conduzir rapidamente á associação do trabalho actual com o trabalho
consolidado a que chamamos propriedade, e d'ahi, por natural
consequencia, a attenuar em grande escala a emigração nociva, consinta o
meu amigo que ponha termo a esta carta com uma digressão sobre assumpto
connexo, e do mais subido quilate. Refiro-me aos perigos que ameaçam a
Europa por effeito das paixões excitadas entre as classes laboriosas
pelas escolas socialistas extremas, isto é, inexoravelmente logicas.
Esses perigos não são por ora demasiado graves entre nós. Contrahida a
propaganda de certas doutrinas a uma parte dos operarios urbanos,
parece-me que ella se estriba mais no amor da novidade e da moda, do que
nas coleras reaes e funestas, que, n'outros paizes, suscita ás vezes o
excesso do padecer. Mas hoje é tão intimo o contacto entre os povos
civilisados, tão efficiente a mutua acção das idéas e dos factos, que
não seria prudente affirmar que taes perigos se não tornarão um dia
sérios para nós. As apprehensões ácerca das influencias estranhas
parecem sobretudo legitimas no seio das nações pequenas. O generalisar a
propriedade rustica; ligar o salario, que se recebe, com o dominio, que
se exercita, não é só privar de adeptos as doutrinas dissolventes: é
recrutar soldados para a manutenção da paz e da boa ordem. Desde que o
trabalhador rural achar no producto liquido da sua fazendinha um
complemento mais ou menos amplo do jornal; ou, antes, desde que não
considerar o jornal senão como complemento d'esse producto, a negação da
propriedade individual, longe de o lisongear, ha-de irrital-o, e os
apostolos da demoliçao social farão bem em não evangelisar deante d'elle
a lei nova, porque o trabalhador do campo é naturalmente rude. Seria o
caso de applicar, porventura com mais verdade, o dito agudo, a respeito
de Inglaterra, que De Lavergne celebra:--«Não aconselho ás choupanas,
que se amotinem contra os solares. Esmagavam-nas logo. São vinte contra
um.»--Depois da fusão, na familia do jornaleiro, do trabalho actual com
a propriedade, não aconselharia ás assosiações internacionalistas
urbanas que se amotinassem contra esta. Achar-se-hiam em bem restricta
minoria. A paixão da terra, tão forte e tão nociva no grande e no
mediano agricultor, arde com dobrada violencia no coração do proletario
rural. Que sacrificios, que tenacidade, que imaginação, que industria
para alcançar propriedade! Quando elle chega a poder proferir, de pé
sobre as belgas do chão esmoutado e vallado, as palavras magicas--«O meu
foro»--essa fronte, habitualmente inclinada para o solo, com os olhos
fitos na enchada, ergue-se e illumina-se de esperança no futuro e de
confiança no presente. Todos os ocios voluntarios ou forçados do
jornaleiro e dos seus vão-se transformando em trabalho que a arroteia
absorve, e que aflora depois na vinha, no tanchoal, no campinho de
cereaes, na figueira, na ameixeeira, no batatal. A taberna perdeu acaso
um freguez, o baralho e o chinquilho um parceiro, a rixa um arruador. É
que o proletario recebeu da nossa mãi commum o baptismo de cidadão.
_P.S._ Ao cerrar esta carta recebo o _Jornal do Commercio_ de 8 do
corrente, onde vem transcripta a minha penultima carta. Precede-a um
artigo do sr. P. de M., que parece destinado a corrigir factos e
apreciações contidos no que tenho escripto. Quando accedi á publicação
d'estas cartas, desde logo resolvi responder com o silencio ás
impugnações mais ou menos innocentes, mais ou menos habeis, mais ou
menos irritadas, que eram de esperar. Firo interesses e preconceitos
arreigados, rejeito opiniões adoptadas talvez sem sufficiente exame.
Como o homem physico, a idéa aggredida defende-se. É cousa natural. O
desgosto tem o direito de exprimir-se conforme a indole de quem o
padece. Deixal-o manifestar-se em paz, e consolar-se com um facil
triumpho. Declaro-me desde já vencido e refutado. Posso, porém, tractar
do mesmo modo o trabalho do sr. P. de M.? De certo não. Ao nobre e
independente caracter do auctor, ao seu talento, á sua especial
competencia n'estes assumptos, ajuncta-se a sua nunca desmentida
benevolencia para comigo, benevolencia que, longe de desmentir-se agora,
se duplica, talvez, até á exaggeracão. Podemos ver o assumpto a luz
diversa; mas somos ambos desinteressados. Pediu-me v. ex.^a a minha
opinião: dou-a, boa ou má, sinceramente, lealmente.
