despreoccupada, risonha, gosando de viver.--Passam familias,--o pae, a
mãe, um filho preso ao seio e os outros pela mão;--ranchos de soldados e
ranchos de marujos; ranchos de raparigas; moços, alguns indo caminho do
bairro dos prazeres, Fukuwara, que está perto; peregrinos; mendigos;
vadios; larapios; extrangeiros. Os garotos assopram nas trombetas que
compraram, ou mordem em bolos ou em fructos. Aquella _musumé_ fresca,
vestida apenas do seu _kimono_ de verão, azul e branco, já vae de volta;
e leva dependurada das mãositas uma gaiola em miniatura, cheia de
reluzentes pyrilampos. Uma velha rejubila com o vaso de bellos lirios
que mercou. É aqui em Nanko, no mercado especial das plantas, que se
revela bem o mimo d'esta gente em jardinagem,--delicados arbustos,
havendo merecido longos disvelos de cultura, selecção graciosa de
florescencias;--e é de ver-se o afan na escolha, o brilho dos olhitos
cubiçosos, dos grupos em roda da exposição dos pinheirinhos, das
cerejeiras, dos bambus, dos chrysanthemos, dos lirios, da wisteria.--O
espirito simples, o desejo facil de contentar, a puerilidade quasi
infantil, estampa-se em todos esses rostos, e dom gentil da mão
industriosa, resalta de todos os artigos. Quem tiver duas moedas de
cobre na bolsinha--e todos as terão,--póde comprar um objecto de arte;
compra-o sem duvida, e no jubilo da face transparece a alegria plena
d'uma alma satisfeita. D'essa manifesta innocencia de sentimentos,
d'essa psychologia alheia de complicações e de tormentos, deve em rigor
deprehender-se uma superioridade de raça, uma animalidade esplendida e
exhuberante, muito distanciando-se da vibratilidade morbida das raças
exhaustas do Ocidente; e é isto que vagamente se adivinha na esbelteza
dos vultos que vão passando, na flexibilidade harmonica das curvas, no
jogo pathetico da mimica, na confiança serena com que o pé dominador
poisa no chão. Feliz povo! Feliz povo de hontem, de hoje, e
possivelmente de amanhã... Não é outra a conclusão sincera do nosso
exame passageiro.
* * * * *
No entretanto, a um canto, no estabulo garrido, boceja o cavallo branco
sagrado de Kusunoki Masashige. Por velha sympathia, procuro-o sempre, e
passo quasi horas inteiras, a vêl-o, a namoral-o. Quantos annos terá de
sacerdocio? Dez annos? Quinze annos?... Não lhe despertam zanga nem
prazer as minhas visitas repetidas. Cabeça baixa, o olho azul mortiço,
parece nada querer, nada sentir, nada soffrer e nada desejar. É quasi de
papelão, á força de insipidez, o garranito. Ao burburinho, á luz, ás
côres, ás musicas distantes, é insensivel. Ao bello verde do arvoredo é
insensivel; pelos modos, não se recorda já das paizagens por onde
espinoteou... O seu olho azul-celeste, vitreo, provavelmente myope,
relancea com a mesma apathica frieza, as mil scenas do acaso; á gente
que o encara,--ralé da praça publica, garotos, cavalheiros, acaso um
general, acaso um conde, acaso um inglez de nobres pergaminhos,--vota a
mesma indifferença irreverente que ás moscas importunas que poisam, por
enxames, sem que o commovam, na mucosa descorada da sua pobre
focinheira. Só uma vez, presumo, o vi enternecido: relinchava uma egua
algures, longe sem duvida; levemente se lhe agitaram as orelhas, como se
uma vaga reminiscencia, penso eu, pelo bestunto lhe corrêra; e
pareceu-me então vêr o seu olho azul-celeste arrazar-se de lagrimas,
pareceu-me... Ás vezes, avança de bom grado a lingua, a ir lamber as
mãos das raparigas; por capricho talvez, e por habito, porque são
aquellas mãos que costumam offerecer-lhe, como obulo piedoso, os feijões
cosidos comprados á velhita que por ali anda, proximo do estabulo...
Eis todo o seu romance.
