Antes de passar a expor porque e com quaes condições a emphyteuse pode

conduzir rapidamente á associação do trabalho actual com o trabalho

consolidado a que chamamos propriedade, e d'ahi, por natural

consequencia, a attenuar em grande escala a emigração nociva, consinta o

meu amigo que ponha termo a esta carta com uma digressão sobre assumpto

connexo, e do mais subido quilate. Refiro-me aos perigos que ameaçam a

Europa por effeito das paixões excitadas entre as classes laboriosas

pelas escolas socialistas extremas, isto é, inexoravelmente logicas.

Esses perigos não são por ora demasiado graves entre nós. Contrahida a

propaganda de certas doutrinas a uma parte dos operarios urbanos,

parece-me que ella se estriba mais no amor da novidade e da moda, do que

nas coleras reaes e funestas, que, n'outros paizes, suscita ás vezes o

excesso do padecer. Mas hoje é tão intimo o contacto entre os povos

civilisados, tão efficiente a mutua acção das idéas e dos factos, que

não seria prudente affirmar que taes perigos se não tornarão um dia

sérios para nós. As apprehensões ácerca das influencias estranhas

parecem sobretudo legitimas no seio das nações pequenas. O generalisar a

propriedade rustica; ligar o salario, que se recebe, com o dominio, que

se exercita, não é só privar de adeptos as doutrinas dissolventes: é

recrutar soldados para a manutenção da paz e da boa ordem. Desde que o

trabalhador rural achar no producto liquido da sua fazendinha um

complemento mais ou menos amplo do jornal; ou, antes, desde que não

considerar o jornal senão como complemento d'esse producto, a negação da

propriedade individual, longe de o lisongear, ha-de irrital-o, e os

apostolos da demoliçao social farão bem em não evangelisar deante d'elle

a lei nova, porque o trabalhador do campo é naturalmente rude. Seria o

caso de applicar, porventura com mais verdade, o dito agudo, a respeito

de Inglaterra, que De Lavergne celebra:--«Não aconselho ás choupanas,

que se amotinem contra os solares. Esmagavam-nas logo. São vinte contra

um.»--Depois da fusão, na familia do jornaleiro, do trabalho actual com

a propriedade, não aconselharia ás assosiações internacionalistas

urbanas que se amotinassem contra esta. Achar-se-hiam em bem restricta

minoria. A paixão da terra, tão forte e tão nociva no grande e no

mediano agricultor, arde com dobrada violencia no coração do proletario

rural. Que sacrificios, que tenacidade, que imaginação, que industria

para alcançar propriedade! Quando elle chega a poder proferir, de pé

sobre as belgas do chão esmoutado e vallado, as palavras magicas--«O meu

foro»--essa fronte, habitualmente inclinada para o solo, com os olhos

fitos na enchada, ergue-se e illumina-se de esperança no futuro e de

confiança no presente. Todos os ocios voluntarios ou forçados do

jornaleiro e dos seus vão-se transformando em trabalho que a arroteia

absorve, e que aflora depois na vinha, no tanchoal, no campinho de

cereaes, na figueira, na ameixeeira, no batatal. A taberna perdeu acaso

um freguez, o baralho e o chinquilho um parceiro, a rixa um arruador. É

que o proletario recebeu da nossa mãi commum o baptismo de cidadão.

_P.S._ Ao cerrar esta carta recebo o _Jornal do Commercio_ de 8 do

corrente, onde vem transcripta a minha penultima carta. Precede-a um

artigo do sr. P. de M., que parece destinado a corrigir factos e

apreciações contidos no que tenho escripto. Quando accedi á publicação

d'estas cartas, desde logo resolvi responder com o silencio ás

impugnações mais ou menos innocentes, mais ou menos habeis, mais ou

menos irritadas, que eram de esperar. Firo interesses e preconceitos

arreigados, rejeito opiniões adoptadas talvez sem sufficiente exame.

Como o homem physico, a idéa aggredida defende-se. É cousa natural. O

desgosto tem o direito de exprimir-se conforme a indole de quem o

padece. Deixal-o manifestar-se em paz, e consolar-se com um facil

triumpho. Declaro-me desde já vencido e refutado. Posso, porém, tractar

do mesmo modo o trabalho do sr. P. de M.? De certo não. Ao nobre e

independente caracter do auctor, ao seu talento, á sua especial

competencia n'estes assumptos, ajuncta-se a sua nunca desmentida

benevolencia para comigo, benevolencia que, longe de desmentir-se agora,

se duplica, talvez, até á exaggeracão. Podemos ver o assumpto a luz

diversa; mas somos ambos desinteressados. Pediu-me v. ex.^a a minha

opinião: dou-a, boa ou má, sinceramente, lealmente.

