Não devo acreditar que a affirmativa de uma elevação anormal dos

salarios assente em irreflexivas comparações chronologicas. Na successão

dos tempos, o mesmo preço de trabalho pode ser exprimido por algarismos

diversos. Depende tudo das oscillações do valor da moeda, em

consequencia da diminuição ou accrescimo dos metaes preciosos, e

portanto do seu valor. Não me persuado de que haja quem ignore a

abundancia sempre crescente d'esses metaes no decurso d'este seculo.

Assim, o algarismo 15 pode, por exemplo, representar rigorosamente o

mesmo preço de um dia de trabalho, que o algarismo 10 representava ha 30

ou 40 annos. A proporção entre o valor venal do producto e o salario do

trabalh o ficará sempre a mesma, porque a depreciação da moeda lá irá

manifestar-se de egual modo no algarismo d'esse valor, se causas

extranhas, com as quaes o obreiro nada tem que vêr, não vierem influir

na carestia ou na barateza do producto.

Mas, ainda evitando esse erro grosseiro, em que me parece ninguem

cairia, nem por isso fica removido o perigo de nos illudirmos em relação

aos salarios ruraes. Repugna á razão e á consciencia que se considerem

estes em geral como susceptiveis de reducção illimitada. O obreiro é,

por via de regra, o chefe ou o sustentaculo de uma familia.

Comprehende-se o padre ou o soldado segregados d'esta e celibatarios:

não se comprehende como o poderia ser a classe dos trabalhadores, que

constituem tres quartos ou mais da população, sem que esta decrescesse

gradualmente até chegar a extinguir-se. A familia do obreiro é

inevitavel, e por isso inevitavel que a reducção dos salarios não a

torne impossivel. Toda a industria em que o lucro ou retribuição do

industrial não possa, em absoluto, conciliar-se com esta condição

impreterivel, é uma industria condemnada fatalmente a perecer mais cedo

ou mais tarde, sejam quaes forem os arbitrios a que se recorra para a

aviventar. Ora, em Portugal, como em qualquer outro paiz, concebe-se o

desapparecimento d'esta ou d'aquella industria fabril: o que se não

concebe é o desapparecimento da industria agricola. Entre os dois

termos, immutaveis, inexoraveis como o destino--existencia da

agricultura e sufficiencia do salario--tem a sociedade necessariamente

de buscar a solução de quaesquer difficuldades economicas que possam

comprometter a nossa, não direi quasi unica, mas capitalissirna

industria. Propor que se reduza indefinidamente o preço do trabalho por

uma concorrencia artificial e illimitada, sem indagar até onde essa

reducção poderá conciliar-se em cada districto ou provincia com a

existencia da familia do obreiro, será dissolução: solução é que de

certo não é.

