Mesquinha humanidade! como tu me entristeces, ó pobre humani

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Rita Farinha (Maio 2008)

PAISAGENS DA CHINA E DO JAPÃO

WENCESLAU DE MORAES

Paisagens

da

China e do Japão

LISBOA

LIVRARIA EDITORA

VIUVA TAVARES CARDOSO

_5, Largo de Camões, 6_

1906

LISBOA

Typ. de Francisco Luiz Gonçalves

80, Rua do Alecrim, 82

1906

A Camillo Pessanha e João Vasco

_Nos baldões da vida bohemia, na confusa successão dos dias e das

scenas, acontece que os factos, as coisas, os individuos, invocados

pela pobre memoria exhausta, vão perdendo pouco a pouco as suas

qualidades intensivas, as suas côres, os seus contornos, a sua

feição propria, emancipando-se do real, como uma pagina de

aguarella desmerece, solta e perdida no espaço e voando com as

brisas; diluindo-se por fim n'uma emoção generica, vaga,

indifinivel,--a saudade.--A essas duas grandes saudades, Camillo

Pessanha e João Vasco, dedico hoje este livro._

_Kobe, 10 de Abril de 1901._

Wenceslau de Moraes.

AS BORBOLETAS

A J. Moreira de Sá.

A lenda das borboletas.

São tão lindas, as borboletas! Quem as vê, que não lhes queira? ahi

vagabundando pelo azul dos campos, razando as corollas frescas,

amando-se, beijando-se, libertas da larva abjecta, como almas de amantes

despidas da miseria terreal, a viajarem no infinito... São tão lindas,

as borboletas!...

Mas na China são talvez mais lindas do que todas. É um deslumbramento

surprehendel-as na quietação dos bosques, voejando aos pares, que se

tocam, que se abraçam, e enfiando pelas sombras mysteriosas dos

bambuaes, com as suas longas azas palpitantes, lancioladas, em matizes

maravilhosos, de negros avelludados, de azues meigos, de amarellos

quentes, como se as loucas vestissem cabaias de setim, de sedas de alto

preço...

Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, ha longos seculos, uma

pacifica aldeia do Yang-tsze-kiang, não longe do logar que hoje se diz

Shanghae. Como fosse muito dada a estudos litterarios e as escolas do

seu sexo não lhe satisfizessem a ambição, conseguiu que seus paes lhe

permittissem o disfarçar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar a

mais famosa universidade do imperio. Volveu ao lar apóz tres annos;

volveu tão pura como fôra; da sua innocencia ha provas irrecusaveis.

Para não divagar muito n'estas paginas, basta dizer a quem me queira

ouvir, que um lenço de seda branca, que ella enterrara na lama em

presença d'uma sua cunhada predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi

depois tirado sem uma só mancha e sem um só farpão, branco, puro, como a

alma da donzella; e basta saber que as flôres da sua preferencia, que

ella deixára no jardim, rogando aos deuses que as conservassem frescas

como ella, assim se conservaram durante a longa ausencia, embora, como

consta, a cunhada as fosse regando com agua quente tirada da chaleira.

Durante os tres annos de seu estudo, um companheiro, por nome

Leun-San-Pac, intimamente se lhe afeiçoou. Era o seu camarada

inseparavel, o seu irmão; dormindo juntos, conversando juntos, estudando

juntos, divagando, sonhando; e o lorpa do mocinho nunca se apercebeu que

tinha a seu lado uma mulher.

[Figura]

Quando soou a hora das despedidas, cortava o coração vêr o rapaz,

lamentando o futuro isolamento, a perda d'um amigo como aquelle. A moça

consolava-o. A moça poisava-lhe nos hombros as suas mãos gentis, e

exhortava-o a que se enchesse de coragem, a que se entregasse ao amor do

estudo, té alcançar um alto grau de sapiencia.--«E depois, dizia-lhe

ella entre soluços, e depois, se com saudade te recordares ainda de mim,

abala, vem vêr me á minha aldeia.»--E dava-lhe indicações precisas do

logar. Despediram-se, entre choros.

A donzella esperou, esperou, esperou,--quem poderá descrever esse

tormento? guardando da familia o seu segredo; e o moço não apparecia.

Segundo os usos do paiz, os paes destinaram-lhe um marido; e ella, a

desolada, escrava da obediencia filial, obediencia cega, indiscutivel,

que é a base da vida inteira moral do povo china, inclinou-se, acceitou,

sem que uma só queixa proferisse.

Tres dias decorridos depois do contracto nupcial, eis que chega á aldeia

o pobre Leun-San-Pac; pobre, porque a desventura se lhe acerca; mas rico

de erudição, de uma alma culta, e occupando um logar proeminente.

Encontra o seu amigo, encontra o seu irmão; mas agora sem disfarces, na

graça plena dos seus enlevos femininos, na gentil elegancia das vestes

que lhe são proprias, e com grinaldas de flores na trança negra. De

começo, este enigma, pouco a pouco explicado, confunde-o, desnortea-o;

mas tudo se aclara; da amisade ao amor o salto é rapido. Oh! elle ama-a

agora, elle ama-a de todas as forças do seu ser; e no olhar de fogo

transluzem mil mysterios de adorações e de desejos!... É tarde. A

palavra dada ao feliz noivo não se quebra. Os velhos paes prezam mais do

que tudo, a propria honra.

Elle parte; elle parte para um logar visinho, louco, com a alma embebida

no fel dos desesperos. É ainda ella, a doce pomba obediente, que tenta

consolal-o. Ella escreve-lhe; ella diz-lhe que a vida não é eterna; que

a piedade filial arrasta-a a um consorcio que só lhe vaticina dores e

prantos; mas que as almas são livres, emigram d'uns corpos para outros;

encarnam-se n'outros seres; que elle socegue, aguarde outra existencia,

para a qual ella lhe jura será a sua companheira, toda fidelidade e toda

amor. Leun-San-Pac lê, faz um bolo d'essa carta, onde tão demoradamente

poisara a mão da sua bella, e engole-o, e suffoca-se com elle, e exhala

assim na solidão o ultimo suspiro. Um pouco além, sobre a montanha, se

lhe elevou a sepultura.

Soam bategas festivas, estalejam nos ares fogos de gala, de alegria; e

pela longa estrada em ziguezague, bordada aqui e alli de bambus e

bananeiras, doirada pelo sol do meio dia, serpea em rutilantes theorias

o monumental cortejo do noivado, caminho do lar feliz.

