Na população rural predomina um instincto ou como queiram chamar-lhe,

que no proletario será o mais poderoso elemento de bem-estar e de

regeneração moral para elle, e de paz e de progresso para a sociedade,

se esta souber favorecel-o e dirigil-o; mas que no agricultor mais ou

menos abastado é vicio ruinoso e difficil de corrigir, porque a

intelligencia obscurecida do vicioso o pinta a si proprio como

manifestação de providencias de economia, de amor ao trabalho, quasi de

virtude. Fallo d'essa affeição ardente, inquieta, tenaz, á propriedade

de raiz, á terra, que se mantém com o mesmo vigor no coração do homem do

campo desde a mocidade até ao ultimo dia, até a ultima hora da vida, e

que, apenas satisfeita, logo recrudesce. De todas as causas de ruina dos

agricultores nenhuma reputo mais desastrosa. É ella que de ordinario

deita a perder o lavrador laborioso, poupado, mas pouco reflexivo e

menos instruido. O que sobretudo escaceia ao cultivador portuguez é

cabedal para o grangeio. Por via de regra, a terra é mais forte do que o

seu cultor, e tarde ou cedo esmaga-o. Todavia elle acredita que é acto

meritorio, acto de homem que _faz casa_, converter em terras o capital

de que ha-de precisar para custeios, sempre incertos no seu _quantum_.

Ainda quando elle fosse de sobra, deveria applical-o a melhorar a alfaia

agricola, a adubos, a limpeza de arvoredos, a esgraminhar, a desviar

enxurros dos valles e a desobstruir ribeiros, a vallagens e esgotos,

etc. Mas o proprietario rural é radicalmente anguloso, e desadora com

isso. Estremece pela fórma circular. _Arredonda-se_ de continuo, podendo

e não podendo. Não é raro, até, vêl-o levantar dinheiro a 8, 10 ou mais

por cento para adquirir um campo que lhe dará o equivalente de uma renda

de 4 ou 5, se não menos. Se a cousa fazia tanta conta! Se endireitava a

lavoura! Se lhe proporcionava tão boa serventia! Havia de deixar que o

arrematasse outro confinante que cordealmente detesta? Concluiu-se o

negocio: os amanhos, que já se não faziam bem, são cada vez peiores, e

na producção apparece o castigo do erro. O capital loucamente amortisado

é supprido pelo que, em momentos de apuro, se vai buscar a 12, 15 ou 18,

por cento. Vendem-se os generos na baixa; vendem-se fructos ainda

pendentes; atrazam-se as soldadas, e a disciplina entre os creados

acaba. O gado anda magro, e o arado pára no rego emquanto se fuma ou

conversa. O agricultor nada d'isto vê, porque lhe empanam a vista as

soldadas em debito. A ruina tarda mais ou menos annos, espera ás vezes

pela morte do lavrador, mas vem quasi sempre, implacavel, fatal. Scismam

todos como um homem laborioso, economico, que em summa _fez casa_,

chegou, depois de _se arredondar_, a semelhantes termos. Os advertidos

começam então a lembrar-se das ruins searas que elle tivera desde tantos

annos, da pouca e má producção das suas vinhas e olivedos, da morrinha

do seu rebanho, das basseiras e ferrujões que lhe levaram dois ou tres

bois de trabalho. Mas advertem alguns, ainda mais experientes e

circumspectos, que essa é a historia de varios outros lavradores dos

sitios, incansaveis como elle em fazer casa. O facto tornou-se vulgar

desde que se não paga o dizimo a Deus, e que o reino está comido de

pedreiros livres. Depois, os tributos devoram tudo. Ha quem tenha feito

a conta. Paga mais a terra hoje do que nas epochas douradas dos quartos,

das jugadas, dos relegos, das coutadas, dos dizimos, das milicias, das

ordenanças, acogulado tudo com a decima d'el-rei nosso senhor.

Obviamente as terras produzem agora menos e as estações mudaram. Tem

muitas vezes notado estas cousas o reverendo prior da freguezia e o

fidalgo do logar, ancião respeitavel, que foi capitão-mór, e commendador

quando valia a pena de o ser. Lembram-se ambos com saudade dos bons

tempos em que o lavrador era completamente feliz... nas eclogas da

poesia classica.

