, certamente, espreitando cá para baixo, e não
largando de mão o seu fadario.
[Figura]
1899
A CARICATURA NO JAPÃO
A Camillo Pessanha e João Vasco.
Grande coisa, meus senhores, é ter engenho!.. Eu não me gabo muito
d'esta prenda, confesso-o francamente; mas tive ha pouco azo de julgar
pela propria consciencia--mercê d'um rasgo excepcional do meu
bestunto--quanto vale uma boa idea; e conclui que a felicidade humana
seria coisa facil, se uma impulsão sagaz do espirito fôsse guiando
sempre os nossos passos n'este mundo. E assim fica satisfatoriamente
justificada, penso eu, a exclamação com que enceto estas divagações,
escriptas por uma noite fria de janeiro, no meu gabinete silencioso, na
cidade de Kobe, no Japão.
Vamos ao facto. Ah, pobre espirito enferrujado pelos azedumes da
existencia, gasto pela longa fricção das coisas e dos homens, soffrendo
pela dôr do passado, pela insipidez do presente e pelas tristes
promessas do futuro! como tu, meu pobre espirito, cahiras na quasi
insania, consciente, e por isso mesmo mais penosa, d'aquelles para quem,
por mal dos seus peccados, a vida se vae tornando toda um immenso
enfado... Morbidez de temperamento? incompetencia ingenita para a lucta?
fadiga, após os mil baldões da sorte? pouco importa; não vale a pena
agora desenredar esta meada. Passava, e passo ainda, longas horas do dia
junto da minha secretaria; é este o meu officio. Alguem, que entrasse,
via-me grave, correcto, rodeado de livros e papeis, e até,
presumo,--perdôem-me a vaidade--talvez me atribuisse uns certos ares de
sabio, em cuja mente magnos problemas se iam sublimando. Só, bem só,
entre quatro paredes discretas, desfallecia; o olhar vago fixava-se no
nada, todo o meu ser se inutilizava, perdia-se em abstracções,
desinteressado da realidade, de mim mesmo, morto,--porque ha para alguns
uma morte percursora d'aquella que roe na tumba a febra e põe a nú os
ossos brancos do esqueleto.--E vae então, um bello dia, achando-me
casualmente n'um bazar de Osaka, compro uma figurinha de barro da deusa
O Fuku-san, que colloquei sobre a mesma secretaria referida.
Ora aqui está, no fim de contas, em que consiste o meu rasgo genial; e
vou dizer porquê. O barro é trabalhado por dedos tam amorosos de
artista,--um obscurissimo artista certamente;--a pasta impregnou-se com
tanta obediencia da feição predominante da alma japoneza,--naturalismo
humoristico, caricatural;--que a deusasinha patusca que aqui tenho a meu
lado, uma bugiganga de tres pollegadas de altura, quanto muito, é toda
ella uma gargalhada viva, supina, radiosa!... Acontece que a tristeza,
borboleta negra das trevas, foge espavorida da minha convivencia; poiso
os olhos na deusa, e desato a rir perdidamente; e assim me tornei o
homem mais divertido d'este mundo.
* * * * *
Antes de ir mais longe na palestra, justo é que me detenha e diga em
poucas phrases quem é O Fuku-san. Divindade popular, patrona da boa
fortuna e da alegria, representa na genesis japonica um papel de subida
importancia incontestavel. Izagani e Izanami, os deuses iniciaes e
creadores, formaram o Japão e tiveram por filha, Amaterasu, a deusa do
sol, e outros filhos, todos com maravilhosos attributos. Amaterasu
residia no ceu, alumiando a terra; delicioso officio; mas tamanhas
affrontas soffreu de um seu irmão, o deus da lua por signal, que se
amuou e decidiu esconder-se, escolhendo para retiro uma caverna, aonde
se metteu, vedando a entrada com uma enorme pedra; a terra, é obvio,
achou-se ás escuras de repente. Os deuses, apavorados,--o caso não era
para menos,--recolheram-se em conselho, e resolveram o seguinte, depois
de larga discussão: fôram postar-se todos bem junto da caverna;
Takadjira, o deus de enormes braços, ficou junto da entrada, fazendo
sentinella; O Fuku-san, a mais divertida das patuscas, poz-se a cantar
modinhas; ou, quando não cantava, tocava n'uma gaita de bambu; ou,
quando não tocava, bailava minuetes, acompanhando a dança de mil
tregeitos faceciosos. Tanta pilheria teve a figurona, que a deusa
Amaterasu, no seu antro, começou a interessar-se na galhofa, a rir ás
furtadellas,--ou não fosse ella japoneza!--e arredou um pouco, para o
lado, o pedregulho, alongou um nada a cabecita para fóra, e assim se pôz
a gozar melhor da brincadeira. Então Takadjira, n'um
relance--zás!--caiu-lhe em cima, lançou-lhe os longos braços ao pescoço,
puxou-a para si, foi á força poisal-a no seu throno... e a terra de novo
continuou a ser alumiada pelo sol!