Sobejam-me annos e fallecem-me ambições: por isso não calculo se agrado

ou desagrado a uma escola, a um partido, a uma classe, e ainda ao

proprio paiz. Quando, porém, a nobreza moral, a inquestionavel

competencia, e o conhecido desinteresse me advertem que errei,

entristeço, porque é provavel que efectivamente errasse. O erro, ainda

quando involuntario, é sempre um mal. Vou estudar detidamente o trabalho

que precede, no _Jornal do Commercio_, a minha penultima carta. Não me

custará a retractação, a que é natural me conduza esse estudo: apenas me

ficará a magua de ter tomado o tempo a v. ex.^a com as minhas reflexões

menos acertadas.

VI

*Lisboa, outubro 1874.*

Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.--Meu amigo, depois de ter lido com a attenção

de que era capaz o escripto do sr. P. de M., sinto não poder

converter-me.

E sinto-o pelo prazer que teria em reconhecer a importancia do seu voto,

e em estribar as minhas opiniões na sua auctoridade indisputavel e

indisputada sobre o assumpto d'estas cartas. Ao primeiro aspecto, elle

parece concordar commigo na substancia. Dou a miseria como causa suprema

da emigração rural, e, no dizer do meu illustre contendor, _em tudo_

quanto escrevo a tal respeito _ha um fundo de verdade_. Occorrem, porém,

factos que tornam menos seguras as minhas conclusões.

Nem sempre, diz elle, a emigração deriva da miseria. Quem o duvida?

Decerto não sou eu, que não só admitto, mas até especifico outros

incentivos d'ella, e não só em certos casos a absolvo, mas até a

applaudo. A questão é se esta causa existe, e sobretudo se existe em

relação á emigração rural, que era o ponto sobre que v. ex.^a me pedia o

meu voto, visto ser a essa luz que se considerava o assumpto no

questionario que me remetteu. Se existe e actua em larga escala, os

poderes publicos devem forcejar por destruil-a; porque a miseria, como

phenomeno geral e permanente, deriva sempre de um vicio na economia

social. No meu modo de ver a acção d'esses poderes não vai mais longe.

Tremo da tutela publica; porque a tutela publica é o ponto de contacto

entre o despotismo e o socialismo. Nos actos commummente licitos da vida

civil não concebo a intervenção da auctoridade para que um unico d'esses

actos deixe de se practicar. N'esta parte o auctor do artigo, espirito

esclarecido, liberal e justo, parece que em these concorda commigo.

O sr. P. de M., reconhecendo a principio que ha um fundo de verdade no

que digo sobre a insufficiencia do salario, reconhece a existencia da

miseria que fatalmente deriva d'essa insufficiencia. O que parece não

admitir é que ella seja remediavel, porque faz nascer da propria

natureza do organismo social esses factos verdadeiros que apontei. Quer

isto dizer que a miseria do trabalhador provém indirectamente de uma lei

natural? Não creio que seja assim. A sociabilidade é que é uma lei. O

organismo social é a manifestação, a fórmula em que ella se traduz. Essa

manifestação, essa fórmula depende forçosamente de quem ha-de realisar a

lei; depende do homem, ente intelligente e livre, e portanto capaz de

aperfeiçoar as suas obras. O organismo social é, por isso, susceptivel

de ser transformado. Os progressos da civilisação constituem uma série

de transformações d'esse organismo. A historia está ahi para o

testificar. Deus me livre de crer na invencibilidade do mal.

Assim, no entender do meu tão benevolo contendor, ainda que a miseria

podesse enumerar-se entre as causas da emigração, cumpriria curvar a

cabeça ante um facto fatalmente necessario. Não crê, porém, que a

insufficiencia do salario rural seja uma causa indiscutivel da emigração

no continente portuguez. Está longe d'isso. Talvez a admitta só nos

districtos insulares, e se, especificando o que os poderes publicos

devem fazer relativamente á emigração, não lhes diz que tentem remediar

a miseria, a qual, ao menos alli, provém de salarios insufficientes, é

que os dolorosos effeitos d'essa insufficiencia são inevitaveis e

irremediaveis.