D'essa insaciabilidade de terra resulta ainda outro mal não menos

grave--a dispersão do trabalho rural--causa de um sem numero de despesas

improductivas. Ha proprietarios que se resignam ao anguloso quando se

lhes torna impossivel o arredondarem-se; mas resta-lhes outro expediente

para se arruinarem. Como se tracta de satisfazer um vicio, os pretextos

não faltam. A acquisição de um campo, de uma belga de terra, de um

olival, de uma vinha, de um brejo, de um talho de matto, seja, em summa,

do que fôr, embora a meia ou a uma legua do centro da lavoura, é sempre

para os taes um negocio d'aquelles que raras vezes se fazem na vida.

Como elles esperam rir-se dos vendedores! Estes negocios raros, aliás

tão vulgares, trazem por via de regra mais damnos ao agricultor do que

todas as altas dos salarios. V. ex.^a conhece decerto o excellente livro

de Fermin Caballero, sobre a povoação rural de Hespanha, traduzido pelo

dr. Deslandes e publicado em Lisboa em 1872. É provavel que não sejam

muitos os exemplares vendidos. E, todavia, este notavel escripto deveria

ser tão lido e meditado (não digo cegamente adoptadas todas as suas

doutrinas) pelos nossos cultivadores pouco instruidos, como o admiravel

tractadinho de Matthieu de Dombasle sobre os acertos e revezes nos

melhoramentos agricolas o devera ser pelos turbulentos e insoffridos

reformadores das nossas velhas praxes, que tenho a fraqueza de não

suppor todas más. Infelizmente para o lavrador, que disputa aos chins

extremos de devoção pelo culto dos antepassados, a leitura de um livro

que contradiz as tradições avitas seria profanação. Que Fermin Caballero

faça apalpar aos seus hespanhoes as perdas enormes das lavouras

retalhadas e dispersas, cousas são de castelhanos: o cultivador

portuguez continuará todos os dias, a todas as horas e por toda a parte,

a fazer os taes raros negocios, que mais tarde ou mais cedo tem de lhe

inspirar serios queixumes contra os salarios devoradores, devoradores

sobretudo quando são pagos com dinheiro de 12 a 18 por cento.

Diz-se que a escola é uma grande necessidade para o rustico proletario.

Deve ser assim. Affirmam-n'o os entendidos das grandes cidades. Por ora,

suspeito que tem outras mais urgentes--a de melhor e mais abundante

alimento, a de mais roupa, e a de mais reparada habitação. A quem me

parece que aproveitaria desde já a escola é á _burguezia do campo_; mas

a escola como eu a concebo, a escola que ensina mais alguma cousa do que

a manear a ferramenta do estudo--ler e escrever,--a escola em que pouco

se tem pensado. Seria uma attenuação prodigiosa da suppressão dos

dizimos, da existencia do pedreiro livre, e até do fatal descobrimento

da America.

E é n'um paiz onde fallece a instruccão ao commum dos agricultores,

falta que lhes mostra do invez as questões economicas; que lhes mantém

as tendencias para immobilisarem todos os seus recursos pecuniarios,

desequilibrando de continuo os dois instrumentos essenciaes da producção

remuneradora--a terra e o capital; é n'este paiz que não existem

instituições de credito agricola, d'aquelle credito que, bem organisado,

poderia supprir com dinheiro barato a insufficiencia tão vulgar como

ruinosa dos capitaes de grangeio, sem que todavia favorecesse o vicio da

terra não menos vulgar, nem menos ruinoso! Pensámos nos proprietarios,

creando o credito hypothecario; não pensámos na industria rural,

esquecendo o credito agricola. Busca-se remover o perigo de que o dono

de tal predio, que se chama hoje Francisco, se chame ámanhã Antonio,

facto que, aliás, o credito hypothecario geralmente adia, mas raramente

impede, e que importa mediocremente á riqueza publica, se é que antes

não a contraría. Mas que o lavrador, rendeiro ou proprietario, ou

rendeiro e proprietario a um tempo, que exerce um mister indispensavel e

que não pode nem sabe exercer outro, se arruine atirando-se á voragem

dos juros excessivos para effectuar em epochas precisas,

intransgressiveis, os amanhos annuaes; que, arruinado, abandone a

profissão; que se esterilise assim uma actividade productiva; que esta

se converta em patriotismo eleitoral, e no estudo diurno e nocturno do

elenco dos cargos que tem a prover o Estado ou o municipio; eis do que

não cogitam os poderes publicos. É que o pretor não cura das cousas

minimas, conforme o velho brocardo da jurisprudencia romana.

