enxadas para a montanha de _Nunobiki_, onde a agua jorrava em manancial
sem fim; e, á força de braços e de dynamite, no intuito de encaminhar a
torrente aos reservatorios da empreza, fez-se um desbarato tal, abatendo
as arvores, cortando as rochas, cavando a terra, que todo o enlevo do
sitio desappareceu, a paisagem tornou-se em ruinas. Rigorosamente
fallando, a cascata acabava de existir. A _cháya_, tal como a gente a
conhecêra no seu rustico pittoresco, forçada pelas escavações a mudar de
poiso, acabava de existir. E as raparigas? logicamente, tinham de
desapparecer tambem. Com effeito, a Semente casou com um japonez e
safou-se... e faço votos para que o seu nome lhe seja de bom agoiro,
dispondo os fados a concederem aos conjuges uma prole feliz e numerosa;
e a Primavera morreu; morreu, por mofina coincidencia, quando a outra
Primavera ia renascer, dar viço e flôres ás arvores, não ás da cascata,
mercê da nova empreza. Morreu tisica; a sua cascata, onde nascêra, onde
vivêra vinte annos, com a sua eterna penumbra crepuscular, com as suas
rochas eternamente gottejantes, com o seu ambiente eternamente humido,
roêra-lhe os pulmões...
[Figura]
Pobre Primavera... Mas não morreu talvez, pensem bem n'isto que lhes
digo; embora ninguem mais lograsse vel-a, embora as amigas tivessem
acompanhado ao cemiterio o seu corpinho inerte... O seu retrato já corre
mundo, em photographia, vendido pelas lojas, perpetuando-lhe o rostinho.
E nada mais possivel do que o facto de andar ganhando cobres pelas
feiras, hoje, amanhã, d'aqui a quarenta annos, um sujeito qualquer
ajoujado com um graphophone, um _phone_ qualquer americano... Estão
imaginando a patuscada:--Cylindro apropriado; dá-se corda... A plebe
ouve pouco mais ou menos o seguinte:--«Grande companhia de graphophones
de Nova-York e de Paris! Scena da famosa cascata de _Nunobiki_, no
Japão!»--E a plebe continua de ouvir: é agora o murmurio continuo,
soluçante, de agua despenhando-se de rocha em rocha; trina um passaro
vagabundo; um francez bate as palmas, pede cerveja; um inglez pede
whisky; um nipponico pede chá; a vóz da Senhora Primavera vibra
distincta, fresca, doce; Primavera desfaz-se em desculpas, em risinhos,
diz que já vae, não tarda; mas o inglez tem pressa, renova o seu pedido
com azedume: e o instrumento é então perfeito--oh, maravilhas da
sciencia!--que se ouve até o ciciar d'um beijo, que é naturalmente do
francez...
1899.
NILGUYO
_Mukashi_, _mukasi_ (nos velhos tempos, nos velhos tempos, como diriam
estes bons japonezes, e conforme reza a lenda, interpretada pelo Nihon
no _Mukashibanashi_ (Antigas Legendas do Japão), viveu um homem, um
simples, de indole bondosa, de quem se poderia dizer que passára a
mocidade em desejos de matrimonio; mas como desejos e realização d'elles
são duas coisas mui differentes, attingiu o pobre a meia idade sem ter
levado a effeito essa firma...--_commercial_ não é talvez o termo
proprio,--em todo o caso essa firma a dois parceiros, que partilham
entre si, da vida, alegrias e tristezas.