Sou cultivador, vivo no campo, no meio de outros cultivadores, e ouço

frequentemente os queixumes contra a elevação sempre crescente dos

salarios. Tenho pensado n'uma questão que me toca tambem. Sei quanto é

difficil, ás vezes, saldar _as despesas_ da producção com o valor venal

do producto por um saldo positivo; mas d'essas despesas, aquella que o

lavrador tem sempre deante dos olhos, pela sua permanencia, é a das

soldadas e jornaes. São as soldadas e jornaes que o obrigam mais vezes a

realizar em conjuncturas inopportunas o valor dos productos. Não

sabendo, em geral, distinguir com exacção as despesas productivas das

improductivas, as escusadas das inevitaveis, avalia-lhes a indole apenas

pelos algarismos que as representam, pelos obstaculos que lhe suscitam,

e pelos apertos em que o collocam. As maiores e mais frequentes são as

peiores: eis, em resumo, o seu criterio. Para elle o ideal do

improductivo é o imposto, e não acho impossivel que até certo ponto

tenha razão. O imposto, porém, que no seu espirito se confunde algum

tanto com a extorsão, com a espoliação, irrita-o; mas irrita-o uma vez

por anno. O salario, soldada ou jornal, é o espinho que o punge, ora

mais ora menos, na alta ou na baixa, mas de continuo; é a fonte perenne

de cuidados, de repugnancias, de coleras, de debates. As causas que mais

contribuem para attenuar, e ainda para inverter, a proporção entre a

importancia do custo e o valor do producto, tanto as que possam provir

da sua imprevidencia, das suas poucas luzes, do seu desleixo, das suas

preoccupações tradicionaes, da laxidão dos seus habitos, como as que

provenham do incompleto ou do vicioso das instituições, das leis, dos

regulamentos, que directa ou indirectamente attingem a agricultura, e

até as que derivam da perversão dos costumes publicos, raras vezes as

considera e aprecia nas suas relações exclusivamente agricolas. Os

effeitos d'essas causas não se exprimem em réis, não se especificam no

diario, supposto que se dê o caso de ter o agricultor algum simulacro de

contabilidade, embora assás simples para lhe ser possivel. Quizera eu

que se applicasse a causas tão variadas e complexas o dynamomelro da

economia rural, para avaliarmos com justiça e imparcialidade o quinhão

que lhes pertence e o que pertence ao salario nas difficuldades em que

se diz laborar a agricultura, e que não duvido se deem em certos casos.

Se houvessemos de seguir esta vereda, parece-me que seria um pouco

extenso o supplemento aos quesitos do questionario que v. ex.^a teve a

bondade de me remetter.

Mas, se, accusado de involta com outras causas deprimentes da

agricultura, o salario rural tiver de ir assentar-se ao pé d'ellas no

banco dos réus, é necessario que não lhe ponham mascara; que o levem

para alli com o seu verdadeiro aspecto. Não é só nas suas exaggerações

transitorias que elle deve ser considerado. A indole do salario agricola

é diversa da indole do salario fabril. O fabricante, debaixo do tecto da

sua fabrica abrigada atraz do paredão proteccionista, produz para um

mercado que não suppre completamente, e cujas lacunas deve vir

preencher, saltando por cima do paredão, o producto similar estrangeiro.

Os effeitos disso, subretudo n'um paiz pequeno, conhece-os decerto v.

ex.^a. Que o motor e os machinismos funccionem bem, que a má

administração não comprometta a fabrica, e o operario fabril que fizer o

seu dever pode contar com um salario, mais ou menos elevado, mas

regular, por todo o decurso do anno. As oscillações são ahi pequenas, e

raras as ferias do trabalho. São outras as condições do assalariado

rural. Na verdade, a soldada do _criado de anno_ tem, até certo ponto,

analogia com a retribuição do lavor fabril, porque assegura, pouco mais

ou menos, ao criado a habitação, o vestuario e o alimento por todo o

decurso do anno. Mas pela natureza das cousas, por motivos que fôra

demasiado longo enumerar, o criado está sempre exposto a passar á

situação de jornaleiro. É em relação a este que é grave a questão. No

jornal, as variações são repentinas, violentas, desordenadas. N'estes

sitios onde vivo, a constituição da propriedade rustica e da industria

agricola aproximam-se bastantemente do typo ideal (ideal, ao menos para

mim) da boa organisação da agricultura, no _momentum_ actual da evolução

agricola--a mistura da grande e da pequena propriedade, da grande e da

pequena cultura. A população aqui não é excessiva, mas é assás numerosa:

as aldeias crescem e até nascem; a charneca foge para o horizonte ante o

reluzir do alferce e da enchada. E todavia, quantas vezes, n'um domingo,

depois da missa, na _praça_, o lavrador, o feitor, ou o capataz é

_forçado a pagar o vinho_ para o jornal de 340 ou 360 réis durante a

semana, e no domingo seguinte faz o _favor_ de o pagar para o de 140 ou

160 réis! Decerto aquelle jornal de 340 ou 360 réis, associado ao

producto do trabalho da familia, e ao producto liquido da courella, da

vinha, do _foro_, em summa, que, por via de regra, o jornaleiro possue

(não sei se v. ex.^a conhece bem a entidade _foro_: o foro é o grande

moralisador dos campos, o supplente efficaz do parodio e do mestre,

mythos que a poesia politica inventou para entretenimento dos

parlamentos e das secretarias); aquelle jornal, digo, excede a verba

indispensavel para satisfazer as precisões, aliás tão limitadas, da

familia rustica. Mas pode dizer-se o mesmo do jornal de 140 ou 160 réis,

ou irão as tenues economias dos dias felizes supprir as lacunas do

insufficiente salario, e sobretudo a carencia absoluta d'elle nos dias,

nas semanas, nos mezes, até, de chuvas pertinazes, em que a terra

empapada em agua se recusa ao consorcio com o trabalho humano? Fôra

loucura pensal-o. Os jornaes de 340 ou 360 réis são a excepção: os

vulgares são os de 140 e 160 e os que oscillam entre estes algarismos e

o de 240 réis, aliás bastante raro, afóra os que se exprimem por zero.

