Este modo parcial e indiscreto de apreciar um facto economico e social

conduz forçosamente a conclusões absolutas e extremas; mas as conclusões

absolutas trazem a impossibilidade de uma transacção, e nós não

consideramos nenhuma solução da contenda como util e possivel senão a

que resultar de uma transacção entre idéas oppostas e oppostos

interesses. Não a consideramos como util sem uma transacção, porque a

abolição radical e completa traria os graves inconvenientes que em parte

ficam ponderados, e que aliás estão longe de provar que a existencia dos

vinculos é ou foi proveitosa. Não a consideramos como possível, porque,

ferindo interesses poderosos e preoccupações arreigadas, estes

interesses e preoccupações seriam obstaculo perpetuo a uma lei

definitiva sobre o assumpto. N'uma epocha revolucionaria, como a de 1832

a 1834, a abolição completa teria sido exequivel. As idéas e os

interesses oppostos eram obrigados a calar-se diante da voz omnipotente

da revolução. O tempo teria absolvido as injustiças relativas e os males

parciaes pela importancia dos resultados. N'essa epocha, porém, de

grandes ousadias, não se ousou tanto, e apenas se manifestou a guerra

aos vinculos pela condemnação dos pequenos morgados; d'aquelles a que

menos quadravam as accusações que se podiam fazer contra esta especie de

propriedade. Dir-se-hia que n'essa conjunctura, em que a sociedade e a

monarchia se transformavam, só se tivera presente o pensamento da lei de

3 de agosto de 1770, que consagrava a amortisação dos latifundios como

meio de conservar uma opulenta aristocracia hereditaria que cercasse de

falso brilho o throno de um rei absoluto. Se, porém, os homens gigantes

d'então, ardentes nas suas crenças, implacaveis contra o passado,

capazes de combater energicamente pelas proprias idéas, armados de uma

dictadura erguida em campos de batalha e baptizada em pegos de sangue;

se esses animos feros de uma epocha singular, que provavelmente não

achará tão cedo outra que a offusque ou que sequer a valha, tocaram

apenas timidamente no collosso vincular por um acto de dictadura sem

vigor e sem originalidade, poder-se-hão agora, no meio de uma geração de

estatura politica sobradamente modesta, encetar luctas de idéas

exclusivas e inexoraveis? As fileiras dos antigos pelejadores, cujo

ardor aliás se acha enfraquecido pelo cansaço, rarearam-nas os annos, e

os novos não tem braços assaz robustos para o combate. Hoje chama-se á

tibieza tolerancia, e aos calculos do egoismo e da pusillanimidade

civilisação. Os velhos interesses e as velhas preoccupações tem voz e

voto, preponderante ás vezes, nas cousas publicas. Os tumultos, as

luctas das facções, as guerras civis são ainda possiveis: as revoluções

não. Para isso requer-se que nas veias dos homens haja sangue, no

coração crenças, e na sociedade seiva moral.

D'este estado de cousas deriva a necessidade das transacções entre idéas

e interesses oppostos seja qual for a sua legitimidade. Independente de

quaesquer circumstancias, o que existe tem sempre grande força contra a

innovação; mas tem-na, sobretudo, nas epochas em que a descrença e o

intorpecimento, por assim dizer, epidemicos, invadem os espiritos. Por

mais terminantemente que a opinião condemne os vinculos; por mais

poderosamente que uma ou outra intelligencia os combata, a inercia, o

desanimo, a indifferença hão-de dar uma força de resistencia quasi

invencivel a essa instituição, que aliás podia, não sanctificar-se pela

sua origem ou legitimar-se pela sua indole, mas defender-se com razões

mais ou menos plausiveis na sua manutenção.

Que nos cumpre, pois, fazer, se quizermos chegar a um resultado practico

e exequivel na questão dos vinculos? Não é combater radicalmente a sua

existencia: é combater o que n'elles ha evidentemente nocivo. O facto de

certa qualificação nobiliária ser dada a certos individuos não perturba

a sociedade a que elles pertencem. Sabemos por experiencia o que valem e

o que podem essas qualificações. Mui pouco importa egualmente ao bem

commum que o juro de um determinado capital, a renda ou aluguer de

qualquer instrumento de producção se transmitta por testamento ou _ab

intestato_ a este ou áquelle, a um ou a mais individuos na successão das

gerações. O que importa é que esse capital ou esse instrumento se não

inutilise; que se adapte, ao menos na maior parte dos casos, a todas as

necessidades, a todas as mudanças, a todas as transformações do

progresso economico. Obtido isto, a conservação ou não conservação dos

vinculos é uma questão que perde a maior parte da sua importancia, e que

até se ha-de tornar assaz insignificante para deixarmos sem receio aos

vindouros o encargo da sua solução final.