As alegrias d'elle consistiam principalmente em entregar-se á pesca,
pesca á linha durante os longos ocios; tristezas, sentia-as sobretudo,
mais mordentes, ao recolher á noite a casa, derreado, cambaleando de
somno e de fadiga, sem encontrar uma alma companheira que lhe sorrisse á
porta, e em saudações o convidasse a entrar, nem mãos prestimosas que
lhe tomassem do peixe e o amanhassem, e fossem depois leval-o ao fogo do
brazeiro. Em toda a parte, e especialmente no Japão, estes sentimentos
intimos d'alma,--jubilos de pescador á linha e desalentos de
solteiro,--são bem justificaveis. Com effeito, para um temperamento
vagabundo e impressionavel aos enlevos da paizagem, como se dá com todo
o japonez, quantos encantos não vão proporcionando a linha e o anzol,
induzindo-nos sem esforço a longos passeios de bohemio, penedos e praias
fóra, contornando margens ziguezagueantes de ribeiras e enseadas, em
face dos scenarios serenos, todos verde, frescuras, espelhos de aguas e
murmurios... e como as horas vôam, acocorado o corpo sobre a rocha, a
mão ora affeita, ora prendendo o isco, ora demorando-se em commovente
espectactiva, ora colhendo o peixe a estrebuchar; e o espirito voando,
como as horas, alheio ao officio, deliciando-se em sonhos, viajando no
reino das chimeras... Mas á noite, após um dia inteiro de labuta, é que
o corpo se doe e falham os joelhos; e deve então saber tão bem chegar a
gente ao lar de esteiras e papel, e vir á entrada ajoelhar-se em
cortezias a figura gentil d'uma esposinha fresca, envolvida em sedas e
perfumes, com as mãositas rosadas em posição submissa, as mãositas tão
habeis em córarem nas brazas as trutas saborosas...
Ora, um bello dia, o nosso homem, de quem a tradição não tomou conta do
nome, achava-se pescando segundo o seu costume, bambu em punho, e
meditando ao mesmo tempo sobre o seu desconsolo e desolada sorte,
quando... zaz! um grande safanão na linha lhe fez logo imaginar que
alguma coisa fóra do commum viera de colher. Por pouco se lhe não vão,
linha, e anzol, e peixe ao mesmo tempo; então, com muitas manhas que são
proprias da arte, poz-se a cançar a presa, já alongando o braço e
deixando-a debater-se a seu capricho, já aproveitando o repoiso para
traze-la á praia; até que emfim, azado o instante, puxou com força, e
veio cair-lhe o peixe aos pés.
O peixe? o peixão!... Era uma _Ninguyo_, uma sereia; nem mais nem menos;
face de mulher, d'uma rara formosura, e um enorme corpo ventrudo,
alongado, escamoso, agitando barbatanas e terminando em amplo rabo, que
então desesperadamente estremecia. Face de mulher de uma rara
formosura,--disse-o eu, e não me engano:--esse contorno doce de oval, de
_urizanegao_, de pevide de melão, tão querido em esthetica japoneza; os
bastos cabellos negros fluctuando em coma; a tez de jaspe; os olhinhos
de velludo; a boquinha escarlate. Mas chorava, a sereia, em contracções
de angustia; chorava certamente pela dôr, pois lhe rasgava a carne o
traiçoeiro anzol; e ainda mais talvez pela vergonha de vêr-se assim
arrebatada do seu meio habitual, expiando um peccado de lambarice,
indefeza, nua deante d'um estrangeiro!...
* * * * *
O pescador porém era d'uma indole bondosa, como ficou notado um pouco
atraz; e vae-se agora ver como o provou. Comprehende-se, é claro, o seu
primeiro espanto: o homem punha as mãos sobre a cabeça, a esbugalhar os
olhos, e gaguejava não sei que exclamações... Podera não! Acalmado,
sacou cautelosamente o anzol da bella face em sangue; e tomando nas mãos
o estranho ser, poz-se a scismar maduramente sobre o caso. Ora, ia
pensando, se elle fosse correr as feiras todas, as festas dos mil e mil
templos do paiz; e alinhando a sua barraca com as outras, onde se
exhibem salamandras, crocodilos, creanças sem pés e sem mãos, cães
sabios e muitas outras coisas, que abundantissima chuva de sapecas lhe
não cahiria em cima, quer dizer, dentro das mangas do
_kimono_!...--"Meus senhores, entrem todos! Quem não tem cabeça, não
paga nada! Ora aqui está uma sereia authentica..."--e já ia estudando o
discurso que faria, soberbo, dominador, impondo-se á plebe embasbacada.