* * * * *
E mais nada. Disse tudo. Se alguem, por mais curioso, quizer ainda
arrancar-me o segredo d'esta minha estranha sympathia pelos cavallos
sagrados dos templos de shinto,--tanto mais estranha sympathia, quanto é
certo que não me accusa a consciencia de jámais ter pertencido a
qualquer sociedade protectora de animaes,--aqui lhe offereço, a esse
alguem, a seguinte estupenda confidencia. No Japão, se não erra o meu
juizo, só os cavallos dos templos são tristes. Elles, e eu. Ha entre nós
mysteriosas analogias; não gracejo. Após longos estudos da propria
carcassa, acabo de concluir--imaginem o quê!...--que tambem sou albino.
Não pela anomalia congenita da falta de pigmento corante da pelle, dos
cabellos e dos olhos, concordo; albino psychico porem--não sei se me
faço perceber...--albino na alma dolente, na vibratilidade exangue, na
apathia da vida, após os mil baldões da sorte, e desfeita no ar a ultima
bola de sabão das minhas illusões. Do meu poiso, que comparo sem grande
esforço ao estabulo de Nanko, assisto ao contorno das scenas e ao
perpassar da turba; mas alheado de tudo, e esquecido até das saudades da
paizagem serena onde vivi os meus primeiros annos. Alvoroços de
affectos? amores? fazem favor de me dizer para onde fugiram essas
chimeras aladas da minha pobre juventude?... Quando muito, como o
cavallo de Nanko, mas ainda mais desinteressado do que elle, porque me
sinto naturalmente excluido do quinhãosito de feijões que pode
seduzil-o, quando muito, se deviso essas _musumés_, com as suas mãositas
muito alvas, muito mimosas, tenho por essas mãos, vagas ternuras: aqui,
n'este meio onde me vejo, são-me ellas o emblema dos carinhos do sexo
delicado; e incutem no meu espirito uma noção de paz possivel,--aqui,
algures, não sei onde,--no lar da familia, quando abençoado pelos
fados...
[Figura]
1899.
A PRIMEIRA FORMIGA
A Sebastião Garcez.
Á parte esta dedicatoria especial, é ás formigas e aos sabios--Deus não
permitta que ellas, ou que elles, tomem a mal o parallelo--que eu
offereço as revelações que vão seguir-se, nas quaes se explica, após
longos preambulos, como é que a primeira formiga veiu ao mundo.
Quando na China, pela era do imperador Tai-Sun, as terras andavam
divididas pelas mãos de muitos monarchas irrequietos, envolvidos em
continuas batalhas e baralhas, deu-se um caso no ceu, digno de
particular ensinamento. Acontecia que uma certa deusa do Olympo--Lei-San
era o seu nome--nunca ia dar o seu (passeio pelas nuvens, imagino) sem
se esmerar em demorados arrebiques, em meticulosas pinturas de cutis,
das sobrancelhas e dos labios. Pieguices do sexo, desculpaveis, e até de
certo modo meritorias; mas o caso motivou, certo dia, um risinho
malicioso da sua serva mais querida, e ainda por cima este commento
pouco respeitoso:--«A deusa tem pelos modos algum defeito no seu rosto,
e cuida de escondel-o á força de cosmeticos...»--Vão lá chasquear
impunemente dos encantos d'uma dama! e quando ella fôr divina... É certo
que tão cheia de cholera ficou a divindade, que vestiu a deliquente
d'uma pelle diabo que encontrou a geito, pelle horrivel, cara azul,
ruiva a guedelha, dois dentes curvos surdindo da bocca para fóra, e mãos
e pés disformes; e assim, n'esse bonito estado, a escorraçou do ceu, aos
beliscões, e a enviou ao mundo em expiação. Chamava-se Tchong-Mou-In, a
penitente.
[Figura]
* * * * *
Tai-Sun, empenhado em pellejas, e mortificado por innumeras derrotas,
teve uma noite um sonho radioso, difficil de explicar. Consultado sobre
o caso um lettrado favorito, anão por signal e muito feio, mas um poço
de sciencia, elle disse ao soberano, após magnos processos de magia, que
o sonho revelava que os deuses lhe haviam destinado certa dama por
esposa, forte de genio e habilissima na guerra, a quem mais tarde se
deveria a salvação do estado.
O anão dispunha-se a proseguir, depois de curta pausa; mas não quiz mais
ouvir o imperador; e eil-o cavalgando o ginete dos cortejos, em pompas
de comitiva festival, dirigindo-se para onde vivia a sua bella, conforme
as indicações do anãosinho. Atravessa povoados, galga montanhas, desce
valles; vôa, não corre, sua magestade; vôa nas azas da esperança,
pula-lhe o coração em mil anhelos; e assim foi dar com Tchong-Mou-In.