A EMIGRAÇÃO

1873-1875

I

*Val-de-Lobos, dezembro de 1873.*

Ex.^{mo} sr.--Meu amigo, recebi no dia 9 d'este mez uma carta de v.

ex.^a, acompanhando o questionario que no dia 18 deve servir de assumpto

a uns debates na associação agricola de Lisboa. N'essa carta pede-me v.

ex.^a a minha opinião ácerca dos quesitos especificados n'aquelle papel.

São elles de duas especies: quesitos relativos a factos, quesitos

relativos a doutrina. Quanto aos de facto, sobre a maior parte d'elles

as noções que tenho são incompletas e pouco seguras: quanto aos de

doutrina, e ainda aos de factos em que me reputo melhor instruido, um

voto fundamentado sobre tão espinhosas e complexas questões exigiria um

livro, que mal coubera em razoavel volume. Delineal-o e escrevel-o n'uma

semana excederia as raias do possivel, não digo para a minha capacidade,

mas para a maior capacidade do mundo. É verdade que v. ex.^a pede-me

apenas reflexões ao correr da penna; mas em assumptos tão serios, basta

o amor proprio para nos induzir á circumspecção, e a consciencia

força-nos a tel-a, quando a nossa opinião, por ser nossa, como v. ex.^a

tão benevola como inexactamente pensa a meu respeito, pode exercer certa

influencia em outros espiritos. Assim, desejando por um lado cumprir os

preceitos de v. ex.^a, e por outro evitar, quanto possivel, uma grave

responsabilidade, direi successivamente o que me occorrer sobre o

questionario, se e quando outras occupacões impreteriveis me derem logar

a isso e v. ex.^a tiver animo para malbaratar alguns minutos em decifrar

as minhas rabiscas. A estreiteza do tempo apenas me consente fazer

n'esta carta algumas reflexões sobre o preambulo d'aquelle papel; e

ainda, pelo que a estas respeita, espero que nem v. ex.^a nem ninguem dê

a idéas tão mal elaboradas mais valor do que na realidade tem.

Resulta do preambulo do questionario que o debate, que vai abrir-se na

annunciada reunião, tem por alvo principal considerar o assumpto da

emigração para a America á luz da connexão que tal facto possa ter com

os interesses agricolas. Parece dar-se por provado que as difficuldades,

mais ou menos graves, da nossa agricultura procedem unicamente da falta

de braços, e da elevação dos salarios, elevação que se presuppõe

derivada exclusivamente d'essa falta, e esta, não da _insufficiencia_

dos braços em relação a uma _procura crescente_, mas da sua _diminuição_

por effeito da emigração, que se inculca, talvez por obscuridade de

redacção, como vulgar em todo o reino. A discussão terá, pois, por fim

averiguar quaes os meios de evitar a emigração do homem de trabalho para

fóra do reino, e de fazer com que a torrente d'ella se derive das

provincias mais populosas para as menos populosas, sobretudo para as

solidões do Alemtejo.

Estou plenamente de accordo em que se empreguem todos os meios razoaveis

e liberaes, para promover um movimento da população do norte para as

provincias do sul, especialmente para o Alemtejo, e para reter na patria

as classes trabalhadoras dos districtos insulares. Mas o que não posso é

sentir essa repugnancia absoluta, esses terrores profundos, illimitados,

da emigração, e o desejo de obstar a ella só para obter salarios baratos

para a agricultura. A emigração é um phenomeno complexo nas suas causas,

condições e resultados. Emigram uns por calculos e previsões, ou

proprios ou dos que os dirigem, pela esperança, bem ou mal fundada, de

voltarem algum dia ricos ou abastados á aldeia natal; emigram, não

porque não podessem viver, trabalhando, vida modesta e tranquilla entre

os seus, mas porque aspiram a mais elevada fortuna. Outros ha que

emigram violentados, ou antes que não emigram; que são expulsos pela

miseria; que não calculam, nem esperam, nem deliberam; que tão sómente

se resignam. Entre estas duas situações ha, a meu vêr, um abysmo:

confundil-as quando se tentasse annullar a ultima em beneficio das

victimas, e não em proveito d'estes ou d'aquelles, conduziria

provavelmente a grandes desacertos; confundil-as, porém, para as

destruir com a mira de tirar d'ahi vantagens para certa classe ou certa

industria, parece-me ainda peior. Faça-se tudo para supprimir a

emigração forçada; mas evite-se tambem tudo o que possa coagir, directa

ou indirectamente, aquelle que sente em si ambições e audacia a sopitar

os impulsos da propria actividade; evite-se que a sociedade ponha por

qualquer modo o seu veto (sem aliás abdicar do seu direito de inspecção)

a que a affeição paterna ou a previdencia tutelar busquem, dentro ou

fóra do reino, tornar melhor a sorte futura d'aquelle que a natureza ou

a lei confiou á sua guarda. Nas questões de interesse privado, nos

negocios da vida civil, dou incomparavelmente mais pelos resultados da

sagacidade e do livre arbitrio dos individuos, do que pelos da

intervenção do Estado.

Fallo assim, porque vejo do preambulo do questionario que tambem se quer

obviar aos intuitos dos que aos lucros modestos na patria preferem as

riquezas que lhes promette a America, o que, segundo se affirma, _raras

vezes se realiza_. É isto exacto? Parece-me que os factos affirmam

claramente o contrario. Não possuo aqui livros, documentos officiaes, ou

informações particularisadas sobre a situação economica dos nossos

compatricios residentes no Brazil, em que me possa estribar; mas tenho

ouvido calcular a pessoas que reputo competentes o valor medio annual

dos ingressos monetarios, que nos traz o refluxo da emigração portugueza

na America, em mais de 3:000 contos de réis. Não sei se é verdade: o que

sei é uma coisa, que, se não pertence á estatistica economica, pertence

á estatistica moral, e que não é menos eloquente que os algarismos; sei

um facto de suprema notoriedade. A denominação de _brazileiro_ adquiriu

para nós uma significação singular e desconhecida para o resto do mundo.

Em Portugal, a primeira idéa, talvez, que suscita este vocabulo é a de

um individuo, cujos caracteristicos principaes e quasi exclusivos são

viver com maior ou menor largueza e não ter nascido no Brazil; ser um

homem que saiu de Portugal na puericia ou na mocidade mais ou menos

pobre, e que, annos depois, voltou mais ou menos rico. Esta noção vulgar

da palavra _brazileiro_ não surgiu sem motivo entre o povo. É que

milhares e milhares de factos lh'a gravaram no espirito. O _mineiro_ do

seculo passado converteu-se no _brazileiro_ dos nossos dias. São a

primeira e a ultima palavra da historia de uma evolução politica e

economica altamente instructivas, que poderia acaso resumir-se no

seguinte asserto: «_a nossa melhor colonia é o Brazil, depois que deixou

de ser colonia nossa_.»

Applaudo, meu amigo, o questionario, porque os estudos que promove podem

ser grandemente proficuos ao melhoramento de muitas condições sociaes. O

que não posso applaudir são as suas causas finaes e o modo como é

apresentado. Acho inconvenientissimo confundir-se ahi a emigração

espontanea com a emigração forçada, e infelicissima a idéa de combater

egualmente uma e outra, afim de obter salarios baratos para a

agricultura. Por via de regra, o emigrado espontaneo, aquelle que a

miseria não atira cegamente, brutalmente, para fóra da patria, sabe o

que quer; sabe como vai e para onde vai. Conta com o parente, com o

amigo da familia, com o protector que lhe hão de dar as recommendações

que leva. É pobre, porém não desvalido. Impõem-lhe os seus, ou impõe

elle a si proprio annos e annos de laboriosidade, de sacrificios, de

abstenções; mas, além d'esses annos, nos horizontes da vida, ergue-se

uma luz, uma esperança que o alumia e fortifica. Esta luz e esta

esperança ensinam-lhe a norma do seu proceder, e o seu procedimento

redundará, não direi em toda a especie de proveitos, mas decerto em

proveito economico d'elle e da terra que o viu nascer, e pela qual lhe

vai redobrar o affecto o grande incentivo da ausencia.