Ou então, outra ideia: se elle comesse a carne da sereia, cosinhadinha,
feita em postas... e sabem todos que a carne da sereia tem virtude de
conservar perpetuas a vida e a juventude a quem d'ella provou... Mas a
sua indole bondosa revoltou-se afinal contra a lembrança de reter n'uma
tina, em exposição, ou peor ainda, de levar á degolla aquelle pobre
bicho, que sobre as suas mãos se lamentava e desfazia em prantos, como
se fôra uma pessoa; contemplou-o ainda, longamente; e com um nobre gesto
e decidido esforço, atirou a sereia ás vagas, d'onde viera, e onde
mergulhou e desappareceu sem mais cerimonias, após um acenar de rabo,
que poderia ser um adeus, um adeus e um agradecimento.
O nosso pescador voltou á sua faina. Consta que, n'aquelle dia
memoravel, o cabaz se lhe encheu de uma espantosa quantidade de tudo que
o mar dá. Á tarde, tornando a casa ajoujado com a carga, bailava-lhe nos
labios um sorriso, que provinha da boa pesca que fizera, e tambem da boa
acção que praticara.
[Figura]
* * * * *
Quando pela noite, na cosinha, mangas do _kimono_ arregaçadas até acima
dos sovacos, avental sobre as pernas, celha ao lado, se dispunha a
preparar a sua ceia, ouviu que de fóra, e junto á porta, uma fallinha
mansa lhe ia dizendo:--"Dá licença! dá licença?"...--Corre o homem a
abrir a corrediça, ainda com a faca da cosinha, e um carapau na dextra
adunca; e á luz frouxa d'um luar de quarto minguante, poude distinguir
um vulto de mulher em nada extraordinario, porém doce e cortez, que lhe
confessou ser uma viajante extraviada do caminho, sem casa e sem abrigo,
e lhe pedia poisada só para aquella noite.--«Entre depressa, menina,
acode-lhe o sujeito, e venha partilhar do pouco que aqui tenho».--Então,
dando-lhe entrada, conduzindo-a ao aposento das visitas, fel-a descançar
sobre a esteira, e junto do brazeiro, foi-lhe servido o chá
tradicional.--«Muito obrigada.»--O homem rogou-lhe seguidamente que
esperasse pela ceia, uma ceia de peixe por signal, que elle ia amanhar
sem perda de um minuto.--«Permitte-me que eu ganhe o direito ao meu
quinhão, ajudando-o n'essa lida?»--Disse que não redondamente, que nunca
consentiria que os seus hospedes trabalhassem na cosinha. Em replicas e
treplicas, a rapariga assegurou-lhe que passara a vida toda, além, da
banda do oceano (talvez filha de gente embarcadiça? pescadora?) e que
ella conhecia as melhores receitas de cosinhar o peixe, no que até
muitas vezes, por passatempo, se occupava; e tanto ella teimou,--sabem
todos o que são teimas de mulheres!--que sempre foi levando a sua
ávante.
O que é certo, é que nunca o pobre solteirão se lambera com tão
deliciosas petisqueiras. Comeu a sua dose, repetiu, pediu terceira vez;
e dizia, a chuchar ainda as cabeças dos ruivos, que a pena que lhe
ficava, era de não lhe ser servida uma ceia egual, todas as noites. A
companheira observou então modestamente, a meias fallas, que lhe parecia
não ir além dos seus poderes, um tal desejo; e instada a explicar melhor
a sua phrase, accrescentou que era solteira, sem parentes, sem lar...
Comprehendida finalmente, o remate de tão feliz encontro foi ella
consentir em ser a esposa do sujeito.