Qual é pois a causa supereminente, omnimoda, quasi exclusiva, da

emigração? É a indole aventureira e cubiçosa do homem. Esta indole

exaggera-se pela acção das idéas de um povo sobre as idéas de outro. A

idéa moderna das raças germanicas é o emigrarem os que tem alguma cousa,

e os proletarios morrerem abraçados com a terra da patria. As raças

celto-romanas, a que de ordinario chamamos povos latinos, são actuadas

hoje pela idéa germanica: isto sem livros, sem jornaes, sem

missionarios, sem nenhuma especie de propaganda, e só pela força

sympathica da idéa. Os que possuem vão-se, os que nada possuem ficam. Se

esta theoria é verdadeira, os lamentos dos agricultores são um perfeito

engano. Podem rarear as fileiras dos patrões; as dos simples jornaleiros

não. Quanto mais a emigração crescer, mais provavel é a baixa dos

salarios ruraes.

Procede a theoria do sr. P. de M. de duas fontes: 1.^a a propria

observação; 2.^a os factos que se dão em Allemanha. Para mim, o primeiro

seria decisivo, se as observações do sr. P. de M. fossem, não digo

completas, mas assás extensas. Limitam-se a um tracto maior ou menor das

costas do oceano. Sabe de casos numerosos em que a idéa germanica se

reproduz entre nós; isto é, em que, associando-se ás indoles

aventureiras e cubiçosas, essa idéa arrasta homens remediados a

liquidarem seus haveres e a demandarem as regiões da America. Não era

preciso o testemunho irrecusavel do meu honrado contendor para eu crer

esses factos. Ainda dispensando a intervenção da idéa germanica, estou

convencido de que os espiritos aventurosos, audazes, desejosos de

melhorar de fortuna, proletarios ou não proletarios, terão mais de uma

vez trocado a patria pela America. Para isso tem-se a si; e é o que lhes

basta. Ambos nós, embora por motivos em parte diversos, julgamos que não

convem obstar a esta emigração, e que para o fazer a auctoridade não tem

nenhum meio liberal e legitimo. Mas esses factos das orlas do mar serão

applicaveis ao complexo total da emigração do reino? O sr. P. de M.

conhece 50, 100, 200 casos de tal ordem: mais; muitos mais, se quizer. O

algarismo que os representa ha-de ser sempre grandemente inferior ao de

50:000 emigrados que, por exemplo, abandonaram o paiz só n'um dos

ultimos quinquennios. O mais que o meu bom amigo pode fazer é tirar

illações. Ora, illações de 50, de 100, de 1:000 para 50:000, não me

parece que tenham grande valor, sobretudo n'esta questão.

A idéa germanica, em que se funda a theoria do sr. P. de M., resulta de

um inquerito ordenado recentemente pelo chanceller do imperio allemão.

Segundo esse inquerito estatistico, relativo aos ultimos cincoenta annos

(se em Portugal apparecesse uma estatistica d'estas, o que se diria, meu

Deus!), a emigração allemã até 1840 foi constituida _exclusivamente_

pelos proletarios: _nem um_ só individuo de classes mais felizes buscou

fortuna na America. Repentinamente, por uma especie de mutação á vista,

o proletariado lança raízes na _Vaterland_, na terra d'Arminio. O

espirito aventureiro, a cubica da riqueza surgem n'aquelle anno. É uma

cholera moral que invade a Allemanha. A enorme torrente da emigração não

pára, não se attenua; cresce. O proletariado, porém, não lhe cede _um_

só individuo. O _maltrapilho_ emigrante passa a tradição. Todos os que

emigram tem de seu: liquidam e vão levar os capitaes da opulenta

Allemanha á pobrissima America. O paiz exhaure-se. Esses capitaes

representam nada menos do que uma somma equivalente á contribuição de

guerra imposta á França. Propriamente, o que os francezes pagaram foi um

saldo de contas entre a Allemanha e a America.