Sobejam-me annos e fallecem-me ambições: por isso não calculo se agrado
ou desagrado a uma escola, a um partido, a uma classe, e ainda ao
proprio paiz. Quando, porém, a nobreza moral, a inquestionavel
competencia, e o conhecido desinteresse me advertem que errei,
entristeço, porque é provavel que efectivamente errasse. O erro, ainda
quando involuntario, é sempre um mal. Vou estudar detidamente o trabalho
que precede, no _Jornal do Commercio_, a minha penultima carta. Não me
custará a retractação, a que é natural me conduza esse estudo: apenas me
ficará a magua de ter tomado o tempo a v. ex.^a com as minhas reflexões
menos acertadas.
VI
*Lisboa, outubro 1874.*
Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.--Meu amigo, depois de ter lido com a attenção
de que era capaz o escripto do sr. P. de M., sinto não poder
converter-me.
E sinto-o pelo prazer que teria em reconhecer a importancia do seu voto,
e em estribar as minhas opiniões na sua auctoridade indisputavel e
indisputada sobre o assumpto d'estas cartas. Ao primeiro aspecto, elle
parece concordar commigo na substancia. Dou a miseria como causa suprema
da emigração rural, e, no dizer do meu illustre contendor, _em tudo_
quanto escrevo a tal respeito _ha um fundo de verdade_. Occorrem, porém,
factos que tornam menos seguras as minhas conclusões.
Nem sempre, diz elle, a emigração deriva da miseria. Quem o duvida?
Decerto não sou eu, que não só admitto, mas até especifico outros
incentivos d'ella, e não só em certos casos a absolvo, mas até a
applaudo. A questão é se esta causa existe, e sobretudo se existe em
relação á emigração rural, que era o ponto sobre que v. ex.^a me pedia o
meu voto, visto ser a essa luz que se considerava o assumpto no
questionario que me remetteu. Se existe e actua em larga escala, os
poderes publicos devem forcejar por destruil-a; porque a miseria, como
phenomeno geral e permanente, deriva sempre de um vicio na economia
social. No meu modo de ver a acção d'esses poderes não vai mais longe.
Tremo da tutela publica; porque a tutela publica é o ponto de contacto
entre o despotismo e o socialismo. Nos actos commummente licitos da vida
civil não concebo a intervenção da auctoridade para que um unico d'esses
actos deixe de se practicar. N'esta parte o auctor do artigo, espirito
esclarecido, liberal e justo, parece que em these concorda commigo.
O sr. P. de M., reconhecendo a principio que ha um fundo de verdade no
que digo sobre a insufficiencia do salario, reconhece a existencia da
miseria que fatalmente deriva d'essa insufficiencia. O que parece não
admitir é que ella seja remediavel, porque faz nascer da propria
natureza do organismo social esses factos verdadeiros que apontei. Quer
isto dizer que a miseria do trabalhador provém indirectamente de uma lei
natural? Não creio que seja assim. A sociabilidade é que é uma lei. O
organismo social é a manifestação, a fórmula em que ella se traduz. Essa
manifestação, essa fórmula depende forçosamente de quem ha-de realisar a
lei; depende do homem, ente intelligente e livre, e portanto capaz de
aperfeiçoar as suas obras. O organismo social é, por isso, susceptivel
de ser transformado. Os progressos da civilisação constituem uma série
de transformações d'esse organismo. A historia está ahi para o
testificar. Deus me livre de crer na invencibilidade do mal.
Assim, no entender do meu tão benevolo contendor, ainda que a miseria
podesse enumerar-se entre as causas da emigração, cumpriria curvar a
cabeça ante um facto fatalmente necessario. Não crê, porém, que a
insufficiencia do salario rural seja uma causa indiscutivel da emigração
no continente portuguez. Está longe d'isso. Talvez a admitta só nos
districtos insulares, e se, especificando o que os poderes publicos
devem fazer relativamente á emigração, não lhes diz que tentem remediar
a miseria, a qual, ao menos alli, provém de salarios insufficientes, é
que os dolorosos effeitos d'essa insufficiencia são inevitaveis e
irremediaveis.