O estylo de ha mil annos é o mesmo estylo de hoje. São os grandes

balões, os estandartes, conduzidos por moços vestidos de vermelho. São

os enxovaes primorosos, as cabaias, a collecção dos sapatinhos, tudo

disposto nas liteiras luzentes dos esmaltes. São as colossaes peças de

doçaria, castellos de assucar, dragões de assucar, coisas espantosas.

São os porcos assados, loiros, deliciosos, espalmados sobre os

taboleiros, com laços de fita nos focinhos. São as orchestras

estridentes, de flautas, de rebecas. São as creanças ataviadas em

setins, em allegorias de scenas de outros tempos, cavalgando alimarias

pachorrentas. É finalmente a liteira da noiva, toda ella oiros, toda

ella esmaltes, fechada como um cofre, furtando á vista dos curiosos o

precioso fardo, Choc-In-Toi.

[Figura]

A noiva solicita do cortejo um curto desvio na sua marcha. A noiva,

antes de entrar no lar e de ser esposa e escrava, quer abeirar-se, além,

d'aquella sepultura esquecida na montanha, e orar junto dos restos do

que morreu por ella. Quem lhe recusaria tal licença? Eil-a que desce da

liteira, nas suas cabaias deslumbrantes; e eil-a que se prostra, eil-a

que beija a terra...

[Figura]

A terra abre-se então, carinhosa, mãe; a terra traga-a, chama-a a si,

chama-a para junto dos ossos do seu querido. A comitiva pasma do

milagre. As mãos avançam a detel-a; mas só logram colher um pedaço do

vestido, que se rasga, e é tudo... O pedaço de seda, de mil matizes,

transforma-se de subito n'uma borboleta de mil côres, que vôa das mãos

rudes, e desapparece no azul, desapparece!... É desde aquella epocha que

ha borboletas n'este mundo, tão lindas, tão cheias de matizes!...

Eu não lhes estou contando uma mentira, meus amigos. Ainda hoje se vê a

sepultura, esboroada pelos seculos, d'aquelles amorosos. E as esposas

desprezadas alem vão em romaria, e d'aquella terra bemdita se suprem ás

mãos cheias, e d'ella provam, e disfarçada com o arroz a ministram aos

maridos. Consta que o estranho tempero, aquella terra, que em alguma

coisa participa da essencia dos amantes que ali jazem para sempre, tem

virtude comsigo, e é sempre efficaz em trazer ao bom caminho os

mariolas, os maridos.

A ALFORRECA

A Henrique Carvalhosa.

Falla a lenda japoneza.

Antigamente--e quem sabe se ainda hoje!--no seio do oceano era o reino

faustuoso dos dragões. Por longos annos, o senhor d'este reino, o dragão

real, viveu celibatario, n'uma existencia descuidosa; e sabem só os

deuses, e não nós, quantas noites de dissipação, em companhia de

tartarugas e lagostas ligeiras de costumes, que lhe cantavam trovas ao

som do _shamicen_ e lhe iam servindo _saké_ em ricas taças, quantas

noites elle passou em travessas intimidades amorosas!...

Verdores, que passam breve. Um bello dia, resolveu casar-se, o bom

soberano. A noiva escolhida foi uma joven dragôasita, dezeseis annos

apenas, adoravel, digna pelos seus mil encantos de ser a consorte feliz

de tal senhor. Explendidas foram as bodas por essa occasião, segundo

consta: sem já fallar na côrte intima, toda a bicharia aquatica, peixes,

mariscos, molluscos, todos vieram processionalmente, em cardumes, em

bellos _kimonos_ de sedas encarnadas, offerecer seus respeitos e

presentes; e foram, durante longos dias, estupendos regabofes, em

danças, em musicas, em banquetes...

[Figura]

Mas nem os dragões escapam ás duras provações da existencia! Ainda bem

um mez se não passára, quando a augusta soberana caiu doente; e taes

cuidados inspirou desde logo o seu estado, que era uma lastima observar

as trombas compungidas dos fidalgos, commentando baixinho, em

lamentações do seu officio, o triste caso. Reuniram-se os doutores em

conferencia; fallaram muito, discutiram muito, sem chegarem a accordo,

como sempre succede; consultaram-se abalisados alfarrabios de

therapeutica; as barbatanas incançaveis rabiscaram um milhão de receitas

milagrosas, e todas as tisanas se serviram. Baldado intento; a soberana

extinguia-se; e afinal os focinhos dos sabios, n'um tregeito de piedade

e desengano, tiveram de ser francos, de declarar que a sciencia--já

n'aquella epoca se enchia a bocca com _a sciencia_--que a sciencia nada

mais podia fazer, e que um angustioso desfecho era de esperar-se.

Do seu leito de enferma, de entre os _futon_, as fofas colchas de setim,

agita as tremulas patinhas a rainha; chama junto de si o esposo, e

diz-lhe estas palavras ao ouvido:--«Uma só coisa me salvará: arranquem o

figado a um macaco vivo, e consintam que o devore; recuperarei a

saude....»--O rei não poude reprimir um gesto de surpresa, quasi de

enfado, e todo se lhe erriçou o bigode façanhudo:--«Um figado de macaco!

estás louca, minha querida!...»--Ella promptamente retrucou:--«Louca,

porquê? Vossa magestade esquece por ventura, que nós, o grande povo dos

dragões, no mar vivemos sempre; emquanto que os macacos, muito longe

d'aqui, vivem na terra, nos bosques, entre as arvores, nutrindo-se de

fructos... No figado do mono alguma coisa virá que participe d'esse

mundo, tão diverso, tão outro; e essa particula estranha, senhor, me

salvaria!...»--E a rainha, a quem as lagrimas acodem, prosegue n'um tom

reprehensivo e lastimoso:--«Uma insignificancia, um nada, pedi, e esse

nada vossa magestade me recusa. Julgava merecer-lhe mais affectos.

Dispa-me d'estas pompas de soberana, não as quero; dê a corôa a outra

esposa, mais digna, mais formosa; consinta que volva ao ninho carinhoso

de meus paes...»--A voz suffoca-se em soluços, não pode mais proferir

uma só queixa...