Perdoe-me o meu amigo P. de M. uma supposição vaidosa até á

extravagancia. Se eu fosse o principe de Bismarck, com o systerna um

pouco militar da administração prussiana, mandava descançar os

inquiridores nas casamatas de Spandau, para lhes fazer notar que o

gracejo não é admissivel em objectos de serviço. Só deixaria de o fazer,

se particularmente lhes houvesse recommendado que achassem esses

resultados moralmente impossiveis. V. ex.^a sabe, de certo, por pessoas

doutas e tementes a Deus, que eu sou um grandissimo impio, peiorado

agora com minha nesga de petroleiro. Tolere-me, por isso, um acto de

incredulidade quasi brutal. Não creio uma palavra dos fins apparentes e

dos resultados objectivos do inquerito. Creio, porém, que milhares e

milhares dos mais robustos braços, que o rio caudal da emigração arrasta

annualmente, fariam enorme falta ás espingardas de agulha no dia em que

a França cedesse ao appetite de ser esmagada de novo. Se o chanceller

pensa seriamente em retel-os, não ha-de ser só a estatistica encarregada

de dar plausibilidade ás suas providencias; ha-de ser toda a sciencia

allemã sem exceptuar a critica de Strauss e a philosophia de Hegel.

Quando o imperador Guilherme prohibiu ás companhias de caminhos de ferro

que fizessem abatimento nos preços de transporte aos que se dirigiam aos

portos de mar para emigrarem, e que esta singular prohibição alevautou

altos clamores nos Estados-Unidos, o ministro allemão em Washington

viu-se constrangido a confessar que as providencias tomadas significavam

precauções contra as tentativas de desforra da França. Não eram

capitaes, eram braços que o governo queria reter. E de facto, se os

emigrantes não fossem em grande parte simples jornaleiros, simples

proletarios, não haviam de ser alguns thalers a mais na despesa do

transito que retivessem na Europa a multidão de peculios, equivalentes á

contribuição de guerra da França, que iam felicitar a America.

Se eu, de má fé, quizesse acceitar a theoria do meu amigo P. de M. sobre

a emigração, provaria contra elle que a emigração portugueza é essencial

e quasi exclusivamente de proletarios miseraveis. Se admittisse a força

impulsiva dos exemplos peregrinos, o pensamento estranho, modificando

por uma acção mysteriosa o pensar nacional, acharia uma influencia mais

potente pela força numerica dos exemplos, pela maior proximidade, senão

affinidade, de raça, e até pela unidade de crenças religiosas, para

produzir o milagre. Refiro-me á Irlanda. Se existe uma especie de

magnetismo da classe remediada de origem germanica sobre a classe

remediada portugueza, porque se não dará o mesmo influxo do proletariado

celta sobre o proletariado celtoromano? São, porém, a cubica e a

audacia, ou é a miseria que tem expulsado o irlandez da patria? Se em

meio seculo a America attrahiu da Allemanha 2.500:000 individuos, só nos

Estados Unidos, só pelo porto de Nova-York, e só em 20 annos (1847 a

1866) entraram 1.500:000 emigrados irlandezes. D'estas duas forças

uniformadoras, qual é a mais poderosa, e qual d'ellas, portanto, teria

actuado mais em Portugal, se esta acção existisse?

Posto que seja uma triste convicção, continúo a crer que a miseria é a

causa suprema da emigração dos campos. A insufficiencia do salario

produz por dois modos a desgraça do trabalhador--privando-o directamente

do necessario, e impellindo-o ás vezes, pela dor moral, a buscar o

estonteamento na embriaguez, que lhe augmenta a propria miseria. É um

phenomeno vulgar; e se, como observa Laveleye[13]--«quasi por toda a

parte o salario do obreiro é insufficiente para satisfazer as suas

necessidades racionaes»,--esse phenomeno geral abrange-nos tambem.

Forcejar por lhe amortecer a intensidade, por destruil-o, se é possivel,

tenho-o como dever e interesse communs. Assim, não só removeremos um

poderoso incentivo de emigração, mas tambem fortaleceremos a sociedade

contra perigos mais serios. Segue-se d'isto, acaso, que não existem

outras causas de uma emigração nociva? De certo não. O que não vejo é o

remedio para neutralisar essas causas, algumas das quaes só alterações

profundas no mechanismo social poderiam remover. Sirva de exemplo o

recrutamento, que basta para explicar a emigração dos nossos mancebos

pelos portos da Galliza, facto que só pode maravilhar os que ignoram até

onde chega a repugnancia, ou antes o horror da mocidade aldeã a

arrancarem-n'a por alguns annos do ninho paterno para a lançarem n'um

teor de vida desconhecido, mas que ella bem sabe não condizer com os

habitos, com as occupações, com os affectos, que constituem a historia

completa da sua singela existencia. Pode applicar-se aos que assim o

fazem o dicto de Quevedo--_matar-se por no morir_; mas é certo que a

isso os arrasta um impulso interior, irreflexivo e irresistivel.