Assim no mais. Durante quarenta annos, por exemplo, de governo

representativo não tem sido possivel encontrar um meio sério e efficaz

de manter a segurança pessoal do cultivador e o goso completo e

exclusivo do fructo do seu trabalho. Pode dizer-se que não existe

policia rural. D'aqui a necessidade nos grandes predios rusticos, e

ainda nos medianos, da existencia de um ou mais guardas particulares,

que desempenhem o serviço de segurança pessoal e real, que parece devera

ser a primeira applicação dos tributos que a terra paga. São gravissimas

as considerações de ordem moral e social que esse facto suscita, mas

limitar-me-hei a uma unica observação de ordem puramente economica.

Suppondo de 60$000 réis o vencimento annual de um guarda, entre

comedorias e soldada, se essa entidade viesse a tornar-se inutil e

desapparecesse, elevando-se ao mesmo tempo a media dos jornaes de 200 a

300 réis, o cultivador poderia pagar por este ultimo preço duzentos dias

de trabalho, sem que entre a sua receita e despesa houvesse alteração no

saldo.

Quiz, meu amigo, lembrar-lhe alguns exemplos dos obstaculos graves, mais

positivos que a alta de salarios attribuida á emigração, que embaraçam o

movimento da nossa agricultura e que attenuam a acção das causas que

deveriam ter-lhe dado maior incremento. Não é possivel nos limites de

uma carta considerar miudamente todos esses obstaculos e apreciar os

seus effeitos. Temos um systema de organisação militar analogo ao das

grandes nações, expressão de uma idéa aggressiva, e que inutilisa de

contínuo e aos milhares os braços mais robustos da população rural, em

vez do systema proprio dos pequenos estados, adequado unicamente á sua

defesa: temos os impostos municipaes applicados quasi exclusivamente aos

commodos da parte urbana dos concelhos, com esquecimento da aldeia e da

herdade ou casal solitarios: temos o _absenteismo_, posto que menos

frequente e esgottador do que o foi na Irlanda, mas temos além d'isso o

semi-absenteismo--a lavoura feita de longe--, com o que se tenta

conciliar a gloriola ou a necessidade de ser cultivador e as diversões

que só se encontram nos grandes centros de população: temos os pastos

communs, que significam a negação de boas pastagens e de bons

afolhamentos: temos a frequentação exaggerada das feiras e mercados, uma

das paixões do lavrador, que na falta de motivos sérios inventa

pretextos para ir dispender alli o que não deve e muitas vezes o que não

pode, emquanto os creados, livres da vigilancia do amo, addicionam a

essas despesas os resultados do seu descuido e perguica, quando não da

sua maldade: temos a tauromachia e a lavoura com gado bravo, duas

barbarias que mutuamente se auxiliam e que roubam annualmente a uma

agricultura sensata grande porção dos nossos terrenos de alluvião, isto

é, dos nossos terrenos mais productivos: temos a falta das cadernetas de

serviço dos creados de soldadas, que aliás, dados a nossa indole e

costumes, talvez fossem inuteis; mas que, todavia, fora conveniente

experimentar, porque o creado rural, desleixado, ratoneiro, ou perverso

pode trazer grave dispendio ao amo e ser em certos casos a origem da sua

ruina: temos as _contas de sacco_ tão vulgares e tão desastrosas, quanto

seria impossivel para o lavrador mediano a contabilidade complexa,

inculcada em certos escriptos de economia rural, e só applicavel a

grandes emprezas agricolas. Sobre estes e outros factos analogos fora

facil escrever um livro, onde ficassem patentes as causas reaes e

profundas do insufficiente progresso da agricultura portugueza. Elle

provaria que o quinhão da responsabilidade que a similhante respeito

toca á emigração, é insignificante ou nullo. O que não é possivel, como

já disse, é metter a materia de um livro na estreiteza de uma carta.