A arte popular veste a deusa O Fuku-san em bellos trajos da côrte, dos
velhos tempos, setins rojantes, brancos e escarlates, e molda-a nos
ultra-comicos contornos d'uma japonezita enormemente obesa, toda ella
refolhos de gordura, banhas de pescoço, de collo, de seios, de barriga,
redondezas pasmosas de quadris, e mãos e pés papudos. A cara, a immensa
caraça, de lua cheia, é um poema completo de monstruosidade triumphal e
hilariante: faces prodigiosamente bochechudas, caiadas de cosmeticos; um
narizito que mal se vê, rombo, abatatado, como que calcado para dentro,
a golpes de martello; á fronte curta e estreita, de imbecil, collam-se
dois bandós de cabellos de azeviche; fôram rapadas á navalha as
sobrancelhas, segundo o uso classico; os olhinhos piscos, matreiros e
gaiatos, reluzem pelas fendas estreitas das palpebras carnudas; e a
bocca, a boquinha, em forma de cereja, acarminada, sorri em curvas, em
prégas, em covinhas impagaveis... Mas não ha palavras que descrevam, nem
de longe, a expressão de toda a figurinha--porque vae alem da nossa
comprehensão de occidentaes,--no que d'ella irradia de jocosidade
perenne, de beatifico comprazimento, de vagos tiques de inconsciencia
infantil, de imbecilidade, de malicia, de perversão; um indefinivel
conjuncto de não sei que de imminentemente pueril, satanico e grotesco,
todavia gracioso, que é no fim de contas uma das feições mais
caracteristicas e mais emocionantes da arte inteira japoneza.
* * * * *
[Figura]
Ensina-se nos livros que por meados do nosso seculo XII, o pintor
Kakuyu, que era bonzo buddhista, iniciou no Japão a pintura caricatural.
Pois seja assim; concedo ao frade o merito de ter traduzido pelo pincel,
por vez primeira, o humorismo d'esta gente. Mas tal humorismo, como
feição moral, nasceu com o mesmo povo, é-lhe um fector do sentimento; e
cada japonez é, e foi, e será, um caricaturista. Quando se estuda a
lenda indigena japoneza, no vasto reportorio das suas fabulas, que eu
penso representarem sempre o mais remoto documento do feitio estetico,
da individualidade psychica, d'uma qualquer grande familia humana,
depara-se na scena com a mais curiosa fauna fallante--macacos,
caranguejos, raposas, alforrecas, ratazanas e outros varios bichos;--no
apologo grego, por exemplo, os brutos são doutores, discursam como
philosophos e como moralistas; no apologo japonez, menos profundo, mas
talvez mais incisivo, a bicharia contenta-se em mascarar-se vestindo
_kimonos_ e enfiando as patas nas sandalias, faz caretas, galhofa, dança
e ri, em desenvolturas caricaturaes da mais desopilante troça a todos os
ridiculos.