Preoccupam quasi exclusivamente o meu caro antagonista os engajadores:

vê-os por toda a parte; vê, até, no oceano um dos mais terriveis. O

aspecto e o ruido das ondas attrahem para a America. Permitta-me elle

que advogue a causa do oceano. Não é muito: a causa de Deus já foi

defendida na Convenção franceza. Se o mar tem o segredo de attrahir os

habitantes dos districtos de Vianna, do Porto, de Aveiro e de Coimbra,

que banha por uma orla, mostra-se de pasmosa incapacidade para o mister

que exerce, logo que as suas vagas rolam para o sul da foz do Mondego a

visitar as praias e ribas dos de Leiria, de Lisboa e do Algarve, ao

passo que o districto de Braga, vendo-o e ouvindo-o apenas por estreito

espiraculo, e os de Vizeu e Villa Real, conhecendo-o só de nome, lhe

entregam aos milhares seus filhos. Não seria mais simples e conforme á

razão pôr de lado influencias em parte contradictorias, em parte

incomprehensiveis, e buscar na densidade comparativa das populações

ruraes a explicação do phenomeno? Não é facto eloquentissimo serem os

districtos onde a população mais rapidamente cresce, e mais densa é em

relação á superficie do respectivo territorio, os que subministram

numero incomparavelmente maior de emigrados? Que significa isto, não

digo em Portugal, digo em toda a parte, senão que a producção, por

defeito do solo ou do clima, por pouca intensidade ou imperfeição da

cultura, pela má constituição da propriedade, emfim, por qualquer causa

natural ou facticia, não corresponde á densidade da população? O excesso

d'esta em relação aos seus recursos foi, é, e ha-de ser, em todos os

tempos e logares, o incentivo ordinario das migrações que tem povoado e

hão-de ir povoando o globo. Mas o desequilibrio entre a producção e as

necessidades impreteriveis do total dos productores tem de traduzir-se

em miseria para alguns ou para muitos d'elles antes que o equilibrio

renasça. Sempre, porém, os symptomas do mal hão-de manifestar-se nos

orgãos economicamente mais debeis do corpo social, nas classes

trabalhadoras. Por isso continúo a persuadir-me de que é, não a

influencia germanica, nem o oceano, mas sim a miseria a verdadeira,

co-ré dos engajadores.

Pede o SR. P. de M. severidade para com elles. Eu, de certo, não os

applaudo nem os protejo; mas, quando theoricamente esquecemos ou negamos

as causas mais efficazes d'esta ou d'aquella ordem de phenomenos,

estamos arriscados a engrandecer tão desmesuradamente as secundarias

quanto o exige a logica do erro. É assumpto de particular estudo este

dos engajadores, ácerca dos quaes, se não faltam deplorações sentidas e

accusações genericas, falta a indicação particularisada de sufficientes

factos especiaes sobre que possam recair apreciações reflectidas. É

probabilissimo, não me cansarei de confessal-o, que os animos

emprehendedores e cubiçosos, as imaginações ardentes, sobretudo quando

os aguilhoar a pobreza, busquem na emigração melhor fortuna. Para elles,

porém, a influencia germanica parece-me já de sobra, e os induzimentos

dos engajadores um verdadeiro pleonasmo. Em todo o caso, com essas

influencias ou sem ellas, ambos nós estamos de accordo em que não se

devem nem se podem pôr embaraços a esta especie de foragidos. Restam-nos

os animos irresolutos, as indoles timidas, pobres de imaginativa,

moderadas nos desejos. Dada a não existencia do irresistivel incentivo

da miseria, é racionalmente crivel que esses individuos sem ambições

exaggeradas, sem resolução, sem precisões urgentes, emfim, sem nenhum

impulso physico ou moral, quebrem violentamente os laços que os prendem

á terra de infancia, laços fortes sobretudo no homem do campo, só porque

um individuo, provavelmente desconhecido, os convida a deixar o seu

prediosinho, a familia, os amigos, os mil affectos, em summa, que nos

retem na patria, para se arrojar ás solidões do oceano, dobradamente

temerosas para quem as desconhece? Isto é impossivel!