Antes, porém, impôz as suas condições.--«_Danna_, meu dono, eu tenho,
como disse, passado a vida pelo mar, e não posso prescindir do meu banho
de agua salgada ao menos uma vez cada semana; consente-me isto?»--Elle
acenou que sim.--«E jura-me (agora vão ouvir os pudores da
pequerrucha...) que me deixará banhar em paz, sem seguir-me, e sem
sequer espreitar-me?»--Elle jurou que sim; e deu-se por feliz (já se ia
babando pela moça, o maganão!) de, por tão pouco preço, ver-se possuidor
de tal thesoiro.
Casaram. Bodas de estrondo; e viveram ditosos durante longos mezes. O
peixe, o prato querido dos nipponicos, foi sêmpre excellentemente
preparado pela esposa, activa, intelligente, a rir-se sempre. O pargo,
em fatias cruas regadas com molhos excitantes, era divino! As enguias
com arroz, uma delicia! O caldinho de ameijoas, superfino! As trutas
assadas sobre o lume, sem egual! E até uma certa caldeirada, assim como
quem diz á moda do Algarve, era de estalo, sem favor! E o marido
tornava-se anafado e luzidio, a testemunhar a toda a gente, pelo volume
e pelas banhas, que alguem olhava por elle com disvelo...
* * * * *
Mas o banho? Melhor fôra não fallarmos n'elle...
Ai que pandega que era esse tal banho!... Ella passava a manhã inteira
preparando-o, afinando o appetite, podia-se dizer; e no banho se quedava
horas esquecidas, pela tarde. Depois, ajoelhada sobre a esteira,
espelhinho em frente, e em torno os cofresinhos mysteriosos, era a
interminavel tarefa de fazer-se bella, ora branqueando as faces, ora
avermelhando os labios, ora compondo o penteado. O esposo chegára mesmo
a esta conclusão não muito lisongeira:--que a companheira mais queria á
agua salgada do que a elle;--mas perdoava-lhe,--outros ha que bem menos
innocentes caprichos vão perdoando...--e nunca a sombra sequer d'um
arrependimento viera turvar a paz do seu viver.
Uma bella tarde,--tarde de banho por signal--chegou o homem a casa, e,
como se diz em portuguez... cheio de fome.--«Tardará muito para a ceia?
resmungava. Irá o banho em meio ou em principio?» A esposa, é claro,
achava-se invisivel, e com a portinha fechada a sete chaves; mas casas
japonezas são casas de papel, e uma fenda, um rasgão, convida-nos a
enfiar os olhos para dentro. O caso é que elle espreitou. Surpresa!
Horror!... Não é uma mulher, mas uma sereia, que se banhava, melhor
dizendo--que nadava, em demoradas circumvoluções de regalo ao longo da
tina, agitando mansamente o rabo e as barbatanas, e cantarolando
baixinho canções do mar, canções das praias...
Pobre marido!--«Ah! canta-me assim, exclamou elle, canta-me assim,
grande mostrengo!... Agora percebo eu as tuas habilidades em lidar com
peixes,--lidas com os teus parentes, grande mostrengo!...--Melhor fôra,
sem duvida, que eu nunca te conhecesse em tal estado, em tal nudez; mas,
feito o mal, quer-me parecer que nunca mais poderei tragar com appetite
os teus guisados, intrujona...»
A porta, abriu-se então e appareceu a esposa. Chorava, cahiam-lhe as
lagrimas a punhos; chorava mas digna, resignada, lia-se-lhe no olhar uma
resolução fatal. Fallou assim, ajoelhando:--«_Danna_, meu dono, foi a
sua benevolencia para mim, um dia, extrema, tirando-me das aguas,
podendo fazer da minha vida o que quizesse, e salvando-m'a. Trouxe-me
aqui um dever de gratidão: julguei com a minha presença poder amenisar a
sua soledade, servindo-o como escrava. Deu-me o nome de esposa. A minha
gratidão será eterna. No entretanto, acabando de ver-me assim na minha
forma verdadeira, um bicho, um monstro que mette medo a toda a gente,
comprehendo que a missão que tomei chegou ao termo. Estala-me o coração,
mas pouco importa!... _Danna_, meu dono, adeus. Do ceu lhe chovam
bençãos...»--E correu para a praia e desappareceu nas ondas.