Qual é pois a causa supereminente, omnimoda, quasi exclusiva, da
emigração? É a indole aventureira e cubiçosa do homem. Esta indole
exaggera-se pela acção das idéas de um povo sobre as idéas de outro. A
idéa moderna das raças germanicas é o emigrarem os que tem alguma cousa,
e os proletarios morrerem abraçados com a terra da patria. As raças
celto-romanas, a que de ordinario chamamos povos latinos, são actuadas
hoje pela idéa germanica: isto sem livros, sem jornaes, sem
missionarios, sem nenhuma especie de propaganda, e só pela força
sympathica da idéa. Os que possuem vão-se, os que nada possuem ficam. Se
esta theoria é verdadeira, os lamentos dos agricultores são um perfeito
engano. Podem rarear as fileiras dos patrões; as dos simples jornaleiros
não. Quanto mais a emigração crescer, mais provavel é a baixa dos
salarios ruraes.
Procede a theoria do sr. P. de M. de duas fontes: 1.^a a propria
observação; 2.^a os factos que se dão em Allemanha. Para mim, o primeiro
seria decisivo, se as observações do sr. P. de M. fossem, não digo
completas, mas assás extensas. Limitam-se a um tracto maior ou menor das
costas do oceano. Sabe de casos numerosos em que a idéa germanica se
reproduz entre nós; isto é, em que, associando-se ás indoles
aventureiras e cubiçosas, essa idéa arrasta homens remediados a
liquidarem seus haveres e a demandarem as regiões da America. Não era
preciso o testemunho irrecusavel do meu honrado contendor para eu crer
esses factos. Ainda dispensando a intervenção da idéa germanica, estou
convencido de que os espiritos aventurosos, audazes, desejosos de
melhorar de fortuna, proletarios ou não proletarios, terão mais de uma
vez trocado a patria pela America. Para isso tem-se a si; e é o que lhes
basta. Ambos nós, embora por motivos em parte diversos, julgamos que não
convem obstar a esta emigração, e que para o fazer a auctoridade não tem
nenhum meio liberal e legitimo. Mas esses factos das orlas do mar serão
applicaveis ao complexo total da emigração do reino? O sr. P. de M.
conhece 50, 100, 200 casos de tal ordem: mais; muitos mais, se quizer. O
algarismo que os representa ha-de ser sempre grandemente inferior ao de
50:000 emigrados que, por exemplo, abandonaram o paiz só n'um dos
ultimos quinquennios. O mais que o meu bom amigo pode fazer é tirar
illações. Ora, illações de 50, de 100, de 1:000 para 50:000, não me
parece que tenham grande valor, sobretudo n'esta questão.
A idéa germanica, em que se funda a theoria do sr. P. de M., resulta de
um inquerito ordenado recentemente pelo chanceller do imperio allemão.
Segundo esse inquerito estatistico, relativo aos ultimos cincoenta annos
(se em Portugal apparecesse uma estatistica d'estas, o que se diria, meu
Deus!), a emigração allemã até 1840 foi constituida _exclusivamente_
pelos proletarios: _nem um_ só individuo de classes mais felizes buscou
fortuna na America. Repentinamente, por uma especie de mutação á vista,
o proletariado lança raízes na _Vaterland_, na terra d'Arminio. O
espirito aventureiro, a cubica da riqueza surgem n'aquelle anno. É uma
cholera moral que invade a Allemanha. A enorme torrente da emigração não
pára, não se attenua; cresce. O proletariado, porém, não lhe cede _um_
só individuo. O _maltrapilho_ emigrante passa a tradição. Todos os que
emigram tem de seu: liquidam e vão levar os capitaes da opulenta
Allemanha á pobrissima America. O paiz exhaure-se. Esses capitaes
representam nada menos do que uma somma equivalente á contribuição de
guerra imposta á França. Propriamente, o que os francezes pagaram foi um
saldo de contas entre a Allemanha e a America.