Imagina-se a scena. Não ha palavras que descrevam o desapontamento do
monarcha. Tremulo de indignação, rompeu logo em iras e em blasphemias;
pela mente, passaram-lhe de subito processos de torturas a exercer; e
d'um gesto esporeou a alimaria, no intuito de regressar ao seu palacio.
Ah! mas o soberano não contava que a dama, que a principio o recebera
com doces humildades de etiqueta, que a dama, expulsa embora do ceu e do
convivio dos seus deuses, ainda d'elles auferia benevolentes protecções.
A dama, n'um esgar provocante da sua face azul, arreganhando os dentes e
estendendo solemne a mão papuda, conteve d'um aceno suggestivo a furia
do cavallo, e vomitou ao cavalheiro, severos vaticinios. Gritou-lhe que
havia de casar com ella, se não quizesse alli ficar eternamente quedo;
gritou-lhe que havia de recebel-a como imperatriz, e que ao seu braço de
mulher, astuto e vigoroso todavia, teria de confiar altas emprezas.
Emfim, para encurtar razões, e apressar o fim da historia, direi que o
imperador desfez-se em cortezias e desculpas, venceu-lhe o asco e o
medo, e tudo prometteu. Não tardou que aquelle monstro feminino lhe
entrasse pela casa, rude e plebeu, endiabrado, dispensando cerimonias,
transportando ella propria ás costas o enxoval--dois cabazes, uma
thesoira, um espelho, um pente, uma vassoura, uma bacia de lavar o
rosto,--utensilios que, desde então até hoje, como que ficaram
consagrados, symbolisando do lar domestico o nucleo indispensavel.
* * * * *
Tres mezes, consta, esteve o imperador alheio á convivencia da esposa,
prolongando-lhe por esta forma uma castidade fastidiosa, com que ella
provavelmente, não contava. Paciencia. Por vezes, na fria intimidade dos
salões, procurou desprestigial-a aos olhos dos vassallos. Diz-se que um
dia, reunidas a esposa e a concubina favorita, uma aposta se fez, sobre
qual das duas, em escripta, mais habil se mostrava; e para isto se
combinou contar quantos caracteres eram ellas capazes de escrever no
tempo necessario para arder de um pivete perfumado, que alguem foi
collocar sobre uma urna proxima. Do lado da favorita, cuja cultura
litteraria é primorosa, estão o imperador (o basbaque!) e dois validos;
do lado da soberana, apostam tres lettrados, e um d'elles é o anão.
Eil-a, a amante, interessada vivamente no certamen, toda olhos, toda
attenção, toda adoraveis fernesis dos seus bellos dedinhos côr de leite,
que empunham o fino pincel, e correm febrilmente sobre o papel que lhe
trouxeram. A soberana, o mostrengo (perdôe-se-me o qualificativo que me
occorre), face azul pousada nas manapulas, dedos disformes enfiando pela
trunfa ruiva, olho impassivel e matreiro, relanceia, aparvalhada e
immovel, a scena, e os espectadores. Sobresaltam-se os lettrados, que
adivinham, n'uma eminente surriada, o desprestigio proprio no conceito
do monarcha.--«Senhora, segredam, por piedade, decida-se a
escrever...»--A bruta não os escuta. Repetem se, multiplicam-se as
instancias; até que finalmente, attendendo a tantas supplicas, diz
ella:--«Vão buscar aos meus aposentos um pincel.»--Voam escudeiros,
volvem breve:--«Não se encontra, Senhora!»--Ella indica que está junto
d'um armario. Os vassallos replicam:--«Perdão, não está; o que está é
uma vassoura...»--Então berra a soberana:--«Pois é isso mesmo, seus
patetas!»--E tomando da vassoura, e ensopando-a n'uma mixordia de tinta,
de que mandou encher a bacia que trouxera no enxoval, isto quando o
pivete ia chegando já ao termo, com a vassoura lambusou um enorme papel,
d'um gesto apenas; e por milagre,--que só assim se explica tal
portento--appareceram nitidos, sublimes, mil e mil caracteres da mais
adoravel forma caligraphica.
[Figura]
* * * * *
Na guerra, dirigindo ella mesma, em pessoa, a turba dos guerreiros, foi
colhendo victorias e engrandecendo os seus dominios. Nos ardis, um
primor.