Qual é a illacão a deduzir d'estas considerações e d'estes factos? De

certo v. ex.^a adivinha o alvo em que ponho a mira. É em separar a

questão da emigração das vantagens ou desvantagens da agricultura, ou

antes dos agricultores; é em nobilital-a, elevando-a á esphera das

questões de humanidade, de patriotismo, e de ordem social. Isto não

impedirá que os arbitrios, a que haja de recorrer-se para pôr barreiras

a esse triste exodo de milhares de infelizes, possam influir no augmento

da população rural, na sua melhor distribuição, e no accrescimo dos

productos agricolas. Imaginar, porém, que ha-de combater-se a emigração

forçada, que a miseria alimenta, conciliando a suppressão d'ella com a

reducção dos salarios ruraes, cuja insufficiencia resulta dos documentos

colligidos pela commissão de inquerito, afigura-se uma pretensão

insustentavel, pretensão que só servirá para tornar suspeitos e odiosos

áquelles mesmos que desejamos salvar os nossos sinceros esforços para

obter esse fim.

Nas subsequentes cartas verá v. ex.^a que firmemente creio na

possibilidade de se atinar com a solução do problema, uma vez que se

pense, não no proveito d'esta ou d'aquella classe, mas exclusivamente em

atalhar o mal.

_P.S._ Na conjunctura em que concluia esta carta, leio nos jornaes que a

emigração tem diminuido n'estes ultimos tempos de modo singular. Os

recentes symptomas do rapido desenvolvimento da riqueza publica explicam

facilmente o phenomeno. N'esta mesma conjunctura, porém, acabam de

voltar aqui varios trabalhadores das aldeias vizinhas angariados para as

ceifas no sul e oeste da Estremadura e no Alemtejo, os quaes asseveram

terem obtido altos jornaes, que chegaram a elevar-se nas immediações de

Lisboa a 640 réis. V. ex.^a tem mais á mão do que eu os meios de

verificar se é exacto este asserto. A sel-o, v. ex.^a não deixará de

inquirir d'aquelles a quem isso cabe, a razão porque, ao passo que a

emigração notavelmente diminue, o salario rural se eleva de um modo não

menos notavel. As explicações devem ser curiosas e altamente

instructivas para nós todos.

V

*Val-de-Lobos, setembro de 1874.*

Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.--Vimos, meu amigo, que o interesse d'uma classe

abastada, senão rica, e que por muitos titulos merece a consideração de

nós todos, não deve, apesar d'isso, influir na indole das providencias

destinadas a reter na terra natal o trabalhador do campo. Vimos

egualmente que para obstar á emigração não ha outro meio efficaz,

liberal e legitimo senão remover, até onde for possivel, a miseria que

afflige os proletarios ruraes. Todas as reflexões sobre os

inconvenientes do desterro voluntario; todas as narrativas tetricas

ácerca da sorte dos que os precederam n'aquelle caminho serão baldadas,

porque as refuta peremptoriamente o padecer actual.

Á commissão de inquerito, de que v. ex.^a faz ou fez parte, parece que o

principal instrumento para arredar o proletario das tendencias para a

emigração é a escola primaria obrigatoria. Entende a commissão que o

saber ler e escrever o habilitará para ouvir os conselhos da razão e

evitar os laços dos embaixadores. Sinto discordar da illustre commissão.

Assim como podem fallar, os embaixadores podem escrever. Não faltam

escriptos que celebrem as opulencias da America, e os recursos que a

actividade e o trabalho encontram alli. Saber ler e escrever não

equivale a saber discernir onde está a verdade--se n'esses escriptos, se

nos que cinzelam o reverso da medalha. Nem attinjo a razão porque os

conselhos verbaes das pessoas illustradas serão impotentes contra

instigações egualmente verbaes. A meu ver, o mais efficaz antidoto da

emigração, como de quasi todas as resoluções arriscadas, violentas,

irreflexivas, das multidões, é a modesta felicidade domestica obtida e

mantida pelo trabalho. O estar bem induz á circumspecção; afugenta-a o

estar mal. A condição preliminar, indispensavel, para o melhoramento

intellectual e moral das classes laboriosas é o seu melhoramento

material. Sem isso, todos os esforços, por mais sinceros e energicos que

sejam, para derramar a luz da instrucção entre estas populações rudes e

agrestes, serão baldados, e illusorias as esperanças apparentemente mais

bem fundadas.

No actual estado de cousas, o ensino obrigatorio não passa de mais um

flagello para a pobre familia obreira, que lhe opporá constantemente uma

resistencia passiva, mas invencivel. Afigura-se-me que toca as raias da

crueldade dizer--«manda á escola teus filhos»--ao homem que

habitualmente dorme vestido na esteira de tabúa, na casa de telha vã,

onde, se géa, tiritam de frio elle, a mulher e os filhos, porque a roupa

falta; que, se chove, não tem fato para mudar, e ás vezes nem sequer

lenha para o enxugar; cuja alimentação é de ordinario ruim, quando não

insufficiente; e que, como se isto não bastasse, sente com frequencia

apertar-se-lhe o coração ao dizer-lhe o lavrador, no sabbado: «Para a

semana não ha que fazer.» D'esses filhos que lhe pedem para a escola,

um, dois, os mais velhos, são pastores ou ajudas; sustenta-os, dá-lhes

agasalho o lavrador, e os seus pequenos salarios mais de uma vez vão

supprir esta ou aquella falta urgente da familia: outro leva a comida ao

pai, que trabalha a um ou dois kilometros de distancia, o que facilita á

mãi exercer algum mister retribuido: os de seis a nove ou dez annos

discorrem descalços pelas estradas ajunctando nas pequenas cestas os

excretos que na vespera ahi deixou o transito dos animaes, miseravel

industria, que, todavia, no fim do anno produz o valor de alguns

cruzados, que resolvem uma ou mais difficuldades da dura vida do

obreiro: outro, pouco maior, vai á fonte, á lenha, ao recado; chamam-no

para guardar aves domesticas, para colher ervas ou flores medicinaes,

para afugentar os passaros que damnam os fructos ou as searas, para dez

ou para vinte serviços analogos. E todos esses serviços tem uma

retribuição, que se incorpora nos recursos da familia e lhe cerceia o

numero das privações. É humano, é justo; digo mais, é moral aggravar a

miseria do trabalhador, tornar mais escura a noite do seu viver em nome

da luz interior? Bem desejaria eu tambem tecer a minha olympica á escola

obrigatoria: as phrases, os periodos, as estrophes andam já vasadas em

fôrmas: basta haver novidade na invenção das suturas. Veda-m'o a

consciencia. Esperarei que ou a escola se ageite a estas condições da

familia obreira, o que vejo longe, ou que, melhorada a situação d'essa

familia, a escola deixe de significar para ella um intoleravel imposto.

A este proposito accrescentarei só uma ponderação, para a qual chamo a

attenção de v. ex.^a. Se ha paiz no mundo onde a escola obrigatoria

domine em virtude de leis austeras, severamente executadas, é a

Allemanha.

Ora, segundo os calculos de Molinari[9], a media annual da emigração

allemã orçava por 100:000 individuos em 1851, verificando-se n'ella a

regra geral de todas as emigrações europeas--o augmento gradual, embora

vacillante às vezes no movimento de ascencão por causas accidentaes.

Os calculos de Molinari foram feitos sobre as estatisticas de 1842 a

1851. Não será, portanto, exaggeração suppor que vinte annos depois, em

1870, fosse essa media de 150:000 almas, ou de 900:000 n'este e nos

cinco annos anteriores.

A proporção entre a população da Allemanha e a de Portugal é a de 10

para 1. Se a nossa emigração egualasse a allemã, seria no mesmo periodo

de 90:000 individuos. Todavia, cinco annos depois, de 1866 a 1871, ella

foi, no continente e ilhas, de 51:509[10], isto é, de pouco mais de

metade. Pode fazer-se conceito da immensa população que a Allemanha cede

á America, sabendo-se que nos seis annos, de 1861 a 1866, só no porto de

Nova-York desembarcaram 312:065 emigrados allemães[11]. Se, porém,

reflectirmos em que a União se compõe de mais de trinta Estados, muitos

com portos notaveis aonde tambem a emigração se dirige; que os allemães

não buscam exclusivamente fortuna no territorio da União Americana, e

que, por exemplo, nas colonias mais importantes, fundadas pelo governo

brazileiro, a maioria dos colonos é de origem germanica[12]; pode

afoutamente dizer-se que a emigração allemã é proporcionalmente maior

tres ou quatro vezes que a de Portugal. Não me parece, por isso, que a

lei do ensino primario obrigatorio, ainda cumprida severamente como na

Allemanha, ou antes porque o é, seja preservativo moral demasiado

efficaz contra o mal que pretendemos evitar.

Permitta-me, pois, v. ex.^a que, em vez de considerar a instrucção

elementar como meio indirecto de combater a emigração, eu substitua esse

meio por outro, na verdade menos espiritual e mais grosseiro, mas que me

parece dever precedel-o na ordem das nossas idéas. Consiste em buscar um

complemento ao salario rural, de modo que os recursos da familia do

trabalhador correspondam ás suas necessidades. Esse complemento

dar-se-hia, talvez, na elevação e permanencia dos jornaes, resultado de

uma direcção mais acertada, de uma transformação na indole da industria

agricola. Podem as leis, as instituições, a crescente illustração do

paiz favorecer as tendencias em tal sentido; mas a sociedade tem de

parar, n'estes assumptos, deante do alvedrio e da responsabilidade

individuaes. Não se legisla o progresso. Resta outra solução, para a

qual as leis e a acção administrativa podem contribuir fortemente,

respeitando aliás todos os direitos individuaes na sua integridade. Este

meio consiste em promover energicamente a associação do trabalho rural

com a propriedade rustica, de modo que o producto liquido do trabalho

accumulado e incorporado no solo, a que chamamos renda, suppra a

fluctuação no _quantum_ e a incerteza do salario. É preciso dirigir

todas as diligencias para a suppressão do proletariado rural. É preciso

que os obreiros-proprietarios se tornem cada vez mais numerosos, e que

sejam os verdadeiros representantes do trabalho agricola, assalariado ou

não assalariado.

É uma utopia que proponho como remedio ao mal? Parece-me que estou bem

longe d'isso. O postulado que julgo indispensavel para combater a

emigração, até onde é justo, conveniente e possivel fazel-o, só na

apparencia é arduo. Para o realisar gradualmente, temos um meio tão

efficaz como trivial, meio profundamente radicado nos habitos nacionaes,

tradição romana nunca inteiramente interrompida atravez dos seculos

barbaros, e que, na fundação e desenvolvimento dos estados néo-latinos,

povoou e desbravou a maior parte do solo habitado e cultivado do nosso

paiz e da Hespanha occidental; meio que ainda hoje é um dos instrumentos

mais efficientes da ampliação da cultura e do augmento da população, e

que de ha muito dá ao trabalhador laborioso e bem procedido accesso á

propriedade. V. ex.^a já, por certo, alcança que fallo da emphyteuse com

os seus varios nomes e nas suas variadas fórmas. Não é uma theoria de

equilibrio mais ou menos socialista; é uma praxe conhecida, que tem por

base a liberdade individual e a natureza de puro contracto, simples,

comprehensivel, como são por via de regra todas as concepções fecundas.

É uma cousa velha, applaudida por uns, condemnada por outros, mas que a

população rural cada vez solicita com maior ardor. Em politica as

revoluções radicaes podem ser ás vezes necessarias; no que, porém,

respeita aos usos tradicionaes e aos costumes juridicos das sociedades,

só de ordinario dão bons resultados as modificações, ou as

transformações graduaes do que existia d'antes. Nas questões publicas

d'esta ordem é inevitavel contar com os habitos, com as tradições, com a

historia. A meu ver, um dos grandes erros do socialismo é esquecer isto.

Não é menor, todavia, o erro dos que pretendem caracterisar como

fatalmente necessaria a miseria de milhares de familias, ou escondel-a

debaixo de um acervo de sciencia problematica, de argumentos que não

peccam por excesso de solidez, de invectivas e ironias, que

peremptoriamente refuta e condemna o grito instiuctivo da consciencia

humana.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 04 · 第 8 / 14 段