Pobre marido!... Por um acto inpensado, perdeu para sempre uma
companheira carinhosa; e, como das nupcias com a sereia lhe resultava o
dom de longa vida, foi longa a sua viuvez, e longo o seu martyrio...
A fabula, segundo observa, e com criterio, o auctor japonez que
consultei a tal respeito, offerece duas lições de alta moral. Uma é
esta: a mulher que pretenda conservar um bom marido, deve captival-o
pela barriga, isto é, pelo esmero do seu repasto; parecendo averiguado
que o estomago é o orgão mais sensivel, e porventura o mais grato, do
homem, o rei da creação. A outra lição é a seguinte: o marido que deseje
manter a harmonia do seu lar, nunca interfira na toilette intima da
consorte; porque, isto de damas,--com sua licença,--todas lá têem o seu
rabo, ou escama, ou barbatana, coisa emfim que melhor é não seja
conhecida, em proveito dos dois, e em conformidade com o codigo inedito
do amor, capitulo _Illusões_, artigo... esqueceu-me agora o artigo, meus
senhores.
1899.
O CAVALLO BRANCO DE NANKO
A Carlos Campos
Isto aconteceu ha cerca de mil annos, em terras japonezas: um cavallo,
que o grande artista Kanaoka desenhára n'um biombo do templo de
Ninnadji, perto de Kioto, era uma tão bella creação, cheia de verdade e
palpitante de vida, que todas as noites se escapava do papel para ir
galopar pelos campos em roda, culturas fóra, devastando a esmo as
sementeiras; e o caso dava-se, claramente, com magno espanto e raiva dos
camponios, que o perseguiam á pedrada. Estes camponios, impressionados
pelas fórmas incomparaveis do animal, persuadiram-se por fim de que elle
não podia ser outro senão o cavallo de Kanaoka; e a persuação
converteu-se um dia em certeza absoluta, quando viram na pintura as
patas do travesso, humidas ainda da lama fresca dos caminhos. Sem mais
cerimonias, arremetteram contra a tela e esfuracaram-lhe os olhos; e
consta que nunca mais houve queixas de estragos nas fazendas.
[Figura]
Ainda outro cavallo de Kanaoka, que era mestre no genero, cavallo
desenhado n'uma parede interior do palacio imperial, tinha o vezo de ir
devorar pelos jardins as flores tenras do açafrão; e só cessou a
brincadeira quando alguem se lembrou de retocar a obra, amarrando o
patife á parede com um pedaço de corda pintada para o effeito.
* * * * *
Ora bem. De muitas maravilhas é sem duvida capaz a mão inspirada d'um
artista!... Esses dois cavallos de Kanaoka, nascidos d'uma gotta de
tinta e de algumas curvas humoristicas de pincel, mas em todo o caso
ungidos do sopro sublime do eximio mestre, animavam-se por momentos,
soltavam-se da tela, e ahi iam elles!... Felizes bohemios eram e felizes
tempos eram. Arte creadora, arte radiosa das epochas passadas, porque
não vaes tu regendo, ainda e sempre, os destinos de todas as coisas
d'este mundo?...
N'estes dias que correm, deslavados e tristes, mesmo no Japão, e não
cessando de divagar no mesmo assumpto de cavallos, confesso francamente
a quem me lêr, que nada me mortifica tanto como o espectaculo dos
cavallos sagrados dos templos shintoistas. Ora aqui estão umas
cavalgaduras bem authenticas, bem vivas, bem reaes, de carne e osso; e
que, se fossem lidas em coisas de arte antiga nacional--mas não
são,--por certo muito invejariam as simples creações no papel da mão de
Kanaoka. N'este paiz japonez, onde parece que os seres, homens e bichos,
nasceram e vivem n'um banho perenne de sorrisos, mais desoladora se
afigura ainda a condição dos pobres brutos, que um dia inspiraram estas
linhas melancholicas que escrevo.