Perdoe-me o meu amigo P. de M. uma supposição vaidosa até á
extravagancia. Se eu fosse o principe de Bismarck, com o systerna um
pouco militar da administração prussiana, mandava descançar os
inquiridores nas casamatas de Spandau, para lhes fazer notar que o
gracejo não é admissivel em objectos de serviço. Só deixaria de o fazer,
se particularmente lhes houvesse recommendado que achassem esses
resultados moralmente impossiveis. V. ex.^a sabe, de certo, por pessoas
doutas e tementes a Deus, que eu sou um grandissimo impio, peiorado
agora com minha nesga de petroleiro. Tolere-me, por isso, um acto de
incredulidade quasi brutal. Não creio uma palavra dos fins apparentes e
dos resultados objectivos do inquerito. Creio, porém, que milhares e
milhares dos mais robustos braços, que o rio caudal da emigração arrasta
annualmente, fariam enorme falta ás espingardas de agulha no dia em que
a França cedesse ao appetite de ser esmagada de novo. Se o chanceller
pensa seriamente em retel-os, não ha-de ser só a estatistica encarregada
de dar plausibilidade ás suas providencias; ha-de ser toda a sciencia
allemã sem exceptuar a critica de Strauss e a philosophia de Hegel.
Quando o imperador Guilherme prohibiu ás companhias de caminhos de ferro
que fizessem abatimento nos preços de transporte aos que se dirigiam aos
portos de mar para emigrarem, e que esta singular prohibição alevautou
altos clamores nos Estados-Unidos, o ministro allemão em Washington
viu-se constrangido a confessar que as providencias tomadas significavam
precauções contra as tentativas de desforra da França. Não eram
capitaes, eram braços que o governo queria reter. E de facto, se os
emigrantes não fossem em grande parte simples jornaleiros, simples
proletarios, não haviam de ser alguns thalers a mais na despesa do
transito que retivessem na Europa a multidão de peculios, equivalentes á
contribuição de guerra da França, que iam felicitar a America.
Se eu, de má fé, quizesse acceitar a theoria do meu amigo P. de M. sobre
a emigração, provaria contra elle que a emigração portugueza é essencial
e quasi exclusivamente de proletarios miseraveis. Se admittisse a força
impulsiva dos exemplos peregrinos, o pensamento estranho, modificando
por uma acção mysteriosa o pensar nacional, acharia uma influencia mais
potente pela força numerica dos exemplos, pela maior proximidade, senão
affinidade, de raça, e até pela unidade de crenças religiosas, para
produzir o milagre. Refiro-me á Irlanda. Se existe uma especie de
magnetismo da classe remediada de origem germanica sobre a classe
remediada portugueza, porque se não dará o mesmo influxo do proletariado
celta sobre o proletariado celtoromano? São, porém, a cubica e a
audacia, ou é a miseria que tem expulsado o irlandez da patria? Se em
meio seculo a America attrahiu da Allemanha 2.500:000 individuos, só nos
Estados Unidos, só pelo porto de Nova-York, e só em 20 annos (1847 a
1866) entraram 1.500:000 emigrados irlandezes. D'estas duas forças
uniformadoras, qual é a mais poderosa, e qual d'ellas, portanto, teria
actuado mais em Portugal, se esta acção existisse?
Posto que seja uma triste convicção, continúo a crer que a miseria é a
causa suprema da emigração dos campos. A insufficiencia do salario
produz por dois modos a desgraça do trabalhador--privando-o directamente
do necessario, e impellindo-o ás vezes, pela dor moral, a buscar o
estonteamento na embriaguez, que lhe augmenta a propria miseria. É um
phenomeno vulgar; e se, como observa Laveleye[13]--«quasi por toda a
parte o salario do obreiro é insufficiente para satisfazer as suas
necessidades racionaes»,--esse phenomeno geral abrange-nos tambem.
Forcejar por lhe amortecer a intensidade, por destruil-o, se é possivel,
tenho-o como dever e interesse communs. Assim, não só removeremos um
poderoso incentivo de emigração, mas tambem fortaleceremos a sociedade
contra perigos mais serios. Segue-se d'isto, acaso, que não existem
outras causas de uma emigração nociva? De certo não. O que não vejo é o
remedio para neutralisar essas causas, algumas das quaes só alterações
profundas no mechanismo social poderiam remover. Sirva de exemplo o
recrutamento, que basta para explicar a emigração dos nossos mancebos
pelos portos da Galliza, facto que só pode maravilhar os que ignoram até
onde chega a repugnancia, ou antes o horror da mocidade aldeã a
arrancarem-n'a por alguns annos do ninho paterno para a lançarem n'um
teor de vida desconhecido, mas que ella bem sabe não condizer com os
habitos, com as occupações, com os affectos, que constituem a historia
completa da sua singela existencia. Pode applicar-se aos que assim o
fazem o dicto de Quevedo--_matar-se por no morir_; mas é certo que a
isso os arrasta um impulso interior, irreflexivo e irresistivel.