[Figura]

O rei dos dragões não queria passar, entre damas por um dragão cruel;

por demais conhecia elle os caprichos pueris do sexo fragil, mas

perdoava-os complacentemente, por systema; e sobretudo adorava a esposa,

cujas lagrimas desejaria poupar a todo o transe. Satisfaça-se pois o

capricho da rainha. Mandou chamar a sua escrava mais fiel e dedicada, a

alforreca, e disse-lhe o seguinte:--«Vou dar-te uma espinhosa tarefa,

minha velha, mas confio na tua dedicação nunca mentida; preciso que

emprehendas uma longa viagem, que nades até junto da terra, e alli

convenças um macaco a vir comtigo a estes meus reinos; falla-lhe, para o

resolveres, da magica belleza d'estes sitios, tão differentes dos seus,

e da gentileza d'estes meus subditos felizes; mas o que eu realmente

quero n'este caso, é que se arranque o figado das entranhas de tal mono,

e se sirva como medicamento á tua joven ama, que, como de certo sabes,

se acha em perigo de vida, a desditosa.»

[Figura]

Lá vae, oceano fóra, vento em pôpa, a alforreca, emissaria obediente e

ufanosa do encargo. Por aquelles tempos, a alforreca, como qualquer

bicho das aguas, era um animal gracioso, de contornos esbeltos, com

cabecinha, com olhinhos, com mãosinhas, e com a competente cauda

titillante; e ficava-lhe tão bem o fato de marujo!... Lá vae, oceano

fóra, olhar sereno e cogitador, rompendo a vigorosas braçadas a onda

fria. Não tarda muito a abeirar-se do paiz onde vivem os macacos; por

felicidade, um alem está, um lindo mono, saltando de ramo em ramo,

dependurando-se das arvores que enraizam nos penedos e se debruçam sobre

o mar.--«Bons dias, senhor macaco. Eu venho aqui expressamente para

fallar-lhe d'um paiz longinquo, muito mais bello do que o seu; é elle

situado alem das ondas e conhecido pelo reino dos dragões; alli, não ha

estações, é eterna a amenidade do clima; alli, nas copas das arvores

repolhudas, constantemente amanhecem avelludados fructos saborosos, é

colhel-os, não ha outra tarefa; para cumulo do conforto, essas creaturas

malfazejas, homens chamados, não pisam taes paragens. Se lhe agrada vir

commigo, eu serei o seu guia; não tem mais que fazer do que saltar

d'esse tronco para cima do meu lombo...» O macaco achou gracioso isso de

ir vêr novos paizes. Vá lá mais esta extravagancia á conta da bohemia

simiesca.--«Ao largo, amiga!»--E lá foram os dois; porém, a meia

travessia, pensou tardiamente o mono na temeridade do seu feito,

expondo-se assim ao arbitrio d'um extrangeiro, e abandonando a sua

patria. Decidiu-se emfim a perguntar:--«Que pensa você que vão fazer de

mim na sua terra?»--A alforreca deveria agora ser discreta, encapotar as

respostas em evasivas; mas oiçam lá o que ella deu em troco:--«Eu lhe

digo: meu amo, rei dos dragões, ordena ao senhor macaco que arranque o

proprio figado, o qual vae ser servido á nossa soberana, hoje enferma, e

salval-a da morte.»--Então o mono, guardando para si os commentarios que

o caso suggeria, disse cortêzmente, que era para elle uma alta honra e

um esperado prazer, o assim tornar-se util a sua magestade; acrescentou,

porem, que agora se lembrava de ter deixado o figado dependurado n'um

tronco de arvore, aquelle mesmo castanheiro d'onde saltara para as

costas da alforreca. Continuou discursando em linguagem fluente, de

orador emerito, descendo a explanações minuciosas; e explicou como o

figado era uma coisa bastante pesada, embaraçosa, um quasi alforge de

peregrino, um empecilho que elle costumava pôr de parte, durante o dia,

para se entregar mais á vontade aos seus exercicios de acrobata; habitos

de familia, já seu avô fazia o mesmo; e concluiu, que o melhor que

tinham a fazer n'este momento, era voltarem para trás, e na arvore

encontrariam o figado em questão.

[Figura]

Não pôz objecções a nadadora. Voltando á terra, o macaco saltou ao

castanheiro com uma ligeireza nunca vista, nem mesmo entre macacos,

acompanhando o pulo d'uma alegre careta e d'um gesto que traduzia o

jubilo do bestunto, coisa que passou estranha á alforreca. Procurou

entre as folhas o seu figado. Não o encontrou. Explicou então do alto, á

alforreca, que provavelmente algum companheiro o levára para longe, o

que o obrigava a mais demoradas pesquisas pelo bosque; no entretanto que

fôsse ella contar o caso ao seu senhor, que devia estar ancioso por

vêl-a chegar antes da noite.

Assim procedeu o bicho.

El-rei, que a esperava, e que a escutou, enraivecido por tamanha

ingenuidade--para não lhe chamar coisa mais feia,--mandou logo vir da

maladia um bando dos seus mais soberbos _samurais_, e ordenou-lhes que

malhassem no bicho á pancada, até cançarem. O castigo foi cumprido, e

com esse vigor de braços de villões, que miram aos applausos do

monarcha. É esta a razão porque a alforreca, hoje em dia, não tem

pernas, nem cabeça, nem cauda, nem barbatanas: tanta pancada levou, que

ficou reduzida a esta miseria, massa informe, um farrapo, um pedaço de

gelatina, boiando despresivelmente á mercê do turbilhão das vagas.

Com respeito á soberana, reconsiderando no disparate do seu capricho,

concluiu que o melhor que tinha a fazer era erguer-se da cama e pôr-se

bôa; e assim fez, com grande pasmo dos doutores.

A historia da alforreca está contada, na sua simplicidade commovente. É

veridica esta historia, como tudo que o povo relata de memoria; creia

n'ella quem crê. Fica-se já sabendo no entretanto,--e é isto d'um

proveitoso ensinamento,--que os japonezes tão prodigamente propensos ao

perdão para tantos pecadilhos de alma e de costumes, castigam os

patetas.

Diga-se francamente: esta desgraça da alforreca, no paiz do sol

nascente, era inevitavel; e o caso presta-se a interessantes

commentarios, que eu vou resumir em poucas linhas. Os japonezes--povo de

artistas--são os grandes amorosos da creação, da forma, da vida; ninguem

como elles conhece os segredos da ave, do insecto, do reptil, do peixe,

dos molluscos, do verme, de todos os seres da terra; a animalidade

graciosa d'esses seres, estudada com percepções especiaes, que nos

escapam, constitue o thema mil e mil vezes variado, dos seus primores de

arte. Mas esse monstro, essa disformidade, essa alforreca que se

apresenta como unica excepção da lei geral da gentileza da vida, e

parece resumir em si o enfado inteiro d'um dia de mau humor do

Omnipotente, devia ter deixado impressões tristes nos primeiros

japonezes que a avistaram; e foi preciso arranjar logo uma explicação

condigna do phenomeno, e é a que ficou descripta n'estas linhas.