* * * * *
Uma vez, convidados, imperatriz e imperador, para um banquete de
monarchas, com os quaes andavam de guerrea porfiosa, um dos nobres
apresentou aos convivas um enorme macaco que possuia, mono astuto nos
seus modos de selvagem, e eximio n'um jogo então em moda, semelhante ao
gamão dos nossos tempos.--«Senhora, ides jogar tres partidas com este
mono; se a ultima ganhardes, são vossas, nossas terras; se a
perderdes... percebeis-me?»--Trava-se o jogo em que a imperatriz não era
forte, pouco affeita a prendas de salão, e sendo notorio que nos ceus,
onde passara a juventude, o jogo é prohibido. Coragem!... Primeira
partida: ganha o mono. Segunda partida: ganha o mono. Tchong Mou-In
desfalece em intimas angustias, julga-se perdida, quando então se lembra
de invocar os deuses. A sua divina ama, que nunca a abandonára, despede
do ceu um aviso visivel só para ella:--Toma este fructo; esconde-o na
manga da cabaia, de modo que apenas o macaco dê fé d'elle, e joga
resoluta.--Terceira partida: o mono dando vista do acepipe, banana ou
coisa parecida, estremece de desejos; o trazeiro, onde parece residir a
alma dos macacos, pula-lhe em sobresaltos, em anhelos, sobre o assento
da cadeira; e com a dentuça arreganhada, o olho em braza, em arco as
espessas sobrancelhas, o bestunto por certo desvairado, balbucia
gritinhos repetidos--eh, eh! eh, eh!--que irritam os convivas. A mãosita
felpuda ainda vae mexendo as pedras, por habito, por dever, mas sem
arte, sem intuito; e a razão foge-lhe, abandona-o--tão imperativa é a
lambarice n'estes figurões da fauna comica!--E perde a partida decisiva!
Um parenthesis na historia. Dizia-me ha dias um companheiro de desterro,
dos raros com quem logro palestrar:--Ora vêja você quantos macacos ha
por este mundo, de gravata, e casaca, e rosa na carcella, quando não é
uma commenda, astutos no gamão e n'outras prendas varias, quasi
attingindo as alturas da audacia e do triumpho; n'um momento fatal, uma
banana qualquer, mostrada a geito, desnortea-os, allucina-os,
aniquilla-os... E que, por mais que façam, são macacos, embora a cauda
se não vêja, de certo occulta nas ceroulas, e ninguem ha que possa
purgal-os, expurgal-os, do sangue dos avós...
* * * * *
Continuo.
Uma das mais bellas façanhas que illustram a gloriosa mulher, se mulher
é, de quem me occupo, é a seguinte. Travava-se então renhida a lucta
pelas armas, entre varios soberanos, já com enfado de vencedores e de
vencidos. Tai-Sun ia levando a melhor nas investidas. Eis que os reis
desbaratados, unidos em conluio, julgam ir pôr termo a tão irritante
situação, e muito em seu proveito, propondo ao imperador um curioso
problema.--Não nos façaes a guerra. Aqui tendes uma perola, arrancada
d'um annel; notae que tem dois furos esta perola, communicando entre si
interiormente por um labyrintho de nove canaesinhos; se conseguis
apresental-a enfiada n'uma linha, juramos-vos a paz e a entrega por
inteiro de tudo que hoje é nosso.
Irra! Em que apuros se viu o bom soberano em caso tão difficil!... Os
conselheiros ficaram-se calados, macambuzios, e nada aconselharam. Foi
então impingindo esta questão á esposa, elle, que a não beijava, nem lhe
queria, mas que em assumptos escabrosos só n'ella tinha fé.
Tchong-Mou-In recolhe-se, implora os deuses. A sua divina ama envia-lhe
então do ceu uma formiga, a primeira formiga que veiu a este mundo; e
manda a verdade que se diga que essa formiga prehistorica era um nadinha
differente das formigas contemporaneas, menos esbelta nas formas, mais
bojuda. Tchong-Mou-In comprehende o precioso auxilio: ata uma linha a
meio corpo do bichinho, leva-o assim junto da perola, junto d'um dos
seus furos, por onde se vê forçado a enfiar, não tardando que surda pelo
outro, arrastando a competente linha atraz de si. É a gloria!...
E não reparam hoje na delicadeza da formiga, leve a cintura, como a
cintura d'uma dama espartilhada? D'antes não era assim. Consigna-se o
facto como indicando ainda ás gerações presentes uma maravilhosa herança
atavica, a impressão do nó com que a linha se prendia e apertava a
primeira formiga, a formiga lendaria, a mãe de todas as formigas que
hoje passeiam sobre a terra.
