Ha um livro bem conhecido de v. ex.^a (porque interveiu mais ou menos na

sua publicação), cujo conteudo lança viva luz sobre alguns pontos d'esta

grave e complexa questão, postoque não os illumine todos por conter

apenas os resultados de trabalhos ainda incompletos. Fallo do volume que

tem por titulo _Primeiro inquerito parlamentar sobre a emigração_. É

obra de uma commissão da camara dos deputados e faz v. ex.^a parte

d'ella. Os documentos annexos ao relatorio são altamente instructivos.

Tem a primazia entre elles as informações de pessoas collocadas em

situação official, ou habilitadas por experiencia e estudo para tractar

a materia. Entre os documentos d'essa especie sobresaem pela sua

importancia o informe do sr. deputado Candido de Moraes relativo á

emigração dos Açores, o do dr. Bernardino de Almeida, obtido por

intervenção do nosso consulado no Rio, o do consul portuguez de Boston,

e sobretudo o do sr. Taibner de Moraes, secretario do governo civil do

Porto. Posso divergir de qualquer d'elles no que respeita a certas

doutrinas e a certos alvitres para obstar á emigração: o que não posso é

recusar a seus auctores o conhecimento dos factos e o estudo reflectido

d'esses factos. D'estes ha um em que todos concordam quando indagam as

causas capitaes da emigração. É elle a insufficiencia dos salarios entre

nós. Quanto aos Açores são notaveis as observações do sr. Candido de

Moraes. «São, diz elle, geralmente pequenos os salarios dos operarios, e

de todos elles são os trabalhadores os que menores attingem, e por isso

são miseraveis a sua alimentação e vestuario... Os trabalhadores

agricolas tiram do salario escassos meios para a sua sustentação e das

familias, por pouco numerosas que ellas sejam, e por isso procuram pelo

arrendamento de terras obter esses meios. D'aqui nasce uma concorrencia

irreflectida e altamente nociva para esses desgraçados... Succede por

isso um grande numero de vezes que esses infelizes completam a sua ruina

quando julgam terem alcançado os meios de melhorar a sua condição; e

completamente exhaustos, sem poderem satisfazer aos encargos que

tomaram, vão acompanhados das familias procurar no Brazil os meios que o

seu trabalhar incessante não podia proporcionar-lhes na patria.

Condemnar esses homens que fogem á miseria, porque não tem a coragem de

se deixar morrer á fome no paiz em que nasceram, parece-me injusto:

tolher-lhes a liberdade de sair da terra onde não acham os recursos

indispensaveis para subsistirem seria, mais do que injusto, cruel[5].»

Um illustre escriptor nosso, o sr. Mendes Leal, tinha, no jornal _A

America_, reputado principal origem da emigração a miseria, attribuindo

esta a diversas causas que o dr. Bernardino de Almeida em grande parte

rejeita. Admitte, todavia, e confessa, que a emigração dos trabalhadores

se explica tambem pela penuria, e na sua opinião a penuria procede da

insufficiente remuneração do trabalho[6]. O consul portuguez de Boston

explica egualmente a nossa emigração para os Estados Unidos pela

convicção que o obreiro tem de encontrar alli a remuneração condigna do

seu trabalho, que não acha no proprio paiz[7]. No informe do sr.

Taibner, onde abundam considerações graves, e por vezes tão verdadeiras

como profundas, reconhecem-se francamente as estreitezas que opprimem os

operarios ruraes. «Apezar do augmento sensivel dos salarios, pondera o

digno funccionario, pode dizer-se que não são elles sufficientemente

ente remuneradores do trabalho, e não evitam a emigração, a que dá causa

o desejo de melhorar de fortuna[8].