[Figura]

É ainda interessante recordar de passagem a approximação, pela desdita,

da alforreca japoneza com a medusa mythologica da Grecia, não merecendo

esta melhor tratamento dos deuses olympicos. Curiosa coincidencia!

O ANNO NOVO

A Feliciano do Rozario.

Temos festa hoje, aqui. Acaba o anno velho, começa o anno novo. Mas não

vão imaginar que seja do anno novo de que rezam os nossos calendarios, a

commemoração; tal commemoração, aqui, no fim do mundo, no seio d'esta

colonia nostalgica, passa insipida, quasi sem alvoroços intimos de

familia, limitada á troca banal--_troca_ sem cedilha e com cedilha--de

algumas duzias de bilhetes de visita, com as competentes _boas-festas_

escriptas, da pragmatica. Trata-se do anno lunar que finda, do anno

lunar que principia, o anno chinez emfim, a ampulheta que marca para o

povo amarello as suas horas de existencia; vamos entrar no anno XXII do

reinado de sua magestade imperial celestial, Kuang-Su.

* * * * *

Temos festa hoje, aqui. A alma chineza manifesta-se, evidencea-se,

domina, hoje; offusca, pela grande maioria dos rabichos, o pallido

reflexo da civilisação do Occidente que logrou chegar a este Macau, a

este exiguo penedo asiatico, onde Portugal implantou a sua bandeira.

Meia noite. Ao meu obscuro albergue, chega, de alem dos bazares, o ruido

da bombardada amotinadora dos foguetes, e das mil e mil embarcações

fundeadas no porto o clamor ovante das bategas, vibradas pelas mãos

rudes das companhas. Que irá lá por esses bazares, a estas horas, santo

Deus!... Eu não me arredo do meu canto. Bem sei que a febre das massas

suggestiona, contamina todos. Bem sei que não se dorme hoje; que não ha

chapéo de côco de amanuense ou kepi de militar, direi mesmo chapelinho

de pellucia com laçarotes de setim e seu competente passaro empalhado,

de menina, que não vá correr as viellas, perder-se na onda, confundir-se

com os rabichos, gosar com elles. Mas está tanto frio, e as bagas de

agua zurzem-me tão desapiedadamente os vidros das janellas... E, peor do

que isto, é o frio da alma, é a apathia enervante do meu espirito, é o

sorriso amargo que me enruga os labios, provocado por esse mesmo jubilo

do enxame, que aqui me retêem e me impedem de tambem ir galhofar.

[Figura]

Não, decididamente não serei da festa. Imagino-a d'aqui. Imagino essas

ruas lamacentas, coalhadas de povo sujo, com as cabaias negras ensopadas

dos chuvascos; e imagino os lumes tremeluzentes das lanternas de papel,

accendendo nas poças, pelo reflexo... grandes labaredas ephemeras,

ziguezagueando. As lojas estão escancaradas ao publico; fructos, flôres,

doces, carniças, bonecos, coisas santas, estendem-se pelos caminhos em

prodigiosas theorias, em coloridos quasi estonteantes; e é comprar, e

comprar já, porque não tarda em romper o glorioso dia de descanço, o

unico na China em que o camponez, o artifice, o vendilhão, todos, cruzam

os braços, não trabalham; e nem a peso de ouro se encontraria um

linguado, uma caixa de phosphoros, qualquer infimo objecto nos mercados.

As espeluncas de jogo, em galas desusadas, offerecem-se, tentam a onda;

e até pelas ruas o taboleiro de azar se estende ao passeante. Que

pechincha, se se apanha para a festa um accrescimo de peculio não

esperado! O china adora o jogo--era preciso que elle adorasse alguma

coisa!--mas hoje todos jogam, todos são chinas, e é isto um exemplo

interessante da influencia suggestiva das grandes maiorias; a mão mais

circumspecta de funccionario, a mão mais mimosa de dama (de _nhônha_, em

dialecto vulgar d'esta colonia) avançam sem pejo, arriscam á sorte varia

umas pratinhas...

Quando bate meia noite; quando, junto do altar dos penates, se curvaram

em piedosas adorações milhares de cabeças agradecidas, e se queimaram

papeis mysticos, e se accenderam pivetes odorificos; quando em plena rua

um brado de alleluia os echos acordou; dirige-se então a onda humana

para o lar, já mercas feitas, já bolsas esvasiadas; e vae surgir um

grande dia votado inteiro ao descanço, votado á glorificação dos deuses,

cuja magnanima assistencia se exalta pelas graças concedidas e pelas

graças que vão esperar-se!....

Mesquinha humanidade! como tu me entristeces, ó pobre humanidade, ó

pobre familia minha, ainda mais nos teus regosijos e nas tuas

esperanças, do que nos teus choros e nos teus desenganos!... Para este

bando chinez com quem me encontro agora, que explosão de bençãos lhe

estimula a sentimentalidade? que altos beneficios commemora? O bando

abençoa a sua eterna existencia de miseria, a miseria passada, a

presente e a que fatalmente vae seguir-se-lhe. Abençoa a labuta sem

treguas, em busca do punhado de arroz de cada dia; ora exercida no lar

immundo, sem sombra de conforto; ora exercida pelos campos, nas varzeas,

nas collinas, no amanho da terra, sob a oppressão constante dos raios do

sol que escalda, ou dos frios que paralysam; ora exercida nos barcos,

que se cruzam na podridão dos estuarios, ou pairam sobre a onda

adormecida durante as calmas torpidas, ou se desfazem no escarceo,

quando os tufões rugem em furia. O bando abençôa a fatalidade da sua

condição social, o problema espantoso, paradoxal, do seu feitio de ser,

que em todas as depravações, em todas as iniquidades imaginaveis, parece

ir buscar as leis unicas por que se rege. O bando abençôa ainda as

calamidades tremendas, que n'estes ultimos tempos, como uma maldição

divina, teem pairado sobre a immensa patria:--nas provincias do sul, nos

seus centros mais populosos, é a peste, a peste negra, roubando em cada

lar um ou dois filhos, ou o pae, ou a mãe, ou mesmo todos juntos, e

vestindo de lucto, de tristes roupas alvas, os parentes, e ameaçando

estabelecer-se definitivamente, enraizar como uma arvore de peçonha,

d'onde emanará a cada instante o veneno subtil, destruidor das turbas;