* * * * *
[Figura]
Nada mais sobre o insecto. Poucas palavras apenas pelo que respeita á
soberana. Lei-San, a sua divina protectora, perdoou-lhe finalmente o
passado sorriso de motejo, que valia uma injuria; despiu-a da pelle
monstruosa que lhe dera, por expiação do seu peccado, restituiu-lhe a
peregrina belleza que lhe era propria... O imperador, antes que a
consorte volvesse aos seus labores divinos, poude vêl-a, e por longos
annos, no completo esplendor dos seus enlevos. O imperador, que já lhe
tributava incondicional veneração, graças aos seus prodigios, que tanta
ventura lhe trouxeram, e prosperidade ao imperio, poude então tambem
amal-a, amal-a apaixonadamente, embevecido em tanta graça, em tanta
formosura. Imagine quem quizer como áquelles amorosos as horas iriam
correndo encantadoras, na serenidade mysteriosa do palacio, cingido por
muralhas de marmore, e rodeado de jardins, e no afan de festejarem
aquella lua de mel, tardia embora, que lhes apparecia no horisonte!...
1899.
OS DIABOS E OS VELHOS
A Nuno Queriol
Falla a lenda japoneza.
Era uma vez um velho, que tinha um enorme lobinho sobre a cara, na face
por signal. Certo dia, achava-se elle na montanha, a cortar lenha--era
esta a sua humilde profissão,--quando o surprehendeu uma terrivel
tempestade, chuva a potes, ventania desabalada, o raio faiscando nas
alturas; tão terrivel, que se viu obrigado a ficar por aquelles sitios e
a buscar um abrigo para a noite. Abrigo, na floresta, era difficil
problema; um grande tronco de arvore, escavado pelos seculos,
offereceu-lhe a unica guarida.
No seu posto, agachado e sem poder dormir, foi o velho passando tristes
horas. Alta noite, principiou a dar razão d'um estranho vozear, longe a
principio, mas pouco a pouco avisinhando-se-lhe--«Olá, resmungou, tanta
gente por aqui, e eu que contava achar-me só?...»--E pôz-se a espreitar,
curiosamente, sem sombra de receio.
[Figura]
O que o velho então viu, muito a custo, á luz fugidia dos relampagos,
mal póde imaginar-se. Uma numerosa sociedade approximava-se; mas nunca
ao velho apparecera tão estranha sociedade como aquella. Era um bando
immenso de patuscos, de diabos incontestavelmente, medonhos nos
aspectos: uns, encarnados, vestidos de _kimonos_ verdes; outros, negros,
vestidos de _kimonos_ encarnados; a um faltava um olho; a outros o
nariz; alguns não tinham bocca. Pozeram-se a accender uma fogueira
enorme, com palha, com folhas, com cavacos que encontraram; e as chammas
sinistramente os patentearam. Acocorados em torno da fogueira, em duas
filas, bebendo _saké_ em amigavel reinação, pareciam mesmo gente, os
taes demonios. A vasilha ia passando á roda, de garra em garra, entre os
convivas; e tantas voltas deu, e renovada tantas vezes foi, que jâ não
tinham conto as bebedeiras. Um dos mais jovens assistentes ergueu-se
como poude, e começou uma cantiga, dançando ao mesmo tempo; os outros
imitaram-n'o. Era então extremamente emocionante a vista da paizagem: a
fogueira, ateada pelas rajadas successivas, alastrava-se e subia,
furiosa, até ás nuvens, em turbilhões de fumo e labaredas, e ia
alumiando diabolicamente a scena inteira--ramarias de bambus e de
pinheiros, profundezas de bosques, penedos gottejantes, torrentes
espumosas, e ainda a turba immensa dos diabos esbravejando em mimicas
atrozes--Uns rodopiaram em vertiginosas piruetas; outros iam gravemente
alçando a perna e ensaiando minuetes; outros, immoveis, ou antes
querendo assim quedar-se, ondulavam em bordos grotescos de borrachos; e
de colina em colina os echos repetiam os torvos descantes em falsete, de
mistura com as lamentações das arvores açoitadas pelo vento, e a salva
de artilharia dos trovões. Berrava uma vóz esganiçada: «Que grande
reinação! mas bem quizera vêr mais alguma novidade!...»--
* * * * *
Mettido no seu esconderijo, o rachador de lenha passou por todos os
tormentos que o espanto, o susto e o desamparo juntos produzem no animo
d'um velho. Por fim, passadas horas, ia já folgando na festa--ou não
fosse elle japonez!--e tal poder teve sobre elle a bambochata, que lhe
venceu escrupulos e temores, e o levou a esta resolução
formal.--«Matem-me embora estes diabos, se quizerem, mas pretendo tambem
ir pandigar!»--Surdindo então da tóca, barrete enfiado até ás orelhas,
machadinha suspensa da cintura, ei-lo a reunir-se á malta, a dar as
boas-noites e a ensaiar passos de dança. Foi agora a vez de se
espantarem os demonios; mas tão comico era o velho, no seu pobre
corpinho corcovado, avançando em meneios, e recuando após, e virando-se
para a direita em cortezias, e voltando-se para a esquerda em
reverencias, e traçando no ar, com o pé descalço, estupendas parabolas
coreographicas, que desataram todos em risóta, gritando:--«Viva o velho!