V. ex.^a sabe perfeitamente quaes são as applicações possiveis do

producto liquido do trabalho humano. Ou se destina a satisfazer as

necessidades, os commodos e os appetites do productor, ou a accumular-se

e a converter-se em capital reproductivo, ou, finalmente, a dividir-se

entre estas duas applicações. Ambas ellas influem na riqueza publica,

mas com diverso gráu de intensidade. A satisfação das nossas precisões

ou da nossa propensão para gosar tende a manter prosperas centenas de

industrias; mas a accumulacão do capital, quando este chega a

converter-se em instrumento de producção, tem uma influencia, sem

comparação, mais energica no progresso da riqueza social. São verdades

triviaes estas: fôra inutil insistir n'ellas. Qual é, porém, o teor da

vida, em geral, do portuguez do Brazil, do futuro brazileiro de

Portugal? É o forcejar incessante, pertinaz, por accumular capitaes,

reduzindo ao estrictamente indispensavel a satisfação das suas

necessidades. Dedica á prosperidade da industria, da agricultura, ou do

commercio d'aquellas regiões a menor parte que pode do fructo do seu

trabalho. A sua idéa constante, inflexivel, tenaz, é voltar rico, ou

pelo menos abastado, á patria. E volta. Se, cançado de sacrificios e

trabalho, quer gosar, é á industria, á cultura e ao commercio do seu

paiz que atira ás mãos cheias o oiro que ajunctou. Se a sêde do ganho

não se extinguiu n'elle, esse oiro converter-se-ha em capital

productivo. E nós, nós que prégamos aos operarios a abstenção, a

poupança das suas tão modestas sobras para as accumularem nas caixas

economicas, havemos de combater a emigração voluntaria para o Brazil,

emigração que representa uma caixa economica opulentissima, a qual, por

mais que se fizesse, todas as outras junctas nunca poderiam egualar?

No preambulo do questionario allude-se ás esperanças burladas de muitos

emigrados voluntarios, ás illusões desfeitas, o que exaggeradamente se

presuppõe ser a regra geral. Decerto a America illude, e até devora,

muitos d'esses que acreditam ir encontrar n'ella prospero futuro. Mas

então, porque solicitar, pelo favor directo de providencias especiaes, o

homem de trabalho a buscar a fortuna na mineração dos metaes, na marinha

mercante, ou na exploração das nossas colonias de Africa? As minas, o

oceano e a Africa tambem illudem, tambem devoram. Em vez de solicitar,

repelli. Abrireis novos mananciaes de trabalho barato para a agricultura

nacional.

Disse a v. ex.^a que não applaudo as causas finaes do questionario. Digo

mais: deploro-as. São ellas que dão origem á confusão do acto espontaneo

com o forçado, com a emigração que provém da maior das tyrannias--a

tyrannia da miseria. Na emigração voluntaria ha um uso da plenitude da

nossa liberdade, e é por isso que a responsabilidade da sorte futura do

individuo recae inteira sobre elle proprio. O progresso social parece-me

consistir, sobretudo, na ampliação da responsabilidade individual

derivando da liberdade. O absolutismo nada mais é do que a tutela

publica na sua manifestação extrema. Na emigração forçada é que seria

injusto e cruel attribuir ao emigrado, que abandona o seu paiz sem

norte, sem rumo certo, e muitas vezes sem a minima esperança, a

responsabilidade de um facto que em rigor não é seu. A sociedade tem de

acceital-a. Essa secreção de desgraçados, que o corpo politico súa de

si, é anormal. Ha, aqui ou alli, na estructura d'elle um vicio de

conformação ou um estado pathologico que produz o phenomeno. A miseria

de um ou de outro individuo pode derivar de culpa propria: a que expulsa

uma parte notavel da população de um paiz, onde esta, considerada

collectivamente, está longe de superabundar, é sempre resultado de um

defeito ou de uma perturbação nos orgãos da sociedade.

Affligir-me-hia profundamente que o auctor ou auctores do questionario e

do seu preambulo imaginassem que eu duvidava, n'um só ápice, da pureza

das suas intenções, da sua humanidade, da sua justiça, do seu

patriotismo. O que simplesmente me parece é que o problema se poz mal.