Preoccupam quasi exclusivamente o meu caro antagonista os engajadores:
vê-os por toda a parte; vê, até, no oceano um dos mais terriveis. O
aspecto e o ruido das ondas attrahem para a America. Permitta-me elle
que advogue a causa do oceano. Não é muito: a causa de Deus já foi
defendida na Convenção franceza. Se o mar tem o segredo de attrahir os
habitantes dos districtos de Vianna, do Porto, de Aveiro e de Coimbra,
que banha por uma orla, mostra-se de pasmosa incapacidade para o mister
que exerce, logo que as suas vagas rolam para o sul da foz do Mondego a
visitar as praias e ribas dos de Leiria, de Lisboa e do Algarve, ao
passo que o districto de Braga, vendo-o e ouvindo-o apenas por estreito
espiraculo, e os de Vizeu e Villa Real, conhecendo-o só de nome, lhe
entregam aos milhares seus filhos. Não seria mais simples e conforme á
razão pôr de lado influencias em parte contradictorias, em parte
incomprehensiveis, e buscar na densidade comparativa das populações
ruraes a explicação do phenomeno? Não é facto eloquentissimo serem os
districtos onde a população mais rapidamente cresce, e mais densa é em
relação á superficie do respectivo territorio, os que subministram
numero incomparavelmente maior de emigrados? Que significa isto, não
digo em Portugal, digo em toda a parte, senão que a producção, por
defeito do solo ou do clima, por pouca intensidade ou imperfeição da
cultura, pela má constituição da propriedade, emfim, por qualquer causa
natural ou facticia, não corresponde á densidade da população? O excesso
d'esta em relação aos seus recursos foi, é, e ha-de ser, em todos os
tempos e logares, o incentivo ordinario das migrações que tem povoado e
hão-de ir povoando o globo. Mas o desequilibrio entre a producção e as
necessidades impreteriveis do total dos productores tem de traduzir-se
em miseria para alguns ou para muitos d'elles antes que o equilibrio
renasça. Sempre, porém, os symptomas do mal hão-de manifestar-se nos
orgãos economicamente mais debeis do corpo social, nas classes
trabalhadoras. Por isso continúo a persuadir-me de que é, não a
influencia germanica, nem o oceano, mas sim a miseria a verdadeira,
co-ré dos engajadores.
Pede o SR. P. de M. severidade para com elles. Eu, de certo, não os
applaudo nem os protejo; mas, quando theoricamente esquecemos ou negamos
as causas mais efficazes d'esta ou d'aquella ordem de phenomenos,
estamos arriscados a engrandecer tão desmesuradamente as secundarias
quanto o exige a logica do erro. É assumpto de particular estudo este
dos engajadores, ácerca dos quaes, se não faltam deplorações sentidas e
accusações genericas, falta a indicação particularisada de sufficientes
factos especiaes sobre que possam recair apreciações reflectidas. É
probabilissimo, não me cansarei de confessal-o, que os animos
emprehendedores e cubiçosos, as imaginações ardentes, sobretudo quando
os aguilhoar a pobreza, busquem na emigração melhor fortuna. Para elles,
porém, a influencia germanica parece-me já de sobra, e os induzimentos
dos engajadores um verdadeiro pleonasmo. Em todo o caso, com essas
influencias ou sem ellas, ambos nós estamos de accordo em que não se
devem nem se podem pôr embaraços a esta especie de foragidos. Restam-nos
os animos irresolutos, as indoles timidas, pobres de imaginativa,
moderadas nos desejos. Dada a não existencia do irresistivel incentivo
da miseria, é racionalmente crivel que esses individuos sem ambições
exaggeradas, sem resolução, sem precisões urgentes, emfim, sem nenhum
impulso physico ou moral, quebrem violentamente os laços que os prendem
á terra de infancia, laços fortes sobretudo no homem do campo, só porque
um individuo, provavelmente desconhecido, os convida a deixar o seu
prediosinho, a familia, os amigos, os mil affectos, em summa, que nos
retem na patria, para se arrojar ás solidões do oceano, dobradamente
temerosas para quem as desconhece? Isto é impossivel!