e, para cumulo de infortunio e de descredito, um visinho, um povo irmão,

o povo japonez, invade, vence e desbarata a China, morde e come pedaços

do seu torrão sagrado, envergonha-a, offerece-a ao escarneo do mundo na

miserrima condição da sua plebe e na opulenta infamia dos seus nobres,

desprestigiada emfim, indefeza á cubiça das gentes, aos homens loiros da

Europa, que não tardarão em vir espezinhal-a.--Embora! esqueçam-se hoje

as miserias, vista-se o povo em gala, chovam bençãos sobre o anno que

começa. E amanhã, decorridas algumas horas de folgança, recomecem,

prosigam,--pouco importa!--os turvos dias de amargura, a fatalidade da

existencia no antro, a dura labuta no campo e no barco, a faina eterna,

a orgia torpe dos maridos, a escravidão das esposas, a venda das filhas

a quem mais der, os horrores da prostituição, as vergastadas nas

creadinhas, as extorções dos mandarins, as torturas nos carceres, a

morte lenta nos patibulos, a obra de destruição das epidemias e do opio,

as humilhações perante o vencedor, as exigencias do Occidente, as

arrogancias dos homens loiros...

[Figura]

* * * * *

Para o anno novo, tudo se prepara com antecedencia, em prodigiosa

azafama; é para todos uma occupação incessante e desusada, durante as

ultimas semanas do anno que vae findar. Lavam-se os covis, lavam-se as

podres mobilias. É o pó d'um anno que se sacode, é a lama d'um anno que

se deita fóra, é o piolho e é a pulga d'um anno que se afogam na onda

das barrelas; porque, durante os labores de cada dia, nunca a idéa de

limpeza preoccupou os espiritos durante um só instante. Tudo é

providencial neste mundo, ao que parece. Na chafurda typica d'estas

povoações chinezas, tão frequentemente visitadas por todas as

pragas--cholera, peste, lepra,--embebidas no lodo dos canaes, no

ambiente das emanações dos estrumes pachorrentamente acogulados e dos

despejos que apodrecem pelas ruas, custa a crêr como a gentalha pollula,

e como os consorcios fructificam em ninhadas de garotos; e parece á

gente que um sopro qualquer destruidor, de calamidade immensa, irá em

breve prostrar esses enxames, sem que deixe de pé um só vivente nos

albergues. Puro engano: as povoações eternizam-se. No parecer de alguns

investigadores, que taes exotismos interessam, se os miasmas putridos

convidam as epidemias a entrar e a vindimar providencialmente as muitas

vidas que superabundam, estes mesmos miasmas, sobrecarregados de vapores

de ammoniaco, de exhalações corrosivas de fermentos, se encarregam de

ferir tambem mortalmente os virus morbidos, poupando o resto do povo.

Chegamos ao facecioso paradoxo de ser na China a immundicie o

purificador por excellencia, um como que elixir de longa vida,

indispensavel a todas as familias, feito da mais estupenda alchimia de

dejectos.

[Figura]

Conceda-se pois, por excepção, a este bom povo celestial, o capricho de

lavar uma vez cada anno o antro onde se abriga. Depois, é ver a faina de

collar pelas paredes, pelas portas, pelas janellas, papeis de bella côr

escarlate, com negras inscripções cabalisticas, que são votos de ventura

e de riqueza, que são preces aos deuses. E chega a occasião de se

adornarem os altares, de se irem comprar junquilhos em flor, que se

dispõem em vasos gentis com agua e seixos alvos, e assim vão enfeitar os

aposentos, levando o viço e o perfume, por um dia, aos negrumes das

alcovas. No meio do complicado rito das usanças, algumas praticas

enternecedoras, de ingenuidade primitiva, interessam o curioso. Reparem

por exemplo nas enormes celhas expostas pelos mercados, onde enxames de

pequeninos peixes negros, carpas barbudas, estrebucham na gotta de agua

do improvisado captiveiro; o povo compra-as, e vae lançal-as em seguida

nas ribeiras, gosando na acção do resgate, por certo grata aos deuses, e

que redundará em beneficios...

A PRIMAVERA

A Camillo Pessanha

[Figura]

Ha alguns dias, na cidade de Kobe,--poderia precisar o dia, e quasi a

hora, se tamanho rigorismo me exigissem,--irrompeu a Primavera.

Irrompeu: não ha sombra de exagero no vocabulo. Irrompeu, surgiu d'um

pulo, fez explosão. N'este paiz do Sol Nascente, onde o sol, e com elle

todas as grandes forças naturaes, são ainda uns selvagens--se assim

posso expressar-me--uns selvagens sem freio, sem noção das

conveniencias, incapazes de se apresentarem de visita, de luvas e

casaca, n'uma côrte qualquer da nossa Europa; n'este paiz do Sol

Nascente, ia eu dizendo, a creação inteira apostou, parece, em offerecer

em cada dia uma surpresa, toda ella exuberancias inauditas, espalhafatos

unicos, repentismos nervosos, caprichos doidos, como se reunisse em si a

quinta essencia da alma das creanças e a quinta essencia da alma das

mulheres, a gargalhada, a troça, emfim, motejadora de tudo quanto é

ordem, harmonia, contemporisadora lei das transições.

Hontem, foi um inverno duro, gelido, vestido apenas d'uma ampla tunica

de neve. Hoje, d'um salto, o sol rompeu em quenturas amorosas, começaram

de florir as arvores, e evolaram-se os insectos. Amanhã, será o estio

torrido, em brazas, como nem na China, nem na Africa se sente. E assim

corre o tempo, vôam as horas; cada instante é um meteoro; e aqui um

tufão arranca os troncos, e alli a chuva torrencial inunda as varzeas, e

alem um rio transborda do seu leito, e uma onda do largo afoga as

aldeias, e uma convulsão subterranea abala o solo...