Coincidem as altas excessivas, repentinas, com as ceifas, com as sachas

e rechegas, com as podas, empas e cavas, etc. Cumpre, porém, attender ao

periodo da sua duração. A natureza não se dobra aos caprichos e aos

calculos, ás vezes ineptos, do homem: o cultivador que mantém aquelles,

ou erra estes, paga-o. Os serviços hão-de fazer-se a tempo, aliás lá

está o producto com o látego na mão para punir o réu. São questões de

tres, de quatro, de seis semanas. Ora, por aqui, o calendario teima em

affirmar que o anno se dilata por 52 d'esses periodos semanaes, a

arithmetica protesta que 35 ou 40 são algarismos superiores a 12 ou a

15, e a physiologia e a hygíene mais rudimentaes continuam, impassíveis,

a ensinar que a familia do obreiro ha-de comer e vestir-se todos os

dias, e abrigar-se á noite das injurias da atmosphera: factos

impreteriveis, fataes, emquanto a sciencia não mandar o contrario.

Á vista d'elles e do questionario que v. ex.^a me remetteu, estive

tentado a indagar se uma porção dos nossos trabalhadores, ao

aproximarem-se as epochas d'esses serviços, costumavam ir contemplar as

florestas virgens da America, e voltarem só ao despenhar-se o salario

das alturas do excessivo nos limbos melancholicos do insufficiente.

Obstava a distancia: não tive remedio senão absolver o Brazil, ao menos

em relação á minha localidade, das altas desordenadas do salario.

Desconfio de que começo a ser importuno com esta carta, já em demasia

longa. É vasto o assumpto. Peça v. ex.^a a Deus que a multiplicidade das

minhas occupações me não consinta tornar a importunal-o tão cedo.

III

Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.--Se, conforme creio, as condições e a indole do

salario rural são actualmente como as descrevi na carta precedente,

salva uma ou outra modificação accidental, segue-se que não seria licito

empregar nenhuns meios directos ou indirectos tendentes a minorar as

altas repentinas e transitorias, sem que ao mesmo tempo se tractasse de

elevar o salario insufficiente. Mas, fechado no estreito campo da maior

procura ou da maior offerta de trabalho, tendo por causa unica a

diminuição ou o augmento de braços, o problema torna-se obviamente

insoluvel á luz da equidade. Se a multiplicação da offerta influir na

descida da alta, influirá do mesmo modo na descida da baixa, e tornará,

portanto, cada vez mais miseravel a situação do obreiro. Se, pelo

contrario, crescesse a procura sem que a offerta crescesse

proporcionalmente, suppondo-se, como se pretende, que as difficuldades

em que labora a agricultura d'ahi procedam, tornar-se-hiam cada vez mais

intensas essas difficuldades. Resulta d'aqui a necessidade de buscar a

solução do problema e o remedio á crise, se existe, n'uma ordem de idéas

diversa.

A meu ver, o mal não procede da escacez de braços: procede da errada

vereda que tem seguido entre nós o desenvolvimento agricola; do

deploravel esquecimento de certas leis economicas e de certos principios

e doutrinas indisputaveis da sciencia de agricultar. Se isto é assim

(depois o examinaremos) a emigração, que só pode influir na maior ou

menor affluencia de trabalhadores, é questão distincta da questão dos

embaraços agricolas, que não hão-de, na minha opinião, remover-se com a

depreciação do trabalho.