Mas o engajador não é uma pura invenção. Acredito; postoque me faltem
bastantes factos, precisos e indisputaveis, para avaliar a extensão das
suas malfeitorias. Supponhamos, porém, a não-existencia da miseria
involuntaria e honesta: desde esse momento o engajador deixa de excitar
a indignação e deve ser visto a luz diversa do clarão sinistro que o
allumia.
Nas profundezas da sociedade, como nas depressões das gandras, ha lagôas
doentias, charcos apodrecidos. As paixões e os instinctos degenerados em
vicios alimentam esses brejos. Fluctuam ahi entes embrutecidos. São os
desgraçados que designamos com os nomes desdenhosos de relé, de
gentalha, existencias anormaes, zangões dos enxames humanos. O seu
_habitat_ mais commum é no seio das camadas inferiores das populações
urbanas, mas o campo não está isento d'elles. Supprimida theoricamente a
miseria honrada, a actividade dos engajadores move-se forçosamente na
esphera do vicioso, do abjecto, da parte da população moral e
economicamente nociva. N'este caso o engajador seria um emunctorio, e
longe de se lhe contrariarem os esforços, conviria favorecel-os.
Ou me engano muito, ou é esta a consequencia que se deduz, a final, das
doutrinas do meu illustre contendor. De certo não a previu quando,
indignado, pedia aos poderes publicos que sustessem toda a propaganda
que tivesse por fim promessas fallazes. Se entendo bem esta phrase um
pouco obscura, parece-me que lhes pede o desempenho de missão difficil.
Não me occorre, dentro dos limites dos principios liberaes, meio nenhum
practico de impedir propagandas, quer verbaes, quer escriptas, posto que
não faltem meios de punir as que offendam as leis. Não sei tambem como
verificar antecipadamente se quaesquer promessas, contidas no ambito do
possivel, serão ou não cumpridas: questão do futuro que o presente não
pode resolver. Parece-me arriscado aconselhar cousas d'estas aos
governos, propensos sempre a ultrapassar no exercicio do poder a
barreira incommoda dos principios. O perigo da phrase de certo escapou á
perspicaz intelligencia do meu illustre adversario, que, liberal
sincero, proclama a eterna verdade de que o indivíduo é _em primeira_ e
ultima instancia o juiz do proprio interesse.
Depois de fundamentar a sua doutrina, o sr. P. de M. accumula as
considerações que entende invalidarem a minha. Quanto a elle o operario
rural, se não gosa de todos os commodos possiveis, caminha em movimento
ascendente para o bem estar, emquanto a grande e a mediana propriedade
rural vão em temporaria decadencia. Sem negar as contrariedades e
embaraços, não direi da grande e da mediana propriedade, o que não é o
mesmo, nem tem a mesma importancia, mas sim da grande e da mediana
industria agricola, é obvio que as minhas convicções sobre a situação
relativa das duas classes são bem diversas das do meu tão indulgente
contendor. Como elle, derivei-as de certa ordem de factos. Esses em que
a opinião adversa se estriba pareceram-me, uns insufficientes, outros
inadmissiveis, outros gratuitos ou mal interpretados. Illudir-me-hia? O
insufficiente, o infundado, o impossivel, o gratuito, podem estar nos
elementos de que me servi ou nas consequencias que d'elles tirei. É a
esta luz que devo considerar agora as observações do meu amigo P. de M..
Obstaculos da vida privada obrigam-me, porém, a interromper aqui a serie
das idéas que me occorrem sobre a materia. Em breve espero atar-lhes o
fio e chamar de novo sobre ellas a attenção de v. ex.^a.
VII
*Lisboa, outubro 1874.*
Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.--É pela base que o sr. P. de M. começa a
demolição das considerações, que me levaram a crer que a emigração rural
tem por causa prominente a insufficiencia do salario e conseguintemente
a miseria do jornaleiro.
Entende elle que, se quizermos habilitar-nos para estudar a questão,
devemos previamente queimar os documentos officiaes onde se registam os
factos relativos ao assumpto, e ir estudar estes pessoalmente nos
diversos districtos do reino, porque os empregados subalternos de
administração são ignorantes, inhabeis, sem consciencia da propria
responsabilidade, e porque a estatistica não passa de uma sciencia
conjectural que cumpre pôr de parte.