Mas o engajador não é uma pura invenção. Acredito; postoque me faltem

bastantes factos, precisos e indisputaveis, para avaliar a extensão das

suas malfeitorias. Supponhamos, porém, a não-existencia da miseria

involuntaria e honesta: desde esse momento o engajador deixa de excitar

a indignação e deve ser visto a luz diversa do clarão sinistro que o

allumia.

Nas profundezas da sociedade, como nas depressões das gandras, ha lagôas

doentias, charcos apodrecidos. As paixões e os instinctos degenerados em

vicios alimentam esses brejos. Fluctuam ahi entes embrutecidos. São os

desgraçados que designamos com os nomes desdenhosos de relé, de

gentalha, existencias anormaes, zangões dos enxames humanos. O seu

_habitat_ mais commum é no seio das camadas inferiores das populações

urbanas, mas o campo não está isento d'elles. Supprimida theoricamente a

miseria honrada, a actividade dos engajadores move-se forçosamente na

esphera do vicioso, do abjecto, da parte da população moral e

economicamente nociva. N'este caso o engajador seria um emunctorio, e

longe de se lhe contrariarem os esforços, conviria favorecel-os.

Ou me engano muito, ou é esta a consequencia que se deduz, a final, das

doutrinas do meu illustre contendor. De certo não a previu quando,

indignado, pedia aos poderes publicos que sustessem toda a propaganda

que tivesse por fim promessas fallazes. Se entendo bem esta phrase um

pouco obscura, parece-me que lhes pede o desempenho de missão difficil.

Não me occorre, dentro dos limites dos principios liberaes, meio nenhum

practico de impedir propagandas, quer verbaes, quer escriptas, posto que

não faltem meios de punir as que offendam as leis. Não sei tambem como

verificar antecipadamente se quaesquer promessas, contidas no ambito do

possivel, serão ou não cumpridas: questão do futuro que o presente não

pode resolver. Parece-me arriscado aconselhar cousas d'estas aos

governos, propensos sempre a ultrapassar no exercicio do poder a

barreira incommoda dos principios. O perigo da phrase de certo escapou á

perspicaz intelligencia do meu illustre adversario, que, liberal

sincero, proclama a eterna verdade de que o indivíduo é _em primeira_ e

ultima instancia o juiz do proprio interesse.

Depois de fundamentar a sua doutrina, o sr. P. de M. accumula as

considerações que entende invalidarem a minha. Quanto a elle o operario

rural, se não gosa de todos os commodos possiveis, caminha em movimento

ascendente para o bem estar, emquanto a grande e a mediana propriedade

rural vão em temporaria decadencia. Sem negar as contrariedades e

embaraços, não direi da grande e da mediana propriedade, o que não é o

mesmo, nem tem a mesma importancia, mas sim da grande e da mediana

industria agricola, é obvio que as minhas convicções sobre a situação

relativa das duas classes são bem diversas das do meu tão indulgente

contendor. Como elle, derivei-as de certa ordem de factos. Esses em que

a opinião adversa se estriba pareceram-me, uns insufficientes, outros

inadmissiveis, outros gratuitos ou mal interpretados. Illudir-me-hia? O

insufficiente, o infundado, o impossivel, o gratuito, podem estar nos

elementos de que me servi ou nas consequencias que d'elles tirei. É a

esta luz que devo considerar agora as observações do meu amigo P. de M..

Obstaculos da vida privada obrigam-me, porém, a interromper aqui a serie

das idéas que me occorrem sobre a materia. Em breve espero atar-lhes o

fio e chamar de novo sobre ellas a attenção de v. ex.^a.

VII

*Lisboa, outubro 1874.*

Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.--É pela base que o sr. P. de M. começa a

demolição das considerações, que me levaram a crer que a emigração rural

tem por causa prominente a insufficiencia do salario e conseguintemente

a miseria do jornaleiro.

Entende elle que, se quizermos habilitar-nos para estudar a questão,

devemos previamente queimar os documentos officiaes onde se registam os

factos relativos ao assumpto, e ir estudar estes pessoalmente nos

diversos districtos do reino, porque os empregados subalternos de

administração são ignorantes, inhabeis, sem consciencia da propria

responsabilidade, e porque a estatistica não passa de uma sciencia

conjectural que cumpre pôr de parte.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 04 · 第 9 / 14 段