A emigração da miseria deve combater-se, não porque o agricultor vê

n'isso, bem ou mal, o seu interesse, mas porque o emigrante é, como nós,

filho d'esta terra; porque a emigração forçada tem para o coração humano

as mesmas amarguras do desterro; porque ao cabo das esperanças do

foragido (quando para elle exista a esperança) estão muitas vezes as

desillusões e a morte. A certeza de que os altos salarios são

transitorios, e de que após elles vem sempre o trabalho mal retribuido

ou a falta de trabalho, é poderoso incentivo para a emigração; mas

sel-o-ha ainda mais a manifestação de que as providencias, sejam ellas

quaes forem, para afastar os trabalhadores de emigrarem, tem por

principal intuito produzir uma descida nos jornaes elevados. Diz-se que

ha embaidores incumbidos de os alliciarem para além do Atlantico,

illudindo-os com promessas de vantagens imaginarias. É natural que seja

assim, porque a America, em grande parte despovoada e inculta, precisa

para o seu progresso dos braços laboriosos da Europa. Mas é justamente

por causa d'isso que não reputo prova de grande prudencia auctorisar

esses homens astutos a fazerem avultar as cores e lineamentos do seu

quadro de brilhantes promessas com as sombras carregadas dos intuitos

egoistas d'aquelles, que buscam reter o trabalhador na terra natal para

o converterem em instrumento do proprio interesse.

Abstrahindo da emigração razoavel, da emigração d'esses que vão para o

Brazil com determinado destino, e com a esperança fundada de adquirir

uma fortuna que não tem probabilidade de obter no seu paiz, ha nos que a

pobreza impelle _per la via dolente_ dois grupos que se distinguem por

indole e caracter diversos: uns naturalmente audazes e propensos a

guiar-se mais pelos impulsos das paixões e da imaginação do que pela

prudencia; outros, timidos e reflexivos, a quem as aventuras repugnam, e

que só se precipitam n'ellas pela urgencia das precisões. Reter os

primeiros sem violencia, quasi que o julgo impossivel, ao passo que

desviar os segundos d'esse deploravel caminho se me afigura

comparativamente facil.

A ignorancia e rudeza, meu amigo, não excluem a faculdade da imaginação,

e a credulidade impera na razão inversa da cultura do espirito. Como

evitar nos animos propensos ás maravilhas do extraordinario, do

longinquo, do indefinido, os effeitos das narrativas dos que voltam da

America opulentos ou remediados? Como occultar, n'um paiz cujas relações

com o Brazil são frequentes, intimas e variadas, qual é alli a

retribuição do trabalho, a certeza do salario, a facilidade de

occupar-se no commercio de retalho, a falta de operarios fabris, etc.? A

perspectiva da vida tranquilla, a que não faltem os meios de satisfazer

ás necessidades indispensaveis, mas uniforme, laboriosa, sem peripecias

(e é isto o mais que a sociedade lhes pode proporcionar) fraco

attractivo será sempre para os animos irrequietos, atrevidos, mudaveis,

quando ao lado da nudez e da fome, que os martyrisam ou os ameaçam, se

alevantarem as seducções, em parte verdadeiras, em parte suppostas, que

sorriem d'além do oceano. Sobre a tela de factos mais ou menos inexactos

borda a imaginação idylios e a credulidade milagres. E que muito, se a

individuos, incomparavelmente mais cultos que os obreiros ruraes, tenho

visto tecer d'esses contos de fadas em relação aos lucros do trabalho

litterario? Não sou, me parece, dos que podem como escriptores

lamentar-se da indifferença do publico americano. As maiores provas,

porém, de benevolencia d'este para commigo ficaram sempre muito áquem

das vantagens enormes que esses individuos, conforme o que lhes tenho

ouvido, tirariam da profissão das letras no Brazil, se a fatalidade não

os retivesse na patria, ou certa ordem de embaraços lhes não tolhesse

alli a venda dos seus livros. Um grande talento, a quem só faltou uma

educação litteraria condigna, e melhor sorte no seu paiz, lá foi acabar,

arrastado por essas illusões de poeta, depois de esgottar o calix de

amargos desenganos.

Sinceramente, meu amigo, creio que a eloquencia dos embaidores dos

operarios rusticos seria bem inefficaz, se a peroração do discurso não

fosse redigida pela miseria. Porque são raros os seus triumphos entre os

da nossa Estremadura e do Alemtejo, que aliás não me parece sejam

nenhuns Cresos, e são tão frequentes nas provincias do norte e nos

districtos insulares? A resposta que se poderia dar a esta pergunta não

seria a mesma que se poderia dar a outras até certo ponto analogas?