Suppõe-se a agricultura do sul, sobretudo a do Alemtejo, collocada em

difficuldades taes que ameaçam a sua existencia. Suppõe-se que estas

difficuldades extremas provêm de uma causa unica--a elevação dos

salarios agricolas--e que essa elevação nasce exclusivamente da falta de

braços. Em tal caso, a resposta ao _quid faciendum_ é simples.

Promova-se o abaixamento dos salarios pela multiplicidade dos braços, e

multipliquem-se os braços combatendo indistinctamente toda a especie de

emigração: a emigração moral e economicamente nociva, e a emigração

socialmente legitima e economicamente boa. A questão reduz-se a achar os

meios de inventar e de reter dentro do paiz, por todos os modos que se

reputem licitos, trabalhadores ruraes.

Supponhamos, porém, que os debates, a que o assumpto vai dar vasto

campo, tornam patente que nem os embaraços da agricultura são tão graves

como se pintam, nem essas difficuldades, maiores ou menores, nascem

exclusivamente, e nem sequer principalmente, da elevação dos salarios,

nem esta deriva da diminuição de braços.

Pergunto: em tal hypothese, que não é mais gratuita do que a do

preambulo; n'esta hypothese, digo, deixar-se-ha de attender á dolorosa

questão da emigração pela miseria? Não! O dever commum é, não direi

resolvel-a, porque não sei se atinaremos com os especificos, mas envidar

os maximos esforços para obstar ao mal.

II

*Val-de-Lobos, janeiro de 1874.*

Amigo e senhor.--Se, como se diz no preambulo do questionario, a

elevação dos salarios, que se reputa effeito exclusivo da falta de

braços produzida pela emigração, ameaça já a existencia da agricultura

do Alemtejo, do nosso granel de cereaes colmiferos, e colloca os

cultivadores, por todo o reino, em circumstancias tão difficeis que os

rendeiros vão abandonando as terras, é claro que o mal ganhou

intensidade e extensão assustadoras, e o paiz, essencialmente agricola,

caminha rapido para profunda decadencia. Supposta sem mais exame esta

situação, haverá desassombro bastante para não ultrapassar os meios

indirectos de obstar ao mal? Não occorrerá facilmente a idéa da

compulsão, de restricções e impedimentos á liberdade? O fatal mote

_salus populi_ não virá ainda uma vez ser o pretexto de coacções mais ou

menos deploraveis?

Felizmente o que se apresenta como certo não passa por ora de hypothese,

hypothese quanto ao facto e hypothese quanto á causa. A meu ver, o

primeiro quesito do questionario deveria consistir em averiguar até que

ponto é real a existencia da enfermidade, e a sua verdadeira correlação

com o motivo a que se attribue. Como addição a esta especie de quesito

preliminar, quizera eu, porém, que se inserisse outro. Suppondo

conhecida a media dos salarios ruraes, o que não sei se é facil,

cumpriria examinar se essa media será sufficiente para o proletario

occorrer ás mais urgentes precisões da vida--ao alimento, ao vestuario,

e á habitação da familia--ainda admittindo que o trabalho d'esta possa

augmentar os recursos domesticos. Se achassemos que a retribuição do

assalariado, embora assim accrescentada, não attingia o alvo, é evidente

que ás difficuldades, em que se provasse laborar a agricultura, haviam

de buscar-se remedios diversos de qualquer reducção artificial de

salarios. A sociedade não pode honestamente sacrificar uma classe a

outra classe, e sobretudo sacrificar o pobre, falto muitas vezes do

necessario, ao comparativamente abastado, a quem, embora em situação

mais ou menos precaria, será raro que falte inteiramente o superfluo.

Achamo-nos assim, talvez sem o pensarmos, no terreno das discussões

ardentes que perturbam profundamente as sociedades modernas.

Encontramo-nos face a face com o socialismo. Era inevitavel. Desde que

se affirma que existe n'este ou n'aquelle ponto, n'esta ou n'aquella

industria, uma desproporção, para mais ou para menos, entre o preço do

trabalho e o valor do producto, affirma-se, no estado economico actual,

uma desharmonia, uma lucta grave, entre o obreiro e o industrial. Buscar

temperamentos á collisão é entrar forpadamente no campo d'essas

discussões, de ordinario tão apaixonadas. Não o reputo grande mal no

caso presente. Pode ser, até, um bem, se tivermos força para subjugar o

que houver excessivo no afferro ao proprio interesse; se debatermos com

placidez, com a luz da imparcialidade e da justiça, que uma consciencia

recta e sincera não deixará de ministrar-nos, o assumpto complexo da

producção agricola e do trabalho rural, buscando ahi remedio á emigração

moralmente forçada.