Não será esta mesma opinião a que está no amago do questionario que v.

ex.^a me remetteu? Como, sem isso, explicar o quesito 29? Para este se

entender racionalmente, é preciso presuppor a sobejidão de obreiros

ruraes nas provincias do norte, e por consequencia o seu inevitavel

consectario--a insufficiencia dos salarios. Ahi não se indaga se convirá

forcejar para que elles se conservem no seu districto ou provincia

natal: pedem-se desde logo alvitres para os attrair ao sul e fixar no

Alemtejo. Se a escacez de braços e conseguintemente a excessiva elevação

dos jornaes fossem, como se diz, geraes em todo o reino, com esse

movimento de translação a agricultura do norte ficaria completameate

arruinada.

Temos, pois, um conjuncto de opiniões respeitaveis sobre a

insufficiencia dos salarios ruraes. A estas opiniões vem a estatistica

dar plena confirmação, revelando com a irresistivel eloquencia dos

algarismos a verdadeira situação do jornaleiro, tanto em relação aos

seus recursos como ás suas necessidades. Incompletas por abrangerem só

uma parte dos districtos do reino, deficientes por omissões e falta de

especificação nos elementos subministrados por alguns municipios, os

quadros estatisticos addicionados ao _Inquerito parlamentar_, ainda

assim são bastante numerosos nas suas varias especies para poderem

deduzir-se d'elles conclusões geraes. Os mappas do valor dos generos e

do preço dos salarios durante o decennio de 1862 a 1871, communicados

pelas camaras de diversos districtos, suscitam reflexões e calculos que

peço licença para submetter á apreciação de v. ex.^a.

Já notei, e, conforme creio, provei, que avaliar a sufficiencia ou

insufficiencia da retribuição do jornaleiro pela media annual do salario

é um methodo illusorio applicado á questão da emigração. Escuso de

repetir o que disse, porque me parece de facil intuição. Entretanto

acceitarei a fórmula; porque, se, partindo d'essa media, ainda se provar

que a insufficiencia predomina em larga escala, desapparecerá a idéa de

que a elevação dos salarios e a falta de braços são as causas

deprimentes da agricultura, idéa por duas maneiras fatal, porque afasta

os agricultores de observarem e combaterem as causas verdadeiras do mal,

e porque ha-de ter uma pessima influencia nas deliberações que se

tomarem para destruir, não digo já a emigração em geral, mas o que

n'ella é, por assim me exprimir, artificial, e que não faz senão

conduzir a mais infeliz situação o proletario rural, já de sobra

desgraçado.

O districto do Porto é aquelle onde, mais do que em outro qualquer, a

emigração tem tido notavel incremento. Nos seis annos de 1866 a 1871, de

37:444 individuos que abandonaram o paiz pertenciam-lhe 16:450. N'um

periodo de dez annos, de 1862 a 1871, os salarios subiram n'aquelle

districto mais de 25 por cento; mas as consequencias d'este facto foram

attenuadas e talvez destruidas por uma circumstancia assás grave. Os

generos que predominam na alimentação do trabalhador do campo são o

milho, o feijão, e a batata. Ora dos 17 concelhos do districto, em 14

subiu o preço do milho, em 11 o do feijão, e em 7 o da batata. Na minha

opinião, o phenomeno não proveiu da diminuição dos productos: longe

d'isso. Proveiu da sempre crescente abundancia da moeda, devida

principalmente ao regresso á patria de avultado numero dos _nossos

brazileiros_. Seja, porém, esta ou aquella a causa, signifique a alta

dos generos o que significar, o que é certo é que ella diminuiu, se não

destruiu, o effeito da elevação dos salarios. Por outra parte, essa

elevação dos jornaes prova antes a sua pequenez em 1862 do que a sua

exaggeração em 1871; porque n'este ultimo anno a media d'elles em 8 dos

17 concelhos não excedeu a 200 réis, e dos restantes, apenas no do Porto

passou de 280 réis.

Os districtos onde, afóra o do Porto, a emigração é importante, são os

de Aveiro, Braga, Vianna, Vizeu, Villa Real e Coimbra. A commissão

obteve notas estatisticas sobre os preços dos generos e dos salarios nos

districtos de Aveiro, Vianna e Coimbra, além de outros (Lisboa, Leiria,

Bragança e Castello Branco), cuja quota de emigração é insignificante.