Porque se precipitam annualmente do norte para o meiodia do reino bandos

e bandos de trabalhadores nas epochas das _fainas_ da nossa triste

agricultura biennal e triennal? Qual é o embaidor que os arrasta para as

ceifas nas campinas do sul, requeimadas por sol abrazador, que ás vezes

os fulmina, ou para os alagamentos mornos dos arrozaes, onde ao

amanhecer e ao entardecer o nevoeiro, cultivador de intermittentes,

semeia dia por dia uma porção da sua terrivel seara? Nos valles do Minho

e da Beira, que o suor de quarenta ou cincoenta gerações tornou ferteis,

e cuja cultura é em certas relações admiravel, falta o estigma do pousio

não adubado, da folha não alqueivada, que pede unicamente ás influencias

atmosphericas o azote de que, um anno sim outro não, ou de dois em dois

annos, a esgottam rachiticos cereaes. E não falta só nos prediosinhos

que numericamente ahi predominam; falta era geral nos mais vastos, que

correspondem á pequena herdade alemtejana e á quinta e ao casal

estremenhos. Ahi cultiva-se annualmente todo o chão reduzido a cultura,

a qual até certo ponto é licito qualificar de intensiva. Não lhes faltam

os braços, porque esses amanhos, que podem chamar-se esmerados,

fizeram-se; e fizeram-se sem perda, porque aliás a agricultura do norte,

cujos productos augmentam, declinaria gradualmente, e a população, que

cresce alli, como por todo o reino, apezar da emigração, diminuiria, em

vez de seguir em progressão o accrescimo dos productos. A estatistica

official d'essa população, comparada entre duas epochas tão proximas,

como são os annos de 1864 e 1868, é eloquente[3]. Seja-me agora

permittido perguntar: se as _fainas_ da agricultura do sul não tivessem

attrahido por salarios, mais ou menos remuneradores, esses milhares de

obreiros, que por dois ou tres mezes, e ainda mais, de lá se ausentaram,

sem que os serviços ruraes deixassem de se ultimar, em que trabalhos os

teriam occupado os agricultores do norte? Até que ponto chegaria a

insufficiencia dos jornaes? Depois, quem nos diz que essas emigrações

temporarias dentro do paiz representam completamente um equilibrio entre

o excesso da offerta do trabalho no norte e o excesso da procura no sul?

As previsões e esforços ordinarios do interesse privado asseguram-nos

que a procura foi satisfeita por um preço mais ou menos elevado, dentro

das condições de tempo, impreteriveis em agricultura. Nada, porém, nos

prova que a offerta n'um mercado não excedesse a procura no outro. Em

tal caso o excesso da offerta significaria a miseria de mais ou menos

numerosos trabalhadores do norte.

Em que se occupa grande porção d'esses obreiros, que affluem todos os

annos para o sul de certo tempo a esta parte? No plantio de vinhas; e o

plantio de vinhas offerece um problema, que eu teria grande gosto em ver

resolvido pelos que acham na falta de braços a principal senão unica

fonte dos embaraços da agricultura. Creio que ninguem deixará de

confessar que, dos diversos ramos da industria agricola, o que mais

cresce e se dilata por quasi todos os districtos do reino é a

vinicultura. Repovoam-se de cepas os terrenos que desvastou o _oïdium_;

campos que produziam cereaes transformam-se em vinhas; de anno para

anno, collinas, recostos de montes, pedregaes, pousios apparentemente

repugnantes á cultivação, uns apoz outros, vão-se cobrindo de verdura no

estio com bacelladas novas; a vide invade as charnecas como o _pioneer_

da America invade os desertos; as solidões do Alemtejo, que de memoria

de homens ainda vivos não produziam vinho para o consumo dos seus raros

habitantes, exporta hoje centenares de pipas d'este producto. E todavia,

se exceptuarmos as lavouras de esgraminha dos terrenos já cultivados que

vão converter-se em vinhedos, qual é, no nosso actual systema de

viticultura, a machina que se emprega na plantação e subsequentes

amanhos da vinha? O braço do homem; exclusivamente o braço do homem.

Como, porém, conciliar este facto, que todos podem observar, que se

realisa quasi por toda a parte, com essa falta de obreiros, com esses

salarios monstruosos, impossiveis, que devoram a agricultura e de que é

culpado o Brazil? Dir-se-hia que grandes, medianos e pequenos

proprietarios se ligaram e ajuramentaram para um vasto suicidio

economico, e que, convertendo o vidonho em alliado da America, a ajudam

a cavar a ruina d'elles proprios e dos cultivadores de cereaes.