muito bem! que bem dança o velho!»--E proseguiram depois, n'este
proposito:--«Queremos que tomes sempre parte em nossas festas, por seres
mui reinadio; mas, como póde acontecer que não pretendas voltar mais,
vaes deixar-nos um penhor de que acederás a este convite.»--
[Figura]
Consultaram-se entre si, e decidiram da consulta, extrahir-lhe o
lobinho; muita gente do povo, é notorio, considera este achaque como um
valioso talisman para ser-se afortunado. Eil-os pois, olhos attentos,
braços nús, dedos palpando, lancetas e tenazes em acção; e o velho
estendido sobre o solo, um segura-lhe uma perna, um outro a outra, outro
prende-lhe os braços, outro delicadamente ampara-lhe a cabeça; e
sairam-se do caso com limpeza, não causando a menor dôr ao paciente.
Depois, fôram guardar o lobinho n'um estojo.
Quando, sereno já o tempo, rompeu a madrugada, uma bella madrugada côr
de rosa, e os pardaes começaram a papear nas ramarias, desappareceu
então a malta dos demonios. O velho desceu á sua aldeia. Entrou em casa
muito contente, ainda um tanto estonteado da bebida, sem o lobinho é
claro, com a sua face muito lisa, sem o minimo defeito. O caso
maravilhou com razão a companheira, e a gente conhecida. Ia-se servindo
o chá pela familia e pelos curiosos que accorriam, sobre a esteira,
junto do brazeiro; e era uma chuva de exclamações e de perguntas, que
obrigaram o velho a explicar, nos seus detalhes surprehendentes, as
peripecias da estranha noite que passára na montanha.
* * * * *
Ora, havia entre os visinhos presentes um outro velho, que tinha um
enorme lobinho sobre a cara, na face esquerda por signal. Muito calado,
assim com ares de não prestar ouvidos á palestra, ia em mente, o
finorio, retendo todas as minucias. Não partilhando das crendices da
gentalha, pelo contrario, desejoso de vêr-se livre do tortulho, ia já
estudando a maneira de entregar-se nas mãos de tão sabios curandeiros.
Eil-o pois, por uma noite escura, caminho da montanha; seguidamente,
eil-o abrigado sob o mesmo tronco de arvore, á espreita dos diabos. Não
faltaram. Começou a bambochata,--risota, dança, vinho.--Juntou-se então
aos demonios, a medo, um outro figurão.--«Olá, cá está de novo o velho!
voltou, e vem dançar!»--Dançou, effectivamente, e sem ser muito rogado;
mas era um desastrado; e tão mal desempenhou o seu papel, tão falto de
geito e de pilheria, que os demonios, tomando-o sempre pelo conviva
primitivo, zangaram-se e disseram-lhe:--«Enganaste-nos, brejeiro! és um
grande desgeitoso; devolvemos-te o penhor que nos deixaste e
aconselhamos-te a que não pises mais este logar.»--Um da chusma foi
buscar o lobinho, e zaz! pespegou com elle na face direita do sujeito.
Saira de casa com um, e voltou com dois, um lobinho em cada face. Pode
imaginar-se o desapontamento do sujeito e a hilaridade dos visinhos.
Parece que, na aldeia, durante semanas e semanas, paralysou todo o
trabalho; os velhos, as velhas, as raparigas, os garotos, não faziam
senão rir, rir a bandeiras despregadas,--e o caso não era para menos!--
1899.
PAU-MAN-CHEN
A Antonio Baldaque da Silva.