Quando as artes se desenvolvem e nacionalisam, e attingem uma feição
independente, inconfundivel, a caricatura, como que traduzindo uma
recordação da lenda, vem desempenhar um papel importantissimo, não só na
pintura, mas nas multiplices affirmações do engenho--esculptura,
ornamentação da porcellana, da faiança, dos charões, dos bronzes, em
tudo.--Graças ao pincel e graças ao buril, as rãs decidem-se a vir tocar
guitarra para a rua; os pardaes offerecem banquetes aos seus intimos,
servidos em porcellanas primorosas; desfila um cortejo de rapozas,
levando a noiva, a rapozinha, ao noivo feliz, que a espera no seu lar;
pelo dorso de Hotei, deus da bondade, vão trepando os garotos, e um mais
atrevido vae poisar-se-lhe em cima da careca; os guerreiros cobrem os
rostos com mascaras de um comico façanhudo indescriptivel. Hokusai, o
grande mestre da escola vulgar em pintura, delicia-se em desenhar
cegonhas d'um só traço repentino, maravilhosos gatafunhos, palpitantes
de observação e de verdade; no seu album dedicado ao Fuji-yama, a
montanha sagrada, contorna-a vista atravez de uma rede, que um pescador
tira do mar; e atravez de uma teia de aranha; e entre o A das pernas
nuas d'um operario tanoeiro, que do alto de uma dorna ajusta á força de
malho as aduellas; e reflectida no chá da taça que um esfarrapado
mendigo leva á bocca. Hokusai, em 1804, durante certa festividade n'um
templo, manda estender no solo uma folha de papel de cerca de duzentos
metros quadrados de grandeza; vem mais um barril com agua, outro barril
com tinta preta, uns oitenta litros d'ella, e mais duas enormes
vassouras e tres vassouras mais pequenas; entra o mestre, empunha uma
vassoura embebida na tinta, traça sobre o papel curvas gigantes; no fim
de alguns minutos termina a sua obra, que só é comprehendida quando
alguns dos milhares dos assistentes se lembram de galgar ao telhado do
templo: a distancia e do alto, o immenso quadro representa um admiravel
busto de Daruma, o grande apostolo buddhista. Por aquella mesma epocha,
Hokusai pintava sobre um bago de arroz um grupo de aves, encantador, mas
só distincto com a ajuda de uma lupa.
[Figura]
É esta caricatura, melhor será talvez dizer--este humorismo, que o
japonez exerce com habilidade unica, magistralmente, prodigiosamente; é
por ella, é por elle, pelo segredo dos exaggeros, pelo arrojo da
execução, que alcança intenções flagrantes no traço, uma alma quasi na
paizagem, um conceito na arvore, no ramo em flôr, no simples contorno de
um rochedo... Na pintura japoneza, por exemplo, um pargo, um caranguejo,
uma lagosta, o figurão zoologico mais lorpa que possa imaginar-se, vivem
na tela, isto é, accusam uma vontade, uma intenção, um sentimento, como
a fome, como o medo, como o cio. Não se diga que é a fiel reproducção do
modelo que dá isto,--a photographia d'um caranguejo não palpitaria de
vida;--é pelo contrario o exaggero propositado de certas linhas, o
exercicio de uma arte mysteriosa, que naturalmente se inspira no
perfeito conhecimento estructural e sentimental do bicho, animalizando
de certo modo o artista e humanizando o bruto, e permittindo caprichos
descommunaes que o observador não descrimina, que o levam a exclamar,
não sei por que remotas reminiscencias ancestraes de subito
recordadas:--«aquelle linguado acha-se triste... aquelle camarão arde em
ciumes... aquella lombriga está-se a rir...--»
* * * * *
[Figura]
O humorismo japonez não se limita ás artes; divulga-se nos costumes do
povo, nos seus habitos; quando nos intromettemos na intimidade indigena,
ainda o espectaculo de inesperados disparates, de requintadas
extravagancias, vem ferir a nossa pupilla e prolongar-nos o espanto. Eu
não pretendo escrever aqui um tratado dos exotismos d'esta gente, aponto
ao acaso alguns dos que me occorrem.