O europeu, o pobre europeu das paizagens serenas, soffre os choques

d'esta natureza, por demais subversiva para o seu espirito triste,

meditativo e attribulado. Offerece-se-lhe um de dois caminhos a seguir:

ou communga na vida japoneza, inicia-se nos seus segredos intimos, ama-a

nas suas modalidades, e assim a existencia se lhe gasta, se consome

rapida, esgazeada em admirações, doidejando em vertigens; ou se retrae,

se isola, odeia a natureza que não comprehende, odeia o exilio, vive de

saudades da patria, entre as quatro paredes do seu lar, ou dos clubs

cosmopolitas da colonia forasteira. Não é preciso mais para justificar o

tique de loucura, facilmente perceptivel, da enorme maioria d'estes

expatriados, homens e mulheres, após curta residencia no paiz japonez.

* * * * *

Ora pois,--dada esta concisa explicação á gente incredula,--ha alguns

dias, na cidade de Kobe, irrompeu a Primavera.

Pela noite velha, fóra chegando uma brisa como que amorosa,

acariciadora, perfumada. No silencio das trevas, as carpas acordaram,

n'um charco fronteiro ao meu albergue; e estrabuchavam, e produziam

desusados ruidos, saltando fora d'agua, ardendo em cios, endemoninhadas.

Quando rompeu o dia, e appareceu o sol, não se descreve o enlevo do bafo

morno, embalsamado, genesiaco, que enchia o espaço. O ceu tinha azues

novos; cirros de paz pairavam nas alturas. A paizagem esverdeára;

esverdeára da herva nova, que surgia, e das arvores velhas, que se

coloriam. A nossa observação educa-se n'este meio em especialidades de

minucia, abundando por toda a parte, em campos e jardins, as coniferas,

de todas as fórmas, de todas as grandezas; estas arvores nunca se

desfolham, mas no inverno descoloram-se, empallidecem como mulheres

chloroticas, chegam a lembrar enfermos, chegam a lembrar coisas mortas;

depois, a primavera excita-lhes a seiva, um verde intenso assoma-lhes ás

folhas, a vida recomeça, doida, vão desabrochar flores em fúria!...

Já as ameixieiras se apresentam em galas de florescencia; os negros

troncos rugosos e lavrados pela lepra dos lichens, sem uma folha sequer,

cobrem-se agora de bastas cabelleiras, alvas ou rosadas, feitas de mil e

mil florinhas presas aos galhos por minusculos penduculos. Vistas de

longe, nos sitios onde abundam, fazem lembrar uma floresta de arvores

seccas, envolvidas pelo fumo e pelas chammas d'uma queimada devoradora.

Em breve serão os pecegueiros a florirem. Depois as cerejeiras. Depois

as pereiras. Todas as arvores. Todas em apotheoses de coloridos. Chalaça

tudo, em todo o caso--estas arvores não dão fructos, não dão ameixas,

não dão pecegos, não dão cerejas, não dão peras; ou, se os dão, não

prestam. Esgotam os ardores da seiva na superabundancia das petalas das

flores enormes, enormes como nunca se viram em outra parte; contribuem,

em meras orgias de cores, para a incrivel hilaridade do scenario, para a

supina gargalhada primaveral; nada mais. Servem de pretexto para os mil

motivos de debandada para os campos, d'estes bons japonezes, cabaça ao

hombro, _musumé_ ao lado, alma descuidosa aberta aos esplendores.

[Figura]

São estas florescencias paradoxaes, tão caracteristicas do solo

nipponico, que encaminham a cada momento o pincel indigena para

requintes de matizes que a esthetica occidental não comprehende; ellas

que inspiram aos artistas esses tão frequentes fundos de paizagem

salpicados de brancos e vermelhos, a reminiscencia do instante em que as

flores se desfolharam e cairam do alto, n'um chuveiro de petalas.

De parceria com as arvores, são as hervas, as plantas, os arbustos, que

se vestem de folhas e se enfeitam de flores. Já ao longo dos muros

espreitam, por entre as pedras, as violetas silvestres; e o solo vae

vicejar de musgos, fetos, de relvas, de bambus e de humildes gramineas;

e matizar-se de brancos, de azues, de amarellos, de escarlates, de

roxos, de mil côres, de mil flores sem nome, apenas conhecidas dos

insectos, que são botanicos emeritos e sabem de cór e salteado onde as

corollas lhes offerecem os manjares mais capitosos. Já desabrocham os

junquilhos, as camelias. Vão desabrochar a wistaria, as azaleas, os

lirios, os iris, os narcisos, os convolvulos, as peonias, a legião

vegetal.

* * * * *

As ameixieiras, por aqui pelas cercanias de Kobe, vão vêr-se ao

pittoresco oiteiro de Okamoto, ou a Suma, no dominio d'um templo famoso.

Os pecegueiros vão vêr-se a Momoyama, em Osaka, que as florinhas côr de

rosa incendeiam por curtos dias. As cerejeiras, particularmente queridas

dos japonezes, vão vêr-se a um ou dois templos em Osaka; ou á

formosissima collina de Arashiyama, em Kioto, marginando a ribeira de

Hozukawa, caudalosa e rumorejante; ou, no mesmo Kioto, ao parque de

Maruiyama, onde uma só arvore, a vetusta _cerejeira da noite de Guion_,

de delicados ramos em pendor, tem merecido os enthusiasmos e as

estrophes de não sei quantas gerações de amorosos e de poetas, que junto

d'ella poisam, dia ou noite, embevecidos no extasis do espectaculo; ou

ainda a Yoshino, o logar por excellencia preferido, sitio montanhoso e

agreste, de difficil accesso, mas por isto mesmo frequentado pelos

grandes fanaticos da natureza em pompas; Yoshino, com a sua sentida

lenda d'um monarcha fugitivo, e com o peregrino enlevo das suas

mil--conta justa, affirmam,--das suas mil cerejeiras, muitas vezes

macrobias, offerecendo aqui, acolá, além, n'um valle, sobre uma ponte, á

borda d'um precipicio, as scenas mais surprehendentes, mais

arrebatadoras, parecendo as arvores em flor, flocos de nuvens brancas a

rasarem a relva da paizagem. A wistaria, o _fugi_, vê-se em Nara, a

velha cidade classica; os ramos trepadores enrolando-se em torno dos

troncos das chryptomerias gigantes, e os longos cachos brancos e os

longos cachos roxos pendentes ao capricho das brisas.

[Figura]

Romarias indescriptiveis de graça pagã, de vida exuberante, estas

romarias, reunindo se ao quadro bello da natureza, de uma magestade

commovente e estonteadora, a kermesse hilariante do povo em festa.