[Figura]
Se pretendo ser de certo modo comprehendido nas divagações que vão
seguir-se--e é obvio que pretendo,--convem que me detenha um pouco,
fallando de templos shintoistas em geral. O shintoismo, da palavra
_shinto_ (a estrada dos deuses), é a crença primitiva, patriarchal, das
epochas remotas no Japão; e conservada até hoje, a despeito da grande
propaganda de Buddha que se fez e se faz, é ainda a religião nacional, a
religião do Estado. O shintoismo é a adoração pelo sol, pelo Imperador
seu filho, por todas as forças da creação, pelas divindades protectoras,
pelos genios, pelos nobres, pelos heroes e pelos sabios. O templo de
shinto é o recinto consagrado a uma d'essas invocações. Distingue-se
antes de tudo pelo _torii_, o grande arco de pedra ou de madeira
avisinhando do logar, e como que indicando o caminho ao peregrino.
_Torii_ quer dizer _descanço dos passaros_; e assim ficamos já com uma
noção primeira e delicadissima na essencia, aprendendo que no campo
sagrado tudo é paz, tudo é remanso, pois que até aos pardaes, cançados
dos vôos doidos que fizeram á aventura, se offerece um poleiro protector
onde descancem. Ao _torii_ succedem-se o amplo portal e o vasto espaço
murado; e lá dentro, symbolos, alfaias d'uma religião toda de amor, são
a paisagem graciosa, os jardins verdes, os bosques frescos, as rochas
musgosas, os lagos quietos; aqui é a cisterna destinada ás abluções
preliminares dos crentes; alli são as monumentaes lanternas de granito,
esverdeadas pelos annos; além o nicho escarlate votado a Inari, raposa,
Deus do arroz, não sei que mais, em todo o caso coisa muito santa;
depois as construcções ligeiras, de madeira nua, dispersas, e onde em
dias festivos as donzellas do culto dançam ao som de estranhos
ritornellos, ou silenciosos officiantes abençoam as multidões, agitando
sobre as cabeças reverentes um penacho de papel branco, emblema de
pureza.
[Figura]
Nos templos mais faustuosos, não faltará outro accessorio: o nicho
garrido, a pequenina estrebaria, onde o cavallo sagrado mastiga
eternamente a insipida palha do seu officio. O deus, ou genio do templo,
tem o seu cavallo de estado; é justo. É geralmente um cavallito albino,
de pello branco e olho azul celeste, talvez porque se ligue uma certa
idéa de candura a tal enfermidade. O deus serve-se d'elle como entende;
alguem, a quem pergunto informações do cargo, diz-me que é o _Ó tsukae
mono_... assim como quem diz: _o nobre moço de recados_. Admittamos pois
que faz em regra os recados do deus, o que é já muito, e um alto mister,
e por isso é sagrado e tem honras de santo; e em lances difficeis, mais
distinctos serão ainda os seus serviços. Ardeu ha mezes um dos mais
famosos templos do Japão, em Yamada; não sei que coisas do culto foram
depois encontradas ao abrigo e longe do sinistro;--foi o cavallo que as
transportou para lá.--É voz do povo que em Osaka, em dois templos de
shinto, desappareceram os cavallos quando rebentou a ultima guerra com a
China;--está-se mesmo a perceber que as almas d'esses deuses montaram
nos ginetes para irem aos campos do inimigo, abençoar as tropas de
Nippon.--Taes casos, porém, são raros, são rarissimos, n'esta epocha
positivista, tão escassa de milagres; e os cavallos brancos sagrados
vivem e morrem amarrados á mangedoira, passeando uma só vez em cada
anno, no dia da festa do templo, encorporados então triumphalmente á
procissão, que percorre as ruas da cidade. É o encerro absoluto, é a
constante immobilidade tediosa, sem mesmo as furtivas escapadelas dos
cavallos pintados de Kanaoka. A palha abunda-lhes; acercam-se d'elles as
creanças e as mulheres, que os adoram, e compram á velha, que por alli
está cerca do estabulo, montinhos de feijões cozidos, que offerecem
sobre as palmas das mãos rosadas, aos focinhos nostalgicos dos rocins.