[Figura]
Pois não são disparatadas, caricaturaes, estas mangas prodigiosamente
amplas dos vestidos, e na propria fazenda a estupenda polychromia dos
matizes? E estas peanhas de madeira, á laia de calçado, onde se poisam
os pés nús dos japonezes? E estes penteados enormes das mulheres,
transformando-lhes as cabeças em estupendos monumentos ambulantes? E o
_obi_, a cinta de seda que cinge as ancas da _musumé_ em voltas
sobrepostas e rematadas n'um laço colossal? E o costume das casadas,
quando em signal de desapêgo ás vaidades d'este mundo, se desfeam
rapando as sobrancelhas á navalha, e envernizando de preto a fila dos
dentinhos? A casa de papel, o jardim de Lilliput, a vida passada de
joelhos sobre a esteira, a refeição servida em taçasinhas e apprehendida
nas pontas dos pausinhos, a arte domestica da preparação do chá e dos
ramos de flores, a dança, a musica, a cama improvisada a um canto com
duas colchas de seda e uma boceta de charão por travesseiro, as mil
saudações trocadas entre duas pessoas que se encontram, todos os
aspectos da vida indigena emfim, intimos, sociaes, são surprezas,
extravagancias, excepções unicas, simples pretextos para brincadeira,
como se o japonez tivesse vindo ao mundo para se rir de tudo em que se
occupa, e para se rir de si primeiro do que de tudo... Chega-se sem
muita difficuldade a comprehender porque, nas relações de convivio de um
para outro, de preferencia á palavra, de preferencia ao gesto, uma
maneira ha mais eloquente de traduzir o pensamento:--a gargalhada!...
* * * * *
O proprio japonez é uma caricatura. Não se espantem da asserção os que
tiverem a pachorra de me ir lendo; eu hei de ainda provar que o proprio
deus dos japonezes, o sublime creador do Dai-Nippon, formou n'um estado
de alma galhofeiro esta terra, sem systema, sem programma estudado e sem
pressas; sem pressas certamente, recreando-se nos comicos caprichos que
a phantasia lhe ditava e a mão omnipotente ia executando, ferramenta do
officio em acção, escopro ou broxa, afeiçoando, retocando,
caricaturizando, o que do chaos ia surdindo á flôr das aguas. Depois,
concluida a obra, devia ter soltado uma gargalhada retumbante!...
[Figura]
Ora desde remotas eras até hoje, pratica-se no Japão um exercicio de
lucta, um _sport_ (como se diz agora) muito em voga, e do especial
agrado d'esta gente; é o espectaculo favorito durante determinadas
epochas do anno. Limita-se no campo um espaço com esteiras e bambus, e
ao centro dispõe-se uma pequena elevação em forma circular; içam-se
galhardetes e bandeiras, rufa o tambor, e o povo afflue por centenas de
curiosos, compra o seu bilhete e toma poiso; dois homens, quasi nús,
combatem corpo a corpo, como na arena grega, até que um d'elles derruba
o companheiro e é proclamado vencedor. Estes luctadores de profissão são
escolhidos d'entre os gigantes, d'entre os athletas, e é na provincia de
Tosa que especialmente se recrutam. Não são homens, são caricaturas de
homens, são monstros, enormes, valendo cada um em peso e em dimensões
por seis japonezitos ordinarios. Não se imagina, nem podem descrever-se,
as caras, os carões de taes sujeitos; são mascaras disformes, caraças
imberbes, olhinhos ferinos repuchados para a testa, queixada vigorosa e
dentuça arreganhada, orelha polpuda e ampla, trunfa hirta e espessa, e
um risinho estranho, sarcastico, mistura de riso de creança e de riso de
demonio; nem ha palavras que expliquem a amplidão dos vultos, a
obesidade das carnes, o braço roliço quasi feminino, os seios erectos, o
enorme ventre impando, lenta a marcha e ondulante, de urso da Siberia em
liberdade. Asseguram estudiosos que estes monstros de Tosa são os
ultimos restos, preciosos modelos vivos, da raça prehistorica
japoneza... Pode assim ser; no japonezito de hoje, embora geralmente
franzino, miudinho, delicado, não repugna acreditar que alguma coisa
haja de commum com os luctadores de Tosa: como que laivos de familia, a
vaga semelhança com um avô... a não querermos mais longe ainda ir
procurar-lhe affinidades, n'um remoto parentesco com a deusa O-Fuku-san,
que continua a rir-se para mim, e eu a rir-me para ella...
[Figura]