Barracas embandeiradas expondo mil artigos; poisos improvisados para a

refeição frugal; os homens em bandos a folgarem; as creanças aos saltos,

ás gargalhadas, vestidas a primor, de sedas de mil tons; mulheres de

todas as condições, graves mamans deliciosas, meninas recatadas em mimos

de flor de estufa, petulantes cantadeiras das ruas, camponezas em roupas

escarlates, _gueshas_ em requintes de luxo e de encantos, ovantes como

idolos, todas ellas comesticos, todas ellas aromas, todas ellas sedas

rojantes, todas ellas mimicas e requebros, espanto-sas.... Ao recolher

da festa, a onda humana é curiosissima: cada qual empunhando uma haste

florida, cada qual com seu embrulho para o presente de estylo aos amigos

que não foram; as mulheres commentando as scenas em gestos e em

risinhos; as creanças abarrotando de fructas e de bolos, cançadas,

somnolentas, rabujando; os homens em galhofa, pouco firmes, com as

frontes e as palpebras encarnadas, que é como se lhes accusa o

peccadilho de terem bebido um pouco mais do que convinha...

N'esta contemplação dos scenarios está a alma do indigena. Eu vou

reproduzir-lhes uma local, que ha dias appareceu n'um jornal da terra, e

que define bem a gentil puerilidade pantheista d'esta gente unica:--«em

Himeji já se deu fé este anno de duas flores de cerejeira...» _duas_, é

sobretudo delicioso!... O homem do Occidente pensa, o japonez vê; eis a

enorme distincção que os separa. O prazer dos olhos é a alegre

preocupação de todos; vive-se no presente, para gosar do momento de

hoje, para sorrir ás coisas; e pode ser que seja esta a maneira mais

coherente do ser humano prestar culto aos seus deuses, ao Creador, que

lhe impoz na terra uma missão.

* * * * *

N'aquella primeira manhã primaveral, debandaram dos bosques mais cedo,

em magotes alegres, em serenos vôos altos em busca de aventuras,

chocarreando, atirando aos ventos as suas gargalhadas de mofa, os

corvos, nos quaes tão bem encaixa, sem eu saber porque, o nome japonez,

de _karuçu_. A pardalada papeava amores, e safava-se resolutamente dos

povoados em demanda dos campos. Uma borboleta amarella,--ia apostar que

a primeira da estação,--atravessou n'um vôo o meu jardim. Sobre cada

flôr poisava um bicho, mosca, ou abelha, ou vespa, ou besoiro, ou

moscardo, vindos não sei como, por feitiço, pois havia longos mezes que

ninguem lhes punha a vista em cima; e não tarda que chegue a immensa

corja alada, cigarras, gafanhotos, mariposas, mosquitos, tira-olhos, os

pandigos do ar, todos bulicio, côres e vida!... Pelos corregos, pelas

regueiras, ao longo das ruas e caminhos, surdiam pela vez primeira das

tocas os sapos, rouquejando; e dois a dois, graves... mas não estou

agora para contar-lhes o que faziam nas regueiras e nos corregos, os

sapos, graves, dois a dois...

Nos rostos da gente, suggestionada, embriagada em aromas, pintava-se uma

alegria nova, uma recrudescencia de actividade animal. As raparigas

passavam mais lepidas, em _kimonos_ alegres, claros, descalças sobre os

sóccos pela primeira vez depois do inverno, os seus pés muito brancos,

muito mimosos, após o recatado abrigo durante os mezes frios. Encontrei

além, n'aquella esquina, uma _musumé_, que vendia ovos, e um vendilhão

ambulante de cestos e vassouras; haviam poisado no chão a sua industria,

conversavam em segredo, mas com intensa vivacidade de expressão; elle

agarrava-a pelos pulsos, brutalmente; e ella, a rir, a julgar pelo

brilho dos olhos e pelo rostinho alvoroçado de desejos... dava-se-lhe,

em promessas.

* * * * *

Pois foi n'aquelle dia, que eu, em vez de ir divagar pelos campos, como

os pardaes,--já não digo: (ir vender cestos e vassouras) pelas

ruas...--que eu me engravatei cuidadamente e fui bater á porta d'um

amigo. Tratava-se d'uma festa de creanças, o que é dizer, d'uma estopada

para adultos. Effectivamente, exhibia-se, em frente d'uma duzia de

meninos e de outra duzia de pessoas circumspectas, um graphophone

americano; graphophone, ou coisa parecida; um _phone_ qualquer em todo o

caso; que isto de _phones_, para quem cursou aulas de physica ha perto

de trinta annos, é de uma complicação tal, que nunca a gente chega, por

mais que se applique, a fallar com segurança do assumpto.

Mal lhes posso agora traduzir a dolorosissima impressão, que a festa me

deixou. Ratice minha, sem duvida. Introduzia-se n'uma caixa um cylindro

apropriado para o caso e dava-se corda ao instrumento... mas a quem

estou ensinando o padre-nosso!... Então, um americano fanhoso,

imbirrante, assim com ares de bebedo e ademanes de exhibidor de

saltimbancos, a ponto de se lhe presumir a casaca no fio e cheia de

nodoas e a gravata branca em uso ha mais de seis semanas, fallava ao

publico, annunciava a casa constructora em Nova York, e o que em seguida

iria ouvir-se. Eram cançonetas chulas, solos de flauta, estrondos de

orchestra, devaneios em viola, discursos grotescos; e tudo aquillo, e as

vozes do publico que ria, que vociferava, que dava palmas, que pedia

_bis_, creanças berrando, damas mal suffocando o riso, cavalheiros

atirando chufas, tudo aquillo, distinctamente, saía da caixa enfeitiçada

e enchia a sala onde me achava, como se uma multidão de patuscos, vindos

da America, vindos do inferno, a tivesse invadido de surpresa.

Mas que tristeza immensa!... Como eu amaldiçoava, n'aquella hora, estas

invenções da epocha, estes engenhos surprehendentes, monstruosos, que

vem zombar da vida, e assassinar arte, enlevos fugaces que passam,

reminiscencias, saudades, tudo o que é doce ao espirito...

porque,--affirmo-o tanto quanto as palavras me podem traduzir o

pensamento,--porque, no fim de contas, ficou-me uma desconsoladora noção

de desprestigio da existencia, e de troça ás leis do mundo, á lei da

successão dos factos no tempo; e vi em pensamento um bando de velhinhos

alchimistas largarem as retortas, por um momento, e virem bradar á

creação, fitando o ceu ás gargalhadas:--«não tenhas imposturas, sabemos

tanto, fazemos tanto como tu!...»--Já não bastava a photographia, esta

artimanha irreverente, que vae implicar com os ausentes, com os

defuntos, com o mundo distante, dando-nos em troca da sentida

recordação, que guardavamos, o phantasma, em contornos, do que fugiu dos

nossos olhos. Agora é o graphophone, que eterniza os sons, a voz dos de

longe, a voz dos que morreram. Morte, ausencia, já não tem razão de

existir nos diccionarios. Para o caso a que me refiro, cá continua o

americano imbirrante a vomitar os seus discursos, os musicos a tocarem,

os cantores a cantarem, o publico a rir, a chorar, a applaudir, a

chalaçar. Passaram-se assim as scenas ha dois annos, ha cinco annos, ha

dez annos. Estará a estas horas o americano morto, coisa de alguma

bebedeira mais forte, que o prostou? a creança, que chorava, dormirá

tambem n'um tumulo, coitadita? a dama, que ria, estará doida, n'um

asylo? o homem, que applaudia, n'um carcere, cumprindo uma sentença?

Nada importa. A machina chama-os, reune-os, ressuscita-os, renova-os

para a pandiga d'um momento da existencia; o passado é presente; e a

machina agita-os, empurra-os para o interior das nossas casas, para nos

divertirmos á custa d'elles mesmos...

* * * * *

Primavera? ia eu pensando com os meus botões. Primavera? ri a natureza?

florescem as arvores? cantam amores os passaros? é uma realidade? Ah!

talvez não, que hoje, a um phenomeno substitue-se quasi sempre uma

industria; e espectaculos do Pae do Ceu fôram já quasi todos

supprimidos, porque iam aborrecendo a humanidade... Cada dia que passa,

regista cem descobertas, tendente cada qual a apagar do nosso espirito a

lenda do mysterio, do incomprehensivel. A vida, o mundo reduzem-se a

machinas, a engenhos mais ou menos complicados. Doce Primavera, que me

enfeitiça? Troça. Aqui anda machina, apostára! Quem me assegura, que

isto não foi primavera servida a meus avós ha mais de um seculo, gravada

n'um cylindro, e impingida depois como nova, de quando em quando, aos

patetas, que a applaudem?...

* * * * *

E a proposito da Primavera que irrompia, duas palavras sobre outra

Primavera, que morria, ahi pela mesma epocha.

[Figura]

Não haverá ninguem, imagino, que, tendo passado em Kobe, não conheça

_Nunobiki_, a cascata. É que o sitio, pela sua fama merecida, é o

passeio obrigado de todos os que chegam, embora se demorem duas horas.

Não ha conductor de carro, guia de viajeiros, um qualquer alcoviteiro

que ande á cata de gente que desembarca dos paquetes, que se esqueça de

indicar, como primeira diversão, a ida á queda de agua. Lá vão todos. Lá

fui eu, uma vez, como viajeiro: e muitas vezes, depois, como residente,

residente em ocios, attrahido pelos scenarios apraziveis. Lá em riba,

muito em riba da montanha, e salpicada de espumas e acalentada em

rumorejos, na penumbra do ermo apertado entre penedos a prumo, cobertos

de ramaria silvestre, era a casa de chá, a _cháya_ tradicional,

offerecendo repoiso por alguns minutos e uma bebida ao forasteiro

extasiado, sem fallar nos sorrisos, nas mesuras, que prodigalizavam

largamente as raparigas que alli olhavam pela venda. Ha alguns annos,

disseram-me, eram tres as raparigas, tres irmans,--as tres graças;--mas

eu conheci só duas, tendo casado a outra com um titular europeu,

conforme ouvi. Eu conheci só duas: O-Tane San, a Senhora Semente, e

O-Haru San, a Senhora Primavera. Como se fica presumindo, eram as

japonezas mais populares de Kobe inteiro; das quaes, talvez não erre,

acreditando que os muitos milhares de forasteiros, que n'estes ultimos

seis annos visitaram o Japão, guardam uma reminiscencia, uma saudade...

Duas fadas dos bosques, a enfeitiçarem os incautos? Não tanto: quando

muito, duas sereias de agua doce, simplesmente meigas, simplesmente

gentis, vendendo graciosamente uma chavena de chá, sem assucar, á moda

japoneza, e dando de graça um sorriso, tão doce, que tirava ao chá o

travor proprio, mesmo para o paladar mais exigente. Eu preferia á

Semente, a Primavera. Era mais fresca,--fresca como o seu lindo nome,--e

mais avelludado o olhar negro, e mais esmerada nos _kimonos_ de seda e

na curva em azas de borboleta dos cabellos. Com ella palestrava, com

ella ria, ria sobretudo, que o riso é a linguagem mais em uso n'esta

terra; e, tomando-lhe das mãos, perguntava-lhe quem fôra o delicado,

inglez, russo, coreano, hottentote, que lhe offerecêra aquelle annel com

uma saphira, que enfiava tão bem no seu dedo côr de rosa...

Pois muito bem. Sabe-se que em materia de progresso material o Japão

anda a galope. Lembraram-se ha pouco estes senhores de constituir uma

empreza para a distribuição da agua aos domicilios, em Kobe. A idea não

é nova: já Yokohama, Osaka, Nagazaki e certamente outros centros, gosam

de instituições da mesma especie. O que é lastima,--se vale a pena a

gente prender-se em ninharias,--é que assim, alcançado pelo turbilhão

reformador, que vae dando cabo de todo o pittoresco d'este povo, tenda a

desapparecer o poço... o poço classico dos velhos tempos, com a borda

circular talhada n'uma só pedra, o alpendre gracioso sustido por dois

madeiros, os baldes suspensos das duas pontas da corda de cairo, que

enfia no tosco gorne central; estabelecido em plena cosinha domestica,

ou a um canto do jardim, ou n'uma vereda accessivel a um bando de

visinhos; e cerca as vasilhas de uso, celhas, escudellas, colheres, da

mais graciosa e original tanoaria, de que as creadas, meias-nuas, se vão

servindo nas lavagens, demorando-as para alongar tagarelices, proprias

do sexo e ainda mais das japonezas; eis o poço, correspondendo a um

quadro muito caracteristico da vida intima; o poço, que os adoraveis

pinceis dos mestres da pintura se compraziam em reproduzir mil vezes,

emaranhando-os na rama das trepadeiras, das _asagao_, cujas bellas

campanulas de côres variadas abrem com o nascer do sol e fenecem logo

após...

Paisagens da China e do Japão · 第 1 / 9 段