* * * * *
Eu conheço uns poucos d'esses brutos, mas tenho mais intimas relações
com o de Nanko, um templo aqui em Kobe, celebre, dedicado á memoria de
Kusunoki Masashige, que foi um nobre guerreiro e patriota.
No amplo santuario do templo estabeleceu-se uma feira permanente, dia e
noite, mas principalmente de noite, atractiva e frequentada por
passeantes e devotos. A vida inteira japoneza passa, perpassa aqui; quem
já folheou os albuns de desenho de Hokusai, e n'elles se interessou,
deve depois votar horas inteiras a esta historia viva e flagrante do
povo de Nippon; e assim completar, quanto possivel, a noção que haja
formado d'este povo, um dos mais interessantes, e o mais sympathico
talvez, do mundo inteiro.
[Figura]
A gente afflue de toda a parte, d'aqui, d'alli, d'alem... Junto ao
portal, condensa-se o formigueiro humano, em centenas, em legiões de
cabecinhas; a pouco e pouco, sedas roçando sedas, risos correspondendo a
risos, vae-se entrando, ao som d'um continuo ruido de sóccos e
sandalias, que se arrastam pelo lagedo resonante. Na escuridão da noite,
o recinto define-se a principio como um negrume vago, complicado de
sombras de arvoredo, cheio de gente e de myriades de luzinhas
bruxoleantes. Depois os olhos habituam-se. Vae por ahi fóra, direitinha
ao templo, a grande rua principal, bordada de arvores varias, lageada;
pelos lados espraia-se o labyrintho das passagens, por entre os
alinhamentos das barracas, das tendas, das quitandas, armadas de
improviso, estiradas pelo chão; e é, á luz frouxa das lampadas, a
exposição phantastica das côres, chispando em disparates como n'um campo
immenso de kaleidoscopo, correspondendo ás mil industrias que se
estendem... Roupas, perfumarias, livrinhos, bocetas, charões,
porcellanas, cachimbos, ferramentas, utensilios domesticos, bolos,
brinquedos, flores, plantas, tudo: a industria inteira do Japão, se
condensa, coalha em museu. Alem algumas _chayas_ vendem refrescos; as
creadinhas convidam a turba a que se acerque. Mais longe, são os
theatros populares, um cobre por entrada:--cães sabios, athletas,
abortos, serpentes, panoramas;--ou a sala do _hanashi_, da palestra,
onde um patusco entretem os freguezes, contando-lhes historias. N'um
espaço mais livre, um sujeito com um graphophone, um dentista, um
inventor de remedios milagrosos, discursam, explicam, prophetizam.
[Figura]
O formigueiro humano ondula, alastra se, sem designio, á aventura. As
sociedades occidentaes nada nos offerecem de parecido. Isto, aqui, é a
multidão, sem pressas, sem gritos, sem exasperos, tal como nol a
apresentam todas as grandes tribus do Oriente; é o cardume de gente,
retida na praça publica como o sargaço em mares tranquillos; aqui,
quadro requintadamente gentil e sorridente, inconfundivel, mas que ainda
nos recorda as agglomerações da plebe nos templos de Cantão ou nos
bazares de Aden, ou do Cairo; e, subindo nos tempos e retrogradando em
espirito vinte seculos, quasi nos desdobra aspectos vividos, embora
fugidios, da Jerusalem biblica, nos seus magotes de homens vestidos de
tunicas rojantes, vagueando, palestrando de manso, alongando os braços
nús em gestos calmos e solemnes.