No de Aveiro, onde o numero de emigrados é o mais avultado depois do do

Porto, a comparação entre os preços dos principaes generos alimenticios

e os salarios ainda, porventura, é mais instructiva. Entre o primeiro e

o ultimo anno da decada de 1862 a 1871 o custo do milho augmentou em 9

concelhos e diminuiu em 6, o do feijão augmentou em 12 e diminuiu em 3,

o da batata augmentou em 8 e diminuiu em 5. Como, pois, considerar as

pequenas elevações dos jornaes, em geral, senão como compensação da

maior carestia das principaes subsistencias? Em 1871 esses jornaes

augmentados sobem, na verdade, um pouco acima de 200 réis em 7

concelhos; mas são de 200 réis e ainda de menos em 9. Tal é a enormidade

dos salarios que arruinam a agricultura! A estatistica do districto de

Vianna é assás deficiente, sobretudo em relação aos jornaes; mas vê-se

que alli o preço do milho e feijão subiu em 8 concelhos, diminuindo

apenas em um ou dois. Se houve elevação nos salarios, o facto explica-se

pela alta nos generos. No que respeita ao districto de Coimbra, as

informações são menos incompletas, posto que ainda insufficientes quanto

aos salarios ruraes. Ahi a proporção entre o accrescimo e a reducção no

preço dos generos é a favor d'esta; mas os salarios parece

conservarem-se immoveis, conforme as notas transmittidas pelas camaras

municipaes. Dá-se até a circumstancia de diminuirem nos concelhos de

Coimbra, Figueira e Cantanhede. Reduzidos, porém, ou estacionarios, por

todo o districto, á excepção de um concelho, foram em 1871 de 200 réis e

ainda de menos. O trabalho estacionou ou embarateceu como os generos.

Qual é o resumo e substancia d'estas observações? É que, de 1862 a 1871,

os salarios cujo augmento os fez ultrapassar a meta de 200 réis estão

para os que se mantiveram n'esse limite, ou nem sequer o attingiram, na

razão de 18 para 36, ao passo que o accrescimo do preço das principaes

subsistencias do operario rural está para a diminuição do custo d'essas

mesmas subsistencias na razão de 98 para 50. Manifesta-se, pois, uma

forte tendencia do salario para se conservar dentro d'aquelle limite, e

ao mesmo tempo uma não menos forte tendencia para a alta nos principaes

generos alimenticios do trabalhador. Deixo ao discernimento de v. ex.^a

tirar as illações que naturalmente dimanam d'estes factos.

Encontra-se nos mappas do preço do trabalho rural de alguns concelhos

dos districtos de Coimbra e de Castello Branco uma especie valiosa para

apreciar bem a situação economica do proletariado do campo. É pena que

no grande numero de concelhos em que, além d'esses, de certo existe o

facto, não o mencionassem. Seriam mais completas e indubitaveis as

reflexões que elle suscita. Refiro-me ás duas fórmas simultaneas da

retribuição do trabalho--jornal _a sêcco_, e jornal _com comida_. A

differença entre os dois jornaes representa o valor do sustento diario

do obreiro e corresponde forçosamente á realidade. Essa differença é

claro que resulta de um accordo livre entre o patrão e o operario, cada

um dos quaes poderia preferir a solução integral a dinheiro, se

porventura se reputasse lesado na avaliação do sustento. Esta é,

portanto, razoavel. Das notas de seis concelhos em que se menciona o

facto vé-se que, em dois, a manutenção do obreiro é computada em mais de

metade do jornal todo a dinheiro, n'um em menos, e em tres exactamente

na metade. Adoptarei essa metade para base do calculo, applicando este a

uma hypothese vulgarissima entre as familias rusticas--a de um obreiro

com mulher e dois ou tres filhos de um até dez annos de idade.

Supponhamos que a mulher, cumpridas as obrigações domesticas, pode ainda

trabalhar fóra os dias correspondentes aos dias uteis de um semestre,

ganhando metade do salario do marido. Supponhamos tambem que n'esses

seis concelhos (Pampilhosa, Oliveira do Hospital, Miranda do Corvo,

Goes, Fundão, Oleiros) foram os jornaes, em 1871, de 200 réis, embora só

o fossem no de Goes, e inferiores em todos os demais. Supponhamos ainda

que a alimentação da mulher e de dois ou tres filhos apenas equivalesse

á do jornaleiro. As condições da hypothese são o menos favoraveis que é

possivel ao que pretendo demonstrar. Pois bem: apezar d'isso, com taes

elementos, um calculo simples dá-nos em resultado a expressão de uma

verdade bem triste.

Salario de 200 réis em 365 dias 73$000

Dito de 100 réis em 180 dias 18$000

------------

91$000

Deduzindo:

Domingos e dias festivos; 60

para o marido e 30 para a

mulher ou 12$000 + 3$000

réis. Dias de interrupção de

trabalho por temporaes e chuvas

copiosas, calculados no decurso

do anno em 30 para o

marido e 15 para a mulher

ou 6$000 + 1$00 réis 22$500

------------

Rendimento annual da familia 68$500

Media da alimentação do obreiro

em 365 dias 36$500

Dita da mulher e filhos 36$500

------------

73$00

------------

Deficit 4$500

E as pobres roupas e trajos? E a pobrissima habitação? E os impostos em

dinheiro ou trabalho? E a falta de serviços? E a doença? Que o

jornaleiro não tenha um unico vicio; que não gaste mal um ceitil. Terá

por sorte a miseria.

Não sei se me illudo sobre a exacção d'este calculo. Se é exacto, deixo

a v. ex.^a deduzir d'elle as conclusões que lhe dictar a sua alta

intelligencia.

IV

*Val-de-Lobos, julho de 1874.*

Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.--Creio que já n'uma carta antecedente confessei

que a nossa agricultura lucta ás vezes com difficuldades e embaraços,

como, mais ou menos, luctam todas as industrias e todas as profissões.

Existencias que sem obstaculos, sem revezes, deslisem serenas na vida

são raras excepções. A lucta é o progresso: a resistencia das cousas ou

dos homens o incentivo dos supremos esforços: os erros que custam caros

os melhores mestres. N'este ultimo ponto a difficuldade está em acceitar

as lições. Somos propensos a attribuir aos outros as culpas proprias, e

é por isso que tantas vezes se inutiliza o proveito que poderiamos tirar

dos nossos desacertos.

As causas que obstam ao desenvolvimento agricola e á prosperidade a que

esta industria das industrias poderia ter-se elevado são complexas e

variadas, sendo talvez a principal a sua propria indole e a direcção que

tem seguido. É por isso que não posso ver na reducção do salario o

remedio para evitar os seus queixumes. Pelo contrario, como symptoma, a

lenta elevação dos jornaes, a immobilidade, ou o descenso d'elles são

indicios da lentidão do seu caminhar, do seu estacionamento, ou da sua

decadencia.

As reformas da dictadura de 1832 a 1834 impelliram energicamente a

industria agricola na senda do progresso, desonerando-a de multiplicados

vexames, vestigios de eras barbaras e obstaculo insuperavel á sua

prosperidade. Por este lado a revolução foi longe; mas a revolução não

podia transformar uma classe numerosa de agricultores atrazados em

homens que soubessem aproveitar practica e racionalmente os effeitos das

reformas. Assim, o progresso foi-se manifestando nos districtos do sul,

e em grande parte nos do norte, quasi exclusivamente na extensão da

cultura e pouquissimo na intensidade. Tem-se arroteado charnecas,

lavrado velhos pouzios, convertido pantanos em arrozaes, multiplicado as

vinhas e olivedos, desbastado e educado os chaparraes, dilatado por

bravios as roças e queimadas. Forcejamos por cobrir vastas áreas de

terreno de sulcos de arado sem perguntarmos a nós mesmos se pozemos

todos os meios para ser remunerado o nosso trabalho. N'um paiz

mediocremente cerealifero, ao menos com relação ás praganas, esgotamos

os terrenos ferteis com tristes rotações biennaes e triennaes, em que

raramente figuram as hervas de fouce. Pedimos a gandras, a encostas, a

chans, comparativamente fracas e pobres, as mais das vezes sem

alqueives, quasi sempre sem adubos, a maior porção dos cereaes

colmiferos. A cultura alterna é entre nós excepção rara, até porque os

terrenos que a admittem não são vulgares em Portugal. No sul do reino, o

prado artificial, que poderia tornar altamente progressiva a rotação

biennal, ainda não passou de uma curiosidade. Os nossos rios e ribeiras

vão direitos ao mar durante o anno inteiro, embora atravessem planícies

e valles uberrimos. Ahi a agua e o sol do estio subministrariam alimento

a gados numerosos, e conseguintemente produziriam massas avultadissimas

d'estrumes, cujos sobejos iriam gradualmente fertilisando os terrenos

pobres adjacentes, onde tantas vezes o lavrador tem de contentar-se com

tres ou quatro sementes. As vastas charcas, que suppririam a

insufficiencia das aguas correntias e a cuja construcção tão favoravel é

o accidentado do nosso solo, quem pensa n'ellas? E todavia, com a

cultura racional em vez da tradicional, metade dos terrenos fundeiros

produziriam o dobro ou mais, preparados para a irrigação, do que produz

o todo privado d'ella. Por outro lado, os nossos instrumentos agrarios

são em geral os mesmos que eram ha meio seculo, e os vehiculos rusticos

conservam-se, como os instrumentos, em hostilidade permanente com as

leis da mechanica. O que estes e dezenas de factos analogos influem no

curso dos productos agricolas conhecem-n'o pela reflexão e pela

experiencia os agricultores que sabem reflectir e experimentar. A outros

basta para explicar tudo a transitoria elevação do salario.

Costuma dizer-se que o poeta nasce. Em Portugal o que nasce é o

lavrador. A lavoura é profissão cujo tirocinio consiste em ser filho de

lavrador ou de proprietario rural. A sua divisa é o desdem do livro. O

livro é o supremo perigo da producção nacional. A praxe e a experiencia

não precisam de saber o que elle diz para o condemnarem. N'este genero

de industria a verdadeira superioridade está em não a reconhecer

n'aquelles que pelos factos provam que nos levam vantagem. O

jurisconsulto pode accommodar aos costumes, ás tradições, aos habitos

nacionaes a luz da sciencia que vem de fóra; o economista fazer selecção

nas doutrinas alheias de tudo quanto seja util ao desenvolvimento da

riqueza publica; o medico modificar pelas condições climatericas do paiz

os resultados do estudo e experiencia estranhos; o militar ir

apropriando á defesa do Estado o que nos progressos modernos da arte da

guerra se coaduna com a nossa indole e recursos, com as nossas aptidões,

com a configuração do nosso solo. Assim no mais, salvo em agricultura e

em economia rural. N'isto, basta-nos affirmar que ha muitas cousas em

que os estrangeiros teriam que aprender comnosco; que disfructamos um

clima abençoado, que isto é o jardim da Europa, e outros apophtegmas

egualmente sisudos e demonstrados.

Este horror ao livro não tem sido por certo menos fatal do que o

enthusiasmo cego por elle, achaque de que não pode negar-se que adoece

mais de um espirito illustrado. Resultam de similhante horror

consequencias funestas, mais funestas porque sem comparação mais geraes,

do que essas que derivam do fanatismo pela generalisação, pelas theorias

scientificas sem as restricções da experiencia. A agricultura, como as

outras industrias, talvez mais do que as outras, exige a actividade

physica, o movimento, a vida externa; mas, assim como os que se dedicam

ás industrias fabris sabem furtar ás lidas materiaes algumas horas para

estudar as questões technicas ou economicas que possam servir ao

progresso d'ellas ou contrariar a sua prosperidade, do mesmo modo o

cultivador precisa de dedicar quaesquer ocios a inquirir o que ha que

aproveitar na observação e no estudo alheios, e a habilitar-se para

apreciar o que na organisação economica da sociedade será vantajoso ou

nocivo aos interesses da sua classe. A incompetencia do productor rural

n'estes assumptos pode em certos casos ser para elle mais desastrosa que

todas as emigrações imaginaveis de proletarios. O lavrador portuguez,

por exemplo, é, geralmente fallando, proteccionista. Porque? Porque

ignora que os seus verdadeiros interesses estão ligados á liberdade

commercial. Não sabe referir ao seu paiz as questões que a tal respeito

se ventilam lá fóra, e nem sequer sabe que existem. Não sabe, nem quer

saber. Applaude candidamente o systema protector, e faz mais: sollicita

com affinco, talvez com colera, a manutenção de um systema, que apenas

tem o defeito de lhe liberalisar ampla protecção quando não a precisa, e

de lh'a retirar, ao murmurio das populações urbanas, quando carece

d'ella. Entretanto, á boa sombra d'esse admiravel regimen, tem de prover

ás necessidades da vida, ao vestuario, aos objectos de serviço

domestico, á alfaia rural, e, até ás vezes, a uma parte do alimento, por

preços artificialmente elevados. É até certo ponto a protecção que

explica a estagnação dos seus productos e a insufficiencia dos seus

recursos. Não pára, todavia, no bom caminho o _homem practico_, firme em

detestar o livro e as estrangeirices. No fim de trinta annos de

repugnancias, já na verdade hesita em condemnar absolutamente o caminho

de ferro, e começa a afrouxar nas suas sympathias pela azinhaga real, na

sua commiseração do almocreve, e a tolerar, e, no inverno, quasi a

bemdizer, a invenção de Mac-Adam. Não o faz, porém, sem prudentes

reservas, porque sobretudo é homem practico. No verão lança olhos longos

para a velha calçada do engenheiro juiz de fóra, e, se pode,

aproveita-a. As novas estradas são quasi sempre mais extensas pela mania

de evitar as ladeiras, e o chão batido de pedra britada esquenta os pés

do gado. Nada chega a uma boa calçada. Os seus carros aguentam-se bem

com as sobrerodas e os seus bois com as ladeiras, além de que seu pai e

seu avô sempre por alli passaram e não morreram por isso. Como ha-de

elle deixar, de conservar certo resentimento contra o rasto legal de

sete centimetros que lhe tolhe o prazer de margear o leito das novas

vias com o gume das rodas do carro de eixo movel, que ás vezes se põe a

arder com a _doçura_ dos attritos? A simples substituição do vehiculo do

norte e da Estremadura pela carreta alemtejana daria, na verdade, uma

differença no menor custo dos transportes acima de dez por cento, com a

mesma força de tracção. Não será, porém, mais simples obter essa

economia na reducção do salario dos jornaleiros?

Quantas ponderações equivalentes, ou pouco melhores do que estas, não

tenho eu ouvido a cultivadores, que em outros assumptos de interesse

privado, e até em certas questões geraes de agricultura são cordatos e

razoaveis! Dos seus contratempos e desastres nunca elles são os motores.

Se absolvem a natureza, no que não são faceis, as culpas vão

impreterivelmente cair sobre a sociedade. De certo nas instituições, nas

leis, nos regulamentos administrativos, na percepção e distribuição dos

impostos, ha erros, vexames, desegualdades, desvios, nocivos aos

agricultores; mas tambem no modo de pensar da maioria d'elles ha erros,

preoccupações, ignorancias, teimosias, não menos deploraveis nos seus

effeitos, sem contar com os que procedem de certos factos, não de ordem

economica, mas de ordem moral, imputaveis ao cultivador e de que me

abstenho de fallar.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 04 · 第 7 / 14 段