Felizmente não é assim. A vinha cultivada com mais esmero ha-de

contribuir para que a emigração diminua, trazendo não só a elevação dos

salarios, como a sua melhor distribuição. Com os amanhos reiterados de

uma cultura habil, e com um fabrico esmerado e cuidadosa conservação do

producto, que devem abrir aos nossos vinhos de pasto os mercados da

Europa, o trabalhador dos districtos vinhateiros, que são quasi todos os

do reino, evitará em grande parte as ferias que a penuria acompanha, e

que o fazem acceitar contractos muitas vezes leoninos, mas que lhe

promettem permanencia no trabalho, embora em regiões apartadas. É o que

a lavoura de cereaes, quer biennal, quer triennal, sobretudo como ella é

entre nós, não pode prometter-lhe. Afóra as sachas e colheitas do milho,

as mondas (quando se monda) e as ceifas dos cereaes colmiferos, ella

exige só o serviço de abegoaria, e a elevação, as vezes exaggerada, dos

salarios que produz não poderá nunca melhorar a condição do jornaleiro.

Creio que nenhuma pessoa medianamente versada n'estes assumptos porá em

duvida a superioridade da agricultura de França comparada com a de

Portugal. E todavia, um dos agronomos mais distinctos d'aquelle paiz,

Leconteux, ainda ha oito annos mantinha, na edição que então publicava

do seu notavel livro sobre os melhoramentos agricolas, uma passagem que

peço licença a v. ex.^a para transcrever. Depois de se referir á rotação

triennal, que ainda prepondera largamente em França, embora alli se

estribe no alqueive de primavera e estio (o que nem sempre entre nós

succede) o redactor principal do _Jornal de Agricultura Practica_

prosegue: «É verdade que, por beneficio da folha de alqueive, a rotação

triennal exclusiva conserva illesa a boa ordem no serviço das

apeiragens; mas pode dizer-se o mesmo em relação ao trabalho braçal? De

modo nenhum. Durante os trez mezes de ceifas e de gadanhar os fenos, é

avultado o numero de trabalhadores de que a lavoura carece. A estas

fainas, porém, seguem-se nove mezes feriados para os numerosos obreiros

que o lavrador chamou ás colheitas. Reduz-se tudo a ficarem na lavoura

alguns jornaleiros por eirantes. Mas que succederá á multidão dos

ceifeiros? Tem de ir buscar vida, uns na vinhataria, outros nos cortes

de lenha e madeira, outros nas suas fazendinhas. Mas se nem todos tem

estas saidas, o que succederá aos que não as tiverem? Perguntem á turba

de obreiros que annualmente abandonam o campo para se metterem nas

cidades, e terão de confessar que o amor do incognito não é o unico

motor de taes desvios. Movem-os sobretudo o medo do _não-ha-que-fazer_

nos trabalhos ruraes e o legitimo desejo de ganhar os salarios mais

elevados e mais regulares, que subministram os estabelecimentos de

industria fabril e as officinas e obras publicas. Que não estejam, pois,

todos os dias a fallar aos jornaleíros ruraes das venturas da vida

rustica. Remontem dos effeitos ás causas e verão que o systema triennal

com folha de pousio é um dos primeiros e mais poderosos causadores de se

ermarem os campos[4].»

Que se reflicta sobre estas ponderações de um homem competentissimo e

appliquem-se a Portugal. As nossas officinas, arsenaes e obras do Estado

são nimiamente restrictas comparadas com as de França, ainda dada a

differença entre um grande e um pequeno paiz; e na industria fabril

maior é a desproporção. Não podem por isso as cidades, os grandes

centros de população, absorver a torrente de trabalhadores, que um

systema errado de cultura arvense suscita e attrae para depois os

repellir. Assim, é a propria indole da agricultura, o afferro

intransigente do lavrador a antigas praxes, que facilita a tarefa dos

encarregados de induzir os obreiros a emigrarem. O cultivador queixa-se

da America: mas quem sabe se a Providencia deu ao Brazil o destino de

ser para comnosco um aspero missionario do progresso?

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 04 · 第 6 / 14 段