Nas declamações mais gementes, mais irritadas, contra o socialismo,

parece-me que ha por vezes o que quer que seja do carpir da mulher que

se receia da suppressão de alguns enfeites, ou do resmoninhar colerico

do antigo frade, ao fallar-lhe o guardião em reducção da pitança para

avolumar o caldo da portaria. O socialismo é um perigo serio; mas o

homem deve haver-se perante os perigos com cordura e hombridade: deve

olhar para elles fito, em vez de se pôr a ensartar lastimas ou a

vociferar improperios. Onde e quando o socialismo, com a taboleta de

communismo, de internacionalismo, ou outro qualquer letreiro, recorrer á

violencia, responda-lhe a violencia. São negocios que tem de resolver

entre si o petroleo e a metralha. Os incendios não se discutem:

apagam-se. Mas onde e quando o socialismo nos aggredir com as armas da

razão, ouçamol-o. Se a razão estiver da sua parte, de-mos-lh'a.

Demos-lh'a porém, não com uma confissão esteril, mas com actos

efficazes. Assim, parece me que elle ha-de retrogradar, enfraquecer-se,

desapparecer, como desappareceram as cruzadas ou as inquisições; como

desapparecem todos os desvarios epidemicos de que adoece de seculos a

seculos o espirito humano. Aliás, se, de accordo com o douctor Pangloss,

assentarmos em que somos chegados á melhor das sociedades possiveis, não

me atrevo a perscrutar a sorte que a Providencia prepara ás velhas

nações da Europa.

Meu amigo, no amago dos grandes extravios das multidões, de que a

historia nos subministra terriveis exemplos, ha quasi sempre uma idéa

justa que as paixões viciaram. As resistencias, porém, a esses extravios

não escapam de mácula identica. No ardor do combate, a idéa justa

obscurece-se, condemna-se, involta na proscripção das doutrinas absurdas

e das applicações temerarias. É assim que nenhuma das grandes luctas

entre as orthodoxias e heterodoxias deixa de nos apresentar esse triste

espectaculo. No socialismo ha duas cousas bem distinctas: as

affirmativas e as negações. As mais das vezes as suas doutrinas

constituintes, os seus systemas de reforma social, afiguram-se-me

abstrusos, infundados, inexequiveis, e não raro iniquos; e as apologias

das quinze ou vinte escholas em que elle se divide, e muitas vezes se

contradiz, frequentemente faltas de condescendencia para com o senso

_commum_, o que me parece pouco democratico. Dos seus queixumes contra a

sociedade actual é que me seria difficil dizer outro tanto. É ahi que me

persuado está a sua idéa justa. No meio das exaggerações, das

amplificações, de certo lyrismo tetrico, a critica socialista tem ás

vezes razão de sobra. É d'isto que me temo. Deixem ao socialismo a

legitimidade moral que lhe provém da existencia de certos factos, e

queixem-se depois do resultado definitivo da contenda.

As circumstancias difficeis em que se diz achar-se a agricultura

merecerão duvidoso credito aos desinteressados, em quanto por um

conjuncto de provas seguras não se mostrar a existencia do facto. As

affirmações valerão pouco, se indicios, que todos podem apreciar, lhes

forem adversos. Augmenta gradual e quasi constantemente a exportação dos

productos agricolas do paiz; a população rural cresce com mais rapidez

do que nunca; desbravam-se todos os annos novos terrenos; as aldeias

dilatam-se; as habitações dos agricultores revestem cada vez mais o

aspecto de aceio e conforto; o transito e o transporte pelos caminhos de

ferro e o movimento dos nossos portos elevam-se de anno para anno de

modo inesperado. Todas as apparencias, em summa, convergem para nos

persuadirem que estamos mais ricos do que eramos ha quarenta ou

cincoenta annos. Se essa riqueza é real, como explical-a, na hypothese

de uma decadencia profunda na principal industria do reino? Parece

altamente improvavel. Ao menos cumpre esperar pelas provas claras e

precisas d'essa contradicção economica.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 04 · 第 5 / 14 段