Hesito, na verdade, em tomar o bordão de peregrino e correr os dezesete

districtos do reino só por estes fundamentos, porque duvido de que sejam

seguros. Os funccionarios subalternos, expressão demasiado vaga que pode

abranger toda a jerarchia administrativa, exceptuados os membros do

governo, são como o resto da sociedade, de cujo seio saem e a cujo seio

voltam, ignorantes uns, illustrados outros; uns remissos e desleixados

no exercicio das suas funcções, outros activos e zelosos; uns sem

consciencia do seu dever, outros pontuaes e briosos. A idéa,

infelizmente vulgar, de que o funccionario publico é geralmente mau,

parece-me inexacta e injusta. Como empregados e como homens não são

peiores nem melhores do que nós, os que não pertencemos a essa classe, o

somos, quer no exercicio das nossas respectivas profissões, quer na

nossa vida civil. Se a palavra official é indigna de credito, não sei

d'onde derive o melhor direito da nossa a ser accreditada. Se acaso eu

fosse de concelho em concelho interrogar o proprietário rural não

lavrador, o lavrador proprietario, o lavrador rendeiro, o caseiro ou

colono parciario permanente, o seareiro ou colono parciario annual, o

singeleiro, o criado de soldada, o jornaleiro proprietario, e o simples

jornaleiro, sobre a situação especial de cada uma d'estas classes e

sobre as suas mutuas relações, estou prevendo que, no fim da

peregrinação, havia de achar-me possuidor da mais estupenda collecção de

affirmativas contradictorias, de mentiras evidentes, de factos

improvaveis ou deturpados, de accusações apaixonadas, de convicios

reciprocos, resultados ordinarios da lucta de interesses oppostos.

Porque preferir esse meio de informação ás declarações da auctoridade

local, sobretudo quando é exercida por individuo estranho á parochia, ao

concelho, á comarca, ao districto? Se no meio das collisões de

interesses a corrupção pode leval-o a transfigurar os factos, não o

fará, por certo, em beneficio da classe dos operarios.

Para apreciarmos por nós mesmos as situações absoluta e relativa do

industrial agricola e do operario rural seria necessario que, além de

termos a consciencia segura acerca da propria imparcialidade,

exercessemos por dois ou tres annos a profissão de agricultores em cada

um dos diversos districtos do reino. Sem isso, a estatistica é

inevitavel; ou estatistica obtida dos que tem responsabilidade, que não

nego possam illudir, ou estatistica irresponsavel, e, o que mais é,

interessada. Abranger a totalidade dos factos economicos da industria

agricola de um paiz inteiro pela propria observação não cabe nem na vida

nem nas forças de um individuo. Pode essa observação dilatar-se por uma

área maior ou menor, mas será sempre assás limitada em relação ao todo,

embora produza ás vezes excellentes monographias que sirvam de

correctivo aos erros officiaes; mas colligir, de modo mais ou menos

imperfeito, a generalidade dos factos só o alcançam a vista e a acção

dos poderes publicos que se estendem a todo o paiz. Como nota De

Lavergne; as estatisticas geraes servem de aferição ás observações

individuaes. «Seria cousa nova--diz elle--o supprimil-as, como se, para

vermos mais claro, forcejando por accender um facho, começassemos por

apagar outro[14].

Se a rejeição dos meios officiaes de informação me parece inconveniente

e injusta, mais singular acho ainda a condemnação absoluta da propria

estatistica, votada ao ostracismo como sciencia conjectural. Ha aqui

forçosamente um equivoco. A estatistica tem por objecto colligir e

ordenar methodicamente os factos sociaes que se podem exprimir com

algarismos. Nada menos conjectural. Se em vez de factos se colligem

supposições, não se faz estatistica, faz-se novella. Na estatistica

applicada é que são possiveis as conjecturas e os erros que d'ellas

tantas vezes derivam; mas inferir d'isso a inanidade da estatistica é o

mesmo que negar a validade scientifica da arithmetica, porque muitas

vezes se erram sommas ou multiplicações. De que dependem por via de

regra as leis e providencias de indole generica, sejam de ordem juridica

ou moral, sejam de ordem economica? Dependem de um estudo estatistico

correlativo. É n'esse estudo que está a sua razão de ser.

Quando, convencidos da existencia de uma enfermidade social, desejamos

submetter á opinião publica os arbitrios que nos occorrem para a

remover, e estes arbitrios tem de estribar-se nos factos que a explicam

ou caracterisam, podemos contrapor livremente ao voto das maiorias o

voto individual pelo que toca ao valor e significação d'esses factos e

ás illações que d'elles se hão de tirar. Domina ahi o raciocinio e não a

auctoridade. Quanto, porém, á existencia dos mesmos factos, as nossas

affirmativas ou negativas hão-de esteiar-se em demonstrações claras e

indubitaveis, ou havemos de admittil-os como a sociedade nol-os

subministra. Querer que esta acceite o nosso vago testemunho, contra o

testemunho individuado dos seus agentes, parece-me exigir de mais.

Podemos recusar as informações d'elles quando evidentemente impossiveis

ou absurdas, porque n'esse caso o senso commum exerce a sua supremacia;

mas nem por isso as nossas affirmações em contrario precisam menos de

provas incontrastaveis. Esta é que me parece a boa doutrina.

Mas de que estatisticas me servi eu para verificar se a miseria do

operario rural era uma realidade, ou se era fundado o clamor dos

cultivadores contra a exorbitancia dos jornaes? Servi-me das indicações

subministradas por esses funccionarios do governo, para com os quaes se

mostra tão severo o meu illustrado antagonista? Apenas me referi ás

opiniões de alguns, que me não parecem ignorantes ou indifferentes. Como

prova de que nem elles nem eu nos enganavamos sobre a insufficiencia do

salario, recorri á comparação dos preços do meio dos principaes generos

de alimentação do trabalhador, e dos preços do meio dos salarios. Estes

elementos do calculo encontrei-os nos mappas communicados pelas camaras

municipaes. Nos concelhos onde predomina a propriedade rustica, as

vereações são compostas de proprietarios e lavradores, ou, pelo menos,

de individuos que mereceram a sua confiança, porque são elles que

preponderam nas eleições, pelo numero e pelas influencias. Fiei-me,

pois, em documentos de magistrados independentes do governo, e, o que

mais é, representantes da classe, cuja sorte o sr. P. de M. parece achar

mais digna de piedade que a dos trabalhadores. Os preços do meio não

foram de certo inventados para servirem aos meus argumentos. A fixação

annual d'elles é uma funcção exclusivamente municipal; é um facto

notorio, indubitavel, necessario. Depende d'isso a realisação de certos

contractos, a solução de certos encargos, e até o cumprimento de

mandados judiciaes. Haverá inexacções, para mais e para menos, na

fixação de taes preços; mas semelhantes inexacções compensam-se umas

pelas outras. Os meus calculos podem ser erroneos; mas as bases sobre

que assentam, creio-as inconcussas.

É singular! A situação da classe dos trabalhadores melhora gradualmente,

emquanto a dos proprietarios ruraes e lavradores peiora. E todavia

estamos de accordo em suppor que o signal do melhoramento da classe

operaria consistiria em ir-se transformando o simples jornaleiro em

proprietario. Parece que n'esse caso deveriamos deplorar a imprevidencia

do trabalhador que abandona uma situação progressivamente vantajosa,

para entrar n'outra que vai em decadencia. O meu talentoso adversario

sentiu que as suas affirmativas tinham o que quer que fosse que

suscitaria dúvidas. Explicou-as pois. A grande e a mediana propriedade

luctam com difficuldades e encargos novos, a que foge naturalmente a

pequena cultura, que tem limitadas precisões, que vive vida frugal, e

que não tem de pagar o trabalho que a si mesma subministra. Será esta

explicação exacta e sufficiente? Suspeito que não é. Os mais onerosos

encargos que definhavam antigamente a industria agricola desappareceram

em 1834 tanto para a grande como para a pequena cultura. Esmagam-na os

novos tributos directos? A verba total da contribuição de repartição,

que nos dizem representar ás vezes 12, 14 e mais por cento do liquido da

producção nacional, está por si mesma revelando o que é essa

contribuição directa, e ainda melhor se a compararmos com a verba total

dos rendimentos annuaes das nossas alfandegas, que, na sua generalidade,

representam uma percentagem de 10, de 20, de 30, ou ainda de mais, se

quizerem, sobre o valor venal dos objectos que, na maxima parte,

forçosamente se hão-de comprar com o producto liquido do trabalho

nacional, trabalho que sobretudo se manifesta nos valores creados pela

agricultura, e que indirectamente tem tambem de pagar as percentagens do

fisco e os ganhos do commercio. Todos nós sabemos um pouco da historia

contemporanea do tributo directo, ácerca do qual um illustre deputado, o

sr. Carlos Ribeiro, já teve occasião de dizer notaveis verdades. Se,

porém, na apreciação da materia collectavel, da renda e dos lucros

agricolas, ha erros graves, não creio que taes erros revertam de

ordinario em proveito dos proprietarios humildes e dos simples

jornaleiros. Mas, sejam quaes forem as nossas opiniões sobre o assumpto,

o que me parece evidente é que os melhoramentos materiaes do paiz nos

ultimos quarenta annos tem aproveitado, pela maior parte, á grande e á

mediana cultura. Possuimos caminhos de ferro, centenares e centenares de

leguas de boas estradas, principaes incentivos do desenvolvimento

agricola; temos a propriedade menos sujeita a extorsões e violencias

publicas e privadas; temos a liberdade e a paz, sempre e em toda a parte

fecundas de progresso e riqueza; temos dezenas de productos da industria

rural insignificantes ou desconhecidos para a exportação ha cincoenta

annos, e que hoje a fazem engrossar em milhares de contos de réis.

Affirmando que em algumas leis e instituições do paiz, e no nosso

systema fiscal, ha embaraços para a industria agricola, não creio que

sejam elles taes que annullem essas immensas vantagens, e sobretudo que

não abranjam a pequena como abrangem a grande e a mediana propriedade.

O meu tão cortez adversario aponta um facto como prova de que a sorte

dos proletarios ruraes tem melhorado. É a frequente accessão de um ou de

outro, durante os ultimos vinte annos, á posse da propriedade. Reconheço

a verdade do facto e o meu unico desejo é que elle se realise em

larguissima escala. Não é, porém, de vinte annos a esta parte que o

phenomeno se dá. Dá-se desde seculos remotos. Os archivos do estado, das

ordens monasticas e militares, das casas nobres, dos cabidos e mitras,

das pessoas, em summa, physicas ou moraes que tinham ou tem o dominio da

terra, ahi estão para o provar. Impediu d'antes, impede isso hoje, que a

grande maioria dos chefes de familia obreiros sejam simples proletarios?

Se nenhum de nós duvida da excellencia do meio, porque comparativamente

é elle tão pouco efficaz? Terei occasião de submetter a v. ex.^a algumas

considerações, que me persuado farão sentir como no complexo das nossas

leis civis e de fazenda se encontram graves obstaculos á posse do solo

pelo proletariado, ao passo que fallecem os incitamentos para esta se

realisar. O que explica a accessão do simples jornaleiro á propriedade é

a sua paixão ardente por ella, o seu amor á terra, que o faz tantas

vezes vencer esses obstaculos, que o fez vencel-os ainda em epochas bem

sombrias da historia do colonato. Crê, pelo contrario, o sr. P. de M.

que o proletario tem hoje não só grandes facilidades de acquisição, mas

tambem vantagens superiores ás dos grandes e medianos proprietarios para

obter prosperos resultados. Quanto a estas ultimas, diz-nos elle que o

pequeno agricultor tem poucas necessidades, vive vida frugal e não paga

o trabalho que fornece a si mesmo. São, quanto a mim, bem limitadas as

necessidades inevitaveis, impreteriveis, da vida rustica, e estas

communs ao grande, ao mediocre e ao pequeno agricultor. As outras, mais

ou menos facticias, seria excellente para os progressos agricolas que se

contivessem sempre dentro da orbita dos recursos de cada lavrador ou

proprietario rural. Não reputo grande fortuna do pequeno agricultor não

poder crial-as porque não tem meios de as satisfazer.

Por outra parte, a frugalidade não é uma virtude monopolio de nenhuma

classe; está á disposição de todas as vontades e de todas as

consciencias austeras. A mesa mais ou menos opipara é negocio alheio a

este ou áquelle methodo, a aquellas ou a estas condições da agricultura.

Tambem não me parece que o pequeno agricultor que não paga o trabalho a

outrem tenha alguma vantagem em não dar esse dinheiro, fazendo os

serviços por suas proprias mãos. Quem paga o trabalho da producção é o

producto. O salario representa a manutenção do obreiro. Que o ganhe

comsigo, que o ganhe fóra, ha-de viver e manter-se. A verdadeira

vantagem do jornaleiro proprietario é aproveitar a energia dos proprios

braços nos dias, nas semanas, nos mezes, em que não encontra quem lhe

pague essa energia. Se quando acha serviço alheio, prefere o seu, não

faz mais do que depositar na caixa economica chamada a terra o salario

d'aquelle dia. A sua situação, assim considerada, é a mesma dos grandes

e dos medianos agricultores-proprietarios. Como elles, representa duas

entidades economicas--o dono da terra que aufere a renda, e o industrial

que aufere o lucro liquido. A importancia dos jornaes que venceu como

trabalhador não se confunde nem com a renda nem com o lucro: é uma

deducção que ha a fazer no valor bruto da producção.

Outra ordem de factos vem confirmar isto mesmo. É vulgarmente sabido que

na grande e ainda na mediana cultura o producto liquido é

proporcionalmente maior do que na pequena, e o producto bruto maior

n'esta do que n'aquellas. Porque? Porque nas primeiras o emprego das

machinas, o poder dos motores, a divisão dos misteres, o trabalho não

interrompido e por grandes massas homogeneas, a simplificação das

operações, e outras vantagens analogas, reduzem o custo, embora tambem,

até certo ponto, reduzam o resultado. Na pequena cultura o emprego

exclusivo ou quasi exclusivo dos braços, o zelo com que estes trabalham,

o esmero com que os serviços são executados, os adubos frequentes, a

pulverisação da terra, o aproveitamento nas colheitas, a vigilancia

minuciosa nas pequenas cousas, que é um dos motivos da prosperidade

moral, mas que exige tempo e applicação, explicam a superioridade

relativa do producto bruto. Resultam d'estes factos diversos dois

phenomenos oppostos. O grande ou mediano cultivador consome comsigo e

com os seus uma pequena porção do que produz, e vende a maxima parte.

Com o pequeno succede exactamente o contrario. Consome a maior parte dos

productos, elle e os seus. Vende pouco; mas esse pouco, ás vezes

associado com os jornaes ganhos em serviço alheio, suppre melhor ou

peior aquellas necessidades da familia que não podem satisfazer-se com

os generos da propria lavra. Que significa este consumo quasi inteiro

dos productos? Significa salarios, seu, da mulher, dos filhos; significa

terem-se aproveitado bem todas as forças uteis da familia, emquanto no

trabalho interrompido e vacilante do simples jornaleiro uma grande parte

d'essas forças são annualmente annulladas.

No pensar do sr. P. de M., a pouco onerosa acquisição da terra pelo

aforamento, a parceria agricola, e, ás vezes, as sobras do salario,

estão facilitando ao trabalhador rural o goso da propriedade. Ignoro

como a parceria agricola facilita ao trabalhador o goso da propriedade.

Saberá explical-o o sr. P. de M.. Os salarios capitalisados a que se

refere conheço-os de ha muito; de uma epocha em que elle, provavelmente,

apenas começava os seus longos e profundos estudos sobre estas complexas

materias. Paguei-os e vi capitalisal-os, em enxugos de ribeiras

paludosas e em extensas lavras de arroz, entre as bahias do Tejo e do

Sado. Quem eram, porém, os capitalisadores? Mancebos solteiros, no vigor

da edade, que vinham durante mezes trocar a saude e alguns annos de vida

n'um clima insalubre por poucas moedas de economias, obtidas mais pelas

pequenas empreitadas do que pelo salario. E ainda assim, para

enthesourarem limitadas sobras, cumpria-lhes cortar pelo estricto

necessario, por uma alimentação já de si insufficiente n'aquellas

paragens, e não raro o enfraquecimento physico e a insalubridade do

clima tornavam as longas doenças herdeiras d'esses peculios. Os

cultivadores sinceros d'ente Tejo e Sado poderão dizer ao meu humano

contendor se eu descrevo um facto isolado ou assás commum. Este meio

indirecto de chegar á propriedade não me parece merecer nem confiança,

nem applauso. Chamo-lhe indirecto, porque não é immediato nem exclusivo

para que o proletario rural, isto é, para que o homem que nada possue,

senão a propria actividade e a robustez dos proprios braços, entre no

goso da propriedade. Todo o individuo que adquire um capital maior ou

menor, seja por que modo for, pode convertel-o em dominio territorial.

Fal-o, em regra, por um contracto oneroso, embora variem as fórmas

d'esse contracto. Ora o sr. P. de M. aponta como primeiro instrumento da

conversão do trabalhador em pequeno proprietario o aforamento, que

qualifica de pouco oneroso. Se o é actualmente para o pobre, teremos

depois occasião de o examinar. Em todo o caso, fazendo essa restricção,

reconhece que não pode ser para o jornaleiro um meio senão excepcional,

e as ponderações que fiz, na segunda carta que tive a honra de dirigir a

v. ex.^a, sobre a quasi impossibilidade em que está o simples

trabalhador chefe de familia de fazer economias na alta transitoria dos

salarios, não me parecem de desprezar. De certo, se foram mal cabidas, o

meu illustre contendor não levará tão longe a sua indulgencia para

commigo, que deixe de corrigil-as ou refutal-as.

Resta o aforamento; resta a emphyteuse, considerada absolutamente e em

si. A emphyteuse, sim; n'essa creio eu. No meu modo de ver, esta enorme

vulgaridade, esta tradição dos seculos, para a qual certos theoricos

modernos olham com scientifica sobranceria, é a mais poderosa alavanca

para a um tempo afastar da emigração os jornaleiros ruraes e alistal-os

entre os defensores da propriedade, da paz e da ordem. Apezar de todas

as contrariedades, da falta de auxilio social sufficiente no sentido de

obter taes fins, esse elemento vivaz e fecundo, ajudado pela ambição de

possuir a terra, que domina o proletario rural, está ha muitos annos

produzindo o bem. A questão é se precisa de ser modificado e por que

modo, quaes os obstaculos que ha a remover para que elle funccione com

toda a sua energia, e de que favores carece para esta se tornar mais

forte e de mais rapidos e seguros effeitos. Reservo, como já disse, para

logar opportuno expor a v. ex.^a o que penso a este respeito. São

alvitres de um profano. Os competentes acharão outros melhores; mas cada

qual paga á sociedade o seu tributo de idéas em conformidade dos seus

recursos intellectuaes, como no imposto directo cada qual _deve_ pagar

na proporção dos seus haveres. O que é certo é que sobre este ponto

tenho por mim a valiosa auctoridade do sr. P. de M., que não deixará,

com a sua mil vezes superior sciencia e experiencia, de supprir,

emendar, e estabelecer mais solidamente o que nas minhas opiniões houver

incompleto, erroneo ou mal fundamentado.

Não desejo que, em geral, o jornaleiro venha a possuir algumas geiras de

terra e uma choupana, porque queira ou supponha que n'essa situação

fique em melhores condições relativas que o grande e o mediano

proprietarios, nem que possa eximir-se de trocar com elles o trabalho

pelo jornal. Os meus desejos são mais modestos. Vejo n'isso unicamente

um meio real de tornar permanente e sufficiente o salario da familia

obreira, applicada e fructifera toda a potencia do trabalho nacional em

relação á riqueza agricola. Escuso de affirmar de novo a minha crença

ácerca do bem que d'ahi ha-de resultar para reduzir consideravelmente a

emigração e fortificar a sociedade, emquanto é tempo, contra os perigos

que surgem, embora em remoto horizonte. Que o proprietario cultivador

mais ou menos abastado possua os commodos e gosos que o habito converteu

para elle em necessidades; mas que o trabalhador tenha os meios de se

isentar da miseria pelo trabalho; que a familia obreira desconheça a

nudez, a fome e a falta de abrigo. O christianismo, a humanidade e a

justiça impõe ás consciencias honradas o dever de adherirem a todos os

esforços que se façam em tal sentido. A classe media, a classe

predominante, se pensar n'isso, verá que faz um bom negocio

associando-se a este pensamento. O egoismo, quando illustrado e sensato,

pode muitas vezes ajudar a obter o bom resultado de conselhos sinceros e

moderados, que, se até certo ponto aproveitam aos desvalidos, porventura

aproveitarão ainda melhor ao interesse d'aquelles que, ignorando a

historia dos grandes cataclismos das sociedades, vêm n'esses conselhos

leaes o intuito de os prejudicar.

O artigo do sr. P. de M. conclue por me chamar a um terreno ardente e

escorregadio, no qual cuidadosamente tenho evitado entrar. É o das

relações moraes entre o operario rural e o grande ou mediano cultivador.

Não vou. Sei aonde elle me pode conduzir. N'esta edade, ama-se a paz.

Todavia, isso não obsta a que me associe cordealmente aos votos que o

meu illustre adversario faz para que nos campos se restaurem os laços da

vida moral. Tem-nos, com effeito, despedaçado quasi completamente as

luctas de ambições politicas, a cubiça imprevidente de influencias

obscuras, a depravação e a incapacidade do clero, o vicioso e incompleto

das instituições, o desleixo dos governos, a impotencia das

magistraturas ante a preponderancia de forças extra-legaes. É o que

explica de sobejo a decadencia moral do campo. Nos sitios em que vivo,

não conheço esses reformadores de má nota, principaes missionarios de

idéas perniciosas e dissolventes de que o meu caro contendor se queixa,

salvo se eu proprio o sou, sem d'isso dar tino. Creio mais facil

descobril-os entre as populações urbanas. Pela minha parte, se pequei,

foi na persuasão de que as vozes que soam do pulpito da imprensa não

chegam aos ouvidos do rustico trabalhador, e de que, ainda quando as

ouvisse, elle não as entenderia. Persuadi-me de que fazia bom serviço ao

paiz se dirigisse aos animos dos que podem ouvir-me e entender-me

palavras que os fizessem reflectir sobre os seus verdadeiros interesses,

e lhes despertassem o sentimento em que, por assim dizer, se encerra

todo o christianismo--a piedade para com os que padecem. Estou

certissimo de que a alta intelligencia do sr. P. de M. faz plena justiça

ás minhas intenções. Que outros a façam ou não, pouco me importa. Todas

as classes sociaes, cujos interesses, mais ou menos legitimos, são

feridos por qualquer opinião, acham sempre essa opinião perniciosa e

dissolvente. É a natureza humana.

Nada mais certo do que a necessidade de supprimir a anarchia moral e

estabelecer o respeito _mutuo_, não direi entre as diversas classes, mas

entre os direitos das diversas classes ou categorias sociaes. No campo e

na cidade, a moral publica é egualmente necessaria: n'este ponto, não é

possivel a discordancia entre nós. Que o jornaleiro e o creado ruraes se

abstenham do tão generalisado vicio dos pequenos, mas continuos furtos e

estragos nas grandes, nas medianas e nas pequenas propriedades; que dêem

ao cultivador, ao amo, o trabalho que lhes devem pelo jornal ou soldada

que recebem, cumprindo um contracto livremente celebrado; que não tornem

pouco digna de compaixão a sua miseria, pelo jogo, pela embriaguez, pela

devassidão; que aprendam a respeitar os laços santos da familia; que por

preguiça, indolencia ou genio brutal, não causem perdas graves e diarias

no capital movel ou semovente do agricultor; que não tractem, por todos

os meios que a malicia e a dissimulação lhes suggerem, de transtornar os

melhoramentos de cultura, que em beneficio proprio, e muitas vezes em

beneficio d'elles, tenta com sacrificios custosos o grande ou o mediano

cultivador; que não busquem vingança dos procedimentos que reputam

injustos com a calumnia, com o incendio covarde, com as aggressões

atraiçoadas. Forcejemos todos por arredar d'estes habitos funestos o

trabalhador rural. Mas que o grande ou mediano proprietario ou

agricultor...

Agora reparo que esta carta vai já demasiado longa, e que excedo os

limites rasoaveis de ser importuno. Tractarei de me cohibir de futuro,

quando outras occupações me permittirem dirigir-me de novo a v. ex.^a.

VIII

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 04 · 